terça-feira, 19 de outubro de 2010

Capítulo 14 - parte 1

Ainda bem que David acordou cedo na segunda-feira, com animação total para um programa bem carnavalesco. Este foi meu primeiro pensamento quando ouvi a voz dele descendo as escadas. Porque, se dependesse de mim, teria dormido até a terça, embora não tivesse pregado o olho no tempo em que estive na cama.
Não eram nem 9:30h quando eu já estava de pé, andando de um lado pro outro ao redor da piscina, tentando entender como foi que aquele simples domingo de Carnaval tinha se transformado numa super-sessão de terapia em grupo.
_Clara, vamos até a Marina comigo, pegar a lancha? – David me perguntou quando percebeu que éramos os únicos acordados na casa. – Daqui a pouco o pessoal acorda, se arruma e a gente passa aqui para pegá-los no deck.
_Vambora, quero dar uma caminhada mesmo!
_A gente aproveita e toma nosso café por lá. Que tal? Papai disse que tem um restaurante novo, no clube, que serve um café-da-manhã super bacana.
_Ótimo, grande idéia. E aí dá tempo certinho do povo se arrumar, né?
_Exatamente. Já acordei a Ana e ela vai se ajeitando com o resto.
_ Mas você já sabe qual será o rumo do nosso passeio, hoje?
_Vamos até os Cânions. Vai ter um show de Axé, ao meio-dia, no Mexerico. – Mexerico é o nome de um gigantesco bar flutuante que existe numa ponta da represa de Condados. Lá é o ponto de encontro da juventude nos feriados e fins-de-semana, sempre com boa música ao vivo e famosas caipirinhas. E ao redor deste bar, as lanchas costumam ficar ancoradas.
_Ótima pedida!
_Então vamos, senhorita madrugadeira.
Fomos andando bem devagar até a Marina. Foi bom fazer aquela caminhada, em especial acompanhada de David. Ele foi falando suas bobagens usuais e eu fui esquecendo que tinha acordado com aquela sensação estranha, de ressaca moral. Assim que chegamos lá, ele deu as coordenadas para abastecer a lancha e deixa-la em ponto de bala para o passeio e eu fiquei observando a movimentação que começava a agitar o lugar.
Na seqüência, fomos em direção ao clube e nos dirigimos ao tal restaurante novo, que servia café-da-manhã. O lugar estava lotado. Muita gente tinha tido a mesma idéia que David, de tomar café enquanto a lancha era preparada. Era um restaurante bastante sofisticado, com mesas redondas gigantescas, semi-postas, decoradas com flores e louças caras, bem ao estilo luxuoso de Condados. O buffet era completíssimo, com frutas, sucos, pães, ovos, frios, sanduíches e tudo mais. Nos deliciamos sem pressa. E nem me preocupei com a conta que David, gentilmente, deveria pagar, ou melhor, assinar e deixar para o pai dele pagar, se eu bem o conhecia. Estava adorando aquele programa, mas senti falta da Ana. Ela também adoraria estar ali. Pensei também que aquele seria um ótimo momento para perguntar a David se Pedro e a tal loira da noite de sábado tiveram um affair ou investigar alguma coisa, mas acabei não fazendo isso. Fiquei com medo de arrumar mais confusão no meu feriado e deixei de lado a curiosidade. Quando terminamos, voltamos para a Marina e pegamos a lancha. Assim que chegamos no deck da casa, Larissa já estava, para variar, histérica, à nossa espera.
_Posso saber onde vocês estavam? – ela gritou assim que David manobrou. E reparei que estava sentada sozinha numa cadeira do deck.
_Pode. Fomos buscar a lancha, Larissa. – David respondeu, meio sem paciência – Alguém tem que fazer isso se quisermos passear nela, não é?
_Eu sei. Mas parece que você saiu cedo. Já estamos te esperando há horas. Demorou demais, não?
_Demorei o tempo suficiente.
_Eu e David fomos tomar café no clube enquanto a lancha era abastecida e aí demorou um pouco mais que o costume. – eu quis explicar, mas ao mesmo tempo irritá-la, falando sobre um programa que ela não tinha participado.
_Ah, está explicado... – ela fez uma cara de desdém.
David entrou dentro da casa e foi gritando por todo mundo para embarcar na lancha. Alguns ainda tomavam café, como Leo e Luiza. Eu e Ana arrumamos, rapidamente, um cooler com cerveja, refrigerante e gelo enquanto Tati e Silvia se ocuparam dos comes que Dona Geisa havia gentilmente preparado. Pedro, Bruno e Tomás já tinham separado as frutas e a vodka para as caipis. Eu fiz questão de não olhar para ninguém durante todo esse tempo. Trocar palavras então, nem pensar. Precisava beber um pouco antes de conseguir contactar Pedro ou Bruno.
Assim que todos começaram a subir na lancha, Ana fez sinal para eu ir com ela ao quarto, antes de partirmos.
_Clara, me ajuda a pegar umas toalhas?
Subimos ao segundo andar e, enquanto eu segurava as toalhas que ela ia tirando do roupeiro, já foi logo cuspindo a curiosidade:
_Estou enganada ou perdi alguma coisa ontem? To achando todo mundo com uma cara estranha, tipo ninguém fala com ninguém.
_Como assim? Caras emburradas?
_É, exatamente. Larissa parece ter brigado com Bruno. Pedro está meio tímido e você acordou cedo e sumiu com David.
_Aconteceu. Muita coisa. Mas não dá pra te contar agora, porque demora muito. Vambora que eu vou te contando aos poucos.
Quando entramos a bordo, Luiza logo nos chamou para tomar sol e eu achei isso um alívio. Precisava ter algo concreto para fazer, do contrário, não saberia como agir nem o que falar. Ana decidiu sentar-se com Larissa inicialmente e fez sinal para que aguardássemos por ela na proa. De soslaio, vi que Pedro estava num papo animado com Leo e Tomás. E percebi que ele também não estava fazendo questão de estar em contato comigo naquela manhã. Mas nem me incomodei. Ao menos, não a princípio.
Assim que deitei ao lado de Luiza, ela me fez a mesma pergunta que Ana.
_Amiga, está tudo bem?
_Sei lá... ontem foi um dia esquisito. – eu fui contando a ela tudo o que eu tinha ouvido e feito, desde a revelação de Silvia, passando pelo telefonema e a discussão com Pedro até o papo-cabeça da madrugada com Bruno.
_Nusga, que tanto de informação para um simples domingo! To meio confusa.
_Se você está confusa, imagina sua amiga aqui?
_Ai Clarinha, se a gente contar, ninguém acredita. Sua vida dava um filme, hein?
_Ou uma novela mexicana, daquelas bem dramalhonas. – dito isso nós duas morremos de rir e, de longe, Ana, que nos observava enquanto dava atenção à priminha emburrada e aos outros convidados, já apresentava seus sinais de curiosidade mórbida.
Mas quem primeiro se aproximou de nós duas foi David...

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Capítulo 13 - parte 2

_Boa noite, Bruno. Foi boa essa nossa conversa. Outra madrugada dessas a gente repete a dose. – eu não queria que ele fosse embora.
_Foi sim, muito boa. Podemos repetir numa outra madrugada, ou numa outra hora qualquer, aqui ou em Belo Horizonte. Talvez, se eu estiver precisando de uma consulta no dentista... – ele riu, com um sorriso que eu já reconhecia de outro rosto, embora muito parecido.
_Ah, será um prazer recebê-lo.
_E vocês também podem conhecer o meu novo bar, que foi aberto no final do ano. Está bombando, sabia?
_Ana me contou a respeito. Vamos sim, será uma honra.
_Você pode ir com o Pedro. Prometo conseguir um lugar especial para vocês.
_Posso ir com minhas amigas – não entendi porque a necessidade de corrigi-lo. Eu estava flertando com ele?
_Claro, pode ir com quem quiser. Pode ir até sozinha, não faltará companhia para uma destrambelhada desequilibrada sentimentalóide e rancorosa!
_Nossa, minha análise é sofrível!
_Desculpe, agora eu fui cruel. Deixe-me consertar: Não faltará companhia para uma dentista linda, simpática e divertida como você.
_Ai, agora fiquei tímida. – disse abaixando o rosto.
_Não seja boba, são elogios sinceros e inocentes.
_Obrigada, Bruno. – eu ainda estava vermelha.
_Por nada. Bom, vou indo. – ele se levantou. – Boa noite.
Antes que pudesse pensar, chamei por ele, que já entrava de volta na sala:
_Bruno?
_Sim? – ele parou e se virou para me olhar.
_Você precisa mesmo ir agora? – perguntei sentindo as bochechas queimarem.
_Não. Você quer minha companhia?
_Na verdade, é que preciso te perguntar uma coisa. É meio séria. Pode ser? – soltei sem pensar muito no que estava fazendo.
_Claro que pode. – ele já estava vindo novamente em minha direção – Mas deixa te dizer uma coisa antes. Já que vamos ser sérios.
_Pode dizer. – eu senti meu corpo gelar.
_Achei que você não ia me perguntar nunca. – ele me olhava dentro dos olhos.
_Não entendi. – eu disse quase engasgando.
_Estou facilitando as coisas para você Clara, não entendeu?
_Estou confusa. – me fiz de desentendida, tentando ganhar tempo para ensaiar um discurso ou sei lá o quê.
_Clara, está escrito na sua cara que você quer falar do Caio. – ele falou na lata e eu estremeci inteira.
_Do Caio? Como você sabe? – falei gaguejando como um réu incriminado até o último fio de cabelo.
_Bom, vamos enumerar. Primeiro porque sua cara fantasma quando eu cheguei já me deu uma dica...
_Ah, é claro! Mas é que fiquei surpresa de conhecer você e...
_E eu ser a cara do seu ex-namorado, né? – ele completou a frase para mim.
_Soube hoje que vocês são primos. Silvia me contou. Cara, nunca podia imaginar!
_Contou, foi?
_Contou. E contou também que provavelmente você tinha sacado todo o lance. E, confesso, fiquei muito impressionada por tanta gente que eu mal conheço saber tanto sobre a minha vida. – disse meio sem jeito.
_Eu não sei nada da sua vida. Eu sei um pouco sobre a do Caio. E sei que ele foi apaixonado por uma garota chamada Clara. Só isso.
_Foi? – jamais deixaria de perceber o tempo verbal – No passado, então. Game over, baby! Por que tanto estresse, né? Já passou! – eu estava enganando quem, meu Deus?
_Clara, não me complica, vai. Caio é meu primo, um amigão do peito, crescemos juntos, somos como irmãos. Ele está namorando agora e não acho justo dizer nada por ele, em especial para você. – ele disse me ignorando.
_Tá, eu sei, vocês homens são todos corporativistas.
_Corporativistas? Essa foi boa! – ele disse com cara cínica.
_Eu entendo sua postura, ta? Eu faria a mesma coisa no seu lugar. É só que eu estou sentindo um cheirinho esquisito, tipo de que será difícil olhar pra você amanhã, depois desta conversa.
_Clara, não seja boba! – ele disse meio sem paciência. – Eu matei logo a charada de que você era a tal Clara de quem eu já ouvi tanto falar, pelo Caio. E na verdade, pouco antes do Carnaval, nós dois saímos juntos e quando falei que viria pra cá, ele comentou sobre uma amiga de escola que tinha casa aqui em Condados, de nome Ana.
_Ah é?
_É, e ele disse também que essa Ana era a melhor amiga da Clara. Coincidência ou não, quando eu entrei e você fez a maior cara de choque eu nem precisei ser apresentado a você para saber de quem se tratava.
_E, ainda por cima, eu pergunto com a maior falta de sutileza sobre um médico chamado Caio. Ai meu Deus, só mesmo Clara, a transparente, pra fazer isso. Nem se eu quisesse poderia ser detetive um dia na vida.
_Você é mesmo engraçada para comentar as coisas.
_Engraçada não, patética. Foi difícil mesmo para você matar essa charada, hein?
_Pois é, nada difícil.
_Puxa, que situação... – disse com a cabeça baixa, sem nem tentar olhar para ele.
_Não fique assim, já estou me arrependendo de ter te falado isso. Já te disse, gosto da sua espontaneidade. E entendo, inclusive, porque Caio é tão louco por você.
Não pude deixar de me sentir lisonjeada com essa frase e reparar que agora o tempo verbal era o presente – é louco por você. Mesmo assim, quis mudar um pouco a direção do assunto, e tentar descobrir alguma coisa nova, já que o assunto estava completamente ferrado pro meu lado, o melhor a fazer era esculhambar geral.
_Mas você não disse a ele que estava vindo para a casa de uma Ana, prima da sua namorada?
_Pra falar verdade, não. Já imaginava essa possibilidade, de essa Ana amiga do Caio ser a mesma Ana prima da Lari. Não quis contar isso pra ele, sem ter certeza, afinal era só uma possibilidade. E, além disso, ultimamente, Caio anda querendo fugir desse assunto.
_Desse assunto? – fiz cara de incrédula.
_Assunto Clara.
_Agora eu sou um assunto?
_Não, a história de vocês é um assunto.
_Sei... – disse meio desapontada. Comecei a imaginar a figura que Caio pintou ao meu respeito para ele, por eu ser um assunto tão recorrente.
Depois de um breve silêncio, ele tornou a falar, tocando meu ombro:
_Clara, todo mundo tem um amor mal resolvido. Homens falam sobre isso também, embora vocês mulheres achem que não. – ele tentou se explicar.
_Bruno, o nosso amor não é só mal resolvido. Ele é mal vivido, mal amado, mal entendido, mal discutido. – eu tentei me explicar também, pela segunda vez, naquele domingo.
_Vai ver por isso é tão especial para vocês.
_É, vai ver que é...
Fez-se novamente um silêncio constrangedor naquela madrugada estranha. Ele olhava para o nada, como se estivesse longe dali. Após alguns segundos, que mais pareceram séculos, ele se virou para mim e disse, num tom de voz forte e seguro:
_Posso te dizer uma coisa, se você me der liberdade?
_Claro, diga sim. – não tinha nada mais a esconder naquela noite.
_Acho que todas as coisas precisam ser experimentadas e vivenciadas ao máximo. E precisam ser concluídas também. E não me refiro só as coisas materiais, mas aos sentimentos, aos sonhos e ideais. Do contrário, fica sempre uma coisa no ar, fazendo mal, criando expectativas erradas, alimentando mal entendidos desnecessários.
_Concordo com tudo que você disse. Mas neste caso, o buraco é mais embaixo, Bruno. Você provavelmente sabe a versão do Caio nesta história toda.
_É, provavelmente. – ele balançou a cabeça concordando e continuou – Mas eu conheço o Caio. Bem demais. E sei como ele é com as mulheres. E não preciso conhecer a sua versão para saber que não há mocinhos ou vilões nesta história. Mas são vocês dois que precisam ver isso de uma forma mais racional, para poderem chegar a uma conclusão definitiva.
_Conclusão? Que conclusão?
_Se vão se separar de vez ou ficar juntos, ora. – engoli em seco ao ouvir estas palavras dele. Nunca havia parado para pensar que pudesse haver uma chance de isso ter uma conclusão.
_Já existe uma definição, Bruno. Ele tem uma namorada. – eu me fiz e resignada.
_Pelo que eu sei o fato de você ter tido um outro namorado nunca foi suficiente para definir esta história toda.
_É diferente! – esbravejei – Caio entrou na minha vida quando já existia uma história, com este namorado. Foi ele que mudou tudo. Mas essa tal namorada dele, não. É um caso novo. Ele virou a minha página e encontrou uma nova pessoa.
_É, uma pessoa incrível. – ele confirmou e eu gelei ao ouvi-lo pronunciar as palavras com tanta firmeza. Nem conhecia a garota, mas detesta-la era parte óbvia na minha natureza de fêmea ferida. Fui incapaz de responder. Mas ele continuou, após o silêncio que dei como resposta.
– Uma pessoa incrível que ele não ama e não se deixa amar porque é incapaz de esquecer você. – desta vez entrei em choque. Nunca imaginei que ele me diria isto. Ele havia acabado de dizer que não falaria pelo Caio. Estava congelada e com o coração quase saindo pela boca. Não queria que ele parasse de falar nunca. Mas tive que dizer alguma coisa, para não dar mais bandeira ainda, se é que seria possível ter ainda alguma bandeira para dar, aquela altura do campeonato.
_Nem sei o que dizer, mas acho que não é bem assim, Bruno. – gaguejei.
_É sim, claro que é. – ele disse meio ríspido demais – É tão difícil perceber isso? Porque para mim é óbvio. Sabe, sempre achei Caio meio tapado nesta história toda e, agora, estou vendo que você também é.
_Bruno, sejamos práticos, a verdade é bem simples: Eu nunca consegui esquecê-lo e nem ele a mim. Ponto final. Mas as razões para isso é que são difíceis de entender. Não tem ninguém tapado nesta história.
_Tem sim, os dois, pelo que estou vendo. Vocês acham que um não conseguir esquecer o outro é mera obra do destino. E não é! Nenhum de vocês dois tentou esquecer o outro, pra começar.
_Anh? – disse meio surpresa, mas completei – Claro que tentamos.
_Claro que não tentaram! – ele disse como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo – Não quiseram esquecer! Vocês alimentam esta história e tentam fingir o contrário. Se quisessem, já teriam racionalizado isso faz tempo.
_Nossa, mas parece tão fácil para você!
_Eu sei que não é fácil. Não disse isso. Não mesmo! Mas é possível, Clara. A questão é que tanto você como Caio precisam manter essa coisa mal resolvida no coração, para terem desculpa de infelicidade ou sei lá o quê.
_Você está dizendo que eu sou infeliz, que quero ser infeliz e gosto disso?
_Espera aí, calma... não seja tão dramática!– ele tentou me acalmar, mas eu continuei:
_Não, já sei, você está dizendo que eu não esqueço o Caio porque gosto de sofrer por ele, é isso?
_Mais ou menos – ele riu.
_Juro que não reconheço esse meu lado sadomasô. – falei de forma sincera. Nunca ouvi uma versão tão “tapa na cara” como essa. Nem Ana teria conseguido ser mais ácida comigo. E ele havia dito que não julgava as pessoas.
_Clara, você acha mesmo que vai conseguir levar um relacionamento adiante antes de encerrar esta história com Caio no seu coração?
_Não sei... nunca pensei sobre isso.
_Pois pense. Eu fiz esta mesma pergunta para ele há um tempo atrás e sabe o que ele me respondeu?
_O quê? – perguntei ansiosa.
_Palavras dele: “Acho que eu preciso ter a Clara na minha vida, nem que seja para odiá-la, por nunca termos vivido uma história de amor” – ele citou as palavras de Caio, fazendo sinais de aspas com os dedos.
As lágrimas pinicaram meus olhos e eu tentei, com toda a força do meu corpo, não chorar na frente de Bruno. E, depois disso tudo e dos pulos que meu coração dava, só consegui ser ainda mais sincera com ele:
_Olha, já faço terapia há muito tempo e jamais minha terapeuta conseguiu me dar uma descrição tão perfeita da minha história, como Caio fez pra você.
Ele sorriu, mas antes que pudesse me responder qualquer coisa, uma sombra surgiu atrás da espreguiçadeira em que estávamos sentados.
_Vocês estão aí até agora? – a sombra perguntou e imediatamente reconheci aquela voz.
_Pedro?! O que você está fazendo aqui? – perguntei sem conseguir disfarçar a cara de assustada.
_Vim pegar um pouco d´água e vi uma luz acesa. – ele respondeu com o rosto meio amassado e sonolento.
_Já estávamos subindo. Eu também desci para pegar água e vi a Clara sozinha aqui fora, tomando sorvete. Emendamos um longo papo na seqüência e, pelo visto, nem vimos a hora passar.
_Conversas da madrugada costumam render. – ele sorriu pelos cantos da boca, meio sem graça.
_Mas já acabou! Estou com sono. – eu quis logo cortar o assunto. – Eu fui uma das primeiras a subir para dormir e, por causa de uma mensagem, acabei descendo para fazer uma ligação e fui ficando, ficando...
_É melhor irmos todos dormir então. – Bruno decretou.
_Isso, vamos. – Pedro concordou
_Boa noite meninos. Durmam bem – Bruno disse simpático – Ah, foi ótimo conversar com você, Clara.
_Foi sim, ótimo. – eu respondi muito sem graça – Boa noite Bruno.
Olhei para Pedro e percebi que ele assistia a minha troca de olhares e sorrisos com Bruno com cara de desconfiado.
Assim que Bruno começou a subir as escadas, segurei a mão de Pedro e perguntei:
_Vamos subir também?
_Clara, desculpe ter sido ríspido com você, mais cedo... sobre a garota do David – percebi que ele estava fazendo um esforço enorme para dizer aquilo.
_Ah, esquece. Nem é da minha conta mesmo. – juro que estava sendo sincera, aquela altura do campeonato o que menos me interessava era saber sobre uma possível paquera de Pedro.
_Tudo bem, mas quero te dizer que você pode me perguntar o que quiser, tá?
_Tá bom. Mas, agora, vamos dormir? – eu insisti em puxá-lo pela mão.
_Antes me responde uma coisa?
_O quê?
_Quem é Caio? Seu ex, esse com quem você terminou há pouco? – ele perguntou meio tímido.
_Não. Meu último namorado se chama Lucas. – disse com paciência – Caio é um namoradinho de infância, sem importância – menti deslavadamente me perguntando se seria possível ele ter ouvido alguma coisa do que eu e Bruno conversávamos.
_Tá bom, desculpa insistir, é só curiosidade. – ele sorriu.
_Vocês homens também são curiosos, né?
_Nem sempre. Às vezes. Depende dos telefonemas que as gatas recebem perto da gente – ele riu e me beijou o rosto.
E então fomos, finalmente, dormir. Cada um em seu quarto.
Na Lagoa, o reflexo da lua já desaparecia para dar lugar aos primeiros raios do sol que começava a nascer.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Capítulo 13 - parte 1

Me deitei na espreguiçadeira da varanda, sozinha. Seria impossível subir para dormir naquela hora, a adrenalina estava a mil no meu corpo, que há pouco atrás estava tão cansado. Decidi ir até a cozinha e preparar uma sobremesa com sorvete, calda de caramelo, leite-condensado e castanha, bem gigante, para aplacar minha raiva. Carboidrato era sempre um bom conselheiro nessas horas. E talvez eu estivesse mesmo precisando pular a parte do alimento indigesto, Caio, no meu jantar e ir direto a sobremesa.
Quando eu menos esperava, ouvi alguém descendo as escadas.
_Assaltando a geladeira? Insônia ou larica?
_Bruno? – eu reconheci a voz dele e me virei.
_Vim pegar um copo de água, estou meio sem sono. Larissa já capotou há horas e eu já zapeei todos os canais uma centena de vezes.
_Larissa já dormiu? Isso quer dizer que você deu uma canseira nela, então. – eu falei sem pensar.
_Eu, é... Como? – ele ficou vermelho.
_Ah, desculpe Bruno. Quanta indelicadeza. Achei que estava brincando com uma das minhas amigas. Não devia ter dito isso.
_Não tem problema. Gostei da sua sinceridade. – ele riu.
_Sinceridade? Essa minha língua enorme hoje está ferina. Desculpe, de verdade.
_Não tem problema, mesmo – ele repetiu. – Gosto desse seu jeito moleca e espontânea.
_Espontânea, eu?
_Sim, você. E acho você muito autêntica por isso. Poucas mulheres são assim como você, eu acho isso fascinante. – ele disse bastante firme.
_Por quê? Uma língua metralhadora não é nada atraente ao meu ver! – eu quis me auto-flagelar.
_Ah, que nada. Vocês mulheres, de modo geral, são todas falantes, mas poucas dizem a verdade, como você diz. Isso faz a gente se sentir íntimo e tudo mais. Sabe, Clara, senti isso desde o primeiro momento em que te vi. Acho que já te conheço há séculos. – senti um arrepio depois que ele disse isso.
_É mesmo? – me fiz de boba
_É sim. Vai ver a gente já se esbarrou por aí, não é?
_Com certeza. E como você trabalha na noite, provavelmente isso pode ter acontecido mesmo.
_Pode sim. – ele respondeu se sentando ao meu lado.
Nós rimos, meio sem jeito, e ficou aquele momento difícil do silêncio, aquele clima esquisito que ninguém quer interromper. Ainda bem que eu podia continuar entretida no meu sorvete. Mas sentia que ele não tirava os olhos de mim.
_Bruno, vou te dizer uma coisa. Você me deixa nervosa. – eu não me contive e disse olhando nos olhos dele, que estavam bem próximos a mim.
_Nervosa? Como? Por quê?
_Ah, não sei, quando a gente se olha, sinto que você está me avaliando o tempo todo.
_Avaliando? Não, imagina. – ele riu de um jeito gostoso, como quem escuta uma piadinha boba, mas relaxante – Talvez admirando.
_Sério, é assim que eu me sinto.
_Deve ser porque fico tentando lembrar de onde eu poderia conhecer você – não sei se era ilusão, mas comecei a perceber onde ele queria chegar, ou talvez deixar espaço para eu comentar o que eu não queria, de jeito nenhum. Não de novo, não hoje, não com ele. Já tinha rolado uma enxurrada de Caio naquele domingo e o último desfecho, com Pedro, não tinha sido dos melhores.
_Você está gostando de Condados, Bruno? – tentei mudar de assunto.
_Estou sim. Na verdade, eu já conhecia o condomínio e a cidade de Santa Fé. Mas faz muito tempo desde a última vez que estive aqui.
_Seus amigos são bastante legais. Eles estão gostando também?
_Estão sim, as garotas principalmente, estão encantadas com a simpatia e a animação de vocês.
_Ah, que bom. Vocês são todos muito amigos, né?
_Somos sim, de infância. Aqueles dois são meus irmãos. Você e Ana também são muito amigas, né?
_Somos sim, irmãs também, desculpe o plágio. – eu disse rindo – Ana e eu costumamos brincar que somos amigas de alma. Sabemos tudo da vida uma da outra. Até lemos os pensamentos uma da outra. Ana é ímpar na minha vida.
_E Luiza? Ela também é amigona de vocês, né?
_Sim, claro, mas é que eu e Ana somos amiga há bem mais tempo, sabe? Mas Lu também é muito querida por nós duas. Temos nossa turminha, sabe? Amigos de colégio, os melhores do mundo, né?
_Ah, definitivamente. Insuperáveis.
_Insuperáveis, ótima definição. – eu concordei com ele, de novo.
_Larissa já havia me falado de vocês duas. Ela sempre comenta das amigas da prima Ana.
_Comenta... – eu disse num tom irônico.
_Sabe, acho que ela tem um pouco de ciúme da intimidade de vocês. – ele disse como se estivesse fazendo uma super fofoca.
_Ah, todo mundo saca isso! E até imagino o que ela deve ter falado de mim para você.
_Falou bem, muito bem, pode acreditar. Por quê ela não falaria?
_Ah tá, não precisa fingir que não sabe que eu e Larissa nos odiamos, Bruno. – eu gargalhei – ela nunca esconderia isso do namorado. Aliás, nós duas temos poucas coisas em comum, mas a franqueza é uma delas. Tenho certeza de que ela te deu um relatório completo sobre o amor que nutre por mim.
_Ah, Clara, você é mesmo uma figura. Tá bom, não é que vocês sejam amigas, mas...
_Nos toleramos. – eu o interrompi, antes que ele tentasse ser polido – Por causa da Ana. Só isso.
_Mas porque toda essa bobagem, hein?
_Nem sei como começou direito – eu menti – mas são histórias velhas e infantis.
_Então, se são velhas, porque tanto rancor? Larissa é bastante imatura mesmo, mas você não me parece... – ele não completou a frase.
_Ah, mas é que eu não sou o que pareço.
_Ah não? E o que você é? – ele pareceu curioso.
_Rancorosa. E sentimentalóide. E bem pouco prática. E um tiquinho infantil, também. – admiti, fingindo vergonha.
_E um bocado auto-crítica, pelo visto. Muito bom, mais um ponto pra você.
_Não disse que você estava me avaliando?
_Não é avaliação.
_Bom, de qualquer jeito, não quero nem saber a versão que Larissa te contou de toda essa história de ódio, rancor e ciúme – falei imitando a voz de um locutor de novela mexicana.
_Ela não disse nada de importante, pode acreditar.
_Mas isso, também, não tem importância, já que agora você me conhece bem, já me avaliou o suficiente e pode tirar suas próprias conclusões ao meu respeito.
_Pára, não diga isso, Clara! Foi forte, sabia? – ele disse sério – Eu não avaliei você coisa nenhuma! Aliás, eu não julgo ninguém, nunca. Não é da minha natureza.
_Taí uma mentira deslavada. Todo mundo julga tudo. Pessoas, ações, coisas, lugares, sentimentos. De uma forma ou de outra.
_Eu não julgo. Ao menos este tipo de julgamento que você está pensando.
_Tá, então me responda: O que você faz quando ouve uma história, assiste a uma discussão, sei lá. Não toma partido?
_Faço o normal. Assisto, ouço, observo. E deixo que as pessoas decidam suas próprias vidas da forma que acharem melhor. Elas não precisam da minha opinião.
_Nossa, que adulto isso. – eu fui irônica.
_Ah, é só uma forma de levar as coisas de um jeito mais leve. Cada um com seus problemas, concorda?
_Concordo. Mas... – suspirei – realmente não entendo.
_O que você não entende, Clara? – ele fez uma cara de compreensão.
_Não entendo você, Bruno. Pra começar, o que um cara legal como você viu numa menina mimada, desagradável e intolerante como Larissa? Além da beleza física, é obvio. – não resisti.
_Uau, agora você foi cruel.
_Desculpe, não quis ofender.
_A mim ou a ela? – ele soltou uma gargalhada.
_A você, é claro. – eu ri junto – Mas, sério, desculpa, de novo. Não quero me intrometer na sua vida, não tenho nada com isso. Claro que ela tem qualidades.
_Tem sim, muitas. Ela é muito mais do que essa mulher mimada, arrogante e intolerante que todo mundo vê. – confesso que gostei da parte do “todo mundo vê”, mas não ousei dizer isso a ele.
_Eu sei. Lamento pela overdose de franqueza. Estou meio desequilibrada hoje, sabe?
_Todos temos qualidades e defeitos. E equilíbrios e desequilíbrios, também.
_Até você? Também fica desequilibrado, às vezes? Tem defeitos? Não acredito! – eu brinquei com ele.
_Claro que tenho defeitos, né?
_Achei que você fosse legal assim sempre. – eu joguei um charme.
_Que nada, tenho várias fraquezas. – ele respondeu dirigindo o olhar ao chão.
_E quando entra em cena seu lado mau?
_Acredite, você não gostaria de conhecê-lo. – ele continuava olhando pro chão – Sorte que estou numa fase tranqüila.
_É mesmo?
_É, do contrário talvez não agüentasse a Larissa. – ele levantou os olhos e disse rindo, cedendo à minha gargalhada que veio na seqüência.
_Bom, mas por que você disse estar desequilibrada hoje? Me pareceu estar bem feliz o dia todo, com Pedro te cortejando e tudo mais. – ele tinha um sorriso enigmático nos lábios.
_Não, deixa pra lá... foi só uma força de expressão. É que eu disse muita besteira hoje, só isso.
_Entendi. Bom, acho que vou me deitar, então. Tentar dormir. A gente pode fazer outro passeio de lancha amanhã, o que você acha?
_Seria ótimo. Vamos pedir ao David! Existem uns Cânions legais, perto daqui. Ele sabe como ir até lá. Vocês todos vão adorar. É lindo.
_Ah, sim, isso. Parece que ouvi os meninos comentarem que vai ter um show num desses Cânions.
_Exatamente. Vamos falar com ele pela manhã. Será uma boa pedida.
_Então, boa noite, Clara. Até amanhã.