O último ano chegou ao fim, veio o baile de formatura, o temido e desejado vestibular e eu entrei para a faculdade de odontologia da PUC. Caio também entrou em medicina, em Ribeirão Preto.
Eu e Caio ficamos um longo tempo sem nos vermos após o baile de formatura. E esta teria sido uma ótima “deixa” para esquecer tudo o que vivemos no ano anterior (ou não vivemos). Mas como aquele era, para mim, um momento de muitas novidades com novos amigos, farras, viagens e churrascos, aquela paixão toda pelo Lucas acabou se esvaziando de sentido. A partir daquele momento, eu também estava na universidade, também era uma “descolada” e tinhas projetos de vida (beijar muito na boca, beber mais ainda etc, etc, etc) e ele já não era mais tão atraente assim. E, claro, a vontade de saber sobre o Caio, morando em outra cidade, também me inundava. Eu tinha ataques virtuais e histéricos de ciúme pensando nele com outra mulher. Sempre fui apaixonada por aquilo que não está ao meu alcance. E Caio não estava, estava longe, isso exigia muito da minha imaginação.
Então, é claro que eu e Lucas terminamos. Estávamos em outra conexão e, de repente, tudo perdeu o tesão inicial. “Acabou Lucas, é melhor darmos um tempo”. Eu gostava dele. Gostava muito. Ele gostava de mim. Mas pra nenhum dos dois era algo visceral, só estava morno. E, acreditem, eu até gosto de coisas mornas. Aliás, sempre preferi coisas mornas, que não me obrigam a aquecer ou esfria-las, mas naquele momento eu pensava tanto no Caio, que queria me queimar.
Tirei forças não sei de onde e, obviamente, fui procurar o Caio. Dei uma ligada, como quem não quer nada, na casa dos pais dele e consegui o telefone da república onde ele estava morando, em Ribeirão Preto. Ah, mas que arrependimento deste dia... Liguei e quis morrer! Caio estava naquele momento “insuportável” do calouro de medicina, que se acha a última bolacha do pacote, porque acabou de ganhar a chave da porta que o leva ao lugar onde se transformam pessoas em Deuses.
_Oi Caio, conta tudo! Como estão as coisas aí? A faculdade, a cidade, novos amigos... Como você está? – eu estava afoita, queria saber tudo, queria estar lá para ver tudo.
_Ei Clara! Estou ótimo, não poderia estar melhor. Encontrei minha vida aqui, sabia?! – Sim, claro, essa era a pior resposta que ele poderia me dar. Um soco no estômago ouvir aquela voz maravilhosa (depois tenho que comentar da voz dele) me dizer isso. Como eu tinha ódio dessa certeza em relação a tudo que ele tinha. Principalmente esta certeza em relação à medicina. Esta paixão inveterada por esta droga de medicina! Que antipatia! Por que ele simplesmente não podia me dizer que sentia minha falta? Que pensava em mim de vez em quando, só pra variar?
_E você Clarinha, está gostando da odonto? Decidiu mesmo sua vida? – ele me lembrar que eu não tinha metade da determinação dele me enfureceu ainda mais. E não sem deixar de dar uma cutucada com uma frase bem dúbia sobre eu ter “decidido” minha vida.
_Bem, estou gostando sim, Caio. Acho que fiz a escolha certa. – falei com aquela falta de convicção que me é peculiar. Ah, mas porque eu não respondi que também tinha encontrado a minha vida na odonto? Porque não respondi que tinha terminado com Lucas, que pensava nele sempre? Ora, por quê! Porque eu sou uma meia-mulher, ora bolas, e Caio sabe disso!
Bom, vou ter que fazer um adendo aqui. Eu sempre fui uma boa aluna, daquelas bem estudiosas (mas só na época de provas e trabalhos, não uma cdf convicta como Caio), mas antes de tudo, sou uma apaixonada por artes e criatividade. Adoro escrever, imaginar, criar, inventar. Tenho uma boa queda por artes plásticas, inclusive. Mas sempre fui fissurada pelas profissões da área da saúde e tinha certeza de que era o que eu queria pra minha vida. A odontologia era paixão antiga. Me imaginava dentista desde pequena. Mas aí, na época do colégio, deste fatídico ultimo ano que só trouxe problemas à minha vida, eis que me aparece uma psicóloga idiota para realizar com os alunos o famoso teste vocacional, como se aquilo de fato ajudasse alguém a se encontrar e não a se confundir mais. E a mulher, no fim das contas, concluiu que eu tinha mais jeito para publicidade, comunicação social, ou algo do tipo, devido à minha fala espontânea, criatividade, perspicácia (perspicaz, moça? Eu? – me perguntava impressionada) e que eu deveria pensar melhor sobre a odontologia. Sem querer discutir muito com ela e por sugestão do meu pai, que também ficou confuso com a minha confusão, dei uma pesquisada no mercado. E, putz, encontrei exatamente o que eu não queria para mim. Salários fracos, agências saturadas e muito pouco trabalho de criação para recém-formados. Tudo bem que esta coisa de criação, marketing etc tem muito a ver comigo, mesmo, mas largar meus projetos iniciais perfeitamente planejados e cair numa nova onda? Ah não, não precisava daquilo naquela hora! Não naquele ano, não naquele contexto da minha história.
_Mas dentistas recém-formados também não estão na crista da onda, Clara, você tem que trabalhar em algo que realmente te faça sentir-se plena – ela tentou me convencer de alguma coisa.
Plena? Que plenitude o escambáu, sua lunática! Falar em plenitude comigo, Clara, a garota-metade, a mais indecisa dos mortais!
Só que de tanto ela insistir, o que era uma brincadeirinha de teste acabou pirando minha cabeça! Meu cérebro em desenvolvimento, com apenas 17 aninhos e hormônios explodindo, que geneticamente já era dividido (e não me refiro aos dois hemisférios cerebrais) quase fundiu! Como assim? Pára tudo! Um consultório lindo, pacientes, tratamentos dentários, vários processos minuciosos não faziam mais o menor sentido na minha cabeça! Só conseguia pensar em propagandas, jornais e revistas. Puxa, porque tudo na minha vida tinha que ser tão confuso, meu Deus? Passei por um período tenso e Caio acompanhou isso tudo muito de perto, me ajudando bastante a tentar entender o que eu queria e se eu precisava ou não de mudanças na minha vida.
Acabei escolhendo a odontologia, ou não tive coragem suficiente para escolher a publicidade na época, sei lá, embora também tenha prestado este curso numa faculdade menor (só para descargo de consciência). Adorei o curso. Amo a odontologia. Sou uma excelente dentista, apesar de não ter a vida que imaginava. Passo alguns momentos de raiva, decepção e sempre sinto que faltam zeros no meu saldo. Mas sou feliz, na maior parte do tempo. Claro que iria mentir se dissesse que às vezes não bate uma vontade de largar tudo e cair de cara em algo bem diferente, tipo... sei lá, uma agência de publicidade! Mas, juro, gosto da escolha que fiz! Ao menos consegui escolher e, se tratando de mim, isso já é uma grande conquista. Nessas horas em que bate essa vontade estranha e eu começo meus devaneios malucos, me pego numa agência bem moderna, num bairro chique na zona sul, com uma calça jeans super transada, uma blusa de gola canoa caída no ombro e havaianas nos pés, toda hippie-chique, desenhando e criando coisas fantásticas para empresas que me pagam rios de dinheiro pelas minhas idéias! Calma, não precisa parar a leitura! Não sou tão idiota assim a ponto de pensar que a vida de um publicitário é essa maravilha toda e que é fácil criar e desenvolver idéias. Lógico que não! Mas é que é difícil imaginar que o que poderia ter acontecido é, assim, sei lá, pior do que a realidade. Ninguém no mundo inteiro pode se imaginar mais pobre, mais feio, mais gordo, mais frustrado ou mais infeliz se não tivesse escolhido o caminho que escolheu, por mais bem resolvido que seja. Isso é natural... querer mais, querer outras opções, querer outra vida, só de vez em quando. Trocar as roupas brancas (sem graça pacas!) e o instrumental pelo glamour... só de vez em quando, só na minha imaginação!
Portanto, imaginar que estar com Caio faria minha vida melhor do que estar com Lucas ou estar sozinha sempre me aterrorizou... Mas quando desliguei o telefone naquele dia, e me lembro exatamente de cada detalhe daquela conversa fria e cheia de ironia, eu me senti a pior das mortais. A sensação de que eu não o tinha porque anteriormente escolhi o Lucas, ou simplesmente não escolhi estar com ele, minava minhas forças. Eu estaria mais feliz? Caio estaria melhor longe de mim? Essa era uma dúvida que eu jamais fui capaz de resolver.
Parei de lembrar e de pensar. Parei de viajar em tantos momentos velhos, do passado. Coloquei o pé no acelerador e rumei para casa e para o dia de hoje, dez anos depois daquilo tudo. Aumentei o volume do som e tocava uma música da Zélia Duncan na rádio que dizia algo do tipo: “Escolhas, mas que droga, delas é feita a vida das pessoas (...)”. Pois é, Zélia, também concordo com você, mas que droga!
domingo, 6 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
capítulo 1 - parte 1
São 14:30h de uma sexta-feira do fim de fevereiro. Enquanto o resto da ressaca pelos excessos da noite da véspera insistia em incomodar minha cabeça, eu tranquei o consultório me lamentando pela falta de organização e indecisão! Mais uma vez, eu não consigo me decidir! Era véspera de carnaval e até aquele momento, eu não sabia o que fazer no feriado que a maioria das pessoas, no Brasil, aguarda o ano todo. Entrei no carro e não pude deixar de me perguntar o que eu faria se estivesse namorando. Preciso comentar que eu acabara de terminar um namoro super enrolado com o Lucas. Foram anos. Cinco, seis, sete, sei lá, foram longos anos, mas que pareceram meses... estranho dizer isso, mas é assim que consigo definir este tempo juntos. Vários anos da minha vida tentando fazer aquilo dar certo e ao mesmo tempo pensando como seria se não desse. E de tanto pensar, o tempo passou rápido demais e tudo dançou! Tá bom, vai, meu coração sempre foi de outro cara mesmo. Mas este outro cara é tão improvável para mim! Ou será que é improvável simplesmente porque somos tão diferentes um do outro? E diferenças me assustam? Ou eu acho que meu coração é dele só porque ele é improvável? Ai que raiva, nem nos devaneios sou capaz de me decidir...
Saí em direção a minha casa, mas acabei desviando o caminho. Isso é típico do Lucas, andar sem rumo... Depois de tantos anos juntos, algumas manias pegaram. Ah, o Lucas! Imagina o cara mais popular, mais divertido e engraçado do planeta? Esse é o Lucas! Meu primeiro e único namorado sério. Uma seriedade discutível, confesso. Dividi com ele todos os maiores sonhos da minha vida. Achei que me casaria com ele. Mas não sei se esta foi uma boa idéia, porque ele não quis dividir a vida dele comigo. Acho que ele tem aversão a compromissos de longo prazo. Quando se fala em casamento, o prazo de validade expira. Lucas não é exatamente um gato e também não chega a ser um “galinha”, mas passa perto disso porque é muito, muito charmoso, simpático e encantadoramente sexy. E, por este motivo óbvio, nunca o vi sem estar cercado de mulheres. “O que ele tem?” - eu me pergunto. Talvez seja mel! Esse para mim é seu grande defeito. Ele tem fãs demais, amigas demais e um desenvolvimento emocional de menos. Racionalidade, teu nome é Lucas! Não, sério: Lucas, o racional. Isso dava uma tese de mestrado. A potencialidade emocional deste cara beira a estupidez e atitudes românticas ou sensíveis da parte dele são parentes tão próximos como aquele ancestral indígena que mora no Xingu. Mas, não há como negar, Lucas é um cara legal. Legal demais, pra falar verdade.
Fui passando pelas ruas do centro, pensando, pensando e acabei passando em frente ao colégio onde estudei desde sempre e onde vivi os melhores anos da minha vida. Eu e Lucas começamos a namorar quando eu ainda estava no colégio, naquele colégio ali do outro lado da rua. E era o máximo namorar um cara mais velho! Super bacana namorar um cara da faculdade quando você ainda está no colégio, né? Mas logo no primeiro dia de aula do último ano, apareceu o Caio. Recém-chegado de um intercâmbio no Canadá, todo compenetrado, na fila dos candidatos à temida medicina. Metido, eu pensei. Logo de cara, eu o odiei. Claro, minhas primeiras impressões são sempre erradas. Dizem que mulher tem sexto sentido? Pois o meu veio com defeito de fábrica, meu bem! Quando olhei para aquele menino alto, másculo, cara de militar e cdf, muito calado e sério (contrastando horrores com minha língua metralhadora) já pré-defini o rapaz: um mané! Que nada, ele era simplesmente tímido. Algo impensável para alguém como eu que chegou ao mundo já falando com o obstetra ao invés de chorar.
Caio: tímido, sensível, doce de dar cárie. Pouco mais de uma semana após nos conhecermos, ele chegou atrasado a uma aula de plantão e se sentou ao meu lado, por pura falta de oportunidade de se sentar em outro lugar, e puxei papo com ele na maior cara de pau (plantão de história, eca, odiava!). Apesar de me dar uma olhada com aquela cara -“minha filha, isso é um plantão pré-vestibular, se toca, se quiser conversar, cai fora!” - ele me respondia a tudo com muita cortesia e educação e, às vezes, até esboçava uma dose de simpatia. Pensei: “além de não ser metido, também não é um mané”. E comecei a sentir algo que não sei dizer o que era, mas me irritava! Ai meu Deus, foi aí que me enrolei, tudo por culpa do plantão de história!
Apaixonei-me pelo Caio em questão de dias. De mané, ele virou príncipe. E príncipe não por ser lindo, sensível ou educado, mas simplesmente porque me parecia inatingível. Ele era alguém diferente da minha realidade, ou melhor, era muito diferente dos caras por quem eu costumava me interessar. Confesso, sempre preferi os populares (e meio malandros!) como Lucas. Mas, aí, começamos a nos falar sempre, fizemos uma boa turma de amigos (que nessa época da vida é mais importante do que respirar), saíamos em todos os fins de semana, dividimos juntos o medo do vestibular e a preguiça das aulas de sábado e viramos mais que colegas de classe. E, claro, dei o maior mole do mundo pra ele. Adivinhem: acabei traindo o Lucas. E, acreditem, o que eu achava que era namorinho de escola, se transformou no maior problema que poderia existir para o resto da minha vida, porque o pior aconteceu: Ele também se apaixonou por mim! Nossa relação que poderia ter sido apenas superficial, começou a provocar rugas profundas demais, que doem até hoje.
Caio, sensível que só ele, logo me cobrou uma posição: “Não quero ser o outro, Clara”. E como seria insuportável demais para mim, decidir entre ele e Lucas, fui apenas tirando meu time de campo, lentamente, fugindo dele e do que tínhamos juntos, como sempre fiz em todas as dificuldades. E nosso relacionamento acabou (pela primeira vez) ali, no meio do último ano da escola. No meio de um ano muito confuso para nós dois. Essa falta de decisão fez com que um ódio fosse plantado no coração desse cara e, de repente, tudo mudou. Ele jamais se esqueceu disso. E também nunca me deixou esquecer.
Continuei a relação com Lucas por algum tempo. Sempre pensando se poderia estar mais feliz com Caio. E esse nunca me deu uma oportunidade de recaída. Era um cara muito duro, apesar de ser tão doce e sensível. Sentiu-se trocado pelo meu namorado “descolado”, quando na verdade eu nem sei se foi exatamente uma escolha. Ana, minha melhor amiga, costuma dizer que sim, foi uma escolha. “Clara, você escolheu não escolher, simples assim. Não assumiu nada pra nenhum dos dois. As coisas continuam como antes e, admita, essa é uma escolha”. Não gosto de pensar que sou assim tão passiva, mas cá entre nós, sei que esta é a verdade. Ana é sempre assim, ácida e direta, mas muito verdadeira.
Saí em direção a minha casa, mas acabei desviando o caminho. Isso é típico do Lucas, andar sem rumo... Depois de tantos anos juntos, algumas manias pegaram. Ah, o Lucas! Imagina o cara mais popular, mais divertido e engraçado do planeta? Esse é o Lucas! Meu primeiro e único namorado sério. Uma seriedade discutível, confesso. Dividi com ele todos os maiores sonhos da minha vida. Achei que me casaria com ele. Mas não sei se esta foi uma boa idéia, porque ele não quis dividir a vida dele comigo. Acho que ele tem aversão a compromissos de longo prazo. Quando se fala em casamento, o prazo de validade expira. Lucas não é exatamente um gato e também não chega a ser um “galinha”, mas passa perto disso porque é muito, muito charmoso, simpático e encantadoramente sexy. E, por este motivo óbvio, nunca o vi sem estar cercado de mulheres. “O que ele tem?” - eu me pergunto. Talvez seja mel! Esse para mim é seu grande defeito. Ele tem fãs demais, amigas demais e um desenvolvimento emocional de menos. Racionalidade, teu nome é Lucas! Não, sério: Lucas, o racional. Isso dava uma tese de mestrado. A potencialidade emocional deste cara beira a estupidez e atitudes românticas ou sensíveis da parte dele são parentes tão próximos como aquele ancestral indígena que mora no Xingu. Mas, não há como negar, Lucas é um cara legal. Legal demais, pra falar verdade.
Fui passando pelas ruas do centro, pensando, pensando e acabei passando em frente ao colégio onde estudei desde sempre e onde vivi os melhores anos da minha vida. Eu e Lucas começamos a namorar quando eu ainda estava no colégio, naquele colégio ali do outro lado da rua. E era o máximo namorar um cara mais velho! Super bacana namorar um cara da faculdade quando você ainda está no colégio, né? Mas logo no primeiro dia de aula do último ano, apareceu o Caio. Recém-chegado de um intercâmbio no Canadá, todo compenetrado, na fila dos candidatos à temida medicina. Metido, eu pensei. Logo de cara, eu o odiei. Claro, minhas primeiras impressões são sempre erradas. Dizem que mulher tem sexto sentido? Pois o meu veio com defeito de fábrica, meu bem! Quando olhei para aquele menino alto, másculo, cara de militar e cdf, muito calado e sério (contrastando horrores com minha língua metralhadora) já pré-defini o rapaz: um mané! Que nada, ele era simplesmente tímido. Algo impensável para alguém como eu que chegou ao mundo já falando com o obstetra ao invés de chorar.
Caio: tímido, sensível, doce de dar cárie. Pouco mais de uma semana após nos conhecermos, ele chegou atrasado a uma aula de plantão e se sentou ao meu lado, por pura falta de oportunidade de se sentar em outro lugar, e puxei papo com ele na maior cara de pau (plantão de história, eca, odiava!). Apesar de me dar uma olhada com aquela cara -“minha filha, isso é um plantão pré-vestibular, se toca, se quiser conversar, cai fora!” - ele me respondia a tudo com muita cortesia e educação e, às vezes, até esboçava uma dose de simpatia. Pensei: “além de não ser metido, também não é um mané”. E comecei a sentir algo que não sei dizer o que era, mas me irritava! Ai meu Deus, foi aí que me enrolei, tudo por culpa do plantão de história!
Apaixonei-me pelo Caio em questão de dias. De mané, ele virou príncipe. E príncipe não por ser lindo, sensível ou educado, mas simplesmente porque me parecia inatingível. Ele era alguém diferente da minha realidade, ou melhor, era muito diferente dos caras por quem eu costumava me interessar. Confesso, sempre preferi os populares (e meio malandros!) como Lucas. Mas, aí, começamos a nos falar sempre, fizemos uma boa turma de amigos (que nessa época da vida é mais importante do que respirar), saíamos em todos os fins de semana, dividimos juntos o medo do vestibular e a preguiça das aulas de sábado e viramos mais que colegas de classe. E, claro, dei o maior mole do mundo pra ele. Adivinhem: acabei traindo o Lucas. E, acreditem, o que eu achava que era namorinho de escola, se transformou no maior problema que poderia existir para o resto da minha vida, porque o pior aconteceu: Ele também se apaixonou por mim! Nossa relação que poderia ter sido apenas superficial, começou a provocar rugas profundas demais, que doem até hoje.
Caio, sensível que só ele, logo me cobrou uma posição: “Não quero ser o outro, Clara”. E como seria insuportável demais para mim, decidir entre ele e Lucas, fui apenas tirando meu time de campo, lentamente, fugindo dele e do que tínhamos juntos, como sempre fiz em todas as dificuldades. E nosso relacionamento acabou (pela primeira vez) ali, no meio do último ano da escola. No meio de um ano muito confuso para nós dois. Essa falta de decisão fez com que um ódio fosse plantado no coração desse cara e, de repente, tudo mudou. Ele jamais se esqueceu disso. E também nunca me deixou esquecer.
Continuei a relação com Lucas por algum tempo. Sempre pensando se poderia estar mais feliz com Caio. E esse nunca me deu uma oportunidade de recaída. Era um cara muito duro, apesar de ser tão doce e sensível. Sentiu-se trocado pelo meu namorado “descolado”, quando na verdade eu nem sei se foi exatamente uma escolha. Ana, minha melhor amiga, costuma dizer que sim, foi uma escolha. “Clara, você escolheu não escolher, simples assim. Não assumiu nada pra nenhum dos dois. As coisas continuam como antes e, admita, essa é uma escolha”. Não gosto de pensar que sou assim tão passiva, mas cá entre nós, sei que esta é a verdade. Ana é sempre assim, ácida e direta, mas muito verdadeira.
Assinar:
Postagens (Atom)