Apesar de ter ficado aos beijos com Pedro até bem tarde daquele domingo, não parei um só minuto de pensar em Caio e em toda aquela conversa reveladora que tivera mais cedo com Silvia. Resolvi não comentar nada daquilo com Ana ou Luiza, ao menos inicialmente, apesar de elas saberem mais sobre esta minha história com Caio do que eu mesma. Senti que eu precisava refletir, sozinha, sobre aquilo tudo.
Há pouco tempo atrás, Marina, minha terapeuta, havia me dito algo assim: “Clara, às vezes, antes de pedir opinião ou conselhos a quem quer que seja, sobre um problema ou uma dor, lembre-se de que isso é como um ingrediente indesejado no prato num jantar de gala. É necessário mastigar o ingrediente (o problema ou a dor), sentir o seu gosto verdadeiro, que pode até não ser tão ruim como se imagina, engolir devagar até chegar ao ponto de digeri-lo, com elegância, sem que ninguém perceba. Só então é válido ver o cardápio de sobremesa para tentar se livrar do gosto que deixou”.
Ao me lembrar desta conversa com Marina, percebi que aquela era uma situação perfeita para por esta idéia em prática. Pedro estava com um cardápio de sobremesas bem na minha frente, não era necessário eu discutir nada com minhas amigas para poder relaxar. Se eu fizesse isso sozinha, depois poderia tirar o gosto amargo das minhas dúvidas existenciais com ele, ou seja, seria pouco provável eu assumir a velha posição de “coitada” que costumo assumir quando estou na fossa. Eu podia ter outra visão desse jogo, ou melhor, desse jantar louco em que eu me meti neste carnaval.
Quando fui me deitar, vi que havia uma ligação perdida no meu celular que havia ficado carregando a bateria, esquecido, na pia do banheiro. Era de Rafaela. Já passava de 1h da madrugada e naquele domingo ninguém havia animado esticar a noite. Passamos o dia todo churrascando e aquilo se estendeu até o início da madrugada. Nem David, o solteiro aflito, quis sair. Mas vi que ele tinha dado uma escapulida no meio da tarde e voltado bem à noitinha. Luiza e Leo estavam dormindo na cama ao lado e, para não acordá-los, decidi que era melhor retornar a ligação no dia seguinte. Mas quando dei o END na ligação, uma imagem em forma de envelope piscou na tela e vi que uma mensagem de texto havia chegado também.
“AMIGA, PRECISAMOS FOFOCAR. VC NÃO ACREDITA QUEM ENCONTRAMOS EM SSA. LIGA PRA GENTE. BJ, JO E RAFA.”
Aí, a coisa toda mudou de figura, porque se eu tenho um defeito grave, este é curiosidade. A ligação simples poderia esperar, pois certamente seria só farra de amiga bêbada que adora ligar pros outros. Mas, aquela mensagem, despertou meu lado mais vicioso. Tive que descer e fazer a ligação.
Ao chegar na sala de TV, Ana e David, que eu havia deixado lá há 5 minutos vendo um filme, já estavam apagados. Pedro e Fabio terminavam uma prosa e uma garrafa de cerveja na mesa da varanda. Os outros todos já estavam dormindo.
_Resolveu voltar, Claríssima? Saudades ou veio ver se eu não fugi? – Pedro disse assim que colocou os olhos em mim.
_Bobo... na verdade, só vim fazer uma ligação.
_Aconteceu alguma coisa? – Fábio quis saber.
_Acho que não, foi só um recado que recebi de amigas que estão em Salvador. Elas ligaram antes, pediram pra eu retornar, mas só vi agora.
_Ah, fofocas então! – Pedro concluiu.
_Mais ou menos... – eu ri
_Não ia nem dormir se não soubesse dos babados, Pedro! Você não entende as mulheres? – Fábio brincou comigo.
_Me dêem licença, ta? – eu quis encerrar o assunto e ir matar a curiosidade.
Saí em direção à área da piscina, um pouco mais à frente de onde eles estavam. E, enquanto discava, ouvi que eles voltaram ao assunto que discutiam antes, algo sobre carros ou coisa assim.
No primeiro toque, uma voz familiar, meio ébria e muito alegre, gritou do outro lado da linha:
_Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara! Amiga, cadê você? Não pode imaginar a loucura que está isso aqui.
_Joana, sua bêbada lunática! Eu estou em Condados, na casa da Ana. Mas eu é que pergunto, qual o babado? Cadê a Rafaela? Por que está com o telefone dela?
_Ah, sumiu... deve estar beijando alguém por aí. E você? Pegou alguma coisa? Como está por aí?
_Está ótimo, depois te conto detalhes. – disse disfarçando, pois não dava pra saber se eles podiam ouvir o que eu falava.
_Entendi, não pode falar, né? Mas, então, só me responde se pegou ou não...
_Sim. – respondi rindo.
_Que bom, pois tenho uma notícia esquisita pra você.
_Esquisita? Por isso mandou a mensagem? Quem está aí?
_Você não vai acreditar!
_Fala logo! – eu insisti, detesto suspense.
_Sabe quem encontramos no camarote agora à noite durante o show da Ivete?
_Quem, Joana?! Fala, para de enrolar!
_Caio Souto Antunes. Dr Anestesiologista em carne, osso, dentes e muito álcool no lance. – ela foi categórica como Ana costuma ser.
_O quê? – dei um grito, instintivamente – Caio está em Salvador?
Quando percebi o que acabara de fazer, olhei pro lado, tremendo, rezando para que Fábio e Pedro não estivessem prestando atenção. Mas, claro, eles estavam quase com os olhos colados em mim, provavelmente devido ao meu grito histérico. Bem, pensei, mas eles nem sabem quem é Caio. Apesar de que nem seria preciso dizer nada, minha cara de choque deveria estar falando tudo o que eles queriam saber.
Abaixei meu tom de voz, fui voltando ao normal, para tentar assimilar tudo o que precisava. Também me afastei mais, em direção a sauna, para ficar o mais longe possível de olhares e ouvidos curiosos. E, como uma metralhadora, fui perguntando tudo o que era preciso para Joana, que tentava me responder, claro, no limite de seu nível alcoólico. Descobri bem pouca coisa útil. Que ele estava com a namoradinha médica idiota a tiracolo e, assim que pôde se livrar dela por alguns minutos, perguntou às meninas sobre mim e, ainda, afirmou que ficara sabendo que eu e Lucas havíamos terminando novamente. Assim que elas confirmaram, Joana disse que ele emendou ironicamente um “Vamos ver até quando ela consegue ficar sem aquele playboy”. Ah, mas que ódio dele ter dito isso! Pra quê saber de mim se estava feliz e contente com a “medicazinha perfeita” dele em Salvador? Metido e babaca, eu pensei.
Quando voltei à varanda, Pedro ainda estava lá. Mas Fábio, não mais. Estirado numa cadeira, de olhos fechados, ele parecia estar me esperando.
Fui me aproximando e ele, assim que ouviu meus passos, abriu os olhos e foi logo dizendo:
_Então, Clara, parece que as tais notícias soteropolitanas foram quentes, hein? – não consegui definir se existia uma certa ironia no tom dele.
_Foram sim, Pedro. Um pouco. – eu não ia mentir, seria estúpido demais fingir que faço aquele show todo por bobagens sem sentido.
_Caio... – ele disse sem me olhar nos olhos – então esse é o cara que faz você ficar assim tão ouriçada?
_Ouriçada? Que expressão é essa? Não estou tão ouriçada!
_Então o que foi aquele grito histérico? – o jeito que ele falou, meio irônico, meio dono da verdade, me deixou muito irritada, além do que eu já estava.
_Que grito histérico, Pedro? – respondi com desdém – Só fiquei surpresa com uma notícia, este é meu jeito. Por quê você está me intimando, todo irônico, assim? – minha voz estava um tom acima do que eu desejava.
_Epa, calma! Não estou te intimando nem nada parecido, gata. Não confunde as coisas – ele mantinha o mesmo tom, controlado, infinitamente superior ao meu, algo que os homens costumam fazer com maestria – Só fiquei curioso pra saber quem era o cara.
_Não é ninguém que mereça ser conhecido. – eu tentava parecer o mais natural possível, em vão, é claro.
_É o ex, né? – ele disse rindo, meio esquisito, dando um tapinha na minha perna.
_Não, não é. Só um paquera de adolescência, nada demais. A surpresa foi só porque eu não o vejo há tempos. Está satisfeito? – eu estava meio brava demais.
_Clara, pra que toda essa defensiva? Não tenho nada com a sua vida. – ele foi muito frio – Por mim, você pode falar e sentir o que quiser. Desculpa perguntar, fui indiscreto, né?
_Na verdade, foi sim. E agora você disse tudo, não temos nada um com a vida do outro, certo? – eu quis sair por cima.
_Nada. – ele disse virando o rosto pro outro lado, com um sorriso cínico de canto de boca.
Era a hora de encerrar o assunto, mas eu não me contive e continuei jogando lenha na fogueira já bastante inflamada do meu domingo.
_Deve ser por isso que eu não sei nada sobre você, não é Pedro?
_Como? – Ele dirigiu o olhar pra mim, com cara de interrogação.
_Eu. Não sei nada sobre você, já reparou? – disse com cara cínica – Deve ser porque não temos nada com a vida um do outro.
_Não estou entendendo, Clara...
_Pedro, qual a sua idade? Você trabalha com o que? Onde mora? Tem namorada, família?
_Ah isso... Que besteira! – ele fez uma cara como se estivesse falando com a pessoa mais idiota do mundo – Precisa saber mesmo isso tudo?
_Precisar, não precisa, mas é legal saber, só algumas coisas básicas, já que estamos trocando mais que palavras e drinques...
_Então pergunta o que você quer saber, ora. Eu não me escondo, nem para falar ao telefone. – ele quis me ironizar.
_Não quero perguntar nada, você conta se e quando quiser. Só quis te mostrar que sua vida não é um livro aberto, querido. Lembre-se disso antes de dizer que eu estou na defensiva. – meu lado atriz - advogada estava berrando.
_Ah, sem drama, Clara. Nada a ver!
_Não é drama. Só estamos conversando.
_Espera aí, é impressão minha ou você está irritada?
_É impressão sua. – mentira pura, eu estava irritadíssima.
_Bom, então, eu sou o Pedro Amarante Ferraz, arquiteto, solteiro, 29 anos. Amante de baladas e futebol, atleticano roxo, tenho um escritório de arquitetura com meu amigo Leo, que você já conhece, e adoro pizzas aos fins de semana. Está bom por hoje? – ele foi dizendo tudo como um candidato a emprego numa entrevista.
Eu nem me dei ao trabalho de responder.
_E acho que vou dormir porque a prosa não está indo pelo melhor caminho, certo? Amanhã será um novo dia.
_Será sim, Pedro, novo dia. Boa noite e durma bem. – eu tentei ser sincera.
_Mais alguma pergunta, Dra. Clara? Ou posso te dar um beijo de boa noite para você não ir dormir brava comigo e eu perder todas as chances do mundo de um dia poder fazer um projeto bem bacana para seu consultório de odontologia? – ele já estava voltando ao normal, cheio de piadinhas.
_Sabe que eu tenho sim?
_Então, faça. – ele estava solícito.
_Aquela moça loira, que o David pegou ontem, na boate. Foi impressão minha, ou vocês já se conheciam? – antes que eu terminasse a frase, a expressão dele já estava diferente.
_Posso me dar o direito de não responder?
_Pode. Mas foi você quem disse que eu podia perguntar.
_Eu sei, mas a questão é: Isso faz diferença?
_Saber quem é Caio fez pra você?
Ele apenas suspirou como resposta, sem tirar os olhos dos meus.
_Nenhuma, esquece. – eu dei um beijo no rosto dele – Não é um interrogatório. Desculpe. Boa noite.
_Boa noite, Claríssima. – ele me beijou na boca.
Fiquei me sentindo a pior das mortais. O que foi aquilo com Pedro? Uma discussão de relação? Com dois dias de pegação no Carnaval? Eu estava louca ou o quê? Que coisa patética! E mais patético ainda foi o motivo que fez tudo aquilo começar: Caio! Ah não, ele estava presente demais em Condados, que chatice.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Capítulo 11 - parte 2
Por intermédio divino, ou sei lá o quê, Joana, minha amiga, me chamou neste exato momento e foi um alívio gigantesco ter um motivo real para sair de perto dele.
_Com licença, Caio, preciso ir...
_Espera Clara! Não precisa sair correndo. Não vou te devorar. – ele disse se desculpando, segurando forte a minha mão. E aquela cena me lembrou nosso primeiro beijo, na festa à fantasia para arrecadar dinheiro para a formatura, mais ou menos um ano antes.
Como num filme, voltei quinze meses atrás. Nós dois estávamos conversando, só os dois, num canto da boate, falando um tanto sobre diversos assuntos comuns à vida de vestibulandos e outro tanto trocando cantadas, sorrisos e olhares também, é claro. Eu estava fantasiada de Anjo, com uma asa enorme nas costas (destas que crianças costumam usar em coroações de igreja), e ele de Zorro, com chapéu, máscara e capa. De repente, ele fala alguma coisa que eu não ouço direito devido ao som alto. Tento me aproximar dele, mas a asa enorme esbarra em tudo e todos e eu, completamente estabanada, não consigo me mover. Ele fala um pouco mais alto, algo do tipo “meu anjo da guarda”, mas eu continuo sem entender a frase toda e, num impulso forte com o corpo, para me mover com asa e tudo mais, quase caio em cima dele, toda desequilibrada. Ficamos cara a cara, quase respirando o mesmo ar. Tinha certeza de que íamos nos beijar na seqüência, embora eu não tivesse planejado nada daquilo. Mas ele, instintivamente, se esquivou. Fiquei super sem-jeito e mortalmente envergonhada e logo me recompus. Tentei encerrar o papo e sair de perto dele (na medida em que sair de perto dele , logo, com aquela asa fosse possível, é claro), mas ele, caindo na real (afinal, ele não queria mesmo me beijar?), rapidamente, me segurou forte pela mão me impedindo de deixá-lo, assim como fazia naquela hora e, me puxando para junto dele, me beijou.
_Clara! – Joana voltou a me chamar e, sem querer, me trazendo de volta à realidade.
_Joana, espera um pouco. – eu me virei e disse piscando para ela entender meu recado. E, me voltando para ele, que ainda segurava minha mão, falei de forma um pouco mais ríspida do que realmente pretendia:
_Mais alguma coisa que queira me dizer, Caio?
_Na verdade, tem sim.
_O que é? – perguntei com o coração a 300 Km/hora e as mãos molhando sem saber o que esperar.
_Eu ainda continuo esperando por você no final de cada plantão de história.
Meus olhos se congelaram quando ouvi esta frase e, posso garantir, por mais que eu soubesse que Caio ainda sentia alguma coisa por mim, não imaginava que fosse algo assim tão forte, tão profundo. Vou ter que explicar por quê.
Essa brincadeira do “plantão de história” surgiu logo depois dessa festa à fantasia, na época em que ficávamos juntos no colégio e eu ainda namorava o Lucas. Toda tarde, depois das aulas, tinha os plantões pré-vestibulares, aquelas aulas “tira-dúvida” para os vestibulandos. E essas aulas eram subdivididas pelas áreas dos cursos escolhidos pelos alunos: exatas, humanas, biomédicas e gerenciais. Nas tardes de quinta, havia os plantões de História e Geografia para Biomédicas, ou seja, esses eram os plantões destinados aos que iam prestar vestibular para cursos da área da saúde e biologia. Portanto, como podem imaginar, eram plantões bem pouco freqüentados, visto que esses alunos preferiam os plantões de química e biologia, suas matérias específicas. E na nossa turma, apenas eu e Caio estávamos nesse grupo (mesmo que a pulguinha da publicidade já estivesse rondando minha vida, minha escolha central era a odontologia). Era freqüente, então, nós dois combinarmos de ir ao plantão de história como desculpa para ficarmos juntos, no fundo da sala, e trocarmos uns beijinhos ao final desta aula, quando a sala ficava vazia e não havia testemunhas. Era o nosso ponto de encontro semanal. Ana sempre brincava comigo: “Vai bater ponto no plantão de história?”. Mas a moral desta “brincadeira” toda foi que, como já comentei anteriormente, naquela época, Caio havia me dado uma intimada sobre eu continuar com Lucas e eu nunca dei a ele uma resposta definitiva. Nunca fiz a minha escolha. Simplesmente fugi. Dele, dos plantões, enfim, daquilo que tínhamos juntos. Simplesmente parei de ir ao plantão de história. E ele nunca comentou nada comigo sobre isso. Até aquele dia. Imaginava que ele tivesse entendido o recado, de que eu tinha fugindo daquela história. E, de repente, mais de um ano depois disso tudo, ele reaparecia com essa frase a tiracolo.
_Como é que é? – eu quase engasguei e disse meio sem ar, sem chão e sem reação.
_Isso mesmo que você ouviu – ele continuava segurando a minha mão e agora alisava o polegar sobre o dorso, de forma carinhosa – continuo esperando você todas as tardes de quinta-feira. Você sumiu e nunca mais apareceu, não me avisou que tinha perdido o interesse – ele me olhava no fundo dos olhos.
_Caio... eu, é...– eu nem sabia o que dizer a ele.
_Pensei em te dizer que eu continuo interessado nos plantões, ou melhor, no que rolava nos plantões – ele falou sorrindo, agora de forma doce e sincera, como era a minha melhor lembrança dele.
_Mesmo? – eu também sorri, mole como uma gelatina.
_Mesmo. E espero que a odontologia e essa nova vida não tenha feito você perder o interesse pela história, pelo plantão, pela minha companhia.
_Na verdade – disse com o peito explodindo – eu senti muita falta desses plantões desde que parei de freqüentá-los. Falta história na minha vida, sabia?
Então ele se levantou, me puxou de encontro ao seu corpo, passou a mão por debaixo dos meus cabelos e, segurando minha nuca, me beijou. Calmamente, de forma tímida, suave e deliciosa. Esse era o Caio. O meu Caio. Sem máscaras, sem subterfúgios, sem amarras, de volta para mim. Só para mim.
_Com licença, Caio, preciso ir...
_Espera Clara! Não precisa sair correndo. Não vou te devorar. – ele disse se desculpando, segurando forte a minha mão. E aquela cena me lembrou nosso primeiro beijo, na festa à fantasia para arrecadar dinheiro para a formatura, mais ou menos um ano antes.
Como num filme, voltei quinze meses atrás. Nós dois estávamos conversando, só os dois, num canto da boate, falando um tanto sobre diversos assuntos comuns à vida de vestibulandos e outro tanto trocando cantadas, sorrisos e olhares também, é claro. Eu estava fantasiada de Anjo, com uma asa enorme nas costas (destas que crianças costumam usar em coroações de igreja), e ele de Zorro, com chapéu, máscara e capa. De repente, ele fala alguma coisa que eu não ouço direito devido ao som alto. Tento me aproximar dele, mas a asa enorme esbarra em tudo e todos e eu, completamente estabanada, não consigo me mover. Ele fala um pouco mais alto, algo do tipo “meu anjo da guarda”, mas eu continuo sem entender a frase toda e, num impulso forte com o corpo, para me mover com asa e tudo mais, quase caio em cima dele, toda desequilibrada. Ficamos cara a cara, quase respirando o mesmo ar. Tinha certeza de que íamos nos beijar na seqüência, embora eu não tivesse planejado nada daquilo. Mas ele, instintivamente, se esquivou. Fiquei super sem-jeito e mortalmente envergonhada e logo me recompus. Tentei encerrar o papo e sair de perto dele (na medida em que sair de perto dele , logo, com aquela asa fosse possível, é claro), mas ele, caindo na real (afinal, ele não queria mesmo me beijar?), rapidamente, me segurou forte pela mão me impedindo de deixá-lo, assim como fazia naquela hora e, me puxando para junto dele, me beijou.
_Clara! – Joana voltou a me chamar e, sem querer, me trazendo de volta à realidade.
_Joana, espera um pouco. – eu me virei e disse piscando para ela entender meu recado. E, me voltando para ele, que ainda segurava minha mão, falei de forma um pouco mais ríspida do que realmente pretendia:
_Mais alguma coisa que queira me dizer, Caio?
_Na verdade, tem sim.
_O que é? – perguntei com o coração a 300 Km/hora e as mãos molhando sem saber o que esperar.
_Eu ainda continuo esperando por você no final de cada plantão de história.
Meus olhos se congelaram quando ouvi esta frase e, posso garantir, por mais que eu soubesse que Caio ainda sentia alguma coisa por mim, não imaginava que fosse algo assim tão forte, tão profundo. Vou ter que explicar por quê.
Essa brincadeira do “plantão de história” surgiu logo depois dessa festa à fantasia, na época em que ficávamos juntos no colégio e eu ainda namorava o Lucas. Toda tarde, depois das aulas, tinha os plantões pré-vestibulares, aquelas aulas “tira-dúvida” para os vestibulandos. E essas aulas eram subdivididas pelas áreas dos cursos escolhidos pelos alunos: exatas, humanas, biomédicas e gerenciais. Nas tardes de quinta, havia os plantões de História e Geografia para Biomédicas, ou seja, esses eram os plantões destinados aos que iam prestar vestibular para cursos da área da saúde e biologia. Portanto, como podem imaginar, eram plantões bem pouco freqüentados, visto que esses alunos preferiam os plantões de química e biologia, suas matérias específicas. E na nossa turma, apenas eu e Caio estávamos nesse grupo (mesmo que a pulguinha da publicidade já estivesse rondando minha vida, minha escolha central era a odontologia). Era freqüente, então, nós dois combinarmos de ir ao plantão de história como desculpa para ficarmos juntos, no fundo da sala, e trocarmos uns beijinhos ao final desta aula, quando a sala ficava vazia e não havia testemunhas. Era o nosso ponto de encontro semanal. Ana sempre brincava comigo: “Vai bater ponto no plantão de história?”. Mas a moral desta “brincadeira” toda foi que, como já comentei anteriormente, naquela época, Caio havia me dado uma intimada sobre eu continuar com Lucas e eu nunca dei a ele uma resposta definitiva. Nunca fiz a minha escolha. Simplesmente fugi. Dele, dos plantões, enfim, daquilo que tínhamos juntos. Simplesmente parei de ir ao plantão de história. E ele nunca comentou nada comigo sobre isso. Até aquele dia. Imaginava que ele tivesse entendido o recado, de que eu tinha fugindo daquela história. E, de repente, mais de um ano depois disso tudo, ele reaparecia com essa frase a tiracolo.
_Como é que é? – eu quase engasguei e disse meio sem ar, sem chão e sem reação.
_Isso mesmo que você ouviu – ele continuava segurando a minha mão e agora alisava o polegar sobre o dorso, de forma carinhosa – continuo esperando você todas as tardes de quinta-feira. Você sumiu e nunca mais apareceu, não me avisou que tinha perdido o interesse – ele me olhava no fundo dos olhos.
_Caio... eu, é...– eu nem sabia o que dizer a ele.
_Pensei em te dizer que eu continuo interessado nos plantões, ou melhor, no que rolava nos plantões – ele falou sorrindo, agora de forma doce e sincera, como era a minha melhor lembrança dele.
_Mesmo? – eu também sorri, mole como uma gelatina.
_Mesmo. E espero que a odontologia e essa nova vida não tenha feito você perder o interesse pela história, pelo plantão, pela minha companhia.
_Na verdade – disse com o peito explodindo – eu senti muita falta desses plantões desde que parei de freqüentá-los. Falta história na minha vida, sabia?
Então ele se levantou, me puxou de encontro ao seu corpo, passou a mão por debaixo dos meus cabelos e, segurando minha nuca, me beijou. Calmamente, de forma tímida, suave e deliciosa. Esse era o Caio. O meu Caio. Sem máscaras, sem subterfúgios, sem amarras, de volta para mim. Só para mim.
sábado, 25 de setembro de 2010
Capítulo 11 - parte 1
Eu e Caio vivemos uma relação tumultuada durante muito tempo, hoje ela é apenas dolorosa. Tudo começou, como disse anteriormente, no último ano do colégio. Mas foi só no fim do primeiro ano da faculdade, quando Lucas e eu estávamos definitivamente separados, que Caio reapareceu.
Era final de novembro, meu aniversário de 19 anos. Eu tinha acabado de tirar carteira de motorista e ganhar um carro dos meus pais. Estava eufórica. Fazia oito meses que eu não ouvia a voz de Caio, desde aquele conversa estranha pelo telefone, durante a qual ele quis mostrar, mais do que nunca, que estar longe de mim era a melhor opção para sua vida. Eu tinha decidido comemorar meu aniversário com um churrascão em casa, reunindo os velhos amigos do colégio e os novos amigos da faculdade.
Durante o último ano do colégio, eu, Luiza e Ana estreitamos relações com um grupo de amigos novos, Ricardo, Luiz, Eduardo, Renata e Caio, que estavam vindo de outra escola, diferente de mim e Ana que havíamos estudado lá a vida inteira (Lu havia entrado só no 2o grau) e tínhamos uma boa turma de amigos veteranos. Mas o último ano é sempre o último ano, é o mais especial, e, portanto, aquele novo grupo se tornou muito querido para nós três. E com o passar do tempo nos tornamos muito unidos, e o somos até hoje, dez anos depois, exceto pelo casal “trincado” que existe neste grupo, eu e Caio.
Estar com esta turma é o mesmo que estar com Caio e essa sempre foi a parte mais árdua porque é impossível, para mim, separar a amizade do amor. Neste dia, por exemplo, quando enviei um email convidando toda a turma para este churrasco de aniversário, enviei também ao Caio, mas nunca imaginei que ele pudesse aparecer, ainda mais por estar morando em outra cidade.
De toda essa turma, Luiz e Dudu sempre foram os mais presentes em minha vida, os mais íntimos. Luiz, por incrível que pareça, é o melhor amigo de Caio. Confesso que nunca entendi como ele consegue manter este nível de intimidade comigo sendo tão conhecedor da vida de Caio. Mas, enfim, ele acabou se dando muito bem neste papel (amigo dos dois) nestes anos todos e, hoje, afirmo com sabedoria que Luiz é peça fundamental no quebra-cabeça da minha vida e um amigo muito especial.
Já Dudu é do meu time mesmo, ele sempre foi o meu confidente mais fiel. Ele sempre se colocou mais ao meu lado do que ao lado de Caio, efetivamente, e me entendeu quando eu simplesmente não quis escolher ninguém. E também me entendeu em cada recaída que tive com Caio. E eu, sempre soube ler em seus olhos o que ele queria me dizer.
Quando Dudu apareceu no churrasco naquele dia quente e chuvoso de novembro, trazia um sorriso um tanto quanto irônico no rosto e aquilo já me fez sentir estranha.
_Parabéns minha dentista preferida! – ele disse enquanto me abraçava.
_Obrigada, Dudu! Que bom você estar aqui! – agradeci.
_Jamais perderia este dia, em especial com o presente que Luiz está trazendo para você! – ele respondeu piscando e completou por entre os dentes – se prepara!
Quando ele acabou de me dizer isso, meu coração disparou ao avistar a figura de Caio entrando pelo portão da minha casa, logo atrás de Luiz. Laura, minha irmã, segurando uma cerveja, sussurrou me entregando a garrafa:
_Vira tudo e disfarça a cara de idiota, por favor.
Antes que eu pudesse pensar, fiz o que ela mandou enquanto aguardava ele e Luiz chegarem ao meu encontro.
_Clarinha, minha amiga-amada-amante-gata-garota, feliz aniversário! Pelo visto, os Froes nunca deixam a desejar, vejam só que superprodução este evento! – Luiz, bem em seu estilo engraçadinho, soltou essa para dissipar a tensão que já havia entre mim e Caio.
_Ei Luiz! Obrigada! Vai entrando e se arrumando, hein? Já conhece a casa, as pessoas e tudo mais.
Caio, com uma cara tímida, e linda, sorria sem graça do estilo de chegada “abre-alas” do amigo.
_Parabéns Clara! Te desejo tudo de bom, que você seja feliz sempre! – ele me abraçou forte e saudosamente para que eu pudesse flutuar novamente em seu perfume.
_Obrigada Caio, senti saudades – eu não me segurei – que bom ver você aqui, confesso que não esperava.
_Também senti saudades. – ele disse enquanto nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez na vida, nos reconhecendo.
E ficamos assim, por um tempo que nem sei precisar exatamente, mais ou menos até o momento em que as necessidades de anfitriã me chamaram de volta à realidade. Mas logo entendi que Caio tinha resolvido, sem mais nem menos, reaparecer na minha vida e assumir um posto definitivo no meu coração, que silenciosamente, alimentava essa esperança já há algum tempo.
A festa foi rolando com meu coração aos pulos, sem conseguir dar atenção a ninguém, apenas vigiando os passos e olhares de Caio. Rafaela comentou que eu estava muito adolescente eufórica. Ana, mais rasgada, soltou: “você está exalando atração pelo Caio. Até o Rei da Espanha pode sentir seus hormônios. Não dá para se controlar um pouco?” Não, Ana, não dá. Não consigo. Nunca consegui. Eu sou assim, transparente como cristal.
_Ana, entenda, Clara é muito clara. O trocadilho com o nome não é mera coincidência! – disse João, que estava começando a namorar Ana naquela época e já era um querido para mim.
Na hora do “Parabéns a você”, minha parte preferida de qualquer festa de aniversário (confesso, sempre fui uma criança em aniversários!), Luiz, cheio de graça, decidiu perguntar na frente de todo mundo ao redor da mesa do bolo:
_Para quem vamos cantar o “com quem será”, Clara?
_Palhaço... – eu respondi ríspida, vermelha como um pimentão, toda embaraçada.
_Ah não! Clara já é bastante infantil com esta baboseira de bolo, vela e parabéns! Tenha dó, sem “com quem será”, Luiz! Me poupe! – Laura respondeu para me salvar, mas também para me ironizar, afinal ela não perderia essa chance.
_Desculpa amiga, achei que seria uma “deixa” para vocês se darem uma chance – ele cochichou em meu ouvido, disfarçadamente.
_Ou piorar tudo, não é Luiz? – falei brava.
_Clarinha, hoje é o seu dia, sua festa, relaxa. E ele veio até aqui pra te ver! – Dudu também resolveu entrar na discussão e palpitar.
_Entendi, Du. Tudo bem. Mas deixa a coisa rolar, sem forçar nada.
_Sem forçar nada, Luiz! – Dudu brincou com ele, como se desse uma ordem, imitando minha voz.
_Tá bom, eu sei. – Luiz respondeu a Dudu, mas se virando para mim, completou – mas vá lá falar com ele depois. Acho que você deve isso a ele, né?
_Isso. Você também, Clara, vê se ajuda o coitado do cupido! – Dudu completou.
Depois do parabéns, com direito a muitas fotos e vária velas, resolvi seguir os conselhos de Luiz e Dudu e fui até onde Caio estava, pra falar com ele. Sentei-me ao seu lado e usando do meu sorriso mais atraente, disse:
_Quanto tempo, hein Dr. Caio?
_Bastante tempo mesmo. Como você está? – ele me perguntou com um sorriso enigmático
_Muito bem, e você? Amando a medicina ainda mais?
_Cada dia mais. Ela me consome, sabe? – ele foi enfático e eu já começava a sentir um cheirinho de ironia a seguir.
_Então é uma grande honra ter você aqui hoje, não é mesmo? – respondi no mesmo tom, mas com medo de onde isso poderia chegar.
_A grande honra mesmo é ser convidado a fazer parte da sua vida. – ele falou quase vomitando as palavras, bastante dúbio, como gostava de ser.
_Você faz parte da minha vida desde que nos conhecemos, apesar de estarmos há muito tempo sem nos ver. – eu quis dar a minha versão da história.
_Será?
_Claro que sim. Não entendo a dúvida.
_Ora, eu nem mesmo sabia que você e Lucas não são mais um casal.
_Ah... isso. – eu entendi onde ele podia ir com aquela conversa.
_Terminaram mesmo? – ele continuou incisivo no papo.
_Terminamos sim, Caio, sem dúvida. – eu confirmei com firmeza na voz e ele deu a facada mortal:
_Posso saber porque, então, durante esse tempo todo, você não me ligou? – o tom de cobrança era nítido na sua voz, mas eu preferia isso a ele ignorar este fato.
_Eu até tentei, mas você não quis muito me dar espaço, lembra? – eu disse me lembrando da ligação, mas meio sem convicção do que estava tentando fazer.
_Tentou? Não me lembro disso. Lembro apenas que, da última vez que nos vimos, no baile de formatura, vocês dois pareciam bem felizes.
_Parecíamos. Mas não éramos. Por isso acabou. – eu disse rapidamente.
_Será mesmo? Se vocês não eram felizes, porque você não quis tentar ser feliz de outra forma? Porque a gente não conversou sobre isso, porque você não se deu uma chance de fazer diferente? – ele foi soltando tudo, como se estivesse ensaiado esse discurso há meses.
_Caio... er... eu não quero discutir isso agora. Você veio aqui, na minha festa, isso me deixou muito feliz e quero que tudo fique bem. – eu tentei fugir, da melhor forma que pude, tamanho o meu susto com o discurso dele.
_Nossa, desculpa... acho que eu me exaltei – ele pareceu se acalmar e tomou um longo gole de cerveja – não é hora nem lugar para conversar sobre isso, né?
_É, acho que não. – eu disse olhando pro chão.
_E também não é muito normal discutir uma falta de relação, né? – ele disse rindo e cheio de ironia.
_Isso, aproveite então o resto da festa. Fique à vontade. Vou mandar servirem mais cerveja para você – disse enquanto já me levantava. Eu quis sair correndo, pois nem nos meus piores sonhos, imaginei aquele diálogo com Caio quando fui me sentar ao lado dele. Não pensei que ele fosse me metralhar assim.
Era final de novembro, meu aniversário de 19 anos. Eu tinha acabado de tirar carteira de motorista e ganhar um carro dos meus pais. Estava eufórica. Fazia oito meses que eu não ouvia a voz de Caio, desde aquele conversa estranha pelo telefone, durante a qual ele quis mostrar, mais do que nunca, que estar longe de mim era a melhor opção para sua vida. Eu tinha decidido comemorar meu aniversário com um churrascão em casa, reunindo os velhos amigos do colégio e os novos amigos da faculdade.
Durante o último ano do colégio, eu, Luiza e Ana estreitamos relações com um grupo de amigos novos, Ricardo, Luiz, Eduardo, Renata e Caio, que estavam vindo de outra escola, diferente de mim e Ana que havíamos estudado lá a vida inteira (Lu havia entrado só no 2o grau) e tínhamos uma boa turma de amigos veteranos. Mas o último ano é sempre o último ano, é o mais especial, e, portanto, aquele novo grupo se tornou muito querido para nós três. E com o passar do tempo nos tornamos muito unidos, e o somos até hoje, dez anos depois, exceto pelo casal “trincado” que existe neste grupo, eu e Caio.
Estar com esta turma é o mesmo que estar com Caio e essa sempre foi a parte mais árdua porque é impossível, para mim, separar a amizade do amor. Neste dia, por exemplo, quando enviei um email convidando toda a turma para este churrasco de aniversário, enviei também ao Caio, mas nunca imaginei que ele pudesse aparecer, ainda mais por estar morando em outra cidade.
De toda essa turma, Luiz e Dudu sempre foram os mais presentes em minha vida, os mais íntimos. Luiz, por incrível que pareça, é o melhor amigo de Caio. Confesso que nunca entendi como ele consegue manter este nível de intimidade comigo sendo tão conhecedor da vida de Caio. Mas, enfim, ele acabou se dando muito bem neste papel (amigo dos dois) nestes anos todos e, hoje, afirmo com sabedoria que Luiz é peça fundamental no quebra-cabeça da minha vida e um amigo muito especial.
Já Dudu é do meu time mesmo, ele sempre foi o meu confidente mais fiel. Ele sempre se colocou mais ao meu lado do que ao lado de Caio, efetivamente, e me entendeu quando eu simplesmente não quis escolher ninguém. E também me entendeu em cada recaída que tive com Caio. E eu, sempre soube ler em seus olhos o que ele queria me dizer.
Quando Dudu apareceu no churrasco naquele dia quente e chuvoso de novembro, trazia um sorriso um tanto quanto irônico no rosto e aquilo já me fez sentir estranha.
_Parabéns minha dentista preferida! – ele disse enquanto me abraçava.
_Obrigada, Dudu! Que bom você estar aqui! – agradeci.
_Jamais perderia este dia, em especial com o presente que Luiz está trazendo para você! – ele respondeu piscando e completou por entre os dentes – se prepara!
Quando ele acabou de me dizer isso, meu coração disparou ao avistar a figura de Caio entrando pelo portão da minha casa, logo atrás de Luiz. Laura, minha irmã, segurando uma cerveja, sussurrou me entregando a garrafa:
_Vira tudo e disfarça a cara de idiota, por favor.
Antes que eu pudesse pensar, fiz o que ela mandou enquanto aguardava ele e Luiz chegarem ao meu encontro.
_Clarinha, minha amiga-amada-amante-gata-garota, feliz aniversário! Pelo visto, os Froes nunca deixam a desejar, vejam só que superprodução este evento! – Luiz, bem em seu estilo engraçadinho, soltou essa para dissipar a tensão que já havia entre mim e Caio.
_Ei Luiz! Obrigada! Vai entrando e se arrumando, hein? Já conhece a casa, as pessoas e tudo mais.
Caio, com uma cara tímida, e linda, sorria sem graça do estilo de chegada “abre-alas” do amigo.
_Parabéns Clara! Te desejo tudo de bom, que você seja feliz sempre! – ele me abraçou forte e saudosamente para que eu pudesse flutuar novamente em seu perfume.
_Obrigada Caio, senti saudades – eu não me segurei – que bom ver você aqui, confesso que não esperava.
_Também senti saudades. – ele disse enquanto nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez na vida, nos reconhecendo.
E ficamos assim, por um tempo que nem sei precisar exatamente, mais ou menos até o momento em que as necessidades de anfitriã me chamaram de volta à realidade. Mas logo entendi que Caio tinha resolvido, sem mais nem menos, reaparecer na minha vida e assumir um posto definitivo no meu coração, que silenciosamente, alimentava essa esperança já há algum tempo.
A festa foi rolando com meu coração aos pulos, sem conseguir dar atenção a ninguém, apenas vigiando os passos e olhares de Caio. Rafaela comentou que eu estava muito adolescente eufórica. Ana, mais rasgada, soltou: “você está exalando atração pelo Caio. Até o Rei da Espanha pode sentir seus hormônios. Não dá para se controlar um pouco?” Não, Ana, não dá. Não consigo. Nunca consegui. Eu sou assim, transparente como cristal.
_Ana, entenda, Clara é muito clara. O trocadilho com o nome não é mera coincidência! – disse João, que estava começando a namorar Ana naquela época e já era um querido para mim.
Na hora do “Parabéns a você”, minha parte preferida de qualquer festa de aniversário (confesso, sempre fui uma criança em aniversários!), Luiz, cheio de graça, decidiu perguntar na frente de todo mundo ao redor da mesa do bolo:
_Para quem vamos cantar o “com quem será”, Clara?
_Palhaço... – eu respondi ríspida, vermelha como um pimentão, toda embaraçada.
_Ah não! Clara já é bastante infantil com esta baboseira de bolo, vela e parabéns! Tenha dó, sem “com quem será”, Luiz! Me poupe! – Laura respondeu para me salvar, mas também para me ironizar, afinal ela não perderia essa chance.
_Desculpa amiga, achei que seria uma “deixa” para vocês se darem uma chance – ele cochichou em meu ouvido, disfarçadamente.
_Ou piorar tudo, não é Luiz? – falei brava.
_Clarinha, hoje é o seu dia, sua festa, relaxa. E ele veio até aqui pra te ver! – Dudu também resolveu entrar na discussão e palpitar.
_Entendi, Du. Tudo bem. Mas deixa a coisa rolar, sem forçar nada.
_Sem forçar nada, Luiz! – Dudu brincou com ele, como se desse uma ordem, imitando minha voz.
_Tá bom, eu sei. – Luiz respondeu a Dudu, mas se virando para mim, completou – mas vá lá falar com ele depois. Acho que você deve isso a ele, né?
_Isso. Você também, Clara, vê se ajuda o coitado do cupido! – Dudu completou.
Depois do parabéns, com direito a muitas fotos e vária velas, resolvi seguir os conselhos de Luiz e Dudu e fui até onde Caio estava, pra falar com ele. Sentei-me ao seu lado e usando do meu sorriso mais atraente, disse:
_Quanto tempo, hein Dr. Caio?
_Bastante tempo mesmo. Como você está? – ele me perguntou com um sorriso enigmático
_Muito bem, e você? Amando a medicina ainda mais?
_Cada dia mais. Ela me consome, sabe? – ele foi enfático e eu já começava a sentir um cheirinho de ironia a seguir.
_Então é uma grande honra ter você aqui hoje, não é mesmo? – respondi no mesmo tom, mas com medo de onde isso poderia chegar.
_A grande honra mesmo é ser convidado a fazer parte da sua vida. – ele falou quase vomitando as palavras, bastante dúbio, como gostava de ser.
_Você faz parte da minha vida desde que nos conhecemos, apesar de estarmos há muito tempo sem nos ver. – eu quis dar a minha versão da história.
_Será?
_Claro que sim. Não entendo a dúvida.
_Ora, eu nem mesmo sabia que você e Lucas não são mais um casal.
_Ah... isso. – eu entendi onde ele podia ir com aquela conversa.
_Terminaram mesmo? – ele continuou incisivo no papo.
_Terminamos sim, Caio, sem dúvida. – eu confirmei com firmeza na voz e ele deu a facada mortal:
_Posso saber porque, então, durante esse tempo todo, você não me ligou? – o tom de cobrança era nítido na sua voz, mas eu preferia isso a ele ignorar este fato.
_Eu até tentei, mas você não quis muito me dar espaço, lembra? – eu disse me lembrando da ligação, mas meio sem convicção do que estava tentando fazer.
_Tentou? Não me lembro disso. Lembro apenas que, da última vez que nos vimos, no baile de formatura, vocês dois pareciam bem felizes.
_Parecíamos. Mas não éramos. Por isso acabou. – eu disse rapidamente.
_Será mesmo? Se vocês não eram felizes, porque você não quis tentar ser feliz de outra forma? Porque a gente não conversou sobre isso, porque você não se deu uma chance de fazer diferente? – ele foi soltando tudo, como se estivesse ensaiado esse discurso há meses.
_Caio... er... eu não quero discutir isso agora. Você veio aqui, na minha festa, isso me deixou muito feliz e quero que tudo fique bem. – eu tentei fugir, da melhor forma que pude, tamanho o meu susto com o discurso dele.
_Nossa, desculpa... acho que eu me exaltei – ele pareceu se acalmar e tomou um longo gole de cerveja – não é hora nem lugar para conversar sobre isso, né?
_É, acho que não. – eu disse olhando pro chão.
_E também não é muito normal discutir uma falta de relação, né? – ele disse rindo e cheio de ironia.
_Isso, aproveite então o resto da festa. Fique à vontade. Vou mandar servirem mais cerveja para você – disse enquanto já me levantava. Eu quis sair correndo, pois nem nos meus piores sonhos, imaginei aquele diálogo com Caio quando fui me sentar ao lado dele. Não pensei que ele fosse me metralhar assim.
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Capítulo 10 - parte 2
E o dia foi passando assim, naquele climinha intimista, churrascando, piscinando, bebendo e paquerando muito. Foi um dia bem mais calmo e mais leve que o anterior. Mas só o dia, porque eu mal podia esperar pela noite daquele domingo. E apesar de ter me sentido muito bem na maior parte do tempo, não deixei de me lembrar sobre a tal loira de David que deixou um provável arquiteto simpático meio estranho na véspera.
Pedro, de tempos em tempos, me dava uma “assistência” e eu me sentia empolgada, mas, ao mesmo tempo, ligeiramente constrangida com esta situação. Não sei bem o porquê, mas de repente teria sido melhor que apenas a noite fosse nosso cenário. Tá bom, não vou negar que ele querer estar comigo durante todo o dia me massageou o ego. Era Carnaval, ora bolas, ele poderia estar pegando quem e quantas quisesse num balneário como Condados, mas quis estar só comigo.
No início da noite, todas as mulheres se reuniram na hidro da piscina e estávamos num animado papo sobre diversas futilidades femininas, quando Silvia, que tinha trocado várias idéias comigo ao longo desses dois dias, me chamou num canto e me disse, assim do nada, sem quê nem pra quê.
_Clara, posso te fazer uma pergunta meio pessoal?
_Pode sim, Silvia, pergunte o que quiser. Apenas não garanto que vou responder. – eu disse rindo e meio com medo da pergunta.
_Você e o Caio Antunes tiveram um caso, não foi?
_Eu e Caio?! – respondi assustada – Somos amigos... er, na verdade fomos colegas de classe, só isso. Temos amigos em comum. Mas porque você está perguntando isso? – fui falando quase tropeçando nas palavras.
_Ah, é que senti um clima, na sexta feira, quando você e Ana perguntaram à Tati sobre ele. E percebi que você mudou de cor quando ela falou da Roberta.
_Não, deve ter sido impressão sua. – tentei disfarçar sem nenhum sucesso.
_Desculpa me intrometer, mas é que achei você uma garota tão bacana, fui com sua cara, sabe? E julguei que poderia comentar alguma coisa sobre isso.
_O que exatamente você quer comentar? – eu já estava ficando azul e sem voz.
_Caio foi meu calouro na residência de Anestesia, no Incor, você sabia?
_Eu ouvi você comentar. – respondi com o coração aos pulos. – Você também é anestesista?
_Não, eu sou cardiologista, mas é que os anestesistas fazem uma disciplina especial lá no Incor. E aí nos conhecemos.
_Entendo. Bom, mas continue.
_Bem, eu sempre gostei muito dele, somos bons amigos e a gente trocava várias idéias, sabe? Ele chegou algumas vezes a comentar sobre uma garota comigo e...
_Provavelmente sobre esta Roberta, amiga da Tati, atual namorada dele. – eu rapidamente tentei disfarçar e meio mudar o rumo da prosa.
_Não, tenho certeza que não. Ele falava sobre uma tal Clara, amiga de escola. Estou deduzindo que essa garota era você, né?
Fiz uma cara de plástica. Aquela totalmente sem reação. Não sabia o que falar pra ela. Seria difícil entregar o jogo, mas acho que não me restava mais outras opções.
_Clara, mais uma vez, me desculpe a intromissão, não se preocupe, eu não sou amiga da Roberta e a Tati não sabe dessa história que eu sei. Apenas juntei as coisas e tirei essas conclusões. E, como a gente teve uma interação legal, eu só queria te dizer uma coisa, se você me permitir.
_O quê? – eu não confirmei nem refutei a história, mas minha cara de passada não deixaria muitas dúvidas a ela.
_Se você for mesmo essa Clara do Caio, pense bem sobre essa relação. Eu jamais vi um homem tão determinado como Caio em toda a minha vida acadêmica. Ele é considerado, no Incor, o médico mais jovem e produtivo dos últimos anos. É muito respeitado por sua seriedade e profissionalismo.
_Sei. Eu o conheço bem. A medicina é a vida dele. Mas, exatamente onde eu entro nisso?
_A única coisa que o faz desconcertar e o tira do rumo é uma paixão mal resolvida com essa garota. Ele já me confessou isso, num dia de fossa. E, acredite, para ele conseguir me dizer isso, reservado como ele é, é porque a fossa era funda. E eu entendi na hora que essa mulher conseguia mexer com a cabeça dele de uma forma assustadora. Pra mim, isto é, no mínimo, louvável.
Sem forças para continuar negando qualquer coisa, depois de ouvir essas palavras fortes, percebi que o jogo estava perdido.
_Silvia, eu sou essa Clara, sim. Eu e Caio temos uma história louca e muito, muito mal resolvida há quase uma década. A gente não se entende sabe? Não se entende, não se perdoa, não se acerta. Só se magoa. É tudo bem complicado. – disse com lágrimas começando a pinicar os olhos. Pensar e falar a respeito de Caio sempre me deixava assim.
_Imagino. – ela me disse meio sem graça.
_Confesso que nunca imaginei que ele pudesse ter chegado a falar de mim para alguém. Ainda mais para uma colega de trabalho.
_Pois é. Imagino sua surpresa. Mas não quero te deixar triste com isso, ta?
_Mas agora, acredite, estou até feliz que ele esteja bem com essa tal Roberta. Ao menos, acho que eles se entendem. Quem sabe não conseguimos todos seguir nossas vidas, né?
_Bom, não sei até que ponto ele está bem com ela. Eu conheci a Roberta através do Caio, numa festa de Natal de uns amigos em comum. Não senti uma conexão assim tão intensa entre eles. Logo depois, nos encontramos de novo por causa da Tati, que foi da sala deles. Mas eu e Caio já não trabalhávamos mais juntos há um bom tempo. Essa história de que eles se dão bem é uma visão da Tati, que é muito amiga dela. Não necessariamente é real.
_Sei...
_Bom, não quero ficar discutindo sua vida nem a dele. Vi que você se deu bem com Pedro, que é um cara fantástico, e não quero estragar seu feriado. Além disso, é Carnaval e Caio não está aqui, certo? Mas senti que precisava confirmar esta história e te dizer isso.
_Não, tudo bem. Não estragou nada, de forma alguma. E, sim, gostei de você ter me dito tudo isso, foi bem bacana da sua parte.
_Ah, que bom você pensar assim.
Já íamos dar o assunto por encerrado quando decidi fazer mais uma pergunta:
_Silvia?
_Diga.
_Você acha que a Tati percebeu que eu fiquei meio desconcertada quando ela falou da Roberta na sexta à noite?
_Acho que ela sacou uma coisa diferente, sim, não vou mentir, você deu na cara. Mas nada de muito grave, não se preocupe. Ela sequer comentou algo sobre isso comigo. – ela pareceu ser sincera.
_Ah, que bom, então.
_Clara, mas já que perguntou, você sabe que Caio é primo do Bruno?
_Anh? Caio? Primo do Bruno? – eu tampei a boca com a mão num gesto de susto – do Bruno da Larissa? Esse aqui?– estava embasbacada.
_Sim, ele mesmo. São primos. As mães são irmãs. Você não sabia mesmo? Mas tenho certeza de que você percebeu a semelhança física entre eles.
_Claro, são muito parecidos. Levei um susto quando Bruno chegou. Mas jamais poderia imaginar que fossem primos! Eu conheço pouco a família do Caio. Nós nunca namoramos, assim oficialmente, sabe? Conheço só os irmãos e os pais dele.
_São primos sim, e muito chegados inclusive.
_Jura?
_Juro. Então, como você perguntou sobre a Tati, tenho que te alertar: Bruno sabe dessa história do Caio com uma certa Clara. Ele é muito observador e vi que ele prestou atenção quando vocês perguntaram do Caio na sexta. Ele provavelmente juntou as coisas, assim como eu.
_Será?
_Pode ter certeza. Eu o conheço bem. Mas não se aflija, ta? Bruno é discretíssimo e muito reservado, assim como Caio, e jamais comentaria nada. Por isso ele nem se pronunciou quando ouviu você perguntar sobre um primo dele.
Pedro, de tempos em tempos, me dava uma “assistência” e eu me sentia empolgada, mas, ao mesmo tempo, ligeiramente constrangida com esta situação. Não sei bem o porquê, mas de repente teria sido melhor que apenas a noite fosse nosso cenário. Tá bom, não vou negar que ele querer estar comigo durante todo o dia me massageou o ego. Era Carnaval, ora bolas, ele poderia estar pegando quem e quantas quisesse num balneário como Condados, mas quis estar só comigo.
No início da noite, todas as mulheres se reuniram na hidro da piscina e estávamos num animado papo sobre diversas futilidades femininas, quando Silvia, que tinha trocado várias idéias comigo ao longo desses dois dias, me chamou num canto e me disse, assim do nada, sem quê nem pra quê.
_Clara, posso te fazer uma pergunta meio pessoal?
_Pode sim, Silvia, pergunte o que quiser. Apenas não garanto que vou responder. – eu disse rindo e meio com medo da pergunta.
_Você e o Caio Antunes tiveram um caso, não foi?
_Eu e Caio?! – respondi assustada – Somos amigos... er, na verdade fomos colegas de classe, só isso. Temos amigos em comum. Mas porque você está perguntando isso? – fui falando quase tropeçando nas palavras.
_Ah, é que senti um clima, na sexta feira, quando você e Ana perguntaram à Tati sobre ele. E percebi que você mudou de cor quando ela falou da Roberta.
_Não, deve ter sido impressão sua. – tentei disfarçar sem nenhum sucesso.
_Desculpa me intrometer, mas é que achei você uma garota tão bacana, fui com sua cara, sabe? E julguei que poderia comentar alguma coisa sobre isso.
_O que exatamente você quer comentar? – eu já estava ficando azul e sem voz.
_Caio foi meu calouro na residência de Anestesia, no Incor, você sabia?
_Eu ouvi você comentar. – respondi com o coração aos pulos. – Você também é anestesista?
_Não, eu sou cardiologista, mas é que os anestesistas fazem uma disciplina especial lá no Incor. E aí nos conhecemos.
_Entendo. Bom, mas continue.
_Bem, eu sempre gostei muito dele, somos bons amigos e a gente trocava várias idéias, sabe? Ele chegou algumas vezes a comentar sobre uma garota comigo e...
_Provavelmente sobre esta Roberta, amiga da Tati, atual namorada dele. – eu rapidamente tentei disfarçar e meio mudar o rumo da prosa.
_Não, tenho certeza que não. Ele falava sobre uma tal Clara, amiga de escola. Estou deduzindo que essa garota era você, né?
Fiz uma cara de plástica. Aquela totalmente sem reação. Não sabia o que falar pra ela. Seria difícil entregar o jogo, mas acho que não me restava mais outras opções.
_Clara, mais uma vez, me desculpe a intromissão, não se preocupe, eu não sou amiga da Roberta e a Tati não sabe dessa história que eu sei. Apenas juntei as coisas e tirei essas conclusões. E, como a gente teve uma interação legal, eu só queria te dizer uma coisa, se você me permitir.
_O quê? – eu não confirmei nem refutei a história, mas minha cara de passada não deixaria muitas dúvidas a ela.
_Se você for mesmo essa Clara do Caio, pense bem sobre essa relação. Eu jamais vi um homem tão determinado como Caio em toda a minha vida acadêmica. Ele é considerado, no Incor, o médico mais jovem e produtivo dos últimos anos. É muito respeitado por sua seriedade e profissionalismo.
_Sei. Eu o conheço bem. A medicina é a vida dele. Mas, exatamente onde eu entro nisso?
_A única coisa que o faz desconcertar e o tira do rumo é uma paixão mal resolvida com essa garota. Ele já me confessou isso, num dia de fossa. E, acredite, para ele conseguir me dizer isso, reservado como ele é, é porque a fossa era funda. E eu entendi na hora que essa mulher conseguia mexer com a cabeça dele de uma forma assustadora. Pra mim, isto é, no mínimo, louvável.
Sem forças para continuar negando qualquer coisa, depois de ouvir essas palavras fortes, percebi que o jogo estava perdido.
_Silvia, eu sou essa Clara, sim. Eu e Caio temos uma história louca e muito, muito mal resolvida há quase uma década. A gente não se entende sabe? Não se entende, não se perdoa, não se acerta. Só se magoa. É tudo bem complicado. – disse com lágrimas começando a pinicar os olhos. Pensar e falar a respeito de Caio sempre me deixava assim.
_Imagino. – ela me disse meio sem graça.
_Confesso que nunca imaginei que ele pudesse ter chegado a falar de mim para alguém. Ainda mais para uma colega de trabalho.
_Pois é. Imagino sua surpresa. Mas não quero te deixar triste com isso, ta?
_Mas agora, acredite, estou até feliz que ele esteja bem com essa tal Roberta. Ao menos, acho que eles se entendem. Quem sabe não conseguimos todos seguir nossas vidas, né?
_Bom, não sei até que ponto ele está bem com ela. Eu conheci a Roberta através do Caio, numa festa de Natal de uns amigos em comum. Não senti uma conexão assim tão intensa entre eles. Logo depois, nos encontramos de novo por causa da Tati, que foi da sala deles. Mas eu e Caio já não trabalhávamos mais juntos há um bom tempo. Essa história de que eles se dão bem é uma visão da Tati, que é muito amiga dela. Não necessariamente é real.
_Sei...
_Bom, não quero ficar discutindo sua vida nem a dele. Vi que você se deu bem com Pedro, que é um cara fantástico, e não quero estragar seu feriado. Além disso, é Carnaval e Caio não está aqui, certo? Mas senti que precisava confirmar esta história e te dizer isso.
_Não, tudo bem. Não estragou nada, de forma alguma. E, sim, gostei de você ter me dito tudo isso, foi bem bacana da sua parte.
_Ah, que bom você pensar assim.
Já íamos dar o assunto por encerrado quando decidi fazer mais uma pergunta:
_Silvia?
_Diga.
_Você acha que a Tati percebeu que eu fiquei meio desconcertada quando ela falou da Roberta na sexta à noite?
_Acho que ela sacou uma coisa diferente, sim, não vou mentir, você deu na cara. Mas nada de muito grave, não se preocupe. Ela sequer comentou algo sobre isso comigo. – ela pareceu ser sincera.
_Ah, que bom, então.
_Clara, mas já que perguntou, você sabe que Caio é primo do Bruno?
_Anh? Caio? Primo do Bruno? – eu tampei a boca com a mão num gesto de susto – do Bruno da Larissa? Esse aqui?– estava embasbacada.
_Sim, ele mesmo. São primos. As mães são irmãs. Você não sabia mesmo? Mas tenho certeza de que você percebeu a semelhança física entre eles.
_Claro, são muito parecidos. Levei um susto quando Bruno chegou. Mas jamais poderia imaginar que fossem primos! Eu conheço pouco a família do Caio. Nós nunca namoramos, assim oficialmente, sabe? Conheço só os irmãos e os pais dele.
_São primos sim, e muito chegados inclusive.
_Jura?
_Juro. Então, como você perguntou sobre a Tati, tenho que te alertar: Bruno sabe dessa história do Caio com uma certa Clara. Ele é muito observador e vi que ele prestou atenção quando vocês perguntaram do Caio na sexta. Ele provavelmente juntou as coisas, assim como eu.
_Será?
_Pode ter certeza. Eu o conheço bem. Mas não se aflija, ta? Bruno é discretíssimo e muito reservado, assim como Caio, e jamais comentaria nada. Por isso ele nem se pronunciou quando ouviu você perguntar sobre um primo dele.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Capítulo 10 - parte 1
O domingo começou com aquela ressaca básica pra todo mundo, inclusive para Ana, que pelo que soube, tomou 2 garrafas inteiras de vinho enquanto falava com João pelo skype.
Já passava de meio-dia quando abri meus olhos manchados de lápis e rímel da noite anterior. Minha cabeça martelava periodicamente e minha boca estava seca como o deserto do Saara. Pensei que precisava de uma Coca-cola com máxima urgência. Luiza já não estava mais na cama ao lado. Me levantei para ir ao banheiro e assim que vi a imagem que o espelho refletiu decidi que era melhor tomar um banho antes de aparecer para o resto das pessoas, pois minha aparência tinha o aspecto de antes de ontem.
Enquanto colocava meu biquíni e uma saída bem larguinha por cima, que pudesse me deixar o mais a vontade possível, não deixei de sentir aquele frio na barriga que qualquer mulher normal costuma sentir quando vai se encontrar cara a cara, bem no café da manhã, com o bofe em quem deu muitos amassos na noite passada. Bem, mas imaginava que Pedro era bastante descolado para isso, portanto seria menos difícil do que o costume.
Assim que coloquei os pés na sala de jantar, percebi que apenas Larissa e Bruno tomavam café. Algumas outras pessoas estavam na piscina, tomando sol, nadando e falando bastante alto. Não consegui definir exatamente quem eram. Nem mesmo se Pedro estava lá. Mas não quis ficar olhando muito.
_Bom dia flor do dia! – disse Larissa quando me viu.
_Bom dia meninos. – eu respondi tentando parecer o mais simpática possível, sem sequer dirigir o olhar a Bruno, pois pelo que me lembrava da noite anterior, nosso derradeiro encontro tinha sido meio esquisito.
_Olá Clara. Sente-se, tome café conosco. Acho que somos os últimos!
_Não, obrigada. Acho que quero só uma Coca geladinha, no máximo um suco. Meu estômago não está nada bem desde ontem e minha cabeça... sem comentários – disse deixando um sorriso entre os lábios.
_Sei como é isso – ele respondeu dando uma piscadinha.
_Ah, me conte, como foi o resto da noite? Soube que você quase levou um tombo? – nem preciso comentar que a única pessoa que me lembraria de um momento vergonhoso da minha noite bem na hora do auge da minha ressaca seria Larissa.
_Quase tombo não é tombo! – dessa vez, fui o mais grossa e antipática que deu.
Virei as costas e fui em direção à piscina pensando por quê, diabos, esse Bruno comentou com ela que eu quase levei um tombo. Mas, enfim, se a hora inevitável chegaria, decidi que era melhor encara-la logo de uma vez do que deixar Larissa me encher mais um pouco.
_Bom dia rainha da country music! – David disse quando me viu. – Finalmente acordou, Bela adormecida!
_Bom dia a todos! – respondi de forma geral, acenando e correndo os olhos por todos que estavam por ali. Fábio, Tati, Tomás e Leo na piscina. Lu, Ana e Silvia nas espreguiçadeiras e, finalmente, Pedro em alguma tarefa envolvente no freezer. Ele nem sequer se virou ao ouvir minha voz.
Senti um frio na barriga um pouco maior e fiquei me sentindo desapontada. Não esperava que ele viesse ao meu encontro com flores e um beijo cinematográfico, mas um pouquinho mais de cortesia seria interessante, né?
Fui em direção às meninas, e me despenquei na única espreguiçadeira disponível ao lado delas, mas notei que tinha uma toalha molhada sobre ela. Nem dei muita bola para este fato.
_Oi amiga! Já pensava em subir para te acordar! Mas Luiza disse que quando desceu você estava dormindo tão gostoso... aí fiquei com pena! – falou Ana.
_Obrigada por me dar essa folga, Ana... minha cabeça está um batuque só. Tomei duas neosaldinas assim que acordei! Isso que dá beber tanto.
Não vi que Pedro se aproximava enquanto tínhamos esse diálogo.
_Na verdade, lindona, isso que dá ter que beber tanto para ceder aos meus encantos. Das próximas vezes, seja mais fácil, ok? – Ele disse enquanto me lascava um beijo delicioso nos lábios e me entregava o mais esplendoroso e suculento copo de Coca-cola com montanhas de gelo que era o verdadeiro oásis para meus olhos e minha boca sedenta.
_Ah, sim, er... bom dia Pedro! – gaguejei enquanto Ana, Luiza e Silvia olhavam em minha direção, embasbacadas com a cara de pau dele – E obrigada pela Coca, eu juro que era o que eu mais queria agora.
_Bom dia Clarinha! Eu imaginei que você estivesse precisando, foi o que eu mais desejei quando acordei também, por isso preparei assim que vi você descer linda e ressaqueada.
_Nossa, mas quanta gentileza e melação logo de manhã, meu Deus! – Ana não conseguiu se segurar. – Imagino que a noite de vocês dois tenha sido ótima, então.
_Ana, ela começou bem devagar, mas depois que colocamos o vídeo num modo play mais acelerado, ficou bem melhor, sabe? – Pedro respondeu com uma cara irônica, ainda me segurando pela cintura.
_Imagino, imagino... aliás, imagino quase tudo, mas preciso de mais detalhes, se é que você me entende, sabe? – Ana disse a ele, dando uma deixa para ele me deixar respirar.
_Ana, não seja indiscreta assim. – Luiza comentou meio de lado.
Mas eu estava tão sem reação com a reação de Pedro, que só conseguia prestar atenção na coca-cola que eu quase derramei goela a baixo.
_Claríssima, agora só temos um problema...
_Qual? – eu quis saber, ainda meio sem graça.
_Eu peguei esta espreguiçadeira primeiro. Ana pode comprovar porque passamos boa parte da manhã aqui, conversando e fofocando, não foi Ana?
_Foi. Fofocamos muito sobre você! – ela confirmou e eu gelei.
_ Sei que está ressaqueada e louca para dar aquela espreguiçada, mas... – ele fez uma cara cínica.
_Ah, então essa espreguiçadeira é sua? – e eu fiz uma cara de dengo.
_Sim, é minha, olha aí, essa toalha também é minha.
_E você pretende tirá-la daqui? – Ana quis me ajudar.
_Claro que não! – ele respondeu de forma safada! E, virando-se para mim, disse – Você tem duas opções para resolvermos essa pendenga.
_Quais seriam, Pedro?
_Você pode dividi-la comigo ou me comprar esse lugar.
_Dividi-la com você não seria uma boa idéia... Sou espaçosa, calorenta e você é grandão... essa espreguiçadeira seria pequena demais pra nós dois.
_Então te resta a outra opção. – Ana acompanhava a tudo, de camarote.
_Comprar?
_Na verdade trocar seria a palavra mais certa.
_O que você quer em troca, Pedro?
_Um beijo e um mergulho na piscina, comigo, pra você melhorar essa cara de antes de ontem!
_Piscina, não... – respondi enquanto ele me pegava no colo, com tanta facilidade que me senti a garota mais magra do mundo, e Ana já tirava minha saída. E, juro, não deu nem tempo de me debater porque quando percebi já estávamos nós dois dentro d’água, espalhando respingos por toda parte.
_Pedro! – gritei.
_Pronto, agora você ficará boa em poucos minutos! Não há ressaca e desânimo que resista a um banho de piscina. – ele ria com aquele sorriso mais lindo do mundo para mim e me desarmava totalmente.
_Este é Pedro, Clara. Tenha muito prazer em conhecê-lo de verdade. – David gritou lá da churrasqueira enquanto eu me refazia daquele literal banho de água fria.
_Agora você pode voltar para a espreguiçadeira e fofocar com Ana, mas fale com carinho de mim, ta bom? Conte como nossa noite foi incrível e maravilhosa!
_Você se acha muito gostoso mesmo, né? Que presunção a sua achar que vou falar de você com Ana! – eu disse tão convicta que quase acreditei na minha própria mentira.
_Calma Claríssima, brincadeirinha... mas a parte do gostoso.é você quem está dizendo, né? – ele disse com sua melhor cara de cafajeste convicto e todos riram de nós dois.
_Sem comentários, Pedro.
Ele então me puxou para perto dele e me deu um beijinho nos lábios, suave doce e molhado.
_Vou lá ajudar David com o churrasco para alimentá-la, ta? – ele disse quando nos separamos.
Não vou mentir que essa idéia da piscina não foi de todo ruim, pois fazia um calor tremendo e a piscininha sempre ajuda mesmo a melhorar a ressaca. Mas nunca imaginava ser jogada, assim, de repente, pelo cara em quem eu tinha dado uns beijos na noite anterior e que há dez minutos atrás parecia me ignorar. Mas só parecia. Ele não só não estava me ignorando como estava prestando muita atenção em mim e falando de mim. Com minha melhor amiga, inclusive. Loucura isso.
Saí da piscina e voltei à espreguiçadeira pela qual paguei caro (não tão caro assim, admito) pensando no que David tinha acabado de falar. Eu não conhecia Pedro. Na real, não sabia nada dele. Ele falava demais, conversava com todo mundo, mas nunca falava dele. Nem a idade, o que fazia da vida, onde morava, nada. Por que eu não tinha pensado nisso? Jamais havia paquerado um cara e não perguntado nada a respeito da vida pessoal ou profissional dele. Não que para isso precise haver um pré-requisito, lógico que não, mas é que eu considerava isso um papo normal com um possível paquera.
_Arrumou um namorado fixo no Carnaval, foi Clara Froes? – Ana perguntou assim que me sentei ao lado dela com aquele sorrisinho cúmplice entre amigas.
_Amiga, me explica isso... Não estou entendendo nada! Jamais imaginei que ele fosse me tratar assim na manhã seguinte.
_Nem eu! Imaginei que você estava demorando para descer justamente por estar insegura quanto a isso.
_Pois é, estava meio com frio na barriga, sim. – disse enquanto passava protetor solar – E Lulu com Leo? Rendendo ainda?
_Ali a coisa está avançadíssima. Mas me conta da sua noite, tenho certeza que foi mais louca do que posso imaginar, pelo que já ouvi.
_Ouviu de quem? E que história é essa de que você e Pedro ficaram falando de mim?
_Clara, você sabe que eu acordo super cedo, né? Assim que levantei, fui na cozinha dar coordenadas do café e almoço para Dona Geisa (é a empregada da casa de campo de Ana) e quando saí aqui fora, Pedro já estava descendo também. Ele nos ajudou a colocar a mesa, tomamos café juntos e ficamos por aqui na piscina proseando por um longo tempo até os outros irem acordando. E ele me perguntou de você. E eu, solícita, respondi.
_Mas como perguntou de mim? Assim, na maior cara de pau, sem vergonha? O que ele falou? Quero detalhes, Ana!
_Bem, eu perguntei sobre a festa de ontem e ele começou a me contar sobre os shows, sobre vocês e disse algo do tipo: “Sua amiga Clara é divertidíssima e muito animada, além de linda, claro”.
_Ele disse isso? Jura? Que fofo!
_Disse. Aí me perguntou sobre sua vida amorosa.
_Anh? – quase engasguei
_Disse que David havia comentado com ele que você tinha acabado de terminar e ele me perguntou se você estava na fossa, essas coisas. Pelo que entendi, parece que David já tinha falado de você para ele há mais tempo, coisa assim.
_E o que você respondeu? – perguntei histérica
_Ora Clara, deixa de ser idiota, acha que eu iria falar que você vive uma louca história de indecisão chove-não-molha entre Lucas e Caio há quase uma década? Claaaaaaaaaaaaro que não!
_Ah, ainda bem. Mas o que você disse? – eu insisti.
_Que você tinha acabado de terminar, estava numa gandaia básica, essas coisas.
_Sabe o que eu estava pensando? David disse uma coisa que me chamou a atenção.
_O quê?
_Que eu não conheço o Pedro direito. Não sei nada dele. O que ele faz da vida, por exemplo? Qual a idade dele?
_Ah Clara, sei lá, porque você não perguntou? Ou melhor, por que não pergunta? Eu acho que ele é arquiteto e deve ter mais ou menos a idade de David.
Nessa hora, Luiza meio que se chegou pro nosso lado. Até então ela conversava com Silvia, que estava na espreguiçadeira ao lado dela.
_Quem tem a idade de David? – ela entrou boiando no papo.
_Pedro. Estávamos falando dele, que eu não sei muito a respeito dele. Ele não fala nada sobre si mesmo, reparou?
_Ah, normal, Clara. É a forma desses homens desapegados não deixaram margem a mulheres grudentas em potencial. Já pensou nisso?
_É uma boa teoria. – confirmou Ana – Luiza sabe o que diz, convive com homens 14 horas por dia!
_Realmente faz sentido. Um pouco. – tive que concordar.
_Mas qual o problema, Clara? O que você quer tanto saber sobre ele?
_Problema nenhum, Lulu, só queria entender porque não perguntei o que ele faz da vida, quantos anos tem, essas coisas básicas que uma pessoa normal pergunta para outra.
_Ora, porquê! Por que você se deteve somente nos beijos e na pegada! – Ana soltou, me fazendo corar.
_E que pegadas! Você não viu nada, Ana. – Luiza emendou
_Olha quem fala!
_Bom, eu conversei com Leo, ao contrário de você, então acho que posso te ajudar um pouco. Sei que ele tem 29 anos, é arquiteto e sócio do Leo. Eles tem um escritório de arquitetura com mais um cara. Os três são amigos de infância.
_Ah, não disse que achava que ele era arquiteto?! – Ana esbravejou – agora que Luiza falou, lembrei: David prestou uma consultoria de uma parada sobre aquecimento solar para um projeto deles alguns anos atrás e eles se tornaram amigos desde então. O outro sócio deles, se chama Daniel e acho que vai se casar no próximo mês, vi um convite lá em casa.
_Então vocês duas estão mais por dentro do que eu.
_Luiza beijou, mas também interrogou... Já você... – Ana me ironizou.
_Clara, mas porque você não pergunta a ele as coisas que quer saber, então!? – Luiza disse se mostrando surpresa – ele está demonstrando tanta intimidade com você!
Decidi que era isso que iria fazer, quando e se tivesse uma chance. Mas me lembrei que havia outra coisa a comentar com Ana, quando exatamente o assunto apareceu na nossa frente.
_Meninas, o que querem beber? – Bruno, de sunga cinza chumbo e barriga tanquinho, surgiu de repente.
_Er... eu não quero nada por enquanto, ainda estou me refazendo de ontem. – respondi meio sem sal, desnorteada – mas obrigada assim mesmo.
_Ah, se você for preparar um daqueles dinques maravilhosos, eu aceito o que você oferecer. – Ana respondeu entusiasmada
_Eu também! – emendou Luiza – Bruno, seus drinques e de Fábio são um verdadeiro arraso!
_Que bom que vocês estão gostando. Pensei em fazer umas caipis com um saquê que Fábio trouxe. São mais fraquinhas, pra gente controlar a onda melhor hoje, o que acham? Ontem chutamos o balde, né? Vejam como Clara está!
_Ótima idéia! – as meninas responderam.
Ele se virou e nós três nos entreolhamos embasbacadas. Que homem sedutor, educado e charmoso! E me lembrei de voltar ao meu assunto:
_Meninas, então, ontem quase levei o tombo do século na boate.
_Ah nem... sem momentos lama, amiga. – Ana riu.
_Sério, mas foi quase! Uma maldita garrafa de ice no chão, eu meio tonta, imaginem o que dá... Mas agora a parte principal: adivinhem quem me segurou bem na hora de cair de bunda no chão?
_Quem? – as duas perguntaram em uníssono.
_Bruno, o homem-drinque-barriga-sarada! – Eu as respondi e contei tudo o que tinha acontecido naquele encontro esquisito do meio da madrugada, desde a troca de ironias, olhares e sobre Pedro ter comentado que sacou esta troca de olhares entre mim e ele.
Ana disse que ainda não tinha observado que ele me olhava tanto assim, até porque Larissa não dava muito espaço para ele sequer olhar para alguém. Mas afirmou que se Pedro tinha dito isso, só podiam existir duas opções possíveis: ou era um jeito de ele jogar charme para mim, dizendo que tinha visto outro homem me olhar ou era a mais pura verdade, tão verdade a ponto de ele ter percebido.
E ficamos nessa e em outras prosas por um longo tempo, com Luiza contando detalhes sórdidos da sua noite com Leo, que rendeu até bem depois que chegamos em casa na madrugada.
Já passava de meio-dia quando abri meus olhos manchados de lápis e rímel da noite anterior. Minha cabeça martelava periodicamente e minha boca estava seca como o deserto do Saara. Pensei que precisava de uma Coca-cola com máxima urgência. Luiza já não estava mais na cama ao lado. Me levantei para ir ao banheiro e assim que vi a imagem que o espelho refletiu decidi que era melhor tomar um banho antes de aparecer para o resto das pessoas, pois minha aparência tinha o aspecto de antes de ontem.
Enquanto colocava meu biquíni e uma saída bem larguinha por cima, que pudesse me deixar o mais a vontade possível, não deixei de sentir aquele frio na barriga que qualquer mulher normal costuma sentir quando vai se encontrar cara a cara, bem no café da manhã, com o bofe em quem deu muitos amassos na noite passada. Bem, mas imaginava que Pedro era bastante descolado para isso, portanto seria menos difícil do que o costume.
Assim que coloquei os pés na sala de jantar, percebi que apenas Larissa e Bruno tomavam café. Algumas outras pessoas estavam na piscina, tomando sol, nadando e falando bastante alto. Não consegui definir exatamente quem eram. Nem mesmo se Pedro estava lá. Mas não quis ficar olhando muito.
_Bom dia flor do dia! – disse Larissa quando me viu.
_Bom dia meninos. – eu respondi tentando parecer o mais simpática possível, sem sequer dirigir o olhar a Bruno, pois pelo que me lembrava da noite anterior, nosso derradeiro encontro tinha sido meio esquisito.
_Olá Clara. Sente-se, tome café conosco. Acho que somos os últimos!
_Não, obrigada. Acho que quero só uma Coca geladinha, no máximo um suco. Meu estômago não está nada bem desde ontem e minha cabeça... sem comentários – disse deixando um sorriso entre os lábios.
_Sei como é isso – ele respondeu dando uma piscadinha.
_Ah, me conte, como foi o resto da noite? Soube que você quase levou um tombo? – nem preciso comentar que a única pessoa que me lembraria de um momento vergonhoso da minha noite bem na hora do auge da minha ressaca seria Larissa.
_Quase tombo não é tombo! – dessa vez, fui o mais grossa e antipática que deu.
Virei as costas e fui em direção à piscina pensando por quê, diabos, esse Bruno comentou com ela que eu quase levei um tombo. Mas, enfim, se a hora inevitável chegaria, decidi que era melhor encara-la logo de uma vez do que deixar Larissa me encher mais um pouco.
_Bom dia rainha da country music! – David disse quando me viu. – Finalmente acordou, Bela adormecida!
_Bom dia a todos! – respondi de forma geral, acenando e correndo os olhos por todos que estavam por ali. Fábio, Tati, Tomás e Leo na piscina. Lu, Ana e Silvia nas espreguiçadeiras e, finalmente, Pedro em alguma tarefa envolvente no freezer. Ele nem sequer se virou ao ouvir minha voz.
Senti um frio na barriga um pouco maior e fiquei me sentindo desapontada. Não esperava que ele viesse ao meu encontro com flores e um beijo cinematográfico, mas um pouquinho mais de cortesia seria interessante, né?
Fui em direção às meninas, e me despenquei na única espreguiçadeira disponível ao lado delas, mas notei que tinha uma toalha molhada sobre ela. Nem dei muita bola para este fato.
_Oi amiga! Já pensava em subir para te acordar! Mas Luiza disse que quando desceu você estava dormindo tão gostoso... aí fiquei com pena! – falou Ana.
_Obrigada por me dar essa folga, Ana... minha cabeça está um batuque só. Tomei duas neosaldinas assim que acordei! Isso que dá beber tanto.
Não vi que Pedro se aproximava enquanto tínhamos esse diálogo.
_Na verdade, lindona, isso que dá ter que beber tanto para ceder aos meus encantos. Das próximas vezes, seja mais fácil, ok? – Ele disse enquanto me lascava um beijo delicioso nos lábios e me entregava o mais esplendoroso e suculento copo de Coca-cola com montanhas de gelo que era o verdadeiro oásis para meus olhos e minha boca sedenta.
_Ah, sim, er... bom dia Pedro! – gaguejei enquanto Ana, Luiza e Silvia olhavam em minha direção, embasbacadas com a cara de pau dele – E obrigada pela Coca, eu juro que era o que eu mais queria agora.
_Bom dia Clarinha! Eu imaginei que você estivesse precisando, foi o que eu mais desejei quando acordei também, por isso preparei assim que vi você descer linda e ressaqueada.
_Nossa, mas quanta gentileza e melação logo de manhã, meu Deus! – Ana não conseguiu se segurar. – Imagino que a noite de vocês dois tenha sido ótima, então.
_Ana, ela começou bem devagar, mas depois que colocamos o vídeo num modo play mais acelerado, ficou bem melhor, sabe? – Pedro respondeu com uma cara irônica, ainda me segurando pela cintura.
_Imagino, imagino... aliás, imagino quase tudo, mas preciso de mais detalhes, se é que você me entende, sabe? – Ana disse a ele, dando uma deixa para ele me deixar respirar.
_Ana, não seja indiscreta assim. – Luiza comentou meio de lado.
Mas eu estava tão sem reação com a reação de Pedro, que só conseguia prestar atenção na coca-cola que eu quase derramei goela a baixo.
_Claríssima, agora só temos um problema...
_Qual? – eu quis saber, ainda meio sem graça.
_Eu peguei esta espreguiçadeira primeiro. Ana pode comprovar porque passamos boa parte da manhã aqui, conversando e fofocando, não foi Ana?
_Foi. Fofocamos muito sobre você! – ela confirmou e eu gelei.
_ Sei que está ressaqueada e louca para dar aquela espreguiçada, mas... – ele fez uma cara cínica.
_Ah, então essa espreguiçadeira é sua? – e eu fiz uma cara de dengo.
_Sim, é minha, olha aí, essa toalha também é minha.
_E você pretende tirá-la daqui? – Ana quis me ajudar.
_Claro que não! – ele respondeu de forma safada! E, virando-se para mim, disse – Você tem duas opções para resolvermos essa pendenga.
_Quais seriam, Pedro?
_Você pode dividi-la comigo ou me comprar esse lugar.
_Dividi-la com você não seria uma boa idéia... Sou espaçosa, calorenta e você é grandão... essa espreguiçadeira seria pequena demais pra nós dois.
_Então te resta a outra opção. – Ana acompanhava a tudo, de camarote.
_Comprar?
_Na verdade trocar seria a palavra mais certa.
_O que você quer em troca, Pedro?
_Um beijo e um mergulho na piscina, comigo, pra você melhorar essa cara de antes de ontem!
_Piscina, não... – respondi enquanto ele me pegava no colo, com tanta facilidade que me senti a garota mais magra do mundo, e Ana já tirava minha saída. E, juro, não deu nem tempo de me debater porque quando percebi já estávamos nós dois dentro d’água, espalhando respingos por toda parte.
_Pedro! – gritei.
_Pronto, agora você ficará boa em poucos minutos! Não há ressaca e desânimo que resista a um banho de piscina. – ele ria com aquele sorriso mais lindo do mundo para mim e me desarmava totalmente.
_Este é Pedro, Clara. Tenha muito prazer em conhecê-lo de verdade. – David gritou lá da churrasqueira enquanto eu me refazia daquele literal banho de água fria.
_Agora você pode voltar para a espreguiçadeira e fofocar com Ana, mas fale com carinho de mim, ta bom? Conte como nossa noite foi incrível e maravilhosa!
_Você se acha muito gostoso mesmo, né? Que presunção a sua achar que vou falar de você com Ana! – eu disse tão convicta que quase acreditei na minha própria mentira.
_Calma Claríssima, brincadeirinha... mas a parte do gostoso.é você quem está dizendo, né? – ele disse com sua melhor cara de cafajeste convicto e todos riram de nós dois.
_Sem comentários, Pedro.
Ele então me puxou para perto dele e me deu um beijinho nos lábios, suave doce e molhado.
_Vou lá ajudar David com o churrasco para alimentá-la, ta? – ele disse quando nos separamos.
Não vou mentir que essa idéia da piscina não foi de todo ruim, pois fazia um calor tremendo e a piscininha sempre ajuda mesmo a melhorar a ressaca. Mas nunca imaginava ser jogada, assim, de repente, pelo cara em quem eu tinha dado uns beijos na noite anterior e que há dez minutos atrás parecia me ignorar. Mas só parecia. Ele não só não estava me ignorando como estava prestando muita atenção em mim e falando de mim. Com minha melhor amiga, inclusive. Loucura isso.
Saí da piscina e voltei à espreguiçadeira pela qual paguei caro (não tão caro assim, admito) pensando no que David tinha acabado de falar. Eu não conhecia Pedro. Na real, não sabia nada dele. Ele falava demais, conversava com todo mundo, mas nunca falava dele. Nem a idade, o que fazia da vida, onde morava, nada. Por que eu não tinha pensado nisso? Jamais havia paquerado um cara e não perguntado nada a respeito da vida pessoal ou profissional dele. Não que para isso precise haver um pré-requisito, lógico que não, mas é que eu considerava isso um papo normal com um possível paquera.
_Arrumou um namorado fixo no Carnaval, foi Clara Froes? – Ana perguntou assim que me sentei ao lado dela com aquele sorrisinho cúmplice entre amigas.
_Amiga, me explica isso... Não estou entendendo nada! Jamais imaginei que ele fosse me tratar assim na manhã seguinte.
_Nem eu! Imaginei que você estava demorando para descer justamente por estar insegura quanto a isso.
_Pois é, estava meio com frio na barriga, sim. – disse enquanto passava protetor solar – E Lulu com Leo? Rendendo ainda?
_Ali a coisa está avançadíssima. Mas me conta da sua noite, tenho certeza que foi mais louca do que posso imaginar, pelo que já ouvi.
_Ouviu de quem? E que história é essa de que você e Pedro ficaram falando de mim?
_Clara, você sabe que eu acordo super cedo, né? Assim que levantei, fui na cozinha dar coordenadas do café e almoço para Dona Geisa (é a empregada da casa de campo de Ana) e quando saí aqui fora, Pedro já estava descendo também. Ele nos ajudou a colocar a mesa, tomamos café juntos e ficamos por aqui na piscina proseando por um longo tempo até os outros irem acordando. E ele me perguntou de você. E eu, solícita, respondi.
_Mas como perguntou de mim? Assim, na maior cara de pau, sem vergonha? O que ele falou? Quero detalhes, Ana!
_Bem, eu perguntei sobre a festa de ontem e ele começou a me contar sobre os shows, sobre vocês e disse algo do tipo: “Sua amiga Clara é divertidíssima e muito animada, além de linda, claro”.
_Ele disse isso? Jura? Que fofo!
_Disse. Aí me perguntou sobre sua vida amorosa.
_Anh? – quase engasguei
_Disse que David havia comentado com ele que você tinha acabado de terminar e ele me perguntou se você estava na fossa, essas coisas. Pelo que entendi, parece que David já tinha falado de você para ele há mais tempo, coisa assim.
_E o que você respondeu? – perguntei histérica
_Ora Clara, deixa de ser idiota, acha que eu iria falar que você vive uma louca história de indecisão chove-não-molha entre Lucas e Caio há quase uma década? Claaaaaaaaaaaaro que não!
_Ah, ainda bem. Mas o que você disse? – eu insisti.
_Que você tinha acabado de terminar, estava numa gandaia básica, essas coisas.
_Sabe o que eu estava pensando? David disse uma coisa que me chamou a atenção.
_O quê?
_Que eu não conheço o Pedro direito. Não sei nada dele. O que ele faz da vida, por exemplo? Qual a idade dele?
_Ah Clara, sei lá, porque você não perguntou? Ou melhor, por que não pergunta? Eu acho que ele é arquiteto e deve ter mais ou menos a idade de David.
Nessa hora, Luiza meio que se chegou pro nosso lado. Até então ela conversava com Silvia, que estava na espreguiçadeira ao lado dela.
_Quem tem a idade de David? – ela entrou boiando no papo.
_Pedro. Estávamos falando dele, que eu não sei muito a respeito dele. Ele não fala nada sobre si mesmo, reparou?
_Ah, normal, Clara. É a forma desses homens desapegados não deixaram margem a mulheres grudentas em potencial. Já pensou nisso?
_É uma boa teoria. – confirmou Ana – Luiza sabe o que diz, convive com homens 14 horas por dia!
_Realmente faz sentido. Um pouco. – tive que concordar.
_Mas qual o problema, Clara? O que você quer tanto saber sobre ele?
_Problema nenhum, Lulu, só queria entender porque não perguntei o que ele faz da vida, quantos anos tem, essas coisas básicas que uma pessoa normal pergunta para outra.
_Ora, porquê! Por que você se deteve somente nos beijos e na pegada! – Ana soltou, me fazendo corar.
_E que pegadas! Você não viu nada, Ana. – Luiza emendou
_Olha quem fala!
_Bom, eu conversei com Leo, ao contrário de você, então acho que posso te ajudar um pouco. Sei que ele tem 29 anos, é arquiteto e sócio do Leo. Eles tem um escritório de arquitetura com mais um cara. Os três são amigos de infância.
_Ah, não disse que achava que ele era arquiteto?! – Ana esbravejou – agora que Luiza falou, lembrei: David prestou uma consultoria de uma parada sobre aquecimento solar para um projeto deles alguns anos atrás e eles se tornaram amigos desde então. O outro sócio deles, se chama Daniel e acho que vai se casar no próximo mês, vi um convite lá em casa.
_Então vocês duas estão mais por dentro do que eu.
_Luiza beijou, mas também interrogou... Já você... – Ana me ironizou.
_Clara, mas porque você não pergunta a ele as coisas que quer saber, então!? – Luiza disse se mostrando surpresa – ele está demonstrando tanta intimidade com você!
Decidi que era isso que iria fazer, quando e se tivesse uma chance. Mas me lembrei que havia outra coisa a comentar com Ana, quando exatamente o assunto apareceu na nossa frente.
_Meninas, o que querem beber? – Bruno, de sunga cinza chumbo e barriga tanquinho, surgiu de repente.
_Er... eu não quero nada por enquanto, ainda estou me refazendo de ontem. – respondi meio sem sal, desnorteada – mas obrigada assim mesmo.
_Ah, se você for preparar um daqueles dinques maravilhosos, eu aceito o que você oferecer. – Ana respondeu entusiasmada
_Eu também! – emendou Luiza – Bruno, seus drinques e de Fábio são um verdadeiro arraso!
_Que bom que vocês estão gostando. Pensei em fazer umas caipis com um saquê que Fábio trouxe. São mais fraquinhas, pra gente controlar a onda melhor hoje, o que acham? Ontem chutamos o balde, né? Vejam como Clara está!
_Ótima idéia! – as meninas responderam.
Ele se virou e nós três nos entreolhamos embasbacadas. Que homem sedutor, educado e charmoso! E me lembrei de voltar ao meu assunto:
_Meninas, então, ontem quase levei o tombo do século na boate.
_Ah nem... sem momentos lama, amiga. – Ana riu.
_Sério, mas foi quase! Uma maldita garrafa de ice no chão, eu meio tonta, imaginem o que dá... Mas agora a parte principal: adivinhem quem me segurou bem na hora de cair de bunda no chão?
_Quem? – as duas perguntaram em uníssono.
_Bruno, o homem-drinque-barriga-sarada! – Eu as respondi e contei tudo o que tinha acontecido naquele encontro esquisito do meio da madrugada, desde a troca de ironias, olhares e sobre Pedro ter comentado que sacou esta troca de olhares entre mim e ele.
Ana disse que ainda não tinha observado que ele me olhava tanto assim, até porque Larissa não dava muito espaço para ele sequer olhar para alguém. Mas afirmou que se Pedro tinha dito isso, só podiam existir duas opções possíveis: ou era um jeito de ele jogar charme para mim, dizendo que tinha visto outro homem me olhar ou era a mais pura verdade, tão verdade a ponto de ele ter percebido.
E ficamos nessa e em outras prosas por um longo tempo, com Luiza contando detalhes sórdidos da sua noite com Leo, que rendeu até bem depois que chegamos em casa na madrugada.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Capítulo 9 - parte 2
Finalmente consegui me mover e saí em direção ao banheiro, pensando: “Caio é tão tinhoso que mesmo à distância, consegue me atormentar. Maldita garrafa de ice!”.
Quando saí do banheiro, Pedro estava sentado num sofá de couro preto, no hall dos toaletes, me esperando, lindo, sorrindo, tarado, com duas cervejas geladas nas mãos.
Me aproximei e quando ia sentando ao lado dele, ele segurou meu quadril, bem próximo da minha bunda, e disse:
_Peraí, gata, vamos lá. Vi que vai começar um show sertanejo, vamos arrasar na pista de dança.
_Dançar? Eu e você? – Além de tudo ele gostava de dançar? Ai, meu Deus!
_Claro, Claríssima! Eu sei que você adora sertanejo e eu também, então vamos quebrar tudo. É Carnaval, se joga lindona!
Pronto. Foi dada a palavra de ordem que eu tanto precisava. Me jogar! E foi o que nós dois fizemos. Dançamos, cantamos, e muito, o show todo. Juntos, colados, nossos corpos grudados um no outro de suor e de tesão, claro. Pedro era um homem perfeito para uma noitada como aquela. Ele me rodopiava, me abraçava, me jogava e me beijava. Um cavalheiro e um ogro, tudo junto e misturado, ao mesmo tempo.
Estávamos nos acabando quando Luiza e Leo resolveram compartilhar do nosso “swing”. No bom sentido, é claro. Eles estavam há horas naquele clima “vai comer agora ou quer que embrulha?” e já tinha sentido que precisavam mesmo dar um tempo em tanto amasso. E acabaram se jogando também no show da tal dupla serteneja, cujo nome nem me lembro mais. E nos divertimos tanto nós quatro, meio bêbados, meio embriagados de “energia carnavalesca”, que o resto da madrugada simplesmente evaporou, como num piscar de olhos. Já passava das 4:30h da manhã quando lembramos de olhar o relógio e nem mesmo pequenos sinais de cansaço pareciam surgir em nossos corpos.
_Até que enfim encontrei vocês! E formando casaizinhos fofos, como eu previa. Ah meu Deus, se eu não me arranjo sozinho... – era David, que resolveu aparecer, com uma loiraça a tiracolo. Cara de modelo, linda, magra e alta. Com um vestido brilhante e em cima de um salto fino e gigantesco.
_E nós encontramos você! – soltou Leo, para não deixar barato. – Quem foi mesmo que sumiu? Você ou nós quatro que continuamos juntos?
_É claro que vocês quatro iam continuar juntos! – ele zombou.
_Na verdade, acho que fomos todos encontrados! Os cinco! – completou Luiza, para apaziguar.
Eu apenas sorria para a discussão porque estava entretida fazendo uma varredura completa da tal loira para arquivar tudo na memória de fofocas pro dia seguinte. E de repente tive um clique. No meio daquele papo bobo, percebi que Pedro ficara calado. Logo ele, que era tão falante. Em seguida, saquei que a tal loira e Pedro trocavam olhares estranhos, meio constrangidos, sei lá. Mas ninguém falou nada e também não percebeu nada, além de mim, é claro.
Imediatamente, Pedro me puxou com força pela mão e disse, ou melhor, decretou:
_Clara, vamos ao bar comigo. – não foi uma pergunta. E confesso que não entendi, na real, essa situação. O copo dele e o meu ainda estavam cheios. Além disso, durante toda a noite, ele fez aquilo sozinho. Por que, de repente, precisava da minha companhia ou ajuda para ir ao bar?
O radar interno se acedeu, mas me contive, claro. Nunca iria dizer que nossos copos ainda estavam cheios e nem mesmo perguntar ao Pedro qual era a dele com a loira de David. Até porque eu não estava tendo um ataque de ciúme repentino e sem cabimento, estava apenas curiosa, loucamente curiosa, mas só isso. Para quem parecia tão cafajeste e desapegado a mulheres, essa reação de Pedro me interessou.
Assim que pegamos novas bebidas e eu dei a entender que podíamos voltar ao grupo, ele me abraçou forte e emendamos um longo amasso, perto do bar mesmo. E isso foi suficiente para eu entender o recado. Manter distancia da loira!
Mas, pouco tempo depois, Luiza veio atrás de nós e comunicou que era hora de ir. Como estávamos no carro de Leo, acatamos a intimação e apenas me deixei envolta na aura de dúvida quando Pedro perguntou:
_E David? Vai com a gente também? Ou vai se resolver com a tal que ele pegou?
Luiza, sem perceber nada, claro, respondeu na maior cara de sonsa:
_Não, ela já foi embora, eu acho, bem quando vocês saíram. Ele também está aguardando vocês, vamos todos juntos.
Ah, essa era melhor que encomenda, porque nesse caminho de volta eu poderia descobrir coisas que me renderiam boas fofocas. Ou não...
_Então, é isso... a noite acabou, meninas! – Pedro disse enquanto passava seus braços fortes em volta dos meus ombros e de Luiza, enlaçando-nos, ao mesmo tempo. E não pude deixar de sentir uma atmosfera de alívio na voz dele.
Quando saí do banheiro, Pedro estava sentado num sofá de couro preto, no hall dos toaletes, me esperando, lindo, sorrindo, tarado, com duas cervejas geladas nas mãos.
Me aproximei e quando ia sentando ao lado dele, ele segurou meu quadril, bem próximo da minha bunda, e disse:
_Peraí, gata, vamos lá. Vi que vai começar um show sertanejo, vamos arrasar na pista de dança.
_Dançar? Eu e você? – Além de tudo ele gostava de dançar? Ai, meu Deus!
_Claro, Claríssima! Eu sei que você adora sertanejo e eu também, então vamos quebrar tudo. É Carnaval, se joga lindona!
Pronto. Foi dada a palavra de ordem que eu tanto precisava. Me jogar! E foi o que nós dois fizemos. Dançamos, cantamos, e muito, o show todo. Juntos, colados, nossos corpos grudados um no outro de suor e de tesão, claro. Pedro era um homem perfeito para uma noitada como aquela. Ele me rodopiava, me abraçava, me jogava e me beijava. Um cavalheiro e um ogro, tudo junto e misturado, ao mesmo tempo.
Estávamos nos acabando quando Luiza e Leo resolveram compartilhar do nosso “swing”. No bom sentido, é claro. Eles estavam há horas naquele clima “vai comer agora ou quer que embrulha?” e já tinha sentido que precisavam mesmo dar um tempo em tanto amasso. E acabaram se jogando também no show da tal dupla serteneja, cujo nome nem me lembro mais. E nos divertimos tanto nós quatro, meio bêbados, meio embriagados de “energia carnavalesca”, que o resto da madrugada simplesmente evaporou, como num piscar de olhos. Já passava das 4:30h da manhã quando lembramos de olhar o relógio e nem mesmo pequenos sinais de cansaço pareciam surgir em nossos corpos.
_Até que enfim encontrei vocês! E formando casaizinhos fofos, como eu previa. Ah meu Deus, se eu não me arranjo sozinho... – era David, que resolveu aparecer, com uma loiraça a tiracolo. Cara de modelo, linda, magra e alta. Com um vestido brilhante e em cima de um salto fino e gigantesco.
_E nós encontramos você! – soltou Leo, para não deixar barato. – Quem foi mesmo que sumiu? Você ou nós quatro que continuamos juntos?
_É claro que vocês quatro iam continuar juntos! – ele zombou.
_Na verdade, acho que fomos todos encontrados! Os cinco! – completou Luiza, para apaziguar.
Eu apenas sorria para a discussão porque estava entretida fazendo uma varredura completa da tal loira para arquivar tudo na memória de fofocas pro dia seguinte. E de repente tive um clique. No meio daquele papo bobo, percebi que Pedro ficara calado. Logo ele, que era tão falante. Em seguida, saquei que a tal loira e Pedro trocavam olhares estranhos, meio constrangidos, sei lá. Mas ninguém falou nada e também não percebeu nada, além de mim, é claro.
Imediatamente, Pedro me puxou com força pela mão e disse, ou melhor, decretou:
_Clara, vamos ao bar comigo. – não foi uma pergunta. E confesso que não entendi, na real, essa situação. O copo dele e o meu ainda estavam cheios. Além disso, durante toda a noite, ele fez aquilo sozinho. Por que, de repente, precisava da minha companhia ou ajuda para ir ao bar?
O radar interno se acedeu, mas me contive, claro. Nunca iria dizer que nossos copos ainda estavam cheios e nem mesmo perguntar ao Pedro qual era a dele com a loira de David. Até porque eu não estava tendo um ataque de ciúme repentino e sem cabimento, estava apenas curiosa, loucamente curiosa, mas só isso. Para quem parecia tão cafajeste e desapegado a mulheres, essa reação de Pedro me interessou.
Assim que pegamos novas bebidas e eu dei a entender que podíamos voltar ao grupo, ele me abraçou forte e emendamos um longo amasso, perto do bar mesmo. E isso foi suficiente para eu entender o recado. Manter distancia da loira!
Mas, pouco tempo depois, Luiza veio atrás de nós e comunicou que era hora de ir. Como estávamos no carro de Leo, acatamos a intimação e apenas me deixei envolta na aura de dúvida quando Pedro perguntou:
_E David? Vai com a gente também? Ou vai se resolver com a tal que ele pegou?
Luiza, sem perceber nada, claro, respondeu na maior cara de sonsa:
_Não, ela já foi embora, eu acho, bem quando vocês saíram. Ele também está aguardando vocês, vamos todos juntos.
Ah, essa era melhor que encomenda, porque nesse caminho de volta eu poderia descobrir coisas que me renderiam boas fofocas. Ou não...
_Então, é isso... a noite acabou, meninas! – Pedro disse enquanto passava seus braços fortes em volta dos meus ombros e de Luiza, enlaçando-nos, ao mesmo tempo. E não pude deixar de sentir uma atmosfera de alívio na voz dele.
domingo, 12 de setembro de 2010
Capítulo 9 - parte 1
Pra quem não queria badalação no Carnaval, eu tinha entrado numa verdadeira panela de pressão. A tal boate itinerante de Condados estava bombando mesmo!
Assim que chegamos lá, Larissa começou a reclamar. De tudo. Da quantidade de pessoas, da fila para entrar, da dificuldade para conseguir bebidas, que estava quente, que as pessoas esbarravam nela, que a música era ruim.
David nem sequer se abalava com as chateações da prima, pois já a conhecia de trás para frente. Mas Pedro e Leo fizeram uma cara estranha para tantas reclamações. Tatiana até tentou emendar um papo, para distraí-la de tanta frustração, mas só eu podia entender que essa era a forma simples e objetiva de Larissa de chamar atenção toda para si, o tempo todo.
_Lari, meu bem, hoje é sábado de carnaval, tudo está cheio, pegando fogo. É assim mesmo, clima de festa – Bruno finalmente manifestou alguma reação diante da histeria da namorada.
E eu não consegui me segurar:
_Se você quer bebidas exclusivas e tranqüilidade, pegue o carro e volte para casa e fique lá com Ana. Mas deixe Bruno aqui, porque ele não está com cara de quem quer voltar.
Todos riram e ela quis realmente me fuzilar com os olhos, principalmente quando Bruno soltou uma gargalhada e Pedro piscou para mim. Mas não ousou dizer uma única palavra.
Apesar desse chilique de Larissa, a noite ia fluindo bem animada. Várias bandas, com diferentes estilos de música, apresentavam-se uma após a outra. Os casais conseguiram uma mesa num bar que ficava numa parte menos agitada da boate. De vez em quando, Tati e Silvia se juntavam à nós para dançar e voltavam de encontro aos namorados. Larissa nunca desgrudava de Bruno. Eu e Luiza bebíamos tequila aos baldes com Pedro e Leo, mas até as 2h da manhã, só Leo tinha tomado uma iniciativa com Luiza e eles se agarravam de tempos em tempos.
David tinha sumido há horas... aliás, nem me lembro de ter o visto muito tempo depois que entramos. Ele era muito popular em Condados, principalmente com as mulheres e sabia exatamente que suas chances de se dar bem dentro do nosso grupinho eram zero.
Quando uma banda de Rock começou a se apresentar eu falei no ouvido de Pedro que iria dar uma volta, porque não curtia muito aquele som. Na verdade, queria tomar um ar porque a tequila tinha subido e muito. Eu estava muito zonza e bem perto de começar a passar mal, mas, juro, mantendo a linha totalmente.
_Quer companhia? – ele me perguntou.
_Se você não quiser curtir o show, será um prazer.
Fiz sinal para Luiza que ia dar uma volta. Ela piscou para mim e neste exato momento, a mão de Pedro segurou a minha e me puxou no meio da multidão.
Nós fomos saindo em direção a uma parte aberta do lugar e assim que a brisa leve da madrugada nos foi apresentada, senti um alívio poderoso no mal estar que começara a se instalar. Fechei os olhos e respirei fundo para sentir o vento levando tudo embora quando fui trazida à realidade com as mãos de Pedro na minha cintura. Ele me puxou pra junto do corpo dele e me beijou o canto dos lábios. Sem desgrudar os olhos de mim e sem afastar um milímetro seu rosto do meu, quando eu conseguia sentir até seu hálito de menta misturado com tequila, ele falou bem baixinho,:
_Esse é um trailer, se quiser que o filme prossiga, aperte o “play” me dando um sorriso.
Como eu nunca havia ouvido uma cantada tão baranga como aquela e, obviamente, a forma como ele a fez era pra que eu exatamente sorrisse, caí como uma patinha. Além do mais, seria impossível não gargalhar para ele naquela situação, pois estava loucamente atraída por ele.
E assim que eu apertei o tal “play” ele foi entrando para dentro da minha boca com lábios, língua, dentes e tudo mais que podia existir. Era um beijo forte, quente e cheio de desejo como só um homem gostoso como Pedro poderia me dar.
_Eu passei o dia todo pensando qual seria a melhor hora para fazer isso, mas acho que foi bom esperar até a noite, aumentou minha vontade e a sua também – ele disse no meu ouvido enquanto segurava minha nuca com uma das mãos e agarrava minha cintura com a outra.
_Ah é, e quem disse que eu estava com tanta vontade assim, Sr Irresistível? – disse me desvencilhando dele.
_Seu corpo, seus olhos e tudo mais – ele respondeu enquanto avançava de novo pra dentro da minha boca e do meu corpo. Ele me beijava com tanta intensidade que parecia que ia se fundir em mim.
E, claro, não posso negar que eu também correspondia aos beijos fortes e intensos. Pedro era realmente um homem de alto nível qualitativo, se é que me entendem. Inteligente, divertido, bom papo, sexy, com boa “pegada” (como tinha constatado a pouco) e ficar com ele naquela noite fez minha alma e meu corpo se incharem de excitação. Mesmo sabendo que, por jogar no “time” de David, eu não deveria me envolver emocionalmente com ele, me deixei levar, porque naquele momento o meu desejo carnal estava falando mais alto que o afetivo, ou melhor, estava gritando, para ser mais exata.
Um tempo depois de estarmos aos amassos na tal varanda da boate (sei lá se era uma varanda, um deck, ou o que quer que fosse), eu disse a ele que precisava ir ao banheiro (e tomar um pouco de fôlego). Ele disse que iria ao bar buscar algo com que se refrescar e me encontrava na porta do banheiro. Saímos em direções opostas e eu, meio lerda, acabei tropeçando em uma garrafa de ice que fora esquecida ao chão. Quase caí de bunda, no meio do lugar, com aquele povaréu todo me olhando. Mas foi quase, porque antes de chegar ao chão, uma mão forte me segurou pelo braço esquerdo.
_Opa! Tudo bem aí? – era Bruno. Quem, além dele, poderia ser um anjo-da-guarda ali? Me fitando com aquele olhar penetrante, exatamente como Caio fazia comigo, ele não conseguia soltar meu braço e estávamos tão perto um do outro que eu podia até respirar a semelhança dele com Caio. Aquilo me entorpeceu.
_Bruno! – gritei, meio histérica, meio assustada – Nossa, quase levo um tombaço, se não fosse você...
_Ainda bem que eu estava aqui, não é? – ele disse ainda me segurando.
_É, que bom mesmo. Obrigada por me salvar – disse me desvencilhando dele antes que aquilo se transformasse em algo mais constrangedor.
_Achei que estivesse com Pedro, Clara. – ele afirmou meio que perguntando.
Não sei exatamente o que se passava na minha cabeça, mas não sabia o que responder. Por quê ele estava sozinho ali, mantendo um clima de “affair” comigo, me perguntando de Pedro e tal? Aquilo era ilusão minha, eu estava tentando acreditar que Bruno era Caio?
_Na verdade, é... – disse bastante sem graça, gaguejando, como se quisesse ocultar que estava há poucos segundos quase transando com Pedro – estou. Ele foi ao bar, pegar mais bebida e eu estava indo ao banheiro.
_Entendi. Ah, quer dizer então que eu estou te atrapalhando com essa conversa fiada, né?
_Imagina...
_Bom só vim dizer que eu e meus amigos estamos indo embora, ta? Não achei David e os outros. Avise ao pessoal, por favor.
Nessa hora não pude deixar de dar uma cutucada no orgulho macho dele:
_Mas já? Então não estão se divertindo? Ou vai só ceder aos apelos de Larissa? – eu o provoquei da forma mais convincente que pude.
_Ah, tenho que ceder, né? Ela sempre me vence. – ele respondeu levemente, com sorriso nos lábios, ironizando. Não sei se a mim ou à ela. – Mas, de qualquer forma, estamos todos cansados, Clara. Hoje foi um dia bastante cheio.
_Tudo bem, a gente se fala amanhã. Tchau. – eu disse já me virando, querendo cortar o assunto, pois me senti meio estranha.
Mas ele me puxou novamente pelo braço e fez com que olhasse para ele.
_Ah, e que bom que a sua noite rendeu. Espero que estejam se divertindo juntos. – ele disse isso, deu as costas e foi saindo em direção ao tal bar onde estavam seus amigos.
Fiquei parada meio minuto olhando o corpo dele se perder no meio da multidão e me questionando: “estou muito bêbada ou ele se importa comigo tanto quanto eu me importo com ele?”. E pra que toda essa importância? E por que ele me olhava tanto? Por que eu me sentia tão nervosa perto dele? Por que ele estar com Larissa me irritava? Tá, admito, qualquer cara bacana que se aproxime dela me chateia, ainda mais se o dito cujo tem o focinho mais idêntico do mundo ao do homem que mexe com meu corpo e minhas idéias de forma tão avassaladora como Caio faz.
Eu não conseguiria responder a nenhuma dessas dúvidas, mesmo que estivesse sóbria. Mas que Bruno era a materialização do Caio na minha viagem de Carnaval, me fazendo lembrar de toda nossa história doída e sentimentalóide que eu gostaria tanto de esquecer, ah... disso eu tinha certeza.
Assim que chegamos lá, Larissa começou a reclamar. De tudo. Da quantidade de pessoas, da fila para entrar, da dificuldade para conseguir bebidas, que estava quente, que as pessoas esbarravam nela, que a música era ruim.
David nem sequer se abalava com as chateações da prima, pois já a conhecia de trás para frente. Mas Pedro e Leo fizeram uma cara estranha para tantas reclamações. Tatiana até tentou emendar um papo, para distraí-la de tanta frustração, mas só eu podia entender que essa era a forma simples e objetiva de Larissa de chamar atenção toda para si, o tempo todo.
_Lari, meu bem, hoje é sábado de carnaval, tudo está cheio, pegando fogo. É assim mesmo, clima de festa – Bruno finalmente manifestou alguma reação diante da histeria da namorada.
E eu não consegui me segurar:
_Se você quer bebidas exclusivas e tranqüilidade, pegue o carro e volte para casa e fique lá com Ana. Mas deixe Bruno aqui, porque ele não está com cara de quem quer voltar.
Todos riram e ela quis realmente me fuzilar com os olhos, principalmente quando Bruno soltou uma gargalhada e Pedro piscou para mim. Mas não ousou dizer uma única palavra.
Apesar desse chilique de Larissa, a noite ia fluindo bem animada. Várias bandas, com diferentes estilos de música, apresentavam-se uma após a outra. Os casais conseguiram uma mesa num bar que ficava numa parte menos agitada da boate. De vez em quando, Tati e Silvia se juntavam à nós para dançar e voltavam de encontro aos namorados. Larissa nunca desgrudava de Bruno. Eu e Luiza bebíamos tequila aos baldes com Pedro e Leo, mas até as 2h da manhã, só Leo tinha tomado uma iniciativa com Luiza e eles se agarravam de tempos em tempos.
David tinha sumido há horas... aliás, nem me lembro de ter o visto muito tempo depois que entramos. Ele era muito popular em Condados, principalmente com as mulheres e sabia exatamente que suas chances de se dar bem dentro do nosso grupinho eram zero.
Quando uma banda de Rock começou a se apresentar eu falei no ouvido de Pedro que iria dar uma volta, porque não curtia muito aquele som. Na verdade, queria tomar um ar porque a tequila tinha subido e muito. Eu estava muito zonza e bem perto de começar a passar mal, mas, juro, mantendo a linha totalmente.
_Quer companhia? – ele me perguntou.
_Se você não quiser curtir o show, será um prazer.
Fiz sinal para Luiza que ia dar uma volta. Ela piscou para mim e neste exato momento, a mão de Pedro segurou a minha e me puxou no meio da multidão.
Nós fomos saindo em direção a uma parte aberta do lugar e assim que a brisa leve da madrugada nos foi apresentada, senti um alívio poderoso no mal estar que começara a se instalar. Fechei os olhos e respirei fundo para sentir o vento levando tudo embora quando fui trazida à realidade com as mãos de Pedro na minha cintura. Ele me puxou pra junto do corpo dele e me beijou o canto dos lábios. Sem desgrudar os olhos de mim e sem afastar um milímetro seu rosto do meu, quando eu conseguia sentir até seu hálito de menta misturado com tequila, ele falou bem baixinho,:
_Esse é um trailer, se quiser que o filme prossiga, aperte o “play” me dando um sorriso.
Como eu nunca havia ouvido uma cantada tão baranga como aquela e, obviamente, a forma como ele a fez era pra que eu exatamente sorrisse, caí como uma patinha. Além do mais, seria impossível não gargalhar para ele naquela situação, pois estava loucamente atraída por ele.
E assim que eu apertei o tal “play” ele foi entrando para dentro da minha boca com lábios, língua, dentes e tudo mais que podia existir. Era um beijo forte, quente e cheio de desejo como só um homem gostoso como Pedro poderia me dar.
_Eu passei o dia todo pensando qual seria a melhor hora para fazer isso, mas acho que foi bom esperar até a noite, aumentou minha vontade e a sua também – ele disse no meu ouvido enquanto segurava minha nuca com uma das mãos e agarrava minha cintura com a outra.
_Ah é, e quem disse que eu estava com tanta vontade assim, Sr Irresistível? – disse me desvencilhando dele.
_Seu corpo, seus olhos e tudo mais – ele respondeu enquanto avançava de novo pra dentro da minha boca e do meu corpo. Ele me beijava com tanta intensidade que parecia que ia se fundir em mim.
E, claro, não posso negar que eu também correspondia aos beijos fortes e intensos. Pedro era realmente um homem de alto nível qualitativo, se é que me entendem. Inteligente, divertido, bom papo, sexy, com boa “pegada” (como tinha constatado a pouco) e ficar com ele naquela noite fez minha alma e meu corpo se incharem de excitação. Mesmo sabendo que, por jogar no “time” de David, eu não deveria me envolver emocionalmente com ele, me deixei levar, porque naquele momento o meu desejo carnal estava falando mais alto que o afetivo, ou melhor, estava gritando, para ser mais exata.
Um tempo depois de estarmos aos amassos na tal varanda da boate (sei lá se era uma varanda, um deck, ou o que quer que fosse), eu disse a ele que precisava ir ao banheiro (e tomar um pouco de fôlego). Ele disse que iria ao bar buscar algo com que se refrescar e me encontrava na porta do banheiro. Saímos em direções opostas e eu, meio lerda, acabei tropeçando em uma garrafa de ice que fora esquecida ao chão. Quase caí de bunda, no meio do lugar, com aquele povaréu todo me olhando. Mas foi quase, porque antes de chegar ao chão, uma mão forte me segurou pelo braço esquerdo.
_Opa! Tudo bem aí? – era Bruno. Quem, além dele, poderia ser um anjo-da-guarda ali? Me fitando com aquele olhar penetrante, exatamente como Caio fazia comigo, ele não conseguia soltar meu braço e estávamos tão perto um do outro que eu podia até respirar a semelhança dele com Caio. Aquilo me entorpeceu.
_Bruno! – gritei, meio histérica, meio assustada – Nossa, quase levo um tombaço, se não fosse você...
_Ainda bem que eu estava aqui, não é? – ele disse ainda me segurando.
_É, que bom mesmo. Obrigada por me salvar – disse me desvencilhando dele antes que aquilo se transformasse em algo mais constrangedor.
_Achei que estivesse com Pedro, Clara. – ele afirmou meio que perguntando.
Não sei exatamente o que se passava na minha cabeça, mas não sabia o que responder. Por quê ele estava sozinho ali, mantendo um clima de “affair” comigo, me perguntando de Pedro e tal? Aquilo era ilusão minha, eu estava tentando acreditar que Bruno era Caio?
_Na verdade, é... – disse bastante sem graça, gaguejando, como se quisesse ocultar que estava há poucos segundos quase transando com Pedro – estou. Ele foi ao bar, pegar mais bebida e eu estava indo ao banheiro.
_Entendi. Ah, quer dizer então que eu estou te atrapalhando com essa conversa fiada, né?
_Imagina...
_Bom só vim dizer que eu e meus amigos estamos indo embora, ta? Não achei David e os outros. Avise ao pessoal, por favor.
Nessa hora não pude deixar de dar uma cutucada no orgulho macho dele:
_Mas já? Então não estão se divertindo? Ou vai só ceder aos apelos de Larissa? – eu o provoquei da forma mais convincente que pude.
_Ah, tenho que ceder, né? Ela sempre me vence. – ele respondeu levemente, com sorriso nos lábios, ironizando. Não sei se a mim ou à ela. – Mas, de qualquer forma, estamos todos cansados, Clara. Hoje foi um dia bastante cheio.
_Tudo bem, a gente se fala amanhã. Tchau. – eu disse já me virando, querendo cortar o assunto, pois me senti meio estranha.
Mas ele me puxou novamente pelo braço e fez com que olhasse para ele.
_Ah, e que bom que a sua noite rendeu. Espero que estejam se divertindo juntos. – ele disse isso, deu as costas e foi saindo em direção ao tal bar onde estavam seus amigos.
Fiquei parada meio minuto olhando o corpo dele se perder no meio da multidão e me questionando: “estou muito bêbada ou ele se importa comigo tanto quanto eu me importo com ele?”. E pra que toda essa importância? E por que ele me olhava tanto? Por que eu me sentia tão nervosa perto dele? Por que ele estar com Larissa me irritava? Tá, admito, qualquer cara bacana que se aproxime dela me chateia, ainda mais se o dito cujo tem o focinho mais idêntico do mundo ao do homem que mexe com meu corpo e minhas idéias de forma tão avassaladora como Caio faz.
Eu não conseguiria responder a nenhuma dessas dúvidas, mesmo que estivesse sóbria. Mas que Bruno era a materialização do Caio na minha viagem de Carnaval, me fazendo lembrar de toda nossa história doída e sentimentalóide que eu gostaria tanto de esquecer, ah... disso eu tinha certeza.
Capítulo 8
_Clara, você vai ficar torrando nesse sol o dia todo mesmo? – Pedro foi se sentando e se intrometendo entre mim e Ana, encostando sua perna grossa e definida na minha fina e flácida. Um arrepio percorreu meu corpo.
_Não estou exatamente torrando no sol... – eu sorri sem graça – estou curtindo o passeio aqui de cima... vendo as pessoas nos bares, batendo um papo com minha amiga Ana, essas coisas. E, indiretamente, tomando sol. Sacou?
_Ah tá, saquei... está flagrando o movimento, vendo os gatinhos. – ele jogou um charme.
_Isso Pedro, vendo os rapazes solteiros de Condados... você pega tudo muito rápido – Ana falou ironicamente – aproveite, então, e faça companhia a ela enquanto eu dou um mergulho.
_Deixa comigo, Ana, eu faço companhia pra Clara agora. Ela estará em boas mãos, não se preocupe.
_Bem, se as mãos em questão forem as suas, não tenho tanta certeza de que minha amiga ficará bem, mas em todo caso, ela é maior de idade e vacinada, então... tchau. – Ana soltou essa e do fly-bridge mesmo deu um pulão na lagoa, fazendo com que a água ao redor da lancha ficasse muito agitada e cheia de ondas.
_Ah meu Deus, sempre me matando de vergonha essa pimentinha. Desculpe, Pedro. – eu disse meio tímida.
_Ela é uma garota verdadeira. Irônica, também, mas sincera, tenho certeza. – disse Pedro – Mas me diga, Clara, já viu alguma coisa aproveitável por aí, na sua avaliação? Já que desistiu de interagir com os outros amigos lá em baixo?
_Na verdade, Pedro, estou aqui mais para deixar meu ouvido longe da voz irritante de Larissa. – fiz questão de soltar essa informação pra não deixar nenhum tipo de dúvida sobre minha relação com ela.
_Epa! Então vocês não se batem muito, é? Sabe que já tinha percebido?
_Jura? O que exatamente você percebeu? – me mostrei curiosa por ele dizer isso, afinal homens não são dados a essas sutilezas e minha birra por Larissa não era assim tão descarada.
_Na verdade, o que reparei mesmo é que o namoradinho dela não desgruda os olhos de você e ela já bem percebeu isso. – Nessa hora eu juro que perdi a fala, quase engasguei com o gole de vodka que tinha acabado de por na boca. Como assim, Bruno me olhando?
_O quê?! Ficou louco, Pedro?! Eu nem conheço esse Bruno, conheci ontem, um pouco antes de vocês chegarem.
_Bem, quando e como vocês se conheceram não vem ao caso, mas que ele te deu umas encaradas de estremecer ontem à noite, ah... isso ele deu.
_Impressão sua... eu não percebi nada disso. – tentei disfarçar, mentindo, porque sei que ele me deu umas encaradas, sim. Assim como eu dei umas encaradas nele.
_Não foi impressão, tive certeza, porque eu também estava tentando fazer a mesma coisa. – ele disse isso com um sorriso de canto de boca, roçando a língua nos lábios safadamente que me fez quase soltar o copo no chão. Apenas sorri de volta e deixei o vento, que insistia em bater no nosso rosto, continuar o nosso diálogo.
Não trocamos mais muitas palavras diretas durante o resto do passeio. Apenas olhares e conversa fiada. Mas ele ter me dado essa cantadinha boba, já fez com que meu alarme interno da paquera se acendesse. E isso foi suficiente para que Lucas e Caio se evaporassem dos meus pensamentos durante o resto daquele dia agradável e ensolarado. Volúvel eu, não?
Nadamos, dançamos e tomamos caipivodka aos baldes antes de voltar para casa no finalzinho da tarde. Nosso grupinho teve uma interação bacana. Nos divertimos muito todos juntos, casados e solteiros. Inclusive com Larissa, que fazia questão de grudar no pescoço de Bruno sempre que qualquer uma das mulheres tentava conversar com ele, consegui disfarçar bem a irritação.
Ao chegarmos de volta em casa, sentamos todos à mesa para almoçar, apesar de já passar das cinco da tarde, e, inevitavelmente, David começou os questionamentos sobre a noite.
_E aí, galera, quem vai animar esticar mais tarde? Soube lá no bar flutuante que temos umas três festas bacanas esta noite.
_Três? Uau, isso aqui ferve mesmo, hein? _ Tomás comentou.
_Parece que tem uma boate itinerante no centro de Santa Fé, uma festa no clube aqui em Condados e outra na casa de um amigo meu. O que vocês sugerem?
_Você é nosso anfitrião e promoter. Estamos no que você estiver! – confirmou Bruno.
Para falar a verdade, meu plano ao vir para Condados nem era muito sair à noite. Aliás, nem roupa para isso eu tinha trazido na mala. Mas como ficar em casa não aumentaria muito minhas chances de dar uns beijos em Pedro ou em qualquer outro que se dispusesse a isso, logo concordei que deveríamos realmente dar essa esticada.
Luiza e eu trocamos olhares e já conseguimos sacar que ambas queríamos que a noite rendesse.
_Mas qual destas festas você acha que estará melhor? – Luiza quis saber.
_Ah, todas devem estar boas, Lulu, cheias de gente bonita e boa bebida. Mas acho que a boate itinerante deve bombar mais, se é que vocês me entendem. Parece que teremos rodízio de bandas lá, coisa assim. E uns djs metidos a besta também.
_Vamos então para a boate, ora! – Pedro decretou e sorriu lindamente para mim.
Eu e Luiza subimos para tomar banho e dar aquela descansadinha básica antes de emendar na noite e, na seqüência, Ana veio atrás de nós duas.
_Meninas, sei que vocês estão doidas para atacar Pedro e Leo, respectivamente, então não vão se importar se eu não sair com vocês mais tarde, certo? Estou com preguiça dessa “pegação” de carnaval, quero dar uma descansada, dormir cedo...
_Ah Ana, vamos sim, sem você não tem graça! – contestei – Tenho certeza de que João não vai se importar.
_Claro que ele não se importa com isso! Imagine!
_Então Ana, vamos! Vem com a gente! – Luiza emendou meu coro.
_Meninas, vocês vão se atacar no primeiro drinque, os outros estão em casal e só me sobrará de companhia David, que digamos, vai desaparecer em dois minutos. Além disso, prometi ligar pro João mais tarde e depois acho que vou dormir mesmo!
Tomamos banho e fomos confabulando sobre o que a noite poderia nos render. Deitadas em nossas camas, nós três gargalhávamos tanto que seria impossível alguém conseguir dormir nos quartos ao lado durante as duas horas seguintes. Ainda tentamos persuadir Ana mais algumas vezes para sair conosco, mas eu a conhecia o suficiente para saber que ela não iria, mesmo que fosse só para nos agradar.
Quando o relógio marcou 21:55h, Luiza se levantou aflita com o tempo que passou sem que tivéssemos percebido.
_Clara do céu, já é quase 22h, os meninos falaram pra gente estar pronta as 22:30h.
_Caramba, como perdemos a noção do tempo assim? Nem em mil anos consigo me arrumar nesse tempo recorde! Vocês duas falam demais!
Ana, então, mesmo com sua decisão tomada, ficou no quarto enquanto nos aprontávamos. Enquanto ficamos secando cabelo, procurando bijoux e coisas do tipo, como duas malucas, ela zombava, falando que esse era nosso “ritual de acasalamento”.
Loucamente me lamentando por não ter levado muitas roupas para noite, revirava minha mala a procura de algo adequado para sair em Condados, numa festa de Carnaval. Optei por um short jeans bem velhinho que eu tenho, mas que é a minha paixão e sempre me salva nessas situações porque tem um ar de chique-despojado e engana bem com um salto alto. Mas o problema era justamente aí. Eu não tinha levado saltos. Mas, graças a Deus, Ana existia na minha vida e o que era ainda melhor, calçávamos o mesmo número! Coloquei uma peep toe dela e me embrulhei numa blusinha preta de renda que era umas das peças mais “noite” da minha mala. E até que o resultado não foi ruim. Com um pouco de pó, blush, rímel e gloss, tudo ficou ainda melhor.
_Bem, acho que agora só faltam umas duzentas borrifadas daquele seu perfume doce e enjoativo e Pedro cairá aos seus pés! – soltou Ana, assim que eu saí do banheiro, entretida com um brinco, enquanto ela ajudava Luiza a fechar o zíper de seu vestidinho florido.
_Perfume doce e enjoativo? Você é quem é doce e enjoativa, Ana! Sua mala!
_E eu, meninas, como eu estou? Me digam! – quis saber Luiza, que estava como sempre linda, leve e com aquela carinha de menina inocente.
_Linda Lulu! – berramos juntas, eu e Ana.
David abriu a porta do quarto nesse momento e soltou com cara séria, impaciente, olhando pro relógio.
_Isso, lindas! As duas! E você também, sis. – virou-se para Ana. – Mas vamos logo, vocês estão atrasadas. Todo mundo está lá embaixo esperando.
_Simpatiquinho... – eu disse a ele cinicamente.
_Gente, calma, a noite é uma criança. – disse Ana
_E está apenas começando... – eu decretei.
_Não estou exatamente torrando no sol... – eu sorri sem graça – estou curtindo o passeio aqui de cima... vendo as pessoas nos bares, batendo um papo com minha amiga Ana, essas coisas. E, indiretamente, tomando sol. Sacou?
_Ah tá, saquei... está flagrando o movimento, vendo os gatinhos. – ele jogou um charme.
_Isso Pedro, vendo os rapazes solteiros de Condados... você pega tudo muito rápido – Ana falou ironicamente – aproveite, então, e faça companhia a ela enquanto eu dou um mergulho.
_Deixa comigo, Ana, eu faço companhia pra Clara agora. Ela estará em boas mãos, não se preocupe.
_Bem, se as mãos em questão forem as suas, não tenho tanta certeza de que minha amiga ficará bem, mas em todo caso, ela é maior de idade e vacinada, então... tchau. – Ana soltou essa e do fly-bridge mesmo deu um pulão na lagoa, fazendo com que a água ao redor da lancha ficasse muito agitada e cheia de ondas.
_Ah meu Deus, sempre me matando de vergonha essa pimentinha. Desculpe, Pedro. – eu disse meio tímida.
_Ela é uma garota verdadeira. Irônica, também, mas sincera, tenho certeza. – disse Pedro – Mas me diga, Clara, já viu alguma coisa aproveitável por aí, na sua avaliação? Já que desistiu de interagir com os outros amigos lá em baixo?
_Na verdade, Pedro, estou aqui mais para deixar meu ouvido longe da voz irritante de Larissa. – fiz questão de soltar essa informação pra não deixar nenhum tipo de dúvida sobre minha relação com ela.
_Epa! Então vocês não se batem muito, é? Sabe que já tinha percebido?
_Jura? O que exatamente você percebeu? – me mostrei curiosa por ele dizer isso, afinal homens não são dados a essas sutilezas e minha birra por Larissa não era assim tão descarada.
_Na verdade, o que reparei mesmo é que o namoradinho dela não desgruda os olhos de você e ela já bem percebeu isso. – Nessa hora eu juro que perdi a fala, quase engasguei com o gole de vodka que tinha acabado de por na boca. Como assim, Bruno me olhando?
_O quê?! Ficou louco, Pedro?! Eu nem conheço esse Bruno, conheci ontem, um pouco antes de vocês chegarem.
_Bem, quando e como vocês se conheceram não vem ao caso, mas que ele te deu umas encaradas de estremecer ontem à noite, ah... isso ele deu.
_Impressão sua... eu não percebi nada disso. – tentei disfarçar, mentindo, porque sei que ele me deu umas encaradas, sim. Assim como eu dei umas encaradas nele.
_Não foi impressão, tive certeza, porque eu também estava tentando fazer a mesma coisa. – ele disse isso com um sorriso de canto de boca, roçando a língua nos lábios safadamente que me fez quase soltar o copo no chão. Apenas sorri de volta e deixei o vento, que insistia em bater no nosso rosto, continuar o nosso diálogo.
Não trocamos mais muitas palavras diretas durante o resto do passeio. Apenas olhares e conversa fiada. Mas ele ter me dado essa cantadinha boba, já fez com que meu alarme interno da paquera se acendesse. E isso foi suficiente para que Lucas e Caio se evaporassem dos meus pensamentos durante o resto daquele dia agradável e ensolarado. Volúvel eu, não?
Nadamos, dançamos e tomamos caipivodka aos baldes antes de voltar para casa no finalzinho da tarde. Nosso grupinho teve uma interação bacana. Nos divertimos muito todos juntos, casados e solteiros. Inclusive com Larissa, que fazia questão de grudar no pescoço de Bruno sempre que qualquer uma das mulheres tentava conversar com ele, consegui disfarçar bem a irritação.
Ao chegarmos de volta em casa, sentamos todos à mesa para almoçar, apesar de já passar das cinco da tarde, e, inevitavelmente, David começou os questionamentos sobre a noite.
_E aí, galera, quem vai animar esticar mais tarde? Soube lá no bar flutuante que temos umas três festas bacanas esta noite.
_Três? Uau, isso aqui ferve mesmo, hein? _ Tomás comentou.
_Parece que tem uma boate itinerante no centro de Santa Fé, uma festa no clube aqui em Condados e outra na casa de um amigo meu. O que vocês sugerem?
_Você é nosso anfitrião e promoter. Estamos no que você estiver! – confirmou Bruno.
Para falar a verdade, meu plano ao vir para Condados nem era muito sair à noite. Aliás, nem roupa para isso eu tinha trazido na mala. Mas como ficar em casa não aumentaria muito minhas chances de dar uns beijos em Pedro ou em qualquer outro que se dispusesse a isso, logo concordei que deveríamos realmente dar essa esticada.
Luiza e eu trocamos olhares e já conseguimos sacar que ambas queríamos que a noite rendesse.
_Mas qual destas festas você acha que estará melhor? – Luiza quis saber.
_Ah, todas devem estar boas, Lulu, cheias de gente bonita e boa bebida. Mas acho que a boate itinerante deve bombar mais, se é que vocês me entendem. Parece que teremos rodízio de bandas lá, coisa assim. E uns djs metidos a besta também.
_Vamos então para a boate, ora! – Pedro decretou e sorriu lindamente para mim.
Eu e Luiza subimos para tomar banho e dar aquela descansadinha básica antes de emendar na noite e, na seqüência, Ana veio atrás de nós duas.
_Meninas, sei que vocês estão doidas para atacar Pedro e Leo, respectivamente, então não vão se importar se eu não sair com vocês mais tarde, certo? Estou com preguiça dessa “pegação” de carnaval, quero dar uma descansada, dormir cedo...
_Ah Ana, vamos sim, sem você não tem graça! – contestei – Tenho certeza de que João não vai se importar.
_Claro que ele não se importa com isso! Imagine!
_Então Ana, vamos! Vem com a gente! – Luiza emendou meu coro.
_Meninas, vocês vão se atacar no primeiro drinque, os outros estão em casal e só me sobrará de companhia David, que digamos, vai desaparecer em dois minutos. Além disso, prometi ligar pro João mais tarde e depois acho que vou dormir mesmo!
Tomamos banho e fomos confabulando sobre o que a noite poderia nos render. Deitadas em nossas camas, nós três gargalhávamos tanto que seria impossível alguém conseguir dormir nos quartos ao lado durante as duas horas seguintes. Ainda tentamos persuadir Ana mais algumas vezes para sair conosco, mas eu a conhecia o suficiente para saber que ela não iria, mesmo que fosse só para nos agradar.
Quando o relógio marcou 21:55h, Luiza se levantou aflita com o tempo que passou sem que tivéssemos percebido.
_Clara do céu, já é quase 22h, os meninos falaram pra gente estar pronta as 22:30h.
_Caramba, como perdemos a noção do tempo assim? Nem em mil anos consigo me arrumar nesse tempo recorde! Vocês duas falam demais!
Ana, então, mesmo com sua decisão tomada, ficou no quarto enquanto nos aprontávamos. Enquanto ficamos secando cabelo, procurando bijoux e coisas do tipo, como duas malucas, ela zombava, falando que esse era nosso “ritual de acasalamento”.
Loucamente me lamentando por não ter levado muitas roupas para noite, revirava minha mala a procura de algo adequado para sair em Condados, numa festa de Carnaval. Optei por um short jeans bem velhinho que eu tenho, mas que é a minha paixão e sempre me salva nessas situações porque tem um ar de chique-despojado e engana bem com um salto alto. Mas o problema era justamente aí. Eu não tinha levado saltos. Mas, graças a Deus, Ana existia na minha vida e o que era ainda melhor, calçávamos o mesmo número! Coloquei uma peep toe dela e me embrulhei numa blusinha preta de renda que era umas das peças mais “noite” da minha mala. E até que o resultado não foi ruim. Com um pouco de pó, blush, rímel e gloss, tudo ficou ainda melhor.
_Bem, acho que agora só faltam umas duzentas borrifadas daquele seu perfume doce e enjoativo e Pedro cairá aos seus pés! – soltou Ana, assim que eu saí do banheiro, entretida com um brinco, enquanto ela ajudava Luiza a fechar o zíper de seu vestidinho florido.
_Perfume doce e enjoativo? Você é quem é doce e enjoativa, Ana! Sua mala!
_E eu, meninas, como eu estou? Me digam! – quis saber Luiza, que estava como sempre linda, leve e com aquela carinha de menina inocente.
_Linda Lulu! – berramos juntas, eu e Ana.
David abriu a porta do quarto nesse momento e soltou com cara séria, impaciente, olhando pro relógio.
_Isso, lindas! As duas! E você também, sis. – virou-se para Ana. – Mas vamos logo, vocês estão atrasadas. Todo mundo está lá embaixo esperando.
_Simpatiquinho... – eu disse a ele cinicamente.
_Gente, calma, a noite é uma criança. – disse Ana
_E está apenas começando... – eu decretei.
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