Ainda bem que David acordou cedo na segunda-feira, com animação total para um programa bem carnavalesco. Este foi meu primeiro pensamento quando ouvi a voz dele descendo as escadas. Porque, se dependesse de mim, teria dormido até a terça, embora não tivesse pregado o olho no tempo em que estive na cama.
Não eram nem 9:30h quando eu já estava de pé, andando de um lado pro outro ao redor da piscina, tentando entender como foi que aquele simples domingo de Carnaval tinha se transformado numa super-sessão de terapia em grupo.
_Clara, vamos até a Marina comigo, pegar a lancha? – David me perguntou quando percebeu que éramos os únicos acordados na casa. – Daqui a pouco o pessoal acorda, se arruma e a gente passa aqui para pegá-los no deck.
_Vambora, quero dar uma caminhada mesmo!
_A gente aproveita e toma nosso café por lá. Que tal? Papai disse que tem um restaurante novo, no clube, que serve um café-da-manhã super bacana.
_Ótimo, grande idéia. E aí dá tempo certinho do povo se arrumar, né?
_Exatamente. Já acordei a Ana e ela vai se ajeitando com o resto.
_ Mas você já sabe qual será o rumo do nosso passeio, hoje?
_Vamos até os Cânions. Vai ter um show de Axé, ao meio-dia, no Mexerico. – Mexerico é o nome de um gigantesco bar flutuante que existe numa ponta da represa de Condados. Lá é o ponto de encontro da juventude nos feriados e fins-de-semana, sempre com boa música ao vivo e famosas caipirinhas. E ao redor deste bar, as lanchas costumam ficar ancoradas.
_Ótima pedida!
_Então vamos, senhorita madrugadeira.
Fomos andando bem devagar até a Marina. Foi bom fazer aquela caminhada, em especial acompanhada de David. Ele foi falando suas bobagens usuais e eu fui esquecendo que tinha acordado com aquela sensação estranha, de ressaca moral. Assim que chegamos lá, ele deu as coordenadas para abastecer a lancha e deixa-la em ponto de bala para o passeio e eu fiquei observando a movimentação que começava a agitar o lugar.
Na seqüência, fomos em direção ao clube e nos dirigimos ao tal restaurante novo, que servia café-da-manhã. O lugar estava lotado. Muita gente tinha tido a mesma idéia que David, de tomar café enquanto a lancha era preparada. Era um restaurante bastante sofisticado, com mesas redondas gigantescas, semi-postas, decoradas com flores e louças caras, bem ao estilo luxuoso de Condados. O buffet era completíssimo, com frutas, sucos, pães, ovos, frios, sanduíches e tudo mais. Nos deliciamos sem pressa. E nem me preocupei com a conta que David, gentilmente, deveria pagar, ou melhor, assinar e deixar para o pai dele pagar, se eu bem o conhecia. Estava adorando aquele programa, mas senti falta da Ana. Ela também adoraria estar ali. Pensei também que aquele seria um ótimo momento para perguntar a David se Pedro e a tal loira da noite de sábado tiveram um affair ou investigar alguma coisa, mas acabei não fazendo isso. Fiquei com medo de arrumar mais confusão no meu feriado e deixei de lado a curiosidade. Quando terminamos, voltamos para a Marina e pegamos a lancha. Assim que chegamos no deck da casa, Larissa já estava, para variar, histérica, à nossa espera.
_Posso saber onde vocês estavam? – ela gritou assim que David manobrou. E reparei que estava sentada sozinha numa cadeira do deck.
_Pode. Fomos buscar a lancha, Larissa. – David respondeu, meio sem paciência – Alguém tem que fazer isso se quisermos passear nela, não é?
_Eu sei. Mas parece que você saiu cedo. Já estamos te esperando há horas. Demorou demais, não?
_Demorei o tempo suficiente.
_Eu e David fomos tomar café no clube enquanto a lancha era abastecida e aí demorou um pouco mais que o costume. – eu quis explicar, mas ao mesmo tempo irritá-la, falando sobre um programa que ela não tinha participado.
_Ah, está explicado... – ela fez uma cara de desdém.
David entrou dentro da casa e foi gritando por todo mundo para embarcar na lancha. Alguns ainda tomavam café, como Leo e Luiza. Eu e Ana arrumamos, rapidamente, um cooler com cerveja, refrigerante e gelo enquanto Tati e Silvia se ocuparam dos comes que Dona Geisa havia gentilmente preparado. Pedro, Bruno e Tomás já tinham separado as frutas e a vodka para as caipis. Eu fiz questão de não olhar para ninguém durante todo esse tempo. Trocar palavras então, nem pensar. Precisava beber um pouco antes de conseguir contactar Pedro ou Bruno.
Assim que todos começaram a subir na lancha, Ana fez sinal para eu ir com ela ao quarto, antes de partirmos.
_Clara, me ajuda a pegar umas toalhas?
Subimos ao segundo andar e, enquanto eu segurava as toalhas que ela ia tirando do roupeiro, já foi logo cuspindo a curiosidade:
_Estou enganada ou perdi alguma coisa ontem? To achando todo mundo com uma cara estranha, tipo ninguém fala com ninguém.
_Como assim? Caras emburradas?
_É, exatamente. Larissa parece ter brigado com Bruno. Pedro está meio tímido e você acordou cedo e sumiu com David.
_Aconteceu. Muita coisa. Mas não dá pra te contar agora, porque demora muito. Vambora que eu vou te contando aos poucos.
Quando entramos a bordo, Luiza logo nos chamou para tomar sol e eu achei isso um alívio. Precisava ter algo concreto para fazer, do contrário, não saberia como agir nem o que falar. Ana decidiu sentar-se com Larissa inicialmente e fez sinal para que aguardássemos por ela na proa. De soslaio, vi que Pedro estava num papo animado com Leo e Tomás. E percebi que ele também não estava fazendo questão de estar em contato comigo naquela manhã. Mas nem me incomodei. Ao menos, não a princípio.
Assim que deitei ao lado de Luiza, ela me fez a mesma pergunta que Ana.
_Amiga, está tudo bem?
_Sei lá... ontem foi um dia esquisito. – eu fui contando a ela tudo o que eu tinha ouvido e feito, desde a revelação de Silvia, passando pelo telefonema e a discussão com Pedro até o papo-cabeça da madrugada com Bruno.
_Nusga, que tanto de informação para um simples domingo! To meio confusa.
_Se você está confusa, imagina sua amiga aqui?
_Ai Clarinha, se a gente contar, ninguém acredita. Sua vida dava um filme, hein?
_Ou uma novela mexicana, daquelas bem dramalhonas. – dito isso nós duas morremos de rir e, de longe, Ana, que nos observava enquanto dava atenção à priminha emburrada e aos outros convidados, já apresentava seus sinais de curiosidade mórbida.
Mas quem primeiro se aproximou de nós duas foi David...
Ainda vou escrever um livro...
terça-feira, 19 de outubro de 2010
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Capítulo 13 - parte 2
_Boa noite, Bruno. Foi boa essa nossa conversa. Outra madrugada dessas a gente repete a dose. – eu não queria que ele fosse embora.
_Foi sim, muito boa. Podemos repetir numa outra madrugada, ou numa outra hora qualquer, aqui ou em Belo Horizonte. Talvez, se eu estiver precisando de uma consulta no dentista... – ele riu, com um sorriso que eu já reconhecia de outro rosto, embora muito parecido.
_Ah, será um prazer recebê-lo.
_E vocês também podem conhecer o meu novo bar, que foi aberto no final do ano. Está bombando, sabia?
_Ana me contou a respeito. Vamos sim, será uma honra.
_Você pode ir com o Pedro. Prometo conseguir um lugar especial para vocês.
_Posso ir com minhas amigas – não entendi porque a necessidade de corrigi-lo. Eu estava flertando com ele?
_Claro, pode ir com quem quiser. Pode ir até sozinha, não faltará companhia para uma destrambelhada desequilibrada sentimentalóide e rancorosa!
_Nossa, minha análise é sofrível!
_Desculpe, agora eu fui cruel. Deixe-me consertar: Não faltará companhia para uma dentista linda, simpática e divertida como você.
_Ai, agora fiquei tímida. – disse abaixando o rosto.
_Não seja boba, são elogios sinceros e inocentes.
_Obrigada, Bruno. – eu ainda estava vermelha.
_Por nada. Bom, vou indo. – ele se levantou. – Boa noite.
Antes que pudesse pensar, chamei por ele, que já entrava de volta na sala:
_Bruno?
_Sim? – ele parou e se virou para me olhar.
_Você precisa mesmo ir agora? – perguntei sentindo as bochechas queimarem.
_Não. Você quer minha companhia?
_Na verdade, é que preciso te perguntar uma coisa. É meio séria. Pode ser? – soltei sem pensar muito no que estava fazendo.
_Claro que pode. – ele já estava vindo novamente em minha direção – Mas deixa te dizer uma coisa antes. Já que vamos ser sérios.
_Pode dizer. – eu senti meu corpo gelar.
_Achei que você não ia me perguntar nunca. – ele me olhava dentro dos olhos.
_Não entendi. – eu disse quase engasgando.
_Estou facilitando as coisas para você Clara, não entendeu?
_Estou confusa. – me fiz de desentendida, tentando ganhar tempo para ensaiar um discurso ou sei lá o quê.
_Clara, está escrito na sua cara que você quer falar do Caio. – ele falou na lata e eu estremeci inteira.
_Do Caio? Como você sabe? – falei gaguejando como um réu incriminado até o último fio de cabelo.
_Bom, vamos enumerar. Primeiro porque sua cara fantasma quando eu cheguei já me deu uma dica...
_Ah, é claro! Mas é que fiquei surpresa de conhecer você e...
_E eu ser a cara do seu ex-namorado, né? – ele completou a frase para mim.
_Soube hoje que vocês são primos. Silvia me contou. Cara, nunca podia imaginar!
_Contou, foi?
_Contou. E contou também que provavelmente você tinha sacado todo o lance. E, confesso, fiquei muito impressionada por tanta gente que eu mal conheço saber tanto sobre a minha vida. – disse meio sem jeito.
_Eu não sei nada da sua vida. Eu sei um pouco sobre a do Caio. E sei que ele foi apaixonado por uma garota chamada Clara. Só isso.
_Foi? – jamais deixaria de perceber o tempo verbal – No passado, então. Game over, baby! Por que tanto estresse, né? Já passou! – eu estava enganando quem, meu Deus?
_Clara, não me complica, vai. Caio é meu primo, um amigão do peito, crescemos juntos, somos como irmãos. Ele está namorando agora e não acho justo dizer nada por ele, em especial para você. – ele disse me ignorando.
_Tá, eu sei, vocês homens são todos corporativistas.
_Corporativistas? Essa foi boa! – ele disse com cara cínica.
_Eu entendo sua postura, ta? Eu faria a mesma coisa no seu lugar. É só que eu estou sentindo um cheirinho esquisito, tipo de que será difícil olhar pra você amanhã, depois desta conversa.
_Clara, não seja boba! – ele disse meio sem paciência. – Eu matei logo a charada de que você era a tal Clara de quem eu já ouvi tanto falar, pelo Caio. E na verdade, pouco antes do Carnaval, nós dois saímos juntos e quando falei que viria pra cá, ele comentou sobre uma amiga de escola que tinha casa aqui em Condados, de nome Ana.
_Ah é?
_É, e ele disse também que essa Ana era a melhor amiga da Clara. Coincidência ou não, quando eu entrei e você fez a maior cara de choque eu nem precisei ser apresentado a você para saber de quem se tratava.
_E, ainda por cima, eu pergunto com a maior falta de sutileza sobre um médico chamado Caio. Ai meu Deus, só mesmo Clara, a transparente, pra fazer isso. Nem se eu quisesse poderia ser detetive um dia na vida.
_Você é mesmo engraçada para comentar as coisas.
_Engraçada não, patética. Foi difícil mesmo para você matar essa charada, hein?
_Pois é, nada difícil.
_Puxa, que situação... – disse com a cabeça baixa, sem nem tentar olhar para ele.
_Não fique assim, já estou me arrependendo de ter te falado isso. Já te disse, gosto da sua espontaneidade. E entendo, inclusive, porque Caio é tão louco por você.
Não pude deixar de me sentir lisonjeada com essa frase e reparar que agora o tempo verbal era o presente – é louco por você. Mesmo assim, quis mudar um pouco a direção do assunto, e tentar descobrir alguma coisa nova, já que o assunto estava completamente ferrado pro meu lado, o melhor a fazer era esculhambar geral.
_Mas você não disse a ele que estava vindo para a casa de uma Ana, prima da sua namorada?
_Pra falar verdade, não. Já imaginava essa possibilidade, de essa Ana amiga do Caio ser a mesma Ana prima da Lari. Não quis contar isso pra ele, sem ter certeza, afinal era só uma possibilidade. E, além disso, ultimamente, Caio anda querendo fugir desse assunto.
_Desse assunto? – fiz cara de incrédula.
_Assunto Clara.
_Agora eu sou um assunto?
_Não, a história de vocês é um assunto.
_Sei... – disse meio desapontada. Comecei a imaginar a figura que Caio pintou ao meu respeito para ele, por eu ser um assunto tão recorrente.
Depois de um breve silêncio, ele tornou a falar, tocando meu ombro:
_Clara, todo mundo tem um amor mal resolvido. Homens falam sobre isso também, embora vocês mulheres achem que não. – ele tentou se explicar.
_Bruno, o nosso amor não é só mal resolvido. Ele é mal vivido, mal amado, mal entendido, mal discutido. – eu tentei me explicar também, pela segunda vez, naquele domingo.
_Vai ver por isso é tão especial para vocês.
_É, vai ver que é...
Fez-se novamente um silêncio constrangedor naquela madrugada estranha. Ele olhava para o nada, como se estivesse longe dali. Após alguns segundos, que mais pareceram séculos, ele se virou para mim e disse, num tom de voz forte e seguro:
_Posso te dizer uma coisa, se você me der liberdade?
_Claro, diga sim. – não tinha nada mais a esconder naquela noite.
_Acho que todas as coisas precisam ser experimentadas e vivenciadas ao máximo. E precisam ser concluídas também. E não me refiro só as coisas materiais, mas aos sentimentos, aos sonhos e ideais. Do contrário, fica sempre uma coisa no ar, fazendo mal, criando expectativas erradas, alimentando mal entendidos desnecessários.
_Concordo com tudo que você disse. Mas neste caso, o buraco é mais embaixo, Bruno. Você provavelmente sabe a versão do Caio nesta história toda.
_É, provavelmente. – ele balançou a cabeça concordando e continuou – Mas eu conheço o Caio. Bem demais. E sei como ele é com as mulheres. E não preciso conhecer a sua versão para saber que não há mocinhos ou vilões nesta história. Mas são vocês dois que precisam ver isso de uma forma mais racional, para poderem chegar a uma conclusão definitiva.
_Conclusão? Que conclusão?
_Se vão se separar de vez ou ficar juntos, ora. – engoli em seco ao ouvir estas palavras dele. Nunca havia parado para pensar que pudesse haver uma chance de isso ter uma conclusão.
_Já existe uma definição, Bruno. Ele tem uma namorada. – eu me fiz e resignada.
_Pelo que eu sei o fato de você ter tido um outro namorado nunca foi suficiente para definir esta história toda.
_É diferente! – esbravejei – Caio entrou na minha vida quando já existia uma história, com este namorado. Foi ele que mudou tudo. Mas essa tal namorada dele, não. É um caso novo. Ele virou a minha página e encontrou uma nova pessoa.
_É, uma pessoa incrível. – ele confirmou e eu gelei ao ouvi-lo pronunciar as palavras com tanta firmeza. Nem conhecia a garota, mas detesta-la era parte óbvia na minha natureza de fêmea ferida. Fui incapaz de responder. Mas ele continuou, após o silêncio que dei como resposta.
– Uma pessoa incrível que ele não ama e não se deixa amar porque é incapaz de esquecer você. – desta vez entrei em choque. Nunca imaginei que ele me diria isto. Ele havia acabado de dizer que não falaria pelo Caio. Estava congelada e com o coração quase saindo pela boca. Não queria que ele parasse de falar nunca. Mas tive que dizer alguma coisa, para não dar mais bandeira ainda, se é que seria possível ter ainda alguma bandeira para dar, aquela altura do campeonato.
_Nem sei o que dizer, mas acho que não é bem assim, Bruno. – gaguejei.
_É sim, claro que é. – ele disse meio ríspido demais – É tão difícil perceber isso? Porque para mim é óbvio. Sabe, sempre achei Caio meio tapado nesta história toda e, agora, estou vendo que você também é.
_Bruno, sejamos práticos, a verdade é bem simples: Eu nunca consegui esquecê-lo e nem ele a mim. Ponto final. Mas as razões para isso é que são difíceis de entender. Não tem ninguém tapado nesta história.
_Tem sim, os dois, pelo que estou vendo. Vocês acham que um não conseguir esquecer o outro é mera obra do destino. E não é! Nenhum de vocês dois tentou esquecer o outro, pra começar.
_Anh? – disse meio surpresa, mas completei – Claro que tentamos.
_Claro que não tentaram! – ele disse como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo – Não quiseram esquecer! Vocês alimentam esta história e tentam fingir o contrário. Se quisessem, já teriam racionalizado isso faz tempo.
_Nossa, mas parece tão fácil para você!
_Eu sei que não é fácil. Não disse isso. Não mesmo! Mas é possível, Clara. A questão é que tanto você como Caio precisam manter essa coisa mal resolvida no coração, para terem desculpa de infelicidade ou sei lá o quê.
_Você está dizendo que eu sou infeliz, que quero ser infeliz e gosto disso?
_Espera aí, calma... não seja tão dramática!– ele tentou me acalmar, mas eu continuei:
_Não, já sei, você está dizendo que eu não esqueço o Caio porque gosto de sofrer por ele, é isso?
_Mais ou menos – ele riu.
_Juro que não reconheço esse meu lado sadomasô. – falei de forma sincera. Nunca ouvi uma versão tão “tapa na cara” como essa. Nem Ana teria conseguido ser mais ácida comigo. E ele havia dito que não julgava as pessoas.
_Clara, você acha mesmo que vai conseguir levar um relacionamento adiante antes de encerrar esta história com Caio no seu coração?
_Não sei... nunca pensei sobre isso.
_Pois pense. Eu fiz esta mesma pergunta para ele há um tempo atrás e sabe o que ele me respondeu?
_O quê? – perguntei ansiosa.
_Palavras dele: “Acho que eu preciso ter a Clara na minha vida, nem que seja para odiá-la, por nunca termos vivido uma história de amor” – ele citou as palavras de Caio, fazendo sinais de aspas com os dedos.
As lágrimas pinicaram meus olhos e eu tentei, com toda a força do meu corpo, não chorar na frente de Bruno. E, depois disso tudo e dos pulos que meu coração dava, só consegui ser ainda mais sincera com ele:
_Olha, já faço terapia há muito tempo e jamais minha terapeuta conseguiu me dar uma descrição tão perfeita da minha história, como Caio fez pra você.
Ele sorriu, mas antes que pudesse me responder qualquer coisa, uma sombra surgiu atrás da espreguiçadeira em que estávamos sentados.
_Vocês estão aí até agora? – a sombra perguntou e imediatamente reconheci aquela voz.
_Pedro?! O que você está fazendo aqui? – perguntei sem conseguir disfarçar a cara de assustada.
_Vim pegar um pouco d´água e vi uma luz acesa. – ele respondeu com o rosto meio amassado e sonolento.
_Já estávamos subindo. Eu também desci para pegar água e vi a Clara sozinha aqui fora, tomando sorvete. Emendamos um longo papo na seqüência e, pelo visto, nem vimos a hora passar.
_Conversas da madrugada costumam render. – ele sorriu pelos cantos da boca, meio sem graça.
_Mas já acabou! Estou com sono. – eu quis logo cortar o assunto. – Eu fui uma das primeiras a subir para dormir e, por causa de uma mensagem, acabei descendo para fazer uma ligação e fui ficando, ficando...
_É melhor irmos todos dormir então. – Bruno decretou.
_Isso, vamos. – Pedro concordou
_Boa noite meninos. Durmam bem – Bruno disse simpático – Ah, foi ótimo conversar com você, Clara.
_Foi sim, ótimo. – eu respondi muito sem graça – Boa noite Bruno.
Olhei para Pedro e percebi que ele assistia a minha troca de olhares e sorrisos com Bruno com cara de desconfiado.
Assim que Bruno começou a subir as escadas, segurei a mão de Pedro e perguntei:
_Vamos subir também?
_Clara, desculpe ter sido ríspido com você, mais cedo... sobre a garota do David – percebi que ele estava fazendo um esforço enorme para dizer aquilo.
_Ah, esquece. Nem é da minha conta mesmo. – juro que estava sendo sincera, aquela altura do campeonato o que menos me interessava era saber sobre uma possível paquera de Pedro.
_Tudo bem, mas quero te dizer que você pode me perguntar o que quiser, tá?
_Tá bom. Mas, agora, vamos dormir? – eu insisti em puxá-lo pela mão.
_Antes me responde uma coisa?
_O quê?
_Quem é Caio? Seu ex, esse com quem você terminou há pouco? – ele perguntou meio tímido.
_Não. Meu último namorado se chama Lucas. – disse com paciência – Caio é um namoradinho de infância, sem importância – menti deslavadamente me perguntando se seria possível ele ter ouvido alguma coisa do que eu e Bruno conversávamos.
_Tá bom, desculpa insistir, é só curiosidade. – ele sorriu.
_Vocês homens também são curiosos, né?
_Nem sempre. Às vezes. Depende dos telefonemas que as gatas recebem perto da gente – ele riu e me beijou o rosto.
E então fomos, finalmente, dormir. Cada um em seu quarto.
Na Lagoa, o reflexo da lua já desaparecia para dar lugar aos primeiros raios do sol que começava a nascer.
_Foi sim, muito boa. Podemos repetir numa outra madrugada, ou numa outra hora qualquer, aqui ou em Belo Horizonte. Talvez, se eu estiver precisando de uma consulta no dentista... – ele riu, com um sorriso que eu já reconhecia de outro rosto, embora muito parecido.
_Ah, será um prazer recebê-lo.
_E vocês também podem conhecer o meu novo bar, que foi aberto no final do ano. Está bombando, sabia?
_Ana me contou a respeito. Vamos sim, será uma honra.
_Você pode ir com o Pedro. Prometo conseguir um lugar especial para vocês.
_Posso ir com minhas amigas – não entendi porque a necessidade de corrigi-lo. Eu estava flertando com ele?
_Claro, pode ir com quem quiser. Pode ir até sozinha, não faltará companhia para uma destrambelhada desequilibrada sentimentalóide e rancorosa!
_Nossa, minha análise é sofrível!
_Desculpe, agora eu fui cruel. Deixe-me consertar: Não faltará companhia para uma dentista linda, simpática e divertida como você.
_Ai, agora fiquei tímida. – disse abaixando o rosto.
_Não seja boba, são elogios sinceros e inocentes.
_Obrigada, Bruno. – eu ainda estava vermelha.
_Por nada. Bom, vou indo. – ele se levantou. – Boa noite.
Antes que pudesse pensar, chamei por ele, que já entrava de volta na sala:
_Bruno?
_Sim? – ele parou e se virou para me olhar.
_Você precisa mesmo ir agora? – perguntei sentindo as bochechas queimarem.
_Não. Você quer minha companhia?
_Na verdade, é que preciso te perguntar uma coisa. É meio séria. Pode ser? – soltei sem pensar muito no que estava fazendo.
_Claro que pode. – ele já estava vindo novamente em minha direção – Mas deixa te dizer uma coisa antes. Já que vamos ser sérios.
_Pode dizer. – eu senti meu corpo gelar.
_Achei que você não ia me perguntar nunca. – ele me olhava dentro dos olhos.
_Não entendi. – eu disse quase engasgando.
_Estou facilitando as coisas para você Clara, não entendeu?
_Estou confusa. – me fiz de desentendida, tentando ganhar tempo para ensaiar um discurso ou sei lá o quê.
_Clara, está escrito na sua cara que você quer falar do Caio. – ele falou na lata e eu estremeci inteira.
_Do Caio? Como você sabe? – falei gaguejando como um réu incriminado até o último fio de cabelo.
_Bom, vamos enumerar. Primeiro porque sua cara fantasma quando eu cheguei já me deu uma dica...
_Ah, é claro! Mas é que fiquei surpresa de conhecer você e...
_E eu ser a cara do seu ex-namorado, né? – ele completou a frase para mim.
_Soube hoje que vocês são primos. Silvia me contou. Cara, nunca podia imaginar!
_Contou, foi?
_Contou. E contou também que provavelmente você tinha sacado todo o lance. E, confesso, fiquei muito impressionada por tanta gente que eu mal conheço saber tanto sobre a minha vida. – disse meio sem jeito.
_Eu não sei nada da sua vida. Eu sei um pouco sobre a do Caio. E sei que ele foi apaixonado por uma garota chamada Clara. Só isso.
_Foi? – jamais deixaria de perceber o tempo verbal – No passado, então. Game over, baby! Por que tanto estresse, né? Já passou! – eu estava enganando quem, meu Deus?
_Clara, não me complica, vai. Caio é meu primo, um amigão do peito, crescemos juntos, somos como irmãos. Ele está namorando agora e não acho justo dizer nada por ele, em especial para você. – ele disse me ignorando.
_Tá, eu sei, vocês homens são todos corporativistas.
_Corporativistas? Essa foi boa! – ele disse com cara cínica.
_Eu entendo sua postura, ta? Eu faria a mesma coisa no seu lugar. É só que eu estou sentindo um cheirinho esquisito, tipo de que será difícil olhar pra você amanhã, depois desta conversa.
_Clara, não seja boba! – ele disse meio sem paciência. – Eu matei logo a charada de que você era a tal Clara de quem eu já ouvi tanto falar, pelo Caio. E na verdade, pouco antes do Carnaval, nós dois saímos juntos e quando falei que viria pra cá, ele comentou sobre uma amiga de escola que tinha casa aqui em Condados, de nome Ana.
_Ah é?
_É, e ele disse também que essa Ana era a melhor amiga da Clara. Coincidência ou não, quando eu entrei e você fez a maior cara de choque eu nem precisei ser apresentado a você para saber de quem se tratava.
_E, ainda por cima, eu pergunto com a maior falta de sutileza sobre um médico chamado Caio. Ai meu Deus, só mesmo Clara, a transparente, pra fazer isso. Nem se eu quisesse poderia ser detetive um dia na vida.
_Você é mesmo engraçada para comentar as coisas.
_Engraçada não, patética. Foi difícil mesmo para você matar essa charada, hein?
_Pois é, nada difícil.
_Puxa, que situação... – disse com a cabeça baixa, sem nem tentar olhar para ele.
_Não fique assim, já estou me arrependendo de ter te falado isso. Já te disse, gosto da sua espontaneidade. E entendo, inclusive, porque Caio é tão louco por você.
Não pude deixar de me sentir lisonjeada com essa frase e reparar que agora o tempo verbal era o presente – é louco por você. Mesmo assim, quis mudar um pouco a direção do assunto, e tentar descobrir alguma coisa nova, já que o assunto estava completamente ferrado pro meu lado, o melhor a fazer era esculhambar geral.
_Mas você não disse a ele que estava vindo para a casa de uma Ana, prima da sua namorada?
_Pra falar verdade, não. Já imaginava essa possibilidade, de essa Ana amiga do Caio ser a mesma Ana prima da Lari. Não quis contar isso pra ele, sem ter certeza, afinal era só uma possibilidade. E, além disso, ultimamente, Caio anda querendo fugir desse assunto.
_Desse assunto? – fiz cara de incrédula.
_Assunto Clara.
_Agora eu sou um assunto?
_Não, a história de vocês é um assunto.
_Sei... – disse meio desapontada. Comecei a imaginar a figura que Caio pintou ao meu respeito para ele, por eu ser um assunto tão recorrente.
Depois de um breve silêncio, ele tornou a falar, tocando meu ombro:
_Clara, todo mundo tem um amor mal resolvido. Homens falam sobre isso também, embora vocês mulheres achem que não. – ele tentou se explicar.
_Bruno, o nosso amor não é só mal resolvido. Ele é mal vivido, mal amado, mal entendido, mal discutido. – eu tentei me explicar também, pela segunda vez, naquele domingo.
_Vai ver por isso é tão especial para vocês.
_É, vai ver que é...
Fez-se novamente um silêncio constrangedor naquela madrugada estranha. Ele olhava para o nada, como se estivesse longe dali. Após alguns segundos, que mais pareceram séculos, ele se virou para mim e disse, num tom de voz forte e seguro:
_Posso te dizer uma coisa, se você me der liberdade?
_Claro, diga sim. – não tinha nada mais a esconder naquela noite.
_Acho que todas as coisas precisam ser experimentadas e vivenciadas ao máximo. E precisam ser concluídas também. E não me refiro só as coisas materiais, mas aos sentimentos, aos sonhos e ideais. Do contrário, fica sempre uma coisa no ar, fazendo mal, criando expectativas erradas, alimentando mal entendidos desnecessários.
_Concordo com tudo que você disse. Mas neste caso, o buraco é mais embaixo, Bruno. Você provavelmente sabe a versão do Caio nesta história toda.
_É, provavelmente. – ele balançou a cabeça concordando e continuou – Mas eu conheço o Caio. Bem demais. E sei como ele é com as mulheres. E não preciso conhecer a sua versão para saber que não há mocinhos ou vilões nesta história. Mas são vocês dois que precisam ver isso de uma forma mais racional, para poderem chegar a uma conclusão definitiva.
_Conclusão? Que conclusão?
_Se vão se separar de vez ou ficar juntos, ora. – engoli em seco ao ouvir estas palavras dele. Nunca havia parado para pensar que pudesse haver uma chance de isso ter uma conclusão.
_Já existe uma definição, Bruno. Ele tem uma namorada. – eu me fiz e resignada.
_Pelo que eu sei o fato de você ter tido um outro namorado nunca foi suficiente para definir esta história toda.
_É diferente! – esbravejei – Caio entrou na minha vida quando já existia uma história, com este namorado. Foi ele que mudou tudo. Mas essa tal namorada dele, não. É um caso novo. Ele virou a minha página e encontrou uma nova pessoa.
_É, uma pessoa incrível. – ele confirmou e eu gelei ao ouvi-lo pronunciar as palavras com tanta firmeza. Nem conhecia a garota, mas detesta-la era parte óbvia na minha natureza de fêmea ferida. Fui incapaz de responder. Mas ele continuou, após o silêncio que dei como resposta.
– Uma pessoa incrível que ele não ama e não se deixa amar porque é incapaz de esquecer você. – desta vez entrei em choque. Nunca imaginei que ele me diria isto. Ele havia acabado de dizer que não falaria pelo Caio. Estava congelada e com o coração quase saindo pela boca. Não queria que ele parasse de falar nunca. Mas tive que dizer alguma coisa, para não dar mais bandeira ainda, se é que seria possível ter ainda alguma bandeira para dar, aquela altura do campeonato.
_Nem sei o que dizer, mas acho que não é bem assim, Bruno. – gaguejei.
_É sim, claro que é. – ele disse meio ríspido demais – É tão difícil perceber isso? Porque para mim é óbvio. Sabe, sempre achei Caio meio tapado nesta história toda e, agora, estou vendo que você também é.
_Bruno, sejamos práticos, a verdade é bem simples: Eu nunca consegui esquecê-lo e nem ele a mim. Ponto final. Mas as razões para isso é que são difíceis de entender. Não tem ninguém tapado nesta história.
_Tem sim, os dois, pelo que estou vendo. Vocês acham que um não conseguir esquecer o outro é mera obra do destino. E não é! Nenhum de vocês dois tentou esquecer o outro, pra começar.
_Anh? – disse meio surpresa, mas completei – Claro que tentamos.
_Claro que não tentaram! – ele disse como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo – Não quiseram esquecer! Vocês alimentam esta história e tentam fingir o contrário. Se quisessem, já teriam racionalizado isso faz tempo.
_Nossa, mas parece tão fácil para você!
_Eu sei que não é fácil. Não disse isso. Não mesmo! Mas é possível, Clara. A questão é que tanto você como Caio precisam manter essa coisa mal resolvida no coração, para terem desculpa de infelicidade ou sei lá o quê.
_Você está dizendo que eu sou infeliz, que quero ser infeliz e gosto disso?
_Espera aí, calma... não seja tão dramática!– ele tentou me acalmar, mas eu continuei:
_Não, já sei, você está dizendo que eu não esqueço o Caio porque gosto de sofrer por ele, é isso?
_Mais ou menos – ele riu.
_Juro que não reconheço esse meu lado sadomasô. – falei de forma sincera. Nunca ouvi uma versão tão “tapa na cara” como essa. Nem Ana teria conseguido ser mais ácida comigo. E ele havia dito que não julgava as pessoas.
_Clara, você acha mesmo que vai conseguir levar um relacionamento adiante antes de encerrar esta história com Caio no seu coração?
_Não sei... nunca pensei sobre isso.
_Pois pense. Eu fiz esta mesma pergunta para ele há um tempo atrás e sabe o que ele me respondeu?
_O quê? – perguntei ansiosa.
_Palavras dele: “Acho que eu preciso ter a Clara na minha vida, nem que seja para odiá-la, por nunca termos vivido uma história de amor” – ele citou as palavras de Caio, fazendo sinais de aspas com os dedos.
As lágrimas pinicaram meus olhos e eu tentei, com toda a força do meu corpo, não chorar na frente de Bruno. E, depois disso tudo e dos pulos que meu coração dava, só consegui ser ainda mais sincera com ele:
_Olha, já faço terapia há muito tempo e jamais minha terapeuta conseguiu me dar uma descrição tão perfeita da minha história, como Caio fez pra você.
Ele sorriu, mas antes que pudesse me responder qualquer coisa, uma sombra surgiu atrás da espreguiçadeira em que estávamos sentados.
_Vocês estão aí até agora? – a sombra perguntou e imediatamente reconheci aquela voz.
_Pedro?! O que você está fazendo aqui? – perguntei sem conseguir disfarçar a cara de assustada.
_Vim pegar um pouco d´água e vi uma luz acesa. – ele respondeu com o rosto meio amassado e sonolento.
_Já estávamos subindo. Eu também desci para pegar água e vi a Clara sozinha aqui fora, tomando sorvete. Emendamos um longo papo na seqüência e, pelo visto, nem vimos a hora passar.
_Conversas da madrugada costumam render. – ele sorriu pelos cantos da boca, meio sem graça.
_Mas já acabou! Estou com sono. – eu quis logo cortar o assunto. – Eu fui uma das primeiras a subir para dormir e, por causa de uma mensagem, acabei descendo para fazer uma ligação e fui ficando, ficando...
_É melhor irmos todos dormir então. – Bruno decretou.
_Isso, vamos. – Pedro concordou
_Boa noite meninos. Durmam bem – Bruno disse simpático – Ah, foi ótimo conversar com você, Clara.
_Foi sim, ótimo. – eu respondi muito sem graça – Boa noite Bruno.
Olhei para Pedro e percebi que ele assistia a minha troca de olhares e sorrisos com Bruno com cara de desconfiado.
Assim que Bruno começou a subir as escadas, segurei a mão de Pedro e perguntei:
_Vamos subir também?
_Clara, desculpe ter sido ríspido com você, mais cedo... sobre a garota do David – percebi que ele estava fazendo um esforço enorme para dizer aquilo.
_Ah, esquece. Nem é da minha conta mesmo. – juro que estava sendo sincera, aquela altura do campeonato o que menos me interessava era saber sobre uma possível paquera de Pedro.
_Tudo bem, mas quero te dizer que você pode me perguntar o que quiser, tá?
_Tá bom. Mas, agora, vamos dormir? – eu insisti em puxá-lo pela mão.
_Antes me responde uma coisa?
_O quê?
_Quem é Caio? Seu ex, esse com quem você terminou há pouco? – ele perguntou meio tímido.
_Não. Meu último namorado se chama Lucas. – disse com paciência – Caio é um namoradinho de infância, sem importância – menti deslavadamente me perguntando se seria possível ele ter ouvido alguma coisa do que eu e Bruno conversávamos.
_Tá bom, desculpa insistir, é só curiosidade. – ele sorriu.
_Vocês homens também são curiosos, né?
_Nem sempre. Às vezes. Depende dos telefonemas que as gatas recebem perto da gente – ele riu e me beijou o rosto.
E então fomos, finalmente, dormir. Cada um em seu quarto.
Na Lagoa, o reflexo da lua já desaparecia para dar lugar aos primeiros raios do sol que começava a nascer.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Capítulo 13 - parte 1
Me deitei na espreguiçadeira da varanda, sozinha. Seria impossível subir para dormir naquela hora, a adrenalina estava a mil no meu corpo, que há pouco atrás estava tão cansado. Decidi ir até a cozinha e preparar uma sobremesa com sorvete, calda de caramelo, leite-condensado e castanha, bem gigante, para aplacar minha raiva. Carboidrato era sempre um bom conselheiro nessas horas. E talvez eu estivesse mesmo precisando pular a parte do alimento indigesto, Caio, no meu jantar e ir direto a sobremesa.
Quando eu menos esperava, ouvi alguém descendo as escadas.
_Assaltando a geladeira? Insônia ou larica?
_Bruno? – eu reconheci a voz dele e me virei.
_Vim pegar um copo de água, estou meio sem sono. Larissa já capotou há horas e eu já zapeei todos os canais uma centena de vezes.
_Larissa já dormiu? Isso quer dizer que você deu uma canseira nela, então. – eu falei sem pensar.
_Eu, é... Como? – ele ficou vermelho.
_Ah, desculpe Bruno. Quanta indelicadeza. Achei que estava brincando com uma das minhas amigas. Não devia ter dito isso.
_Não tem problema. Gostei da sua sinceridade. – ele riu.
_Sinceridade? Essa minha língua enorme hoje está ferina. Desculpe, de verdade.
_Não tem problema, mesmo – ele repetiu. – Gosto desse seu jeito moleca e espontânea.
_Espontânea, eu?
_Sim, você. E acho você muito autêntica por isso. Poucas mulheres são assim como você, eu acho isso fascinante. – ele disse bastante firme.
_Por quê? Uma língua metralhadora não é nada atraente ao meu ver! – eu quis me auto-flagelar.
_Ah, que nada. Vocês mulheres, de modo geral, são todas falantes, mas poucas dizem a verdade, como você diz. Isso faz a gente se sentir íntimo e tudo mais. Sabe, Clara, senti isso desde o primeiro momento em que te vi. Acho que já te conheço há séculos. – senti um arrepio depois que ele disse isso.
_É mesmo? – me fiz de boba
_É sim. Vai ver a gente já se esbarrou por aí, não é?
_Com certeza. E como você trabalha na noite, provavelmente isso pode ter acontecido mesmo.
_Pode sim. – ele respondeu se sentando ao meu lado.
Nós rimos, meio sem jeito, e ficou aquele momento difícil do silêncio, aquele clima esquisito que ninguém quer interromper. Ainda bem que eu podia continuar entretida no meu sorvete. Mas sentia que ele não tirava os olhos de mim.
_Bruno, vou te dizer uma coisa. Você me deixa nervosa. – eu não me contive e disse olhando nos olhos dele, que estavam bem próximos a mim.
_Nervosa? Como? Por quê?
_Ah, não sei, quando a gente se olha, sinto que você está me avaliando o tempo todo.
_Avaliando? Não, imagina. – ele riu de um jeito gostoso, como quem escuta uma piadinha boba, mas relaxante – Talvez admirando.
_Sério, é assim que eu me sinto.
_Deve ser porque fico tentando lembrar de onde eu poderia conhecer você – não sei se era ilusão, mas comecei a perceber onde ele queria chegar, ou talvez deixar espaço para eu comentar o que eu não queria, de jeito nenhum. Não de novo, não hoje, não com ele. Já tinha rolado uma enxurrada de Caio naquele domingo e o último desfecho, com Pedro, não tinha sido dos melhores.
_Você está gostando de Condados, Bruno? – tentei mudar de assunto.
_Estou sim. Na verdade, eu já conhecia o condomínio e a cidade de Santa Fé. Mas faz muito tempo desde a última vez que estive aqui.
_Seus amigos são bastante legais. Eles estão gostando também?
_Estão sim, as garotas principalmente, estão encantadas com a simpatia e a animação de vocês.
_Ah, que bom. Vocês são todos muito amigos, né?
_Somos sim, de infância. Aqueles dois são meus irmãos. Você e Ana também são muito amigas, né?
_Somos sim, irmãs também, desculpe o plágio. – eu disse rindo – Ana e eu costumamos brincar que somos amigas de alma. Sabemos tudo da vida uma da outra. Até lemos os pensamentos uma da outra. Ana é ímpar na minha vida.
_E Luiza? Ela também é amigona de vocês, né?
_Sim, claro, mas é que eu e Ana somos amiga há bem mais tempo, sabe? Mas Lu também é muito querida por nós duas. Temos nossa turminha, sabe? Amigos de colégio, os melhores do mundo, né?
_Ah, definitivamente. Insuperáveis.
_Insuperáveis, ótima definição. – eu concordei com ele, de novo.
_Larissa já havia me falado de vocês duas. Ela sempre comenta das amigas da prima Ana.
_Comenta... – eu disse num tom irônico.
_Sabe, acho que ela tem um pouco de ciúme da intimidade de vocês. – ele disse como se estivesse fazendo uma super fofoca.
_Ah, todo mundo saca isso! E até imagino o que ela deve ter falado de mim para você.
_Falou bem, muito bem, pode acreditar. Por quê ela não falaria?
_Ah tá, não precisa fingir que não sabe que eu e Larissa nos odiamos, Bruno. – eu gargalhei – ela nunca esconderia isso do namorado. Aliás, nós duas temos poucas coisas em comum, mas a franqueza é uma delas. Tenho certeza de que ela te deu um relatório completo sobre o amor que nutre por mim.
_Ah, Clara, você é mesmo uma figura. Tá bom, não é que vocês sejam amigas, mas...
_Nos toleramos. – eu o interrompi, antes que ele tentasse ser polido – Por causa da Ana. Só isso.
_Mas porque toda essa bobagem, hein?
_Nem sei como começou direito – eu menti – mas são histórias velhas e infantis.
_Então, se são velhas, porque tanto rancor? Larissa é bastante imatura mesmo, mas você não me parece... – ele não completou a frase.
_Ah, mas é que eu não sou o que pareço.
_Ah não? E o que você é? – ele pareceu curioso.
_Rancorosa. E sentimentalóide. E bem pouco prática. E um tiquinho infantil, também. – admiti, fingindo vergonha.
_E um bocado auto-crítica, pelo visto. Muito bom, mais um ponto pra você.
_Não disse que você estava me avaliando?
_Não é avaliação.
_Bom, de qualquer jeito, não quero nem saber a versão que Larissa te contou de toda essa história de ódio, rancor e ciúme – falei imitando a voz de um locutor de novela mexicana.
_Ela não disse nada de importante, pode acreditar.
_Mas isso, também, não tem importância, já que agora você me conhece bem, já me avaliou o suficiente e pode tirar suas próprias conclusões ao meu respeito.
_Pára, não diga isso, Clara! Foi forte, sabia? – ele disse sério – Eu não avaliei você coisa nenhuma! Aliás, eu não julgo ninguém, nunca. Não é da minha natureza.
_Taí uma mentira deslavada. Todo mundo julga tudo. Pessoas, ações, coisas, lugares, sentimentos. De uma forma ou de outra.
_Eu não julgo. Ao menos este tipo de julgamento que você está pensando.
_Tá, então me responda: O que você faz quando ouve uma história, assiste a uma discussão, sei lá. Não toma partido?
_Faço o normal. Assisto, ouço, observo. E deixo que as pessoas decidam suas próprias vidas da forma que acharem melhor. Elas não precisam da minha opinião.
_Nossa, que adulto isso. – eu fui irônica.
_Ah, é só uma forma de levar as coisas de um jeito mais leve. Cada um com seus problemas, concorda?
_Concordo. Mas... – suspirei – realmente não entendo.
_O que você não entende, Clara? – ele fez uma cara de compreensão.
_Não entendo você, Bruno. Pra começar, o que um cara legal como você viu numa menina mimada, desagradável e intolerante como Larissa? Além da beleza física, é obvio. – não resisti.
_Uau, agora você foi cruel.
_Desculpe, não quis ofender.
_A mim ou a ela? – ele soltou uma gargalhada.
_A você, é claro. – eu ri junto – Mas, sério, desculpa, de novo. Não quero me intrometer na sua vida, não tenho nada com isso. Claro que ela tem qualidades.
_Tem sim, muitas. Ela é muito mais do que essa mulher mimada, arrogante e intolerante que todo mundo vê. – confesso que gostei da parte do “todo mundo vê”, mas não ousei dizer isso a ele.
_Eu sei. Lamento pela overdose de franqueza. Estou meio desequilibrada hoje, sabe?
_Todos temos qualidades e defeitos. E equilíbrios e desequilíbrios, também.
_Até você? Também fica desequilibrado, às vezes? Tem defeitos? Não acredito! – eu brinquei com ele.
_Claro que tenho defeitos, né?
_Achei que você fosse legal assim sempre. – eu joguei um charme.
_Que nada, tenho várias fraquezas. – ele respondeu dirigindo o olhar ao chão.
_E quando entra em cena seu lado mau?
_Acredite, você não gostaria de conhecê-lo. – ele continuava olhando pro chão – Sorte que estou numa fase tranqüila.
_É mesmo?
_É, do contrário talvez não agüentasse a Larissa. – ele levantou os olhos e disse rindo, cedendo à minha gargalhada que veio na seqüência.
_Bom, mas por que você disse estar desequilibrada hoje? Me pareceu estar bem feliz o dia todo, com Pedro te cortejando e tudo mais. – ele tinha um sorriso enigmático nos lábios.
_Não, deixa pra lá... foi só uma força de expressão. É que eu disse muita besteira hoje, só isso.
_Entendi. Bom, acho que vou me deitar, então. Tentar dormir. A gente pode fazer outro passeio de lancha amanhã, o que você acha?
_Seria ótimo. Vamos pedir ao David! Existem uns Cânions legais, perto daqui. Ele sabe como ir até lá. Vocês todos vão adorar. É lindo.
_Ah, sim, isso. Parece que ouvi os meninos comentarem que vai ter um show num desses Cânions.
_Exatamente. Vamos falar com ele pela manhã. Será uma boa pedida.
_Então, boa noite, Clara. Até amanhã.
Quando eu menos esperava, ouvi alguém descendo as escadas.
_Assaltando a geladeira? Insônia ou larica?
_Bruno? – eu reconheci a voz dele e me virei.
_Vim pegar um copo de água, estou meio sem sono. Larissa já capotou há horas e eu já zapeei todos os canais uma centena de vezes.
_Larissa já dormiu? Isso quer dizer que você deu uma canseira nela, então. – eu falei sem pensar.
_Eu, é... Como? – ele ficou vermelho.
_Ah, desculpe Bruno. Quanta indelicadeza. Achei que estava brincando com uma das minhas amigas. Não devia ter dito isso.
_Não tem problema. Gostei da sua sinceridade. – ele riu.
_Sinceridade? Essa minha língua enorme hoje está ferina. Desculpe, de verdade.
_Não tem problema, mesmo – ele repetiu. – Gosto desse seu jeito moleca e espontânea.
_Espontânea, eu?
_Sim, você. E acho você muito autêntica por isso. Poucas mulheres são assim como você, eu acho isso fascinante. – ele disse bastante firme.
_Por quê? Uma língua metralhadora não é nada atraente ao meu ver! – eu quis me auto-flagelar.
_Ah, que nada. Vocês mulheres, de modo geral, são todas falantes, mas poucas dizem a verdade, como você diz. Isso faz a gente se sentir íntimo e tudo mais. Sabe, Clara, senti isso desde o primeiro momento em que te vi. Acho que já te conheço há séculos. – senti um arrepio depois que ele disse isso.
_É mesmo? – me fiz de boba
_É sim. Vai ver a gente já se esbarrou por aí, não é?
_Com certeza. E como você trabalha na noite, provavelmente isso pode ter acontecido mesmo.
_Pode sim. – ele respondeu se sentando ao meu lado.
Nós rimos, meio sem jeito, e ficou aquele momento difícil do silêncio, aquele clima esquisito que ninguém quer interromper. Ainda bem que eu podia continuar entretida no meu sorvete. Mas sentia que ele não tirava os olhos de mim.
_Bruno, vou te dizer uma coisa. Você me deixa nervosa. – eu não me contive e disse olhando nos olhos dele, que estavam bem próximos a mim.
_Nervosa? Como? Por quê?
_Ah, não sei, quando a gente se olha, sinto que você está me avaliando o tempo todo.
_Avaliando? Não, imagina. – ele riu de um jeito gostoso, como quem escuta uma piadinha boba, mas relaxante – Talvez admirando.
_Sério, é assim que eu me sinto.
_Deve ser porque fico tentando lembrar de onde eu poderia conhecer você – não sei se era ilusão, mas comecei a perceber onde ele queria chegar, ou talvez deixar espaço para eu comentar o que eu não queria, de jeito nenhum. Não de novo, não hoje, não com ele. Já tinha rolado uma enxurrada de Caio naquele domingo e o último desfecho, com Pedro, não tinha sido dos melhores.
_Você está gostando de Condados, Bruno? – tentei mudar de assunto.
_Estou sim. Na verdade, eu já conhecia o condomínio e a cidade de Santa Fé. Mas faz muito tempo desde a última vez que estive aqui.
_Seus amigos são bastante legais. Eles estão gostando também?
_Estão sim, as garotas principalmente, estão encantadas com a simpatia e a animação de vocês.
_Ah, que bom. Vocês são todos muito amigos, né?
_Somos sim, de infância. Aqueles dois são meus irmãos. Você e Ana também são muito amigas, né?
_Somos sim, irmãs também, desculpe o plágio. – eu disse rindo – Ana e eu costumamos brincar que somos amigas de alma. Sabemos tudo da vida uma da outra. Até lemos os pensamentos uma da outra. Ana é ímpar na minha vida.
_E Luiza? Ela também é amigona de vocês, né?
_Sim, claro, mas é que eu e Ana somos amiga há bem mais tempo, sabe? Mas Lu também é muito querida por nós duas. Temos nossa turminha, sabe? Amigos de colégio, os melhores do mundo, né?
_Ah, definitivamente. Insuperáveis.
_Insuperáveis, ótima definição. – eu concordei com ele, de novo.
_Larissa já havia me falado de vocês duas. Ela sempre comenta das amigas da prima Ana.
_Comenta... – eu disse num tom irônico.
_Sabe, acho que ela tem um pouco de ciúme da intimidade de vocês. – ele disse como se estivesse fazendo uma super fofoca.
_Ah, todo mundo saca isso! E até imagino o que ela deve ter falado de mim para você.
_Falou bem, muito bem, pode acreditar. Por quê ela não falaria?
_Ah tá, não precisa fingir que não sabe que eu e Larissa nos odiamos, Bruno. – eu gargalhei – ela nunca esconderia isso do namorado. Aliás, nós duas temos poucas coisas em comum, mas a franqueza é uma delas. Tenho certeza de que ela te deu um relatório completo sobre o amor que nutre por mim.
_Ah, Clara, você é mesmo uma figura. Tá bom, não é que vocês sejam amigas, mas...
_Nos toleramos. – eu o interrompi, antes que ele tentasse ser polido – Por causa da Ana. Só isso.
_Mas porque toda essa bobagem, hein?
_Nem sei como começou direito – eu menti – mas são histórias velhas e infantis.
_Então, se são velhas, porque tanto rancor? Larissa é bastante imatura mesmo, mas você não me parece... – ele não completou a frase.
_Ah, mas é que eu não sou o que pareço.
_Ah não? E o que você é? – ele pareceu curioso.
_Rancorosa. E sentimentalóide. E bem pouco prática. E um tiquinho infantil, também. – admiti, fingindo vergonha.
_E um bocado auto-crítica, pelo visto. Muito bom, mais um ponto pra você.
_Não disse que você estava me avaliando?
_Não é avaliação.
_Bom, de qualquer jeito, não quero nem saber a versão que Larissa te contou de toda essa história de ódio, rancor e ciúme – falei imitando a voz de um locutor de novela mexicana.
_Ela não disse nada de importante, pode acreditar.
_Mas isso, também, não tem importância, já que agora você me conhece bem, já me avaliou o suficiente e pode tirar suas próprias conclusões ao meu respeito.
_Pára, não diga isso, Clara! Foi forte, sabia? – ele disse sério – Eu não avaliei você coisa nenhuma! Aliás, eu não julgo ninguém, nunca. Não é da minha natureza.
_Taí uma mentira deslavada. Todo mundo julga tudo. Pessoas, ações, coisas, lugares, sentimentos. De uma forma ou de outra.
_Eu não julgo. Ao menos este tipo de julgamento que você está pensando.
_Tá, então me responda: O que você faz quando ouve uma história, assiste a uma discussão, sei lá. Não toma partido?
_Faço o normal. Assisto, ouço, observo. E deixo que as pessoas decidam suas próprias vidas da forma que acharem melhor. Elas não precisam da minha opinião.
_Nossa, que adulto isso. – eu fui irônica.
_Ah, é só uma forma de levar as coisas de um jeito mais leve. Cada um com seus problemas, concorda?
_Concordo. Mas... – suspirei – realmente não entendo.
_O que você não entende, Clara? – ele fez uma cara de compreensão.
_Não entendo você, Bruno. Pra começar, o que um cara legal como você viu numa menina mimada, desagradável e intolerante como Larissa? Além da beleza física, é obvio. – não resisti.
_Uau, agora você foi cruel.
_Desculpe, não quis ofender.
_A mim ou a ela? – ele soltou uma gargalhada.
_A você, é claro. – eu ri junto – Mas, sério, desculpa, de novo. Não quero me intrometer na sua vida, não tenho nada com isso. Claro que ela tem qualidades.
_Tem sim, muitas. Ela é muito mais do que essa mulher mimada, arrogante e intolerante que todo mundo vê. – confesso que gostei da parte do “todo mundo vê”, mas não ousei dizer isso a ele.
_Eu sei. Lamento pela overdose de franqueza. Estou meio desequilibrada hoje, sabe?
_Todos temos qualidades e defeitos. E equilíbrios e desequilíbrios, também.
_Até você? Também fica desequilibrado, às vezes? Tem defeitos? Não acredito! – eu brinquei com ele.
_Claro que tenho defeitos, né?
_Achei que você fosse legal assim sempre. – eu joguei um charme.
_Que nada, tenho várias fraquezas. – ele respondeu dirigindo o olhar ao chão.
_E quando entra em cena seu lado mau?
_Acredite, você não gostaria de conhecê-lo. – ele continuava olhando pro chão – Sorte que estou numa fase tranqüila.
_É mesmo?
_É, do contrário talvez não agüentasse a Larissa. – ele levantou os olhos e disse rindo, cedendo à minha gargalhada que veio na seqüência.
_Bom, mas por que você disse estar desequilibrada hoje? Me pareceu estar bem feliz o dia todo, com Pedro te cortejando e tudo mais. – ele tinha um sorriso enigmático nos lábios.
_Não, deixa pra lá... foi só uma força de expressão. É que eu disse muita besteira hoje, só isso.
_Entendi. Bom, acho que vou me deitar, então. Tentar dormir. A gente pode fazer outro passeio de lancha amanhã, o que você acha?
_Seria ótimo. Vamos pedir ao David! Existem uns Cânions legais, perto daqui. Ele sabe como ir até lá. Vocês todos vão adorar. É lindo.
_Ah, sim, isso. Parece que ouvi os meninos comentarem que vai ter um show num desses Cânions.
_Exatamente. Vamos falar com ele pela manhã. Será uma boa pedida.
_Então, boa noite, Clara. Até amanhã.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Capítulo 12
Apesar de ter ficado aos beijos com Pedro até bem tarde daquele domingo, não parei um só minuto de pensar em Caio e em toda aquela conversa reveladora que tivera mais cedo com Silvia. Resolvi não comentar nada daquilo com Ana ou Luiza, ao menos inicialmente, apesar de elas saberem mais sobre esta minha história com Caio do que eu mesma. Senti que eu precisava refletir, sozinha, sobre aquilo tudo.
Há pouco tempo atrás, Marina, minha terapeuta, havia me dito algo assim: “Clara, às vezes, antes de pedir opinião ou conselhos a quem quer que seja, sobre um problema ou uma dor, lembre-se de que isso é como um ingrediente indesejado no prato num jantar de gala. É necessário mastigar o ingrediente (o problema ou a dor), sentir o seu gosto verdadeiro, que pode até não ser tão ruim como se imagina, engolir devagar até chegar ao ponto de digeri-lo, com elegância, sem que ninguém perceba. Só então é válido ver o cardápio de sobremesa para tentar se livrar do gosto que deixou”.
Ao me lembrar desta conversa com Marina, percebi que aquela era uma situação perfeita para por esta idéia em prática. Pedro estava com um cardápio de sobremesas bem na minha frente, não era necessário eu discutir nada com minhas amigas para poder relaxar. Se eu fizesse isso sozinha, depois poderia tirar o gosto amargo das minhas dúvidas existenciais com ele, ou seja, seria pouco provável eu assumir a velha posição de “coitada” que costumo assumir quando estou na fossa. Eu podia ter outra visão desse jogo, ou melhor, desse jantar louco em que eu me meti neste carnaval.
Quando fui me deitar, vi que havia uma ligação perdida no meu celular que havia ficado carregando a bateria, esquecido, na pia do banheiro. Era de Rafaela. Já passava de 1h da madrugada e naquele domingo ninguém havia animado esticar a noite. Passamos o dia todo churrascando e aquilo se estendeu até o início da madrugada. Nem David, o solteiro aflito, quis sair. Mas vi que ele tinha dado uma escapulida no meio da tarde e voltado bem à noitinha. Luiza e Leo estavam dormindo na cama ao lado e, para não acordá-los, decidi que era melhor retornar a ligação no dia seguinte. Mas quando dei o END na ligação, uma imagem em forma de envelope piscou na tela e vi que uma mensagem de texto havia chegado também.
“AMIGA, PRECISAMOS FOFOCAR. VC NÃO ACREDITA QUEM ENCONTRAMOS EM SSA. LIGA PRA GENTE. BJ, JO E RAFA.”
Aí, a coisa toda mudou de figura, porque se eu tenho um defeito grave, este é curiosidade. A ligação simples poderia esperar, pois certamente seria só farra de amiga bêbada que adora ligar pros outros. Mas, aquela mensagem, despertou meu lado mais vicioso. Tive que descer e fazer a ligação.
Ao chegar na sala de TV, Ana e David, que eu havia deixado lá há 5 minutos vendo um filme, já estavam apagados. Pedro e Fabio terminavam uma prosa e uma garrafa de cerveja na mesa da varanda. Os outros todos já estavam dormindo.
_Resolveu voltar, Claríssima? Saudades ou veio ver se eu não fugi? – Pedro disse assim que colocou os olhos em mim.
_Bobo... na verdade, só vim fazer uma ligação.
_Aconteceu alguma coisa? – Fábio quis saber.
_Acho que não, foi só um recado que recebi de amigas que estão em Salvador. Elas ligaram antes, pediram pra eu retornar, mas só vi agora.
_Ah, fofocas então! – Pedro concluiu.
_Mais ou menos... – eu ri
_Não ia nem dormir se não soubesse dos babados, Pedro! Você não entende as mulheres? – Fábio brincou comigo.
_Me dêem licença, ta? – eu quis encerrar o assunto e ir matar a curiosidade.
Saí em direção à área da piscina, um pouco mais à frente de onde eles estavam. E, enquanto discava, ouvi que eles voltaram ao assunto que discutiam antes, algo sobre carros ou coisa assim.
No primeiro toque, uma voz familiar, meio ébria e muito alegre, gritou do outro lado da linha:
_Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara! Amiga, cadê você? Não pode imaginar a loucura que está isso aqui.
_Joana, sua bêbada lunática! Eu estou em Condados, na casa da Ana. Mas eu é que pergunto, qual o babado? Cadê a Rafaela? Por que está com o telefone dela?
_Ah, sumiu... deve estar beijando alguém por aí. E você? Pegou alguma coisa? Como está por aí?
_Está ótimo, depois te conto detalhes. – disse disfarçando, pois não dava pra saber se eles podiam ouvir o que eu falava.
_Entendi, não pode falar, né? Mas, então, só me responde se pegou ou não...
_Sim. – respondi rindo.
_Que bom, pois tenho uma notícia esquisita pra você.
_Esquisita? Por isso mandou a mensagem? Quem está aí?
_Você não vai acreditar!
_Fala logo! – eu insisti, detesto suspense.
_Sabe quem encontramos no camarote agora à noite durante o show da Ivete?
_Quem, Joana?! Fala, para de enrolar!
_Caio Souto Antunes. Dr Anestesiologista em carne, osso, dentes e muito álcool no lance. – ela foi categórica como Ana costuma ser.
_O quê? – dei um grito, instintivamente – Caio está em Salvador?
Quando percebi o que acabara de fazer, olhei pro lado, tremendo, rezando para que Fábio e Pedro não estivessem prestando atenção. Mas, claro, eles estavam quase com os olhos colados em mim, provavelmente devido ao meu grito histérico. Bem, pensei, mas eles nem sabem quem é Caio. Apesar de que nem seria preciso dizer nada, minha cara de choque deveria estar falando tudo o que eles queriam saber.
Abaixei meu tom de voz, fui voltando ao normal, para tentar assimilar tudo o que precisava. Também me afastei mais, em direção a sauna, para ficar o mais longe possível de olhares e ouvidos curiosos. E, como uma metralhadora, fui perguntando tudo o que era preciso para Joana, que tentava me responder, claro, no limite de seu nível alcoólico. Descobri bem pouca coisa útil. Que ele estava com a namoradinha médica idiota a tiracolo e, assim que pôde se livrar dela por alguns minutos, perguntou às meninas sobre mim e, ainda, afirmou que ficara sabendo que eu e Lucas havíamos terminando novamente. Assim que elas confirmaram, Joana disse que ele emendou ironicamente um “Vamos ver até quando ela consegue ficar sem aquele playboy”. Ah, mas que ódio dele ter dito isso! Pra quê saber de mim se estava feliz e contente com a “medicazinha perfeita” dele em Salvador? Metido e babaca, eu pensei.
Quando voltei à varanda, Pedro ainda estava lá. Mas Fábio, não mais. Estirado numa cadeira, de olhos fechados, ele parecia estar me esperando.
Fui me aproximando e ele, assim que ouviu meus passos, abriu os olhos e foi logo dizendo:
_Então, Clara, parece que as tais notícias soteropolitanas foram quentes, hein? – não consegui definir se existia uma certa ironia no tom dele.
_Foram sim, Pedro. Um pouco. – eu não ia mentir, seria estúpido demais fingir que faço aquele show todo por bobagens sem sentido.
_Caio... – ele disse sem me olhar nos olhos – então esse é o cara que faz você ficar assim tão ouriçada?
_Ouriçada? Que expressão é essa? Não estou tão ouriçada!
_Então o que foi aquele grito histérico? – o jeito que ele falou, meio irônico, meio dono da verdade, me deixou muito irritada, além do que eu já estava.
_Que grito histérico, Pedro? – respondi com desdém – Só fiquei surpresa com uma notícia, este é meu jeito. Por quê você está me intimando, todo irônico, assim? – minha voz estava um tom acima do que eu desejava.
_Epa, calma! Não estou te intimando nem nada parecido, gata. Não confunde as coisas – ele mantinha o mesmo tom, controlado, infinitamente superior ao meu, algo que os homens costumam fazer com maestria – Só fiquei curioso pra saber quem era o cara.
_Não é ninguém que mereça ser conhecido. – eu tentava parecer o mais natural possível, em vão, é claro.
_É o ex, né? – ele disse rindo, meio esquisito, dando um tapinha na minha perna.
_Não, não é. Só um paquera de adolescência, nada demais. A surpresa foi só porque eu não o vejo há tempos. Está satisfeito? – eu estava meio brava demais.
_Clara, pra que toda essa defensiva? Não tenho nada com a sua vida. – ele foi muito frio – Por mim, você pode falar e sentir o que quiser. Desculpa perguntar, fui indiscreto, né?
_Na verdade, foi sim. E agora você disse tudo, não temos nada um com a vida do outro, certo? – eu quis sair por cima.
_Nada. – ele disse virando o rosto pro outro lado, com um sorriso cínico de canto de boca.
Era a hora de encerrar o assunto, mas eu não me contive e continuei jogando lenha na fogueira já bastante inflamada do meu domingo.
_Deve ser por isso que eu não sei nada sobre você, não é Pedro?
_Como? – Ele dirigiu o olhar pra mim, com cara de interrogação.
_Eu. Não sei nada sobre você, já reparou? – disse com cara cínica – Deve ser porque não temos nada com a vida um do outro.
_Não estou entendendo, Clara...
_Pedro, qual a sua idade? Você trabalha com o que? Onde mora? Tem namorada, família?
_Ah isso... Que besteira! – ele fez uma cara como se estivesse falando com a pessoa mais idiota do mundo – Precisa saber mesmo isso tudo?
_Precisar, não precisa, mas é legal saber, só algumas coisas básicas, já que estamos trocando mais que palavras e drinques...
_Então pergunta o que você quer saber, ora. Eu não me escondo, nem para falar ao telefone. – ele quis me ironizar.
_Não quero perguntar nada, você conta se e quando quiser. Só quis te mostrar que sua vida não é um livro aberto, querido. Lembre-se disso antes de dizer que eu estou na defensiva. – meu lado atriz - advogada estava berrando.
_Ah, sem drama, Clara. Nada a ver!
_Não é drama. Só estamos conversando.
_Espera aí, é impressão minha ou você está irritada?
_É impressão sua. – mentira pura, eu estava irritadíssima.
_Bom, então, eu sou o Pedro Amarante Ferraz, arquiteto, solteiro, 29 anos. Amante de baladas e futebol, atleticano roxo, tenho um escritório de arquitetura com meu amigo Leo, que você já conhece, e adoro pizzas aos fins de semana. Está bom por hoje? – ele foi dizendo tudo como um candidato a emprego numa entrevista.
Eu nem me dei ao trabalho de responder.
_E acho que vou dormir porque a prosa não está indo pelo melhor caminho, certo? Amanhã será um novo dia.
_Será sim, Pedro, novo dia. Boa noite e durma bem. – eu tentei ser sincera.
_Mais alguma pergunta, Dra. Clara? Ou posso te dar um beijo de boa noite para você não ir dormir brava comigo e eu perder todas as chances do mundo de um dia poder fazer um projeto bem bacana para seu consultório de odontologia? – ele já estava voltando ao normal, cheio de piadinhas.
_Sabe que eu tenho sim?
_Então, faça. – ele estava solícito.
_Aquela moça loira, que o David pegou ontem, na boate. Foi impressão minha, ou vocês já se conheciam? – antes que eu terminasse a frase, a expressão dele já estava diferente.
_Posso me dar o direito de não responder?
_Pode. Mas foi você quem disse que eu podia perguntar.
_Eu sei, mas a questão é: Isso faz diferença?
_Saber quem é Caio fez pra você?
Ele apenas suspirou como resposta, sem tirar os olhos dos meus.
_Nenhuma, esquece. – eu dei um beijo no rosto dele – Não é um interrogatório. Desculpe. Boa noite.
_Boa noite, Claríssima. – ele me beijou na boca.
Fiquei me sentindo a pior das mortais. O que foi aquilo com Pedro? Uma discussão de relação? Com dois dias de pegação no Carnaval? Eu estava louca ou o quê? Que coisa patética! E mais patético ainda foi o motivo que fez tudo aquilo começar: Caio! Ah não, ele estava presente demais em Condados, que chatice.
Há pouco tempo atrás, Marina, minha terapeuta, havia me dito algo assim: “Clara, às vezes, antes de pedir opinião ou conselhos a quem quer que seja, sobre um problema ou uma dor, lembre-se de que isso é como um ingrediente indesejado no prato num jantar de gala. É necessário mastigar o ingrediente (o problema ou a dor), sentir o seu gosto verdadeiro, que pode até não ser tão ruim como se imagina, engolir devagar até chegar ao ponto de digeri-lo, com elegância, sem que ninguém perceba. Só então é válido ver o cardápio de sobremesa para tentar se livrar do gosto que deixou”.
Ao me lembrar desta conversa com Marina, percebi que aquela era uma situação perfeita para por esta idéia em prática. Pedro estava com um cardápio de sobremesas bem na minha frente, não era necessário eu discutir nada com minhas amigas para poder relaxar. Se eu fizesse isso sozinha, depois poderia tirar o gosto amargo das minhas dúvidas existenciais com ele, ou seja, seria pouco provável eu assumir a velha posição de “coitada” que costumo assumir quando estou na fossa. Eu podia ter outra visão desse jogo, ou melhor, desse jantar louco em que eu me meti neste carnaval.
Quando fui me deitar, vi que havia uma ligação perdida no meu celular que havia ficado carregando a bateria, esquecido, na pia do banheiro. Era de Rafaela. Já passava de 1h da madrugada e naquele domingo ninguém havia animado esticar a noite. Passamos o dia todo churrascando e aquilo se estendeu até o início da madrugada. Nem David, o solteiro aflito, quis sair. Mas vi que ele tinha dado uma escapulida no meio da tarde e voltado bem à noitinha. Luiza e Leo estavam dormindo na cama ao lado e, para não acordá-los, decidi que era melhor retornar a ligação no dia seguinte. Mas quando dei o END na ligação, uma imagem em forma de envelope piscou na tela e vi que uma mensagem de texto havia chegado também.
“AMIGA, PRECISAMOS FOFOCAR. VC NÃO ACREDITA QUEM ENCONTRAMOS EM SSA. LIGA PRA GENTE. BJ, JO E RAFA.”
Aí, a coisa toda mudou de figura, porque se eu tenho um defeito grave, este é curiosidade. A ligação simples poderia esperar, pois certamente seria só farra de amiga bêbada que adora ligar pros outros. Mas, aquela mensagem, despertou meu lado mais vicioso. Tive que descer e fazer a ligação.
Ao chegar na sala de TV, Ana e David, que eu havia deixado lá há 5 minutos vendo um filme, já estavam apagados. Pedro e Fabio terminavam uma prosa e uma garrafa de cerveja na mesa da varanda. Os outros todos já estavam dormindo.
_Resolveu voltar, Claríssima? Saudades ou veio ver se eu não fugi? – Pedro disse assim que colocou os olhos em mim.
_Bobo... na verdade, só vim fazer uma ligação.
_Aconteceu alguma coisa? – Fábio quis saber.
_Acho que não, foi só um recado que recebi de amigas que estão em Salvador. Elas ligaram antes, pediram pra eu retornar, mas só vi agora.
_Ah, fofocas então! – Pedro concluiu.
_Mais ou menos... – eu ri
_Não ia nem dormir se não soubesse dos babados, Pedro! Você não entende as mulheres? – Fábio brincou comigo.
_Me dêem licença, ta? – eu quis encerrar o assunto e ir matar a curiosidade.
Saí em direção à área da piscina, um pouco mais à frente de onde eles estavam. E, enquanto discava, ouvi que eles voltaram ao assunto que discutiam antes, algo sobre carros ou coisa assim.
No primeiro toque, uma voz familiar, meio ébria e muito alegre, gritou do outro lado da linha:
_Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara! Amiga, cadê você? Não pode imaginar a loucura que está isso aqui.
_Joana, sua bêbada lunática! Eu estou em Condados, na casa da Ana. Mas eu é que pergunto, qual o babado? Cadê a Rafaela? Por que está com o telefone dela?
_Ah, sumiu... deve estar beijando alguém por aí. E você? Pegou alguma coisa? Como está por aí?
_Está ótimo, depois te conto detalhes. – disse disfarçando, pois não dava pra saber se eles podiam ouvir o que eu falava.
_Entendi, não pode falar, né? Mas, então, só me responde se pegou ou não...
_Sim. – respondi rindo.
_Que bom, pois tenho uma notícia esquisita pra você.
_Esquisita? Por isso mandou a mensagem? Quem está aí?
_Você não vai acreditar!
_Fala logo! – eu insisti, detesto suspense.
_Sabe quem encontramos no camarote agora à noite durante o show da Ivete?
_Quem, Joana?! Fala, para de enrolar!
_Caio Souto Antunes. Dr Anestesiologista em carne, osso, dentes e muito álcool no lance. – ela foi categórica como Ana costuma ser.
_O quê? – dei um grito, instintivamente – Caio está em Salvador?
Quando percebi o que acabara de fazer, olhei pro lado, tremendo, rezando para que Fábio e Pedro não estivessem prestando atenção. Mas, claro, eles estavam quase com os olhos colados em mim, provavelmente devido ao meu grito histérico. Bem, pensei, mas eles nem sabem quem é Caio. Apesar de que nem seria preciso dizer nada, minha cara de choque deveria estar falando tudo o que eles queriam saber.
Abaixei meu tom de voz, fui voltando ao normal, para tentar assimilar tudo o que precisava. Também me afastei mais, em direção a sauna, para ficar o mais longe possível de olhares e ouvidos curiosos. E, como uma metralhadora, fui perguntando tudo o que era preciso para Joana, que tentava me responder, claro, no limite de seu nível alcoólico. Descobri bem pouca coisa útil. Que ele estava com a namoradinha médica idiota a tiracolo e, assim que pôde se livrar dela por alguns minutos, perguntou às meninas sobre mim e, ainda, afirmou que ficara sabendo que eu e Lucas havíamos terminando novamente. Assim que elas confirmaram, Joana disse que ele emendou ironicamente um “Vamos ver até quando ela consegue ficar sem aquele playboy”. Ah, mas que ódio dele ter dito isso! Pra quê saber de mim se estava feliz e contente com a “medicazinha perfeita” dele em Salvador? Metido e babaca, eu pensei.
Quando voltei à varanda, Pedro ainda estava lá. Mas Fábio, não mais. Estirado numa cadeira, de olhos fechados, ele parecia estar me esperando.
Fui me aproximando e ele, assim que ouviu meus passos, abriu os olhos e foi logo dizendo:
_Então, Clara, parece que as tais notícias soteropolitanas foram quentes, hein? – não consegui definir se existia uma certa ironia no tom dele.
_Foram sim, Pedro. Um pouco. – eu não ia mentir, seria estúpido demais fingir que faço aquele show todo por bobagens sem sentido.
_Caio... – ele disse sem me olhar nos olhos – então esse é o cara que faz você ficar assim tão ouriçada?
_Ouriçada? Que expressão é essa? Não estou tão ouriçada!
_Então o que foi aquele grito histérico? – o jeito que ele falou, meio irônico, meio dono da verdade, me deixou muito irritada, além do que eu já estava.
_Que grito histérico, Pedro? – respondi com desdém – Só fiquei surpresa com uma notícia, este é meu jeito. Por quê você está me intimando, todo irônico, assim? – minha voz estava um tom acima do que eu desejava.
_Epa, calma! Não estou te intimando nem nada parecido, gata. Não confunde as coisas – ele mantinha o mesmo tom, controlado, infinitamente superior ao meu, algo que os homens costumam fazer com maestria – Só fiquei curioso pra saber quem era o cara.
_Não é ninguém que mereça ser conhecido. – eu tentava parecer o mais natural possível, em vão, é claro.
_É o ex, né? – ele disse rindo, meio esquisito, dando um tapinha na minha perna.
_Não, não é. Só um paquera de adolescência, nada demais. A surpresa foi só porque eu não o vejo há tempos. Está satisfeito? – eu estava meio brava demais.
_Clara, pra que toda essa defensiva? Não tenho nada com a sua vida. – ele foi muito frio – Por mim, você pode falar e sentir o que quiser. Desculpa perguntar, fui indiscreto, né?
_Na verdade, foi sim. E agora você disse tudo, não temos nada um com a vida do outro, certo? – eu quis sair por cima.
_Nada. – ele disse virando o rosto pro outro lado, com um sorriso cínico de canto de boca.
Era a hora de encerrar o assunto, mas eu não me contive e continuei jogando lenha na fogueira já bastante inflamada do meu domingo.
_Deve ser por isso que eu não sei nada sobre você, não é Pedro?
_Como? – Ele dirigiu o olhar pra mim, com cara de interrogação.
_Eu. Não sei nada sobre você, já reparou? – disse com cara cínica – Deve ser porque não temos nada com a vida um do outro.
_Não estou entendendo, Clara...
_Pedro, qual a sua idade? Você trabalha com o que? Onde mora? Tem namorada, família?
_Ah isso... Que besteira! – ele fez uma cara como se estivesse falando com a pessoa mais idiota do mundo – Precisa saber mesmo isso tudo?
_Precisar, não precisa, mas é legal saber, só algumas coisas básicas, já que estamos trocando mais que palavras e drinques...
_Então pergunta o que você quer saber, ora. Eu não me escondo, nem para falar ao telefone. – ele quis me ironizar.
_Não quero perguntar nada, você conta se e quando quiser. Só quis te mostrar que sua vida não é um livro aberto, querido. Lembre-se disso antes de dizer que eu estou na defensiva. – meu lado atriz - advogada estava berrando.
_Ah, sem drama, Clara. Nada a ver!
_Não é drama. Só estamos conversando.
_Espera aí, é impressão minha ou você está irritada?
_É impressão sua. – mentira pura, eu estava irritadíssima.
_Bom, então, eu sou o Pedro Amarante Ferraz, arquiteto, solteiro, 29 anos. Amante de baladas e futebol, atleticano roxo, tenho um escritório de arquitetura com meu amigo Leo, que você já conhece, e adoro pizzas aos fins de semana. Está bom por hoje? – ele foi dizendo tudo como um candidato a emprego numa entrevista.
Eu nem me dei ao trabalho de responder.
_E acho que vou dormir porque a prosa não está indo pelo melhor caminho, certo? Amanhã será um novo dia.
_Será sim, Pedro, novo dia. Boa noite e durma bem. – eu tentei ser sincera.
_Mais alguma pergunta, Dra. Clara? Ou posso te dar um beijo de boa noite para você não ir dormir brava comigo e eu perder todas as chances do mundo de um dia poder fazer um projeto bem bacana para seu consultório de odontologia? – ele já estava voltando ao normal, cheio de piadinhas.
_Sabe que eu tenho sim?
_Então, faça. – ele estava solícito.
_Aquela moça loira, que o David pegou ontem, na boate. Foi impressão minha, ou vocês já se conheciam? – antes que eu terminasse a frase, a expressão dele já estava diferente.
_Posso me dar o direito de não responder?
_Pode. Mas foi você quem disse que eu podia perguntar.
_Eu sei, mas a questão é: Isso faz diferença?
_Saber quem é Caio fez pra você?
Ele apenas suspirou como resposta, sem tirar os olhos dos meus.
_Nenhuma, esquece. – eu dei um beijo no rosto dele – Não é um interrogatório. Desculpe. Boa noite.
_Boa noite, Claríssima. – ele me beijou na boca.
Fiquei me sentindo a pior das mortais. O que foi aquilo com Pedro? Uma discussão de relação? Com dois dias de pegação no Carnaval? Eu estava louca ou o quê? Que coisa patética! E mais patético ainda foi o motivo que fez tudo aquilo começar: Caio! Ah não, ele estava presente demais em Condados, que chatice.
Capítulo 11 - parte 2
Por intermédio divino, ou sei lá o quê, Joana, minha amiga, me chamou neste exato momento e foi um alívio gigantesco ter um motivo real para sair de perto dele.
_Com licença, Caio, preciso ir...
_Espera Clara! Não precisa sair correndo. Não vou te devorar. – ele disse se desculpando, segurando forte a minha mão. E aquela cena me lembrou nosso primeiro beijo, na festa à fantasia para arrecadar dinheiro para a formatura, mais ou menos um ano antes.
Como num filme, voltei quinze meses atrás. Nós dois estávamos conversando, só os dois, num canto da boate, falando um tanto sobre diversos assuntos comuns à vida de vestibulandos e outro tanto trocando cantadas, sorrisos e olhares também, é claro. Eu estava fantasiada de Anjo, com uma asa enorme nas costas (destas que crianças costumam usar em coroações de igreja), e ele de Zorro, com chapéu, máscara e capa. De repente, ele fala alguma coisa que eu não ouço direito devido ao som alto. Tento me aproximar dele, mas a asa enorme esbarra em tudo e todos e eu, completamente estabanada, não consigo me mover. Ele fala um pouco mais alto, algo do tipo “meu anjo da guarda”, mas eu continuo sem entender a frase toda e, num impulso forte com o corpo, para me mover com asa e tudo mais, quase caio em cima dele, toda desequilibrada. Ficamos cara a cara, quase respirando o mesmo ar. Tinha certeza de que íamos nos beijar na seqüência, embora eu não tivesse planejado nada daquilo. Mas ele, instintivamente, se esquivou. Fiquei super sem-jeito e mortalmente envergonhada e logo me recompus. Tentei encerrar o papo e sair de perto dele (na medida em que sair de perto dele , logo, com aquela asa fosse possível, é claro), mas ele, caindo na real (afinal, ele não queria mesmo me beijar?), rapidamente, me segurou forte pela mão me impedindo de deixá-lo, assim como fazia naquela hora e, me puxando para junto dele, me beijou.
_Clara! – Joana voltou a me chamar e, sem querer, me trazendo de volta à realidade.
_Joana, espera um pouco. – eu me virei e disse piscando para ela entender meu recado. E, me voltando para ele, que ainda segurava minha mão, falei de forma um pouco mais ríspida do que realmente pretendia:
_Mais alguma coisa que queira me dizer, Caio?
_Na verdade, tem sim.
_O que é? – perguntei com o coração a 300 Km/hora e as mãos molhando sem saber o que esperar.
_Eu ainda continuo esperando por você no final de cada plantão de história.
Meus olhos se congelaram quando ouvi esta frase e, posso garantir, por mais que eu soubesse que Caio ainda sentia alguma coisa por mim, não imaginava que fosse algo assim tão forte, tão profundo. Vou ter que explicar por quê.
Essa brincadeira do “plantão de história” surgiu logo depois dessa festa à fantasia, na época em que ficávamos juntos no colégio e eu ainda namorava o Lucas. Toda tarde, depois das aulas, tinha os plantões pré-vestibulares, aquelas aulas “tira-dúvida” para os vestibulandos. E essas aulas eram subdivididas pelas áreas dos cursos escolhidos pelos alunos: exatas, humanas, biomédicas e gerenciais. Nas tardes de quinta, havia os plantões de História e Geografia para Biomédicas, ou seja, esses eram os plantões destinados aos que iam prestar vestibular para cursos da área da saúde e biologia. Portanto, como podem imaginar, eram plantões bem pouco freqüentados, visto que esses alunos preferiam os plantões de química e biologia, suas matérias específicas. E na nossa turma, apenas eu e Caio estávamos nesse grupo (mesmo que a pulguinha da publicidade já estivesse rondando minha vida, minha escolha central era a odontologia). Era freqüente, então, nós dois combinarmos de ir ao plantão de história como desculpa para ficarmos juntos, no fundo da sala, e trocarmos uns beijinhos ao final desta aula, quando a sala ficava vazia e não havia testemunhas. Era o nosso ponto de encontro semanal. Ana sempre brincava comigo: “Vai bater ponto no plantão de história?”. Mas a moral desta “brincadeira” toda foi que, como já comentei anteriormente, naquela época, Caio havia me dado uma intimada sobre eu continuar com Lucas e eu nunca dei a ele uma resposta definitiva. Nunca fiz a minha escolha. Simplesmente fugi. Dele, dos plantões, enfim, daquilo que tínhamos juntos. Simplesmente parei de ir ao plantão de história. E ele nunca comentou nada comigo sobre isso. Até aquele dia. Imaginava que ele tivesse entendido o recado, de que eu tinha fugindo daquela história. E, de repente, mais de um ano depois disso tudo, ele reaparecia com essa frase a tiracolo.
_Como é que é? – eu quase engasguei e disse meio sem ar, sem chão e sem reação.
_Isso mesmo que você ouviu – ele continuava segurando a minha mão e agora alisava o polegar sobre o dorso, de forma carinhosa – continuo esperando você todas as tardes de quinta-feira. Você sumiu e nunca mais apareceu, não me avisou que tinha perdido o interesse – ele me olhava no fundo dos olhos.
_Caio... eu, é...– eu nem sabia o que dizer a ele.
_Pensei em te dizer que eu continuo interessado nos plantões, ou melhor, no que rolava nos plantões – ele falou sorrindo, agora de forma doce e sincera, como era a minha melhor lembrança dele.
_Mesmo? – eu também sorri, mole como uma gelatina.
_Mesmo. E espero que a odontologia e essa nova vida não tenha feito você perder o interesse pela história, pelo plantão, pela minha companhia.
_Na verdade – disse com o peito explodindo – eu senti muita falta desses plantões desde que parei de freqüentá-los. Falta história na minha vida, sabia?
Então ele se levantou, me puxou de encontro ao seu corpo, passou a mão por debaixo dos meus cabelos e, segurando minha nuca, me beijou. Calmamente, de forma tímida, suave e deliciosa. Esse era o Caio. O meu Caio. Sem máscaras, sem subterfúgios, sem amarras, de volta para mim. Só para mim.
_Com licença, Caio, preciso ir...
_Espera Clara! Não precisa sair correndo. Não vou te devorar. – ele disse se desculpando, segurando forte a minha mão. E aquela cena me lembrou nosso primeiro beijo, na festa à fantasia para arrecadar dinheiro para a formatura, mais ou menos um ano antes.
Como num filme, voltei quinze meses atrás. Nós dois estávamos conversando, só os dois, num canto da boate, falando um tanto sobre diversos assuntos comuns à vida de vestibulandos e outro tanto trocando cantadas, sorrisos e olhares também, é claro. Eu estava fantasiada de Anjo, com uma asa enorme nas costas (destas que crianças costumam usar em coroações de igreja), e ele de Zorro, com chapéu, máscara e capa. De repente, ele fala alguma coisa que eu não ouço direito devido ao som alto. Tento me aproximar dele, mas a asa enorme esbarra em tudo e todos e eu, completamente estabanada, não consigo me mover. Ele fala um pouco mais alto, algo do tipo “meu anjo da guarda”, mas eu continuo sem entender a frase toda e, num impulso forte com o corpo, para me mover com asa e tudo mais, quase caio em cima dele, toda desequilibrada. Ficamos cara a cara, quase respirando o mesmo ar. Tinha certeza de que íamos nos beijar na seqüência, embora eu não tivesse planejado nada daquilo. Mas ele, instintivamente, se esquivou. Fiquei super sem-jeito e mortalmente envergonhada e logo me recompus. Tentei encerrar o papo e sair de perto dele (na medida em que sair de perto dele , logo, com aquela asa fosse possível, é claro), mas ele, caindo na real (afinal, ele não queria mesmo me beijar?), rapidamente, me segurou forte pela mão me impedindo de deixá-lo, assim como fazia naquela hora e, me puxando para junto dele, me beijou.
_Clara! – Joana voltou a me chamar e, sem querer, me trazendo de volta à realidade.
_Joana, espera um pouco. – eu me virei e disse piscando para ela entender meu recado. E, me voltando para ele, que ainda segurava minha mão, falei de forma um pouco mais ríspida do que realmente pretendia:
_Mais alguma coisa que queira me dizer, Caio?
_Na verdade, tem sim.
_O que é? – perguntei com o coração a 300 Km/hora e as mãos molhando sem saber o que esperar.
_Eu ainda continuo esperando por você no final de cada plantão de história.
Meus olhos se congelaram quando ouvi esta frase e, posso garantir, por mais que eu soubesse que Caio ainda sentia alguma coisa por mim, não imaginava que fosse algo assim tão forte, tão profundo. Vou ter que explicar por quê.
Essa brincadeira do “plantão de história” surgiu logo depois dessa festa à fantasia, na época em que ficávamos juntos no colégio e eu ainda namorava o Lucas. Toda tarde, depois das aulas, tinha os plantões pré-vestibulares, aquelas aulas “tira-dúvida” para os vestibulandos. E essas aulas eram subdivididas pelas áreas dos cursos escolhidos pelos alunos: exatas, humanas, biomédicas e gerenciais. Nas tardes de quinta, havia os plantões de História e Geografia para Biomédicas, ou seja, esses eram os plantões destinados aos que iam prestar vestibular para cursos da área da saúde e biologia. Portanto, como podem imaginar, eram plantões bem pouco freqüentados, visto que esses alunos preferiam os plantões de química e biologia, suas matérias específicas. E na nossa turma, apenas eu e Caio estávamos nesse grupo (mesmo que a pulguinha da publicidade já estivesse rondando minha vida, minha escolha central era a odontologia). Era freqüente, então, nós dois combinarmos de ir ao plantão de história como desculpa para ficarmos juntos, no fundo da sala, e trocarmos uns beijinhos ao final desta aula, quando a sala ficava vazia e não havia testemunhas. Era o nosso ponto de encontro semanal. Ana sempre brincava comigo: “Vai bater ponto no plantão de história?”. Mas a moral desta “brincadeira” toda foi que, como já comentei anteriormente, naquela época, Caio havia me dado uma intimada sobre eu continuar com Lucas e eu nunca dei a ele uma resposta definitiva. Nunca fiz a minha escolha. Simplesmente fugi. Dele, dos plantões, enfim, daquilo que tínhamos juntos. Simplesmente parei de ir ao plantão de história. E ele nunca comentou nada comigo sobre isso. Até aquele dia. Imaginava que ele tivesse entendido o recado, de que eu tinha fugindo daquela história. E, de repente, mais de um ano depois disso tudo, ele reaparecia com essa frase a tiracolo.
_Como é que é? – eu quase engasguei e disse meio sem ar, sem chão e sem reação.
_Isso mesmo que você ouviu – ele continuava segurando a minha mão e agora alisava o polegar sobre o dorso, de forma carinhosa – continuo esperando você todas as tardes de quinta-feira. Você sumiu e nunca mais apareceu, não me avisou que tinha perdido o interesse – ele me olhava no fundo dos olhos.
_Caio... eu, é...– eu nem sabia o que dizer a ele.
_Pensei em te dizer que eu continuo interessado nos plantões, ou melhor, no que rolava nos plantões – ele falou sorrindo, agora de forma doce e sincera, como era a minha melhor lembrança dele.
_Mesmo? – eu também sorri, mole como uma gelatina.
_Mesmo. E espero que a odontologia e essa nova vida não tenha feito você perder o interesse pela história, pelo plantão, pela minha companhia.
_Na verdade – disse com o peito explodindo – eu senti muita falta desses plantões desde que parei de freqüentá-los. Falta história na minha vida, sabia?
Então ele se levantou, me puxou de encontro ao seu corpo, passou a mão por debaixo dos meus cabelos e, segurando minha nuca, me beijou. Calmamente, de forma tímida, suave e deliciosa. Esse era o Caio. O meu Caio. Sem máscaras, sem subterfúgios, sem amarras, de volta para mim. Só para mim.
sábado, 25 de setembro de 2010
Capítulo 11 - parte 1
Eu e Caio vivemos uma relação tumultuada durante muito tempo, hoje ela é apenas dolorosa. Tudo começou, como disse anteriormente, no último ano do colégio. Mas foi só no fim do primeiro ano da faculdade, quando Lucas e eu estávamos definitivamente separados, que Caio reapareceu.
Era final de novembro, meu aniversário de 19 anos. Eu tinha acabado de tirar carteira de motorista e ganhar um carro dos meus pais. Estava eufórica. Fazia oito meses que eu não ouvia a voz de Caio, desde aquele conversa estranha pelo telefone, durante a qual ele quis mostrar, mais do que nunca, que estar longe de mim era a melhor opção para sua vida. Eu tinha decidido comemorar meu aniversário com um churrascão em casa, reunindo os velhos amigos do colégio e os novos amigos da faculdade.
Durante o último ano do colégio, eu, Luiza e Ana estreitamos relações com um grupo de amigos novos, Ricardo, Luiz, Eduardo, Renata e Caio, que estavam vindo de outra escola, diferente de mim e Ana que havíamos estudado lá a vida inteira (Lu havia entrado só no 2o grau) e tínhamos uma boa turma de amigos veteranos. Mas o último ano é sempre o último ano, é o mais especial, e, portanto, aquele novo grupo se tornou muito querido para nós três. E com o passar do tempo nos tornamos muito unidos, e o somos até hoje, dez anos depois, exceto pelo casal “trincado” que existe neste grupo, eu e Caio.
Estar com esta turma é o mesmo que estar com Caio e essa sempre foi a parte mais árdua porque é impossível, para mim, separar a amizade do amor. Neste dia, por exemplo, quando enviei um email convidando toda a turma para este churrasco de aniversário, enviei também ao Caio, mas nunca imaginei que ele pudesse aparecer, ainda mais por estar morando em outra cidade.
De toda essa turma, Luiz e Dudu sempre foram os mais presentes em minha vida, os mais íntimos. Luiz, por incrível que pareça, é o melhor amigo de Caio. Confesso que nunca entendi como ele consegue manter este nível de intimidade comigo sendo tão conhecedor da vida de Caio. Mas, enfim, ele acabou se dando muito bem neste papel (amigo dos dois) nestes anos todos e, hoje, afirmo com sabedoria que Luiz é peça fundamental no quebra-cabeça da minha vida e um amigo muito especial.
Já Dudu é do meu time mesmo, ele sempre foi o meu confidente mais fiel. Ele sempre se colocou mais ao meu lado do que ao lado de Caio, efetivamente, e me entendeu quando eu simplesmente não quis escolher ninguém. E também me entendeu em cada recaída que tive com Caio. E eu, sempre soube ler em seus olhos o que ele queria me dizer.
Quando Dudu apareceu no churrasco naquele dia quente e chuvoso de novembro, trazia um sorriso um tanto quanto irônico no rosto e aquilo já me fez sentir estranha.
_Parabéns minha dentista preferida! – ele disse enquanto me abraçava.
_Obrigada, Dudu! Que bom você estar aqui! – agradeci.
_Jamais perderia este dia, em especial com o presente que Luiz está trazendo para você! – ele respondeu piscando e completou por entre os dentes – se prepara!
Quando ele acabou de me dizer isso, meu coração disparou ao avistar a figura de Caio entrando pelo portão da minha casa, logo atrás de Luiz. Laura, minha irmã, segurando uma cerveja, sussurrou me entregando a garrafa:
_Vira tudo e disfarça a cara de idiota, por favor.
Antes que eu pudesse pensar, fiz o que ela mandou enquanto aguardava ele e Luiz chegarem ao meu encontro.
_Clarinha, minha amiga-amada-amante-gata-garota, feliz aniversário! Pelo visto, os Froes nunca deixam a desejar, vejam só que superprodução este evento! – Luiz, bem em seu estilo engraçadinho, soltou essa para dissipar a tensão que já havia entre mim e Caio.
_Ei Luiz! Obrigada! Vai entrando e se arrumando, hein? Já conhece a casa, as pessoas e tudo mais.
Caio, com uma cara tímida, e linda, sorria sem graça do estilo de chegada “abre-alas” do amigo.
_Parabéns Clara! Te desejo tudo de bom, que você seja feliz sempre! – ele me abraçou forte e saudosamente para que eu pudesse flutuar novamente em seu perfume.
_Obrigada Caio, senti saudades – eu não me segurei – que bom ver você aqui, confesso que não esperava.
_Também senti saudades. – ele disse enquanto nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez na vida, nos reconhecendo.
E ficamos assim, por um tempo que nem sei precisar exatamente, mais ou menos até o momento em que as necessidades de anfitriã me chamaram de volta à realidade. Mas logo entendi que Caio tinha resolvido, sem mais nem menos, reaparecer na minha vida e assumir um posto definitivo no meu coração, que silenciosamente, alimentava essa esperança já há algum tempo.
A festa foi rolando com meu coração aos pulos, sem conseguir dar atenção a ninguém, apenas vigiando os passos e olhares de Caio. Rafaela comentou que eu estava muito adolescente eufórica. Ana, mais rasgada, soltou: “você está exalando atração pelo Caio. Até o Rei da Espanha pode sentir seus hormônios. Não dá para se controlar um pouco?” Não, Ana, não dá. Não consigo. Nunca consegui. Eu sou assim, transparente como cristal.
_Ana, entenda, Clara é muito clara. O trocadilho com o nome não é mera coincidência! – disse João, que estava começando a namorar Ana naquela época e já era um querido para mim.
Na hora do “Parabéns a você”, minha parte preferida de qualquer festa de aniversário (confesso, sempre fui uma criança em aniversários!), Luiz, cheio de graça, decidiu perguntar na frente de todo mundo ao redor da mesa do bolo:
_Para quem vamos cantar o “com quem será”, Clara?
_Palhaço... – eu respondi ríspida, vermelha como um pimentão, toda embaraçada.
_Ah não! Clara já é bastante infantil com esta baboseira de bolo, vela e parabéns! Tenha dó, sem “com quem será”, Luiz! Me poupe! – Laura respondeu para me salvar, mas também para me ironizar, afinal ela não perderia essa chance.
_Desculpa amiga, achei que seria uma “deixa” para vocês se darem uma chance – ele cochichou em meu ouvido, disfarçadamente.
_Ou piorar tudo, não é Luiz? – falei brava.
_Clarinha, hoje é o seu dia, sua festa, relaxa. E ele veio até aqui pra te ver! – Dudu também resolveu entrar na discussão e palpitar.
_Entendi, Du. Tudo bem. Mas deixa a coisa rolar, sem forçar nada.
_Sem forçar nada, Luiz! – Dudu brincou com ele, como se desse uma ordem, imitando minha voz.
_Tá bom, eu sei. – Luiz respondeu a Dudu, mas se virando para mim, completou – mas vá lá falar com ele depois. Acho que você deve isso a ele, né?
_Isso. Você também, Clara, vê se ajuda o coitado do cupido! – Dudu completou.
Depois do parabéns, com direito a muitas fotos e vária velas, resolvi seguir os conselhos de Luiz e Dudu e fui até onde Caio estava, pra falar com ele. Sentei-me ao seu lado e usando do meu sorriso mais atraente, disse:
_Quanto tempo, hein Dr. Caio?
_Bastante tempo mesmo. Como você está? – ele me perguntou com um sorriso enigmático
_Muito bem, e você? Amando a medicina ainda mais?
_Cada dia mais. Ela me consome, sabe? – ele foi enfático e eu já começava a sentir um cheirinho de ironia a seguir.
_Então é uma grande honra ter você aqui hoje, não é mesmo? – respondi no mesmo tom, mas com medo de onde isso poderia chegar.
_A grande honra mesmo é ser convidado a fazer parte da sua vida. – ele falou quase vomitando as palavras, bastante dúbio, como gostava de ser.
_Você faz parte da minha vida desde que nos conhecemos, apesar de estarmos há muito tempo sem nos ver. – eu quis dar a minha versão da história.
_Será?
_Claro que sim. Não entendo a dúvida.
_Ora, eu nem mesmo sabia que você e Lucas não são mais um casal.
_Ah... isso. – eu entendi onde ele podia ir com aquela conversa.
_Terminaram mesmo? – ele continuou incisivo no papo.
_Terminamos sim, Caio, sem dúvida. – eu confirmei com firmeza na voz e ele deu a facada mortal:
_Posso saber porque, então, durante esse tempo todo, você não me ligou? – o tom de cobrança era nítido na sua voz, mas eu preferia isso a ele ignorar este fato.
_Eu até tentei, mas você não quis muito me dar espaço, lembra? – eu disse me lembrando da ligação, mas meio sem convicção do que estava tentando fazer.
_Tentou? Não me lembro disso. Lembro apenas que, da última vez que nos vimos, no baile de formatura, vocês dois pareciam bem felizes.
_Parecíamos. Mas não éramos. Por isso acabou. – eu disse rapidamente.
_Será mesmo? Se vocês não eram felizes, porque você não quis tentar ser feliz de outra forma? Porque a gente não conversou sobre isso, porque você não se deu uma chance de fazer diferente? – ele foi soltando tudo, como se estivesse ensaiado esse discurso há meses.
_Caio... er... eu não quero discutir isso agora. Você veio aqui, na minha festa, isso me deixou muito feliz e quero que tudo fique bem. – eu tentei fugir, da melhor forma que pude, tamanho o meu susto com o discurso dele.
_Nossa, desculpa... acho que eu me exaltei – ele pareceu se acalmar e tomou um longo gole de cerveja – não é hora nem lugar para conversar sobre isso, né?
_É, acho que não. – eu disse olhando pro chão.
_E também não é muito normal discutir uma falta de relação, né? – ele disse rindo e cheio de ironia.
_Isso, aproveite então o resto da festa. Fique à vontade. Vou mandar servirem mais cerveja para você – disse enquanto já me levantava. Eu quis sair correndo, pois nem nos meus piores sonhos, imaginei aquele diálogo com Caio quando fui me sentar ao lado dele. Não pensei que ele fosse me metralhar assim.
Era final de novembro, meu aniversário de 19 anos. Eu tinha acabado de tirar carteira de motorista e ganhar um carro dos meus pais. Estava eufórica. Fazia oito meses que eu não ouvia a voz de Caio, desde aquele conversa estranha pelo telefone, durante a qual ele quis mostrar, mais do que nunca, que estar longe de mim era a melhor opção para sua vida. Eu tinha decidido comemorar meu aniversário com um churrascão em casa, reunindo os velhos amigos do colégio e os novos amigos da faculdade.
Durante o último ano do colégio, eu, Luiza e Ana estreitamos relações com um grupo de amigos novos, Ricardo, Luiz, Eduardo, Renata e Caio, que estavam vindo de outra escola, diferente de mim e Ana que havíamos estudado lá a vida inteira (Lu havia entrado só no 2o grau) e tínhamos uma boa turma de amigos veteranos. Mas o último ano é sempre o último ano, é o mais especial, e, portanto, aquele novo grupo se tornou muito querido para nós três. E com o passar do tempo nos tornamos muito unidos, e o somos até hoje, dez anos depois, exceto pelo casal “trincado” que existe neste grupo, eu e Caio.
Estar com esta turma é o mesmo que estar com Caio e essa sempre foi a parte mais árdua porque é impossível, para mim, separar a amizade do amor. Neste dia, por exemplo, quando enviei um email convidando toda a turma para este churrasco de aniversário, enviei também ao Caio, mas nunca imaginei que ele pudesse aparecer, ainda mais por estar morando em outra cidade.
De toda essa turma, Luiz e Dudu sempre foram os mais presentes em minha vida, os mais íntimos. Luiz, por incrível que pareça, é o melhor amigo de Caio. Confesso que nunca entendi como ele consegue manter este nível de intimidade comigo sendo tão conhecedor da vida de Caio. Mas, enfim, ele acabou se dando muito bem neste papel (amigo dos dois) nestes anos todos e, hoje, afirmo com sabedoria que Luiz é peça fundamental no quebra-cabeça da minha vida e um amigo muito especial.
Já Dudu é do meu time mesmo, ele sempre foi o meu confidente mais fiel. Ele sempre se colocou mais ao meu lado do que ao lado de Caio, efetivamente, e me entendeu quando eu simplesmente não quis escolher ninguém. E também me entendeu em cada recaída que tive com Caio. E eu, sempre soube ler em seus olhos o que ele queria me dizer.
Quando Dudu apareceu no churrasco naquele dia quente e chuvoso de novembro, trazia um sorriso um tanto quanto irônico no rosto e aquilo já me fez sentir estranha.
_Parabéns minha dentista preferida! – ele disse enquanto me abraçava.
_Obrigada, Dudu! Que bom você estar aqui! – agradeci.
_Jamais perderia este dia, em especial com o presente que Luiz está trazendo para você! – ele respondeu piscando e completou por entre os dentes – se prepara!
Quando ele acabou de me dizer isso, meu coração disparou ao avistar a figura de Caio entrando pelo portão da minha casa, logo atrás de Luiz. Laura, minha irmã, segurando uma cerveja, sussurrou me entregando a garrafa:
_Vira tudo e disfarça a cara de idiota, por favor.
Antes que eu pudesse pensar, fiz o que ela mandou enquanto aguardava ele e Luiz chegarem ao meu encontro.
_Clarinha, minha amiga-amada-amante-gata-garota, feliz aniversário! Pelo visto, os Froes nunca deixam a desejar, vejam só que superprodução este evento! – Luiz, bem em seu estilo engraçadinho, soltou essa para dissipar a tensão que já havia entre mim e Caio.
_Ei Luiz! Obrigada! Vai entrando e se arrumando, hein? Já conhece a casa, as pessoas e tudo mais.
Caio, com uma cara tímida, e linda, sorria sem graça do estilo de chegada “abre-alas” do amigo.
_Parabéns Clara! Te desejo tudo de bom, que você seja feliz sempre! – ele me abraçou forte e saudosamente para que eu pudesse flutuar novamente em seu perfume.
_Obrigada Caio, senti saudades – eu não me segurei – que bom ver você aqui, confesso que não esperava.
_Também senti saudades. – ele disse enquanto nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez na vida, nos reconhecendo.
E ficamos assim, por um tempo que nem sei precisar exatamente, mais ou menos até o momento em que as necessidades de anfitriã me chamaram de volta à realidade. Mas logo entendi que Caio tinha resolvido, sem mais nem menos, reaparecer na minha vida e assumir um posto definitivo no meu coração, que silenciosamente, alimentava essa esperança já há algum tempo.
A festa foi rolando com meu coração aos pulos, sem conseguir dar atenção a ninguém, apenas vigiando os passos e olhares de Caio. Rafaela comentou que eu estava muito adolescente eufórica. Ana, mais rasgada, soltou: “você está exalando atração pelo Caio. Até o Rei da Espanha pode sentir seus hormônios. Não dá para se controlar um pouco?” Não, Ana, não dá. Não consigo. Nunca consegui. Eu sou assim, transparente como cristal.
_Ana, entenda, Clara é muito clara. O trocadilho com o nome não é mera coincidência! – disse João, que estava começando a namorar Ana naquela época e já era um querido para mim.
Na hora do “Parabéns a você”, minha parte preferida de qualquer festa de aniversário (confesso, sempre fui uma criança em aniversários!), Luiz, cheio de graça, decidiu perguntar na frente de todo mundo ao redor da mesa do bolo:
_Para quem vamos cantar o “com quem será”, Clara?
_Palhaço... – eu respondi ríspida, vermelha como um pimentão, toda embaraçada.
_Ah não! Clara já é bastante infantil com esta baboseira de bolo, vela e parabéns! Tenha dó, sem “com quem será”, Luiz! Me poupe! – Laura respondeu para me salvar, mas também para me ironizar, afinal ela não perderia essa chance.
_Desculpa amiga, achei que seria uma “deixa” para vocês se darem uma chance – ele cochichou em meu ouvido, disfarçadamente.
_Ou piorar tudo, não é Luiz? – falei brava.
_Clarinha, hoje é o seu dia, sua festa, relaxa. E ele veio até aqui pra te ver! – Dudu também resolveu entrar na discussão e palpitar.
_Entendi, Du. Tudo bem. Mas deixa a coisa rolar, sem forçar nada.
_Sem forçar nada, Luiz! – Dudu brincou com ele, como se desse uma ordem, imitando minha voz.
_Tá bom, eu sei. – Luiz respondeu a Dudu, mas se virando para mim, completou – mas vá lá falar com ele depois. Acho que você deve isso a ele, né?
_Isso. Você também, Clara, vê se ajuda o coitado do cupido! – Dudu completou.
Depois do parabéns, com direito a muitas fotos e vária velas, resolvi seguir os conselhos de Luiz e Dudu e fui até onde Caio estava, pra falar com ele. Sentei-me ao seu lado e usando do meu sorriso mais atraente, disse:
_Quanto tempo, hein Dr. Caio?
_Bastante tempo mesmo. Como você está? – ele me perguntou com um sorriso enigmático
_Muito bem, e você? Amando a medicina ainda mais?
_Cada dia mais. Ela me consome, sabe? – ele foi enfático e eu já começava a sentir um cheirinho de ironia a seguir.
_Então é uma grande honra ter você aqui hoje, não é mesmo? – respondi no mesmo tom, mas com medo de onde isso poderia chegar.
_A grande honra mesmo é ser convidado a fazer parte da sua vida. – ele falou quase vomitando as palavras, bastante dúbio, como gostava de ser.
_Você faz parte da minha vida desde que nos conhecemos, apesar de estarmos há muito tempo sem nos ver. – eu quis dar a minha versão da história.
_Será?
_Claro que sim. Não entendo a dúvida.
_Ora, eu nem mesmo sabia que você e Lucas não são mais um casal.
_Ah... isso. – eu entendi onde ele podia ir com aquela conversa.
_Terminaram mesmo? – ele continuou incisivo no papo.
_Terminamos sim, Caio, sem dúvida. – eu confirmei com firmeza na voz e ele deu a facada mortal:
_Posso saber porque, então, durante esse tempo todo, você não me ligou? – o tom de cobrança era nítido na sua voz, mas eu preferia isso a ele ignorar este fato.
_Eu até tentei, mas você não quis muito me dar espaço, lembra? – eu disse me lembrando da ligação, mas meio sem convicção do que estava tentando fazer.
_Tentou? Não me lembro disso. Lembro apenas que, da última vez que nos vimos, no baile de formatura, vocês dois pareciam bem felizes.
_Parecíamos. Mas não éramos. Por isso acabou. – eu disse rapidamente.
_Será mesmo? Se vocês não eram felizes, porque você não quis tentar ser feliz de outra forma? Porque a gente não conversou sobre isso, porque você não se deu uma chance de fazer diferente? – ele foi soltando tudo, como se estivesse ensaiado esse discurso há meses.
_Caio... er... eu não quero discutir isso agora. Você veio aqui, na minha festa, isso me deixou muito feliz e quero que tudo fique bem. – eu tentei fugir, da melhor forma que pude, tamanho o meu susto com o discurso dele.
_Nossa, desculpa... acho que eu me exaltei – ele pareceu se acalmar e tomou um longo gole de cerveja – não é hora nem lugar para conversar sobre isso, né?
_É, acho que não. – eu disse olhando pro chão.
_E também não é muito normal discutir uma falta de relação, né? – ele disse rindo e cheio de ironia.
_Isso, aproveite então o resto da festa. Fique à vontade. Vou mandar servirem mais cerveja para você – disse enquanto já me levantava. Eu quis sair correndo, pois nem nos meus piores sonhos, imaginei aquele diálogo com Caio quando fui me sentar ao lado dele. Não pensei que ele fosse me metralhar assim.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Capítulo 10 - parte 2
E o dia foi passando assim, naquele climinha intimista, churrascando, piscinando, bebendo e paquerando muito. Foi um dia bem mais calmo e mais leve que o anterior. Mas só o dia, porque eu mal podia esperar pela noite daquele domingo. E apesar de ter me sentido muito bem na maior parte do tempo, não deixei de me lembrar sobre a tal loira de David que deixou um provável arquiteto simpático meio estranho na véspera.
Pedro, de tempos em tempos, me dava uma “assistência” e eu me sentia empolgada, mas, ao mesmo tempo, ligeiramente constrangida com esta situação. Não sei bem o porquê, mas de repente teria sido melhor que apenas a noite fosse nosso cenário. Tá bom, não vou negar que ele querer estar comigo durante todo o dia me massageou o ego. Era Carnaval, ora bolas, ele poderia estar pegando quem e quantas quisesse num balneário como Condados, mas quis estar só comigo.
No início da noite, todas as mulheres se reuniram na hidro da piscina e estávamos num animado papo sobre diversas futilidades femininas, quando Silvia, que tinha trocado várias idéias comigo ao longo desses dois dias, me chamou num canto e me disse, assim do nada, sem quê nem pra quê.
_Clara, posso te fazer uma pergunta meio pessoal?
_Pode sim, Silvia, pergunte o que quiser. Apenas não garanto que vou responder. – eu disse rindo e meio com medo da pergunta.
_Você e o Caio Antunes tiveram um caso, não foi?
_Eu e Caio?! – respondi assustada – Somos amigos... er, na verdade fomos colegas de classe, só isso. Temos amigos em comum. Mas porque você está perguntando isso? – fui falando quase tropeçando nas palavras.
_Ah, é que senti um clima, na sexta feira, quando você e Ana perguntaram à Tati sobre ele. E percebi que você mudou de cor quando ela falou da Roberta.
_Não, deve ter sido impressão sua. – tentei disfarçar sem nenhum sucesso.
_Desculpa me intrometer, mas é que achei você uma garota tão bacana, fui com sua cara, sabe? E julguei que poderia comentar alguma coisa sobre isso.
_O que exatamente você quer comentar? – eu já estava ficando azul e sem voz.
_Caio foi meu calouro na residência de Anestesia, no Incor, você sabia?
_Eu ouvi você comentar. – respondi com o coração aos pulos. – Você também é anestesista?
_Não, eu sou cardiologista, mas é que os anestesistas fazem uma disciplina especial lá no Incor. E aí nos conhecemos.
_Entendo. Bom, mas continue.
_Bem, eu sempre gostei muito dele, somos bons amigos e a gente trocava várias idéias, sabe? Ele chegou algumas vezes a comentar sobre uma garota comigo e...
_Provavelmente sobre esta Roberta, amiga da Tati, atual namorada dele. – eu rapidamente tentei disfarçar e meio mudar o rumo da prosa.
_Não, tenho certeza que não. Ele falava sobre uma tal Clara, amiga de escola. Estou deduzindo que essa garota era você, né?
Fiz uma cara de plástica. Aquela totalmente sem reação. Não sabia o que falar pra ela. Seria difícil entregar o jogo, mas acho que não me restava mais outras opções.
_Clara, mais uma vez, me desculpe a intromissão, não se preocupe, eu não sou amiga da Roberta e a Tati não sabe dessa história que eu sei. Apenas juntei as coisas e tirei essas conclusões. E, como a gente teve uma interação legal, eu só queria te dizer uma coisa, se você me permitir.
_O quê? – eu não confirmei nem refutei a história, mas minha cara de passada não deixaria muitas dúvidas a ela.
_Se você for mesmo essa Clara do Caio, pense bem sobre essa relação. Eu jamais vi um homem tão determinado como Caio em toda a minha vida acadêmica. Ele é considerado, no Incor, o médico mais jovem e produtivo dos últimos anos. É muito respeitado por sua seriedade e profissionalismo.
_Sei. Eu o conheço bem. A medicina é a vida dele. Mas, exatamente onde eu entro nisso?
_A única coisa que o faz desconcertar e o tira do rumo é uma paixão mal resolvida com essa garota. Ele já me confessou isso, num dia de fossa. E, acredite, para ele conseguir me dizer isso, reservado como ele é, é porque a fossa era funda. E eu entendi na hora que essa mulher conseguia mexer com a cabeça dele de uma forma assustadora. Pra mim, isto é, no mínimo, louvável.
Sem forças para continuar negando qualquer coisa, depois de ouvir essas palavras fortes, percebi que o jogo estava perdido.
_Silvia, eu sou essa Clara, sim. Eu e Caio temos uma história louca e muito, muito mal resolvida há quase uma década. A gente não se entende sabe? Não se entende, não se perdoa, não se acerta. Só se magoa. É tudo bem complicado. – disse com lágrimas começando a pinicar os olhos. Pensar e falar a respeito de Caio sempre me deixava assim.
_Imagino. – ela me disse meio sem graça.
_Confesso que nunca imaginei que ele pudesse ter chegado a falar de mim para alguém. Ainda mais para uma colega de trabalho.
_Pois é. Imagino sua surpresa. Mas não quero te deixar triste com isso, ta?
_Mas agora, acredite, estou até feliz que ele esteja bem com essa tal Roberta. Ao menos, acho que eles se entendem. Quem sabe não conseguimos todos seguir nossas vidas, né?
_Bom, não sei até que ponto ele está bem com ela. Eu conheci a Roberta através do Caio, numa festa de Natal de uns amigos em comum. Não senti uma conexão assim tão intensa entre eles. Logo depois, nos encontramos de novo por causa da Tati, que foi da sala deles. Mas eu e Caio já não trabalhávamos mais juntos há um bom tempo. Essa história de que eles se dão bem é uma visão da Tati, que é muito amiga dela. Não necessariamente é real.
_Sei...
_Bom, não quero ficar discutindo sua vida nem a dele. Vi que você se deu bem com Pedro, que é um cara fantástico, e não quero estragar seu feriado. Além disso, é Carnaval e Caio não está aqui, certo? Mas senti que precisava confirmar esta história e te dizer isso.
_Não, tudo bem. Não estragou nada, de forma alguma. E, sim, gostei de você ter me dito tudo isso, foi bem bacana da sua parte.
_Ah, que bom você pensar assim.
Já íamos dar o assunto por encerrado quando decidi fazer mais uma pergunta:
_Silvia?
_Diga.
_Você acha que a Tati percebeu que eu fiquei meio desconcertada quando ela falou da Roberta na sexta à noite?
_Acho que ela sacou uma coisa diferente, sim, não vou mentir, você deu na cara. Mas nada de muito grave, não se preocupe. Ela sequer comentou algo sobre isso comigo. – ela pareceu ser sincera.
_Ah, que bom, então.
_Clara, mas já que perguntou, você sabe que Caio é primo do Bruno?
_Anh? Caio? Primo do Bruno? – eu tampei a boca com a mão num gesto de susto – do Bruno da Larissa? Esse aqui?– estava embasbacada.
_Sim, ele mesmo. São primos. As mães são irmãs. Você não sabia mesmo? Mas tenho certeza de que você percebeu a semelhança física entre eles.
_Claro, são muito parecidos. Levei um susto quando Bruno chegou. Mas jamais poderia imaginar que fossem primos! Eu conheço pouco a família do Caio. Nós nunca namoramos, assim oficialmente, sabe? Conheço só os irmãos e os pais dele.
_São primos sim, e muito chegados inclusive.
_Jura?
_Juro. Então, como você perguntou sobre a Tati, tenho que te alertar: Bruno sabe dessa história do Caio com uma certa Clara. Ele é muito observador e vi que ele prestou atenção quando vocês perguntaram do Caio na sexta. Ele provavelmente juntou as coisas, assim como eu.
_Será?
_Pode ter certeza. Eu o conheço bem. Mas não se aflija, ta? Bruno é discretíssimo e muito reservado, assim como Caio, e jamais comentaria nada. Por isso ele nem se pronunciou quando ouviu você perguntar sobre um primo dele.
Pedro, de tempos em tempos, me dava uma “assistência” e eu me sentia empolgada, mas, ao mesmo tempo, ligeiramente constrangida com esta situação. Não sei bem o porquê, mas de repente teria sido melhor que apenas a noite fosse nosso cenário. Tá bom, não vou negar que ele querer estar comigo durante todo o dia me massageou o ego. Era Carnaval, ora bolas, ele poderia estar pegando quem e quantas quisesse num balneário como Condados, mas quis estar só comigo.
No início da noite, todas as mulheres se reuniram na hidro da piscina e estávamos num animado papo sobre diversas futilidades femininas, quando Silvia, que tinha trocado várias idéias comigo ao longo desses dois dias, me chamou num canto e me disse, assim do nada, sem quê nem pra quê.
_Clara, posso te fazer uma pergunta meio pessoal?
_Pode sim, Silvia, pergunte o que quiser. Apenas não garanto que vou responder. – eu disse rindo e meio com medo da pergunta.
_Você e o Caio Antunes tiveram um caso, não foi?
_Eu e Caio?! – respondi assustada – Somos amigos... er, na verdade fomos colegas de classe, só isso. Temos amigos em comum. Mas porque você está perguntando isso? – fui falando quase tropeçando nas palavras.
_Ah, é que senti um clima, na sexta feira, quando você e Ana perguntaram à Tati sobre ele. E percebi que você mudou de cor quando ela falou da Roberta.
_Não, deve ter sido impressão sua. – tentei disfarçar sem nenhum sucesso.
_Desculpa me intrometer, mas é que achei você uma garota tão bacana, fui com sua cara, sabe? E julguei que poderia comentar alguma coisa sobre isso.
_O que exatamente você quer comentar? – eu já estava ficando azul e sem voz.
_Caio foi meu calouro na residência de Anestesia, no Incor, você sabia?
_Eu ouvi você comentar. – respondi com o coração aos pulos. – Você também é anestesista?
_Não, eu sou cardiologista, mas é que os anestesistas fazem uma disciplina especial lá no Incor. E aí nos conhecemos.
_Entendo. Bom, mas continue.
_Bem, eu sempre gostei muito dele, somos bons amigos e a gente trocava várias idéias, sabe? Ele chegou algumas vezes a comentar sobre uma garota comigo e...
_Provavelmente sobre esta Roberta, amiga da Tati, atual namorada dele. – eu rapidamente tentei disfarçar e meio mudar o rumo da prosa.
_Não, tenho certeza que não. Ele falava sobre uma tal Clara, amiga de escola. Estou deduzindo que essa garota era você, né?
Fiz uma cara de plástica. Aquela totalmente sem reação. Não sabia o que falar pra ela. Seria difícil entregar o jogo, mas acho que não me restava mais outras opções.
_Clara, mais uma vez, me desculpe a intromissão, não se preocupe, eu não sou amiga da Roberta e a Tati não sabe dessa história que eu sei. Apenas juntei as coisas e tirei essas conclusões. E, como a gente teve uma interação legal, eu só queria te dizer uma coisa, se você me permitir.
_O quê? – eu não confirmei nem refutei a história, mas minha cara de passada não deixaria muitas dúvidas a ela.
_Se você for mesmo essa Clara do Caio, pense bem sobre essa relação. Eu jamais vi um homem tão determinado como Caio em toda a minha vida acadêmica. Ele é considerado, no Incor, o médico mais jovem e produtivo dos últimos anos. É muito respeitado por sua seriedade e profissionalismo.
_Sei. Eu o conheço bem. A medicina é a vida dele. Mas, exatamente onde eu entro nisso?
_A única coisa que o faz desconcertar e o tira do rumo é uma paixão mal resolvida com essa garota. Ele já me confessou isso, num dia de fossa. E, acredite, para ele conseguir me dizer isso, reservado como ele é, é porque a fossa era funda. E eu entendi na hora que essa mulher conseguia mexer com a cabeça dele de uma forma assustadora. Pra mim, isto é, no mínimo, louvável.
Sem forças para continuar negando qualquer coisa, depois de ouvir essas palavras fortes, percebi que o jogo estava perdido.
_Silvia, eu sou essa Clara, sim. Eu e Caio temos uma história louca e muito, muito mal resolvida há quase uma década. A gente não se entende sabe? Não se entende, não se perdoa, não se acerta. Só se magoa. É tudo bem complicado. – disse com lágrimas começando a pinicar os olhos. Pensar e falar a respeito de Caio sempre me deixava assim.
_Imagino. – ela me disse meio sem graça.
_Confesso que nunca imaginei que ele pudesse ter chegado a falar de mim para alguém. Ainda mais para uma colega de trabalho.
_Pois é. Imagino sua surpresa. Mas não quero te deixar triste com isso, ta?
_Mas agora, acredite, estou até feliz que ele esteja bem com essa tal Roberta. Ao menos, acho que eles se entendem. Quem sabe não conseguimos todos seguir nossas vidas, né?
_Bom, não sei até que ponto ele está bem com ela. Eu conheci a Roberta através do Caio, numa festa de Natal de uns amigos em comum. Não senti uma conexão assim tão intensa entre eles. Logo depois, nos encontramos de novo por causa da Tati, que foi da sala deles. Mas eu e Caio já não trabalhávamos mais juntos há um bom tempo. Essa história de que eles se dão bem é uma visão da Tati, que é muito amiga dela. Não necessariamente é real.
_Sei...
_Bom, não quero ficar discutindo sua vida nem a dele. Vi que você se deu bem com Pedro, que é um cara fantástico, e não quero estragar seu feriado. Além disso, é Carnaval e Caio não está aqui, certo? Mas senti que precisava confirmar esta história e te dizer isso.
_Não, tudo bem. Não estragou nada, de forma alguma. E, sim, gostei de você ter me dito tudo isso, foi bem bacana da sua parte.
_Ah, que bom você pensar assim.
Já íamos dar o assunto por encerrado quando decidi fazer mais uma pergunta:
_Silvia?
_Diga.
_Você acha que a Tati percebeu que eu fiquei meio desconcertada quando ela falou da Roberta na sexta à noite?
_Acho que ela sacou uma coisa diferente, sim, não vou mentir, você deu na cara. Mas nada de muito grave, não se preocupe. Ela sequer comentou algo sobre isso comigo. – ela pareceu ser sincera.
_Ah, que bom, então.
_Clara, mas já que perguntou, você sabe que Caio é primo do Bruno?
_Anh? Caio? Primo do Bruno? – eu tampei a boca com a mão num gesto de susto – do Bruno da Larissa? Esse aqui?– estava embasbacada.
_Sim, ele mesmo. São primos. As mães são irmãs. Você não sabia mesmo? Mas tenho certeza de que você percebeu a semelhança física entre eles.
_Claro, são muito parecidos. Levei um susto quando Bruno chegou. Mas jamais poderia imaginar que fossem primos! Eu conheço pouco a família do Caio. Nós nunca namoramos, assim oficialmente, sabe? Conheço só os irmãos e os pais dele.
_São primos sim, e muito chegados inclusive.
_Jura?
_Juro. Então, como você perguntou sobre a Tati, tenho que te alertar: Bruno sabe dessa história do Caio com uma certa Clara. Ele é muito observador e vi que ele prestou atenção quando vocês perguntaram do Caio na sexta. Ele provavelmente juntou as coisas, assim como eu.
_Será?
_Pode ter certeza. Eu o conheço bem. Mas não se aflija, ta? Bruno é discretíssimo e muito reservado, assim como Caio, e jamais comentaria nada. Por isso ele nem se pronunciou quando ouviu você perguntar sobre um primo dele.
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