quarta-feira, 2 de junho de 2010

capítulo 1 - parte 1

São 14:30h de uma sexta-feira do fim de fevereiro. Enquanto o resto da ressaca pelos excessos da noite da véspera insistia em incomodar minha cabeça, eu tranquei o consultório me lamentando pela falta de organização e indecisão! Mais uma vez, eu não consigo me decidir! Era véspera de carnaval e até aquele momento, eu não sabia o que fazer no feriado que a maioria das pessoas, no Brasil, aguarda o ano todo. Entrei no carro e não pude deixar de me perguntar o que eu faria se estivesse namorando. Preciso comentar que eu acabara de terminar um namoro super enrolado com o Lucas. Foram anos. Cinco, seis, sete, sei lá, foram longos anos, mas que pareceram meses... estranho dizer isso, mas é assim que consigo definir este tempo juntos. Vários anos da minha vida tentando fazer aquilo dar certo e ao mesmo tempo pensando como seria se não desse. E de tanto pensar, o tempo passou rápido demais e tudo dançou! Tá bom, vai, meu coração sempre foi de outro cara mesmo. Mas este outro cara é tão improvável para mim! Ou será que é improvável simplesmente porque somos tão diferentes um do outro? E diferenças me assustam? Ou eu acho que meu coração é dele só porque ele é improvável? Ai que raiva, nem nos devaneios sou capaz de me decidir...
Saí em direção a minha casa, mas acabei desviando o caminho. Isso é típico do Lucas, andar sem rumo... Depois de tantos anos juntos, algumas manias pegaram. Ah, o Lucas! Imagina o cara mais popular, mais divertido e engraçado do planeta? Esse é o Lucas! Meu primeiro e único namorado sério. Uma seriedade discutível, confesso. Dividi com ele todos os maiores sonhos da minha vida. Achei que me casaria com ele. Mas não sei se esta foi uma boa idéia, porque ele não quis dividir a vida dele comigo. Acho que ele tem aversão a compromissos de longo prazo. Quando se fala em casamento, o prazo de validade expira. Lucas não é exatamente um gato e também não chega a ser um “galinha”, mas passa perto disso porque é muito, muito charmoso, simpático e encantadoramente sexy. E, por este motivo óbvio, nunca o vi sem estar cercado de mulheres. “O que ele tem?” - eu me pergunto. Talvez seja mel! Esse para mim é seu grande defeito. Ele tem fãs demais, amigas demais e um desenvolvimento emocional de menos. Racionalidade, teu nome é Lucas! Não, sério: Lucas, o racional. Isso dava uma tese de mestrado. A potencialidade emocional deste cara beira a estupidez e atitudes românticas ou sensíveis da parte dele são parentes tão próximos como aquele ancestral indígena que mora no Xingu. Mas, não há como negar, Lucas é um cara legal. Legal demais, pra falar verdade.
Fui passando pelas ruas do centro, pensando, pensando e acabei passando em frente ao colégio onde estudei desde sempre e onde vivi os melhores anos da minha vida. Eu e Lucas começamos a namorar quando eu ainda estava no colégio, naquele colégio ali do outro lado da rua. E era o máximo namorar um cara mais velho! Super bacana namorar um cara da faculdade quando você ainda está no colégio, né? Mas logo no primeiro dia de aula do último ano, apareceu o Caio. Recém-chegado de um intercâmbio no Canadá, todo compenetrado, na fila dos candidatos à temida medicina. Metido, eu pensei. Logo de cara, eu o odiei. Claro, minhas primeiras impressões são sempre erradas. Dizem que mulher tem sexto sentido? Pois o meu veio com defeito de fábrica, meu bem! Quando olhei para aquele menino alto, másculo, cara de militar e cdf, muito calado e sério (contrastando horrores com minha língua metralhadora) já pré-defini o rapaz: um mané! Que nada, ele era simplesmente tímido. Algo impensável para alguém como eu que chegou ao mundo já falando com o obstetra ao invés de chorar.
Caio: tímido, sensível, doce de dar cárie. Pouco mais de uma semana após nos conhecermos, ele chegou atrasado a uma aula de plantão e se sentou ao meu lado, por pura falta de oportunidade de se sentar em outro lugar, e puxei papo com ele na maior cara de pau (plantão de história, eca, odiava!). Apesar de me dar uma olhada com aquela cara -“minha filha, isso é um plantão pré-vestibular, se toca, se quiser conversar, cai fora!” - ele me respondia a tudo com muita cortesia e educação e, às vezes, até esboçava uma dose de simpatia. Pensei: “além de não ser metido, também não é um mané”. E comecei a sentir algo que não sei dizer o que era, mas me irritava! Ai meu Deus, foi aí que me enrolei, tudo por culpa do plantão de história!
Apaixonei-me pelo Caio em questão de dias. De mané, ele virou príncipe. E príncipe não por ser lindo, sensível ou educado, mas simplesmente porque me parecia inatingível. Ele era alguém diferente da minha realidade, ou melhor, era muito diferente dos caras por quem eu costumava me interessar. Confesso, sempre preferi os populares (e meio malandros!) como Lucas. Mas, aí, começamos a nos falar sempre, fizemos uma boa turma de amigos (que nessa época da vida é mais importante do que respirar), saíamos em todos os fins de semana, dividimos juntos o medo do vestibular e a preguiça das aulas de sábado e viramos mais que colegas de classe. E, claro, dei o maior mole do mundo pra ele. Adivinhem: acabei traindo o Lucas. E, acreditem, o que eu achava que era namorinho de escola, se transformou no maior problema que poderia existir para o resto da minha vida, porque o pior aconteceu: Ele também se apaixonou por mim! Nossa relação que poderia ter sido apenas superficial, começou a provocar rugas profundas demais, que doem até hoje.
Caio, sensível que só ele, logo me cobrou uma posição: “Não quero ser o outro, Clara”. E como seria insuportável demais para mim, decidir entre ele e Lucas, fui apenas tirando meu time de campo, lentamente, fugindo dele e do que tínhamos juntos, como sempre fiz em todas as dificuldades. E nosso relacionamento acabou (pela primeira vez) ali, no meio do último ano da escola. No meio de um ano muito confuso para nós dois. Essa falta de decisão fez com que um ódio fosse plantado no coração desse cara e, de repente, tudo mudou. Ele jamais se esqueceu disso. E também nunca me deixou esquecer.
Continuei a relação com Lucas por algum tempo. Sempre pensando se poderia estar mais feliz com Caio. E esse nunca me deu uma oportunidade de recaída. Era um cara muito duro, apesar de ser tão doce e sensível. Sentiu-se trocado pelo meu namorado “descolado”, quando na verdade eu nem sei se foi exatamente uma escolha. Ana, minha melhor amiga, costuma dizer que sim, foi uma escolha. “Clara, você escolheu não escolher, simples assim. Não assumiu nada pra nenhum dos dois. As coisas continuam como antes e, admita, essa é uma escolha”. Não gosto de pensar que sou assim tão passiva, mas cá entre nós, sei que esta é a verdade. Ana é sempre assim, ácida e direta, mas muito verdadeira.

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