domingo, 6 de junho de 2010

capítulo 1 - parte 2

O último ano chegou ao fim, veio o baile de formatura, o temido e desejado vestibular e eu entrei para a faculdade de odontologia da PUC. Caio também entrou em medicina, em Ribeirão Preto.
Eu e Caio ficamos um longo tempo sem nos vermos após o baile de formatura. E esta teria sido uma ótima “deixa” para esquecer tudo o que vivemos no ano anterior (ou não vivemos). Mas como aquele era, para mim, um momento de muitas novidades com novos amigos, farras, viagens e churrascos, aquela paixão toda pelo Lucas acabou se esvaziando de sentido. A partir daquele momento, eu também estava na universidade, também era uma “descolada” e tinhas projetos de vida (beijar muito na boca, beber mais ainda etc, etc, etc) e ele já não era mais tão atraente assim. E, claro, a vontade de saber sobre o Caio, morando em outra cidade, também me inundava. Eu tinha ataques virtuais e histéricos de ciúme pensando nele com outra mulher. Sempre fui apaixonada por aquilo que não está ao meu alcance. E Caio não estava, estava longe, isso exigia muito da minha imaginação.
Então, é claro que eu e Lucas terminamos. Estávamos em outra conexão e, de repente, tudo perdeu o tesão inicial. “Acabou Lucas, é melhor darmos um tempo”. Eu gostava dele. Gostava muito. Ele gostava de mim. Mas pra nenhum dos dois era algo visceral, só estava morno. E, acreditem, eu até gosto de coisas mornas. Aliás, sempre preferi coisas mornas, que não me obrigam a aquecer ou esfria-las, mas naquele momento eu pensava tanto no Caio, que queria me queimar.
Tirei forças não sei de onde e, obviamente, fui procurar o Caio. Dei uma ligada, como quem não quer nada, na casa dos pais dele e consegui o telefone da república onde ele estava morando, em Ribeirão Preto. Ah, mas que arrependimento deste dia... Liguei e quis morrer! Caio estava naquele momento “insuportável” do calouro de medicina, que se acha a última bolacha do pacote, porque acabou de ganhar a chave da porta que o leva ao lugar onde se transformam pessoas em Deuses.
_Oi Caio, conta tudo! Como estão as coisas aí? A faculdade, a cidade, novos amigos... Como você está? – eu estava afoita, queria saber tudo, queria estar lá para ver tudo.
_Ei Clara! Estou ótimo, não poderia estar melhor. Encontrei minha vida aqui, sabia?! – Sim, claro, essa era a pior resposta que ele poderia me dar. Um soco no estômago ouvir aquela voz maravilhosa (depois tenho que comentar da voz dele) me dizer isso. Como eu tinha ódio dessa certeza em relação a tudo que ele tinha. Principalmente esta certeza em relação à medicina. Esta paixão inveterada por esta droga de medicina! Que antipatia! Por que ele simplesmente não podia me dizer que sentia minha falta? Que pensava em mim de vez em quando, só pra variar?
_E você Clarinha, está gostando da odonto? Decidiu mesmo sua vida? – ele me lembrar que eu não tinha metade da determinação dele me enfureceu ainda mais. E não sem deixar de dar uma cutucada com uma frase bem dúbia sobre eu ter “decidido” minha vida.
_Bem, estou gostando sim, Caio. Acho que fiz a escolha certa. – falei com aquela falta de convicção que me é peculiar. Ah, mas porque eu não respondi que também tinha encontrado a minha vida na odonto? Porque não respondi que tinha terminado com Lucas, que pensava nele sempre? Ora, por quê! Porque eu sou uma meia-mulher, ora bolas, e Caio sabe disso!
Bom, vou ter que fazer um adendo aqui. Eu sempre fui uma boa aluna, daquelas bem estudiosas (mas só na época de provas e trabalhos, não uma cdf convicta como Caio), mas antes de tudo, sou uma apaixonada por artes e criatividade. Adoro escrever, imaginar, criar, inventar. Tenho uma boa queda por artes plásticas, inclusive. Mas sempre fui fissurada pelas profissões da área da saúde e tinha certeza de que era o que eu queria pra minha vida. A odontologia era paixão antiga. Me imaginava dentista desde pequena. Mas aí, na época do colégio, deste fatídico ultimo ano que só trouxe problemas à minha vida, eis que me aparece uma psicóloga idiota para realizar com os alunos o famoso teste vocacional, como se aquilo de fato ajudasse alguém a se encontrar e não a se confundir mais. E a mulher, no fim das contas, concluiu que eu tinha mais jeito para publicidade, comunicação social, ou algo do tipo, devido à minha fala espontânea, criatividade, perspicácia (perspicaz, moça? Eu? – me perguntava impressionada) e que eu deveria pensar melhor sobre a odontologia. Sem querer discutir muito com ela e por sugestão do meu pai, que também ficou confuso com a minha confusão, dei uma pesquisada no mercado. E, putz, encontrei exatamente o que eu não queria para mim. Salários fracos, agências saturadas e muito pouco trabalho de criação para recém-formados. Tudo bem que esta coisa de criação, marketing etc tem muito a ver comigo, mesmo, mas largar meus projetos iniciais perfeitamente planejados e cair numa nova onda? Ah não, não precisava daquilo naquela hora! Não naquele ano, não naquele contexto da minha história.
_Mas dentistas recém-formados também não estão na crista da onda, Clara, você tem que trabalhar em algo que realmente te faça sentir-se plena – ela tentou me convencer de alguma coisa.
Plena? Que plenitude o escambáu, sua lunática! Falar em plenitude comigo, Clara, a garota-metade, a mais indecisa dos mortais!
Só que de tanto ela insistir, o que era uma brincadeirinha de teste acabou pirando minha cabeça! Meu cérebro em desenvolvimento, com apenas 17 aninhos e hormônios explodindo, que geneticamente já era dividido (e não me refiro aos dois hemisférios cerebrais) quase fundiu! Como assim? Pára tudo! Um consultório lindo, pacientes, tratamentos dentários, vários processos minuciosos não faziam mais o menor sentido na minha cabeça! Só conseguia pensar em propagandas, jornais e revistas. Puxa, porque tudo na minha vida tinha que ser tão confuso, meu Deus? Passei por um período tenso e Caio acompanhou isso tudo muito de perto, me ajudando bastante a tentar entender o que eu queria e se eu precisava ou não de mudanças na minha vida.
Acabei escolhendo a odontologia, ou não tive coragem suficiente para escolher a publicidade na época, sei lá, embora também tenha prestado este curso numa faculdade menor (só para descargo de consciência). Adorei o curso. Amo a odontologia. Sou uma excelente dentista, apesar de não ter a vida que imaginava. Passo alguns momentos de raiva, decepção e sempre sinto que faltam zeros no meu saldo. Mas sou feliz, na maior parte do tempo. Claro que iria mentir se dissesse que às vezes não bate uma vontade de largar tudo e cair de cara em algo bem diferente, tipo... sei lá, uma agência de publicidade! Mas, juro, gosto da escolha que fiz! Ao menos consegui escolher e, se tratando de mim, isso já é uma grande conquista. Nessas horas em que bate essa vontade estranha e eu começo meus devaneios malucos, me pego numa agência bem moderna, num bairro chique na zona sul, com uma calça jeans super transada, uma blusa de gola canoa caída no ombro e havaianas nos pés, toda hippie-chique, desenhando e criando coisas fantásticas para empresas que me pagam rios de dinheiro pelas minhas idéias! Calma, não precisa parar a leitura! Não sou tão idiota assim a ponto de pensar que a vida de um publicitário é essa maravilha toda e que é fácil criar e desenvolver idéias. Lógico que não! Mas é que é difícil imaginar que o que poderia ter acontecido é, assim, sei lá, pior do que a realidade. Ninguém no mundo inteiro pode se imaginar mais pobre, mais feio, mais gordo, mais frustrado ou mais infeliz se não tivesse escolhido o caminho que escolheu, por mais bem resolvido que seja. Isso é natural... querer mais, querer outras opções, querer outra vida, só de vez em quando. Trocar as roupas brancas (sem graça pacas!) e o instrumental pelo glamour... só de vez em quando, só na minha imaginação!
Portanto, imaginar que estar com Caio faria minha vida melhor do que estar com Lucas ou estar sozinha sempre me aterrorizou... Mas quando desliguei o telefone naquele dia, e me lembro exatamente de cada detalhe daquela conversa fria e cheia de ironia, eu me senti a pior das mortais. A sensação de que eu não o tinha porque anteriormente escolhi o Lucas, ou simplesmente não escolhi estar com ele, minava minhas forças. Eu estaria mais feliz? Caio estaria melhor longe de mim? Essa era uma dúvida que eu jamais fui capaz de resolver.
Parei de lembrar e de pensar. Parei de viajar em tantos momentos velhos, do passado. Coloquei o pé no acelerador e rumei para casa e para o dia de hoje, dez anos depois daquilo tudo. Aumentei o volume do som e tocava uma música da Zélia Duncan na rádio que dizia algo do tipo: “Escolhas, mas que droga, delas é feita a vida das pessoas (...)”. Pois é, Zélia, também concordo com você, mas que droga!

Um comentário:

  1. Amiga!!!!!!!!!!! To adorando! Quero mais! Pode continuar escrevendo!
    Bjos

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