quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Capítulo 7

Sábado de manhã. Acordei bem disposta como se não tivesse bebido uma única gota de álcool na noite anterior. Assim que abri os olhos, vi Luiza esparramada na cama ao lado, dormindo com a mesma roupa e cara de ontem. Ao me levantar para ir ao banheiro, vi que ela se remexeu e abriu os olhos:
_Amiga, ainda é sexta? Ou já é domingo? Que horas são?
_Cinco para as dez, Lu! Sábado de carnaval, a farra está só começando! Vamos, levanta logo, já estou ouvindo barulho lá em baixo, com sorte conseguimos sair de lancha antes de Larissa acordar!
_Só você mesma, Clara Froes... conseguir me fazer rir com a ressaca que se abate sobre meu pobre corpo!
Depois de tomarmos o café da manhã, colocamos nossos biquínis e saímos para um aguardado passeio de lancha, de acordo com a programação feita por David na noite anterior. Todos se animaram, inclusive Larissa, a chata, que sempre reclama de tudo. Mas tinha certeza que ela jamais perderia a chance de mostrar (e se exibir) aos seus novos amigos a lancha bacanérrima que seu querido tio mantinha em Condados.
Bruno estava basicamente muito parecido com Caio naquela manhã... e me parecia bem mais bonito do que na noite anterior, se é que vocês me entendem. Com roupa de banho, de óculos escuro estilo esportivo e munido de um sorriso tímido aterrorizante ele era a prova perfeita de que a vida não era tão má assim, afinal aquela vista logo de manhã já melhorava tudo!
Assim que subimos a bordo, os casais se acomodaram na mesa do cockpit, de frente a um mini-bar, onde Bruno logo se instalou para começar os “trabalhos alcoólicos”. Eu, Ana e Luiza deitamos na proa para tomar sol. David, Pedro e Leo comandavam o rumo do passeio, do fly-bridge. O sol estava forte e o belo arsenal de vodka que dispúnhamos prometia um bom começo de carnaval.
Deitamos numa posição estratégica, de modo que enquanto torrávamos no sol, admirávamos toda a beleza dos rapazes e deixávamos nossos ouvidos totalmente longe da voz irritante de Larissa e seus casos chatos. Só dava pra ouvir a música lounge que David havia colocado no som e o barulho da água indo de encontro à lancha.
Todos os rapazes, inclusive David, Fábio e Tomás eram muito charmosos. Corpos sarados, belos sorrisos e bons papos. Reparar em Pedro e Leo naquele momento era obrigação para mim e Luiza. E essa caiu de paixonite instantânea por Leo. Acho que isso foi intensificado por ele ter uma carinha de “menino”. Ela começou desde a noite anterior a dar o maior mole do mundo para ele. E ele, claro, correspondia fitando seus belos olhos azuis turquesa em Luiza. Ele parecia saído daquelas revistas de surf do Havaí. Cabelos cor de mel, semi-raspados, pele queimada de sol e uma barriga esculpida a mão. O sorriso, branquíssimo, era capaz de desmanchar até massa de cola e cimento. Lindo! E sedutor! Em menos de vinte minutos de prosa ele já tinha a atenção de Luiza inteira só para ele. Não sem deixar de sentir uma pontinha de insatisfação (por que não eu?), pensei que eles formavam um belo casal.
Levemente empolgada com a caipi-maracujá que Bruno e Tomás estavam preparando aos litros, assim que paramos num bar flutuante e nos juntamos todos na mesa do cockpit, não pude deixar de jogar uma idéia para Pedro.
Pedro era o típico cara “centro das atenções”. Tinha um jeitão do Lucas. Não era bonito, mas passava longe de ser feio. Moreno, alto e muito forte, seu corpo era digno de todos os meus olhares admirados. Ele falava, ria, contava casos, piadas e ouvia a todos com tamanha simpatia que era notado dali até a China. Mas ao contrário do que eu imaginava a princípio, Pedro não foi direto como Leo. Ele não me deu tanta bola. Pra ser sincera, deu menos bola do que eu imaginei. Por mais que eu tentasse ser o centro das atenções dele, ele não me dispensava nenhuma atenção especial. E depois de um tempo, aquilo me incomodou. Incomodou tanto que Ana percebeu.
_Clara, segura a onda! – ela me disse entre os dentes – você está dando na cara já. – Me senti péssima quando ouvi isso. E quando me sinto péssima com alguma coisa, acabo me isolando. Sorrateiramente, tirei meu time de campo. Sem que ninguém percebesse, com a desculpa de ir ao banheiro, fui para o fly-bridge, a parte de cima da lancha, e fiquei observando aquele mundaréu de água da represa e as outras tantas lanchas e jet skis que se aglomeravam em volta dos bares flutuantes, enquanto deixava o sol fritar minha pele. Condados ferve nos feriados. Muito som alto, sol, gente bonita e muita “pegação”. E eu estava ali sozinha, vendo tudo aquilo. E pensei que talvez essa situação fosse uma escolha.
Pensava sobre tudo. Que Pedro não tinha despertado interesse por mim, que Bruno poderia estar me achando uma tola (e por quê eu insistia em me importar com o que ele achava?) e que Tatiana com certeza tinha fisgado a isca de que eu e Caio tivemos um affair.
Fechei meus olhos por dentro dos óculos escuros e me forcei a sentir o vento batendo com força no meu rosto. E isso me fez lembrar de Lucas. Se ele estivesse comigo, nada disso estaria acontecendo. Mas ele não estava ali e nem em algum lugar ao meu alcance. Senti uma fisgada no estômago. Já tinha feito aquele passeio com ele por tantas vezes. Eu e Lucas, Ana e João. Passamos tantos bons momentos, juntos, em Condados, andando de lancha. E tantas vezes cheguei a pensar que o fato de namorar Lucas acalmava meu coração porque ele me fazia sentir que estava mais perto da “perfeição” de Ana e João. Sempre que estávamos juntos, os dois casais, sentia que éramos o quarteto perfeito! Não que João e Lucas fossem parecidos. Mas ambos são mais velhos do que nós duas, são amigos de longa data e eram namoros longos. Esse quarteto era real na minha cabeça! Mas a diferença crucial é que João sabe como amar Ana e, bem, acho que Lucas nunca soube como me amar. Ele sempre me ofereceu um amor egoísta e hoje eu sei que foi aí que a nossa “pseudo-perfeição” se perdeu. E onde Caio sempre entrava, a cada recaída.
Eu viajava tanto nessas histórias e tentativas de entendimento entre Caio e Lucas que não percebi Ana chegar.
_Aposto uma caipi novinha em folha, bem geladinha, que você está pensando em Lucas – ela disse, me despertando do devaneio, enquanto me entregava o drinque.
_Ah! Como você sabe? – respondi levantando os óculos em direção à cabeça.
_Deve ser por que te conheço bem pouco, não é amiga? Tenho certeza de que estava pensando no nosso quarteto, acertei?
_É, acertou. Mas é que já fizemos esse passeio, juntos, tantas vezes, né? É impossível não lembrar!
_Clara, me escuta. Não fica confundindo as coisas. Sem nostalgia agora, você não precisa disso! Você está fazendo uma salada de sentimentos, amiga. Está misturando lembranças do Lucas, com informações de Caio e uma nova possibilidade... Você está confundindo essa alegria toda do Pedro com o Lucas. E não é bem por aí. Desencana, amiga...
_Que história é essa de nova possibilidade? Nenhuma nova possibilidade Ana! – eu a interrompi antes que ela concluísse suas observações psicanalíticas sobre meu comportamento – Ele não se interessou por mim.
_Ele quem? Pedro?! Agora vem você com mais essa! Clara, vocês acabaram de se conhecer. Dá um tempo! Ou melhor, dê um tempo para você, para o seu coração. Só porque Leo caiu matando na Luiza não quer dizer que Pedro tenha que fazer o mesmo com você!
_E ficada de carnaval também não é possibilidade de nada, mesmo que se concretize, certo?
_Concretizar o quê, criatura? Não é esse o objetivo!
_Eu sei bem qual é o objetivo, ok?
_Mas você está com cara de quem está se sentindo rejeitada, te conheço! E não sei porquê, afinal você é uma mulher encantadora, leve, inteligente, simpática... ah, não estressa! É apenas o início do Carnaval, sossega o cupido!
_Ih Ana, é o álcool... deixa pra lá. Vamos mudar de assunto. Conte-me dos preparativos do casório! Não falamos sobre isso há tempos. – Não gosto muito de discutir com Ana. Ela é sempre boa demais com as palavras.
_Isso, vamos mudar de assunto! Você precisa me ajudar a decidir sobre umas cores que quero usar na decoração da festa e sobre umas amigas de Brasília, meio folgadas, de quem João anda falando.
_Diga-me, diga-me! – brinquei me fazendo de afoita sobre a fofoca – amigas folgadas são minha especialidade.
Emendamos um papo animado sobre os planos de João e Ana. Lá do alto observávamos Luiza e Leo conversando tão animadamente que pareciam se conhecer há séculos. Eles se tocavam periodicamente e tinham aquele riso fácil típico da paquera. Começamos a rir quando Ana questionou se o beijo iria demorar muito ou poderíamos assistir de camarote. E também não deixamos de zombar dos inúmeros olhares sonsos que Luiza dirigia a ele.
Não sei exatamente quanto tempo passamos naquele papo, mas quando menos esperava, me deparei com Pedro subindo ao fly-bridge com duas novas caipis para mim e Ana, que, aliás, estávamos com os copos secos!
_Ladies, trouxe combustível!
_Ah, quanta generosidade! – Ana mostrou-se ironicamente agradecida.
_Servindo bem para servir sempre! – ele respondeu com seu humor característico dando uma piscadela para mim. De repente senti que toda a quietude que havia baixado em mim depois do papo com Ana tinha cedido lugar a uma nova explosão de possibilidades...

domingo, 22 de agosto de 2010

Capítulo 6

Leo e Pedro chegaram eufóricos... loucos por uma festa! Dava pra ver nos olhos afoitos deles que estavam realmente no clima de carnaval! E parecia também que já tinham “entornado” algumas pelo caminho.
_Nossa, que engarrafamento é esse? Ainda bem que não perdemos a noite toda! Estava enlouquecido para fazer xixi e tomar uma gelada! Sem contar que ouvi o mesmo CD umas duzentas vezes, porque o esperto do Leo só tinha um único CD no carro! Boa noite galera! Eu sou o Pedro! – ele já chegou fazendo um estardalhaço, falando sem parar, e isso me animou.
_E eu sou Leonardo, podem me chamar de Leo! – esse com um sorrisão maravilhoso, estilo surfista do Havaí, foi logo dando beijinhos no rosto de Ana.
_Olá Pedro e Leo! Sejam bem vindos! – Ana quis deixá-los a vontade, como se eles já não estivessem. Aliás, eles davam a impressão de que estariam à vontade em qualquer lugar do planeta.
David se encarregou de apresentar todos da casa aos dois:
_Esta é Ana, minha irmã. Ali na mesa estão Larissa, minha prima, Tatiana e Silvia, amigas dela. – todos trocaram sorrisos. Larissa, na verdade, quase se desmanchou em sorrisos. Ela se insinuava tanto para os homens que dava ânsia de vômito! Ele continuou:
_Estes são Bruno, Tomás e Fábio, namorados das respectivas garotas à mesa.
_E aqui deste lado – rindo e apontando para nós duas, David soltou – as solteiras e disponíveis, Clara e Luiza, nossas amigas de infância.
_Disponíveis?! Pôxa, que apresentação, David! Olá Pedro e Leo! Eu sou a Clara! – Morrendo de vergonha, cumprimentei os rapazes. E não pude deixar de pensar: “Uau! Bela visão para uma noite de sexta!”
_Olá Clara! – eles responderam.
_Elas estavam ansiosas pela chegada de vocês! – nesta hora eu confesso que quis matar o David. Não sei o por quê (talvez, saiba), mas acabei olhando para Bruno e vi que ele fez uma cara séria.
Luiza estava como um pimentão e quase não conseguiu pronunciar um simples “olá” e percebi claramente que David adorou deixá-la sem graça.
_David, pare de bobagem e leve os rapazes ao quarto em que eles ficarão. Mostre a casa! Eles devem estar querendo ir ao banheiro, Pedro já anunciou isso! Eu vou guardando as bebidas deles na geladeira – Ana foi logo dizendo para cortar o clima.
_Calma Ana! Você sabe que não sou bom nestas coisas. Clara, mostre a casa aos garotos, você já veio aqui tantas vezes que conhece mais do que eu!
_Ah, isso é verdade! Clara se sente realmente da família, não é Clarinha? – era Larissa, começando a mostrar sua simpatia, ela não passaria em branco.
_Tudo bem, venham meninos. – eu já me virei ignorando-a. Minha necessidade de sair daquela situação incontrolável com Bruno era tão urgente que nem dei importância ao fato de que Larissa fez esse comentário de propósito, para me deixar irritada.
Levei os meninos ao andar de cima da casa e mostrei o quarto onde dormiriam. Eles se mostraram muito educados e animados.
_Clara, o David fala sempre de você! – Pedro comentou – eu era louco para te conhecer.
_Jura? O que ele fala de mim? – fiquei curiosa.
_É verdade! Ele sempre diz que você é muito divertida! – Leo confirmou.
_Que bom que ele diz isso, porque vindo do David, não dá para esperar coisa boa, né? – eu disse tentando parecer o mais natural possível – Bom, vou deixar vocês à vontade. Desçam assim que se organizarem.
Deixei-os lá e desci de volta à varanda. Eles pareciam “bons” demais para ser verdade, se é que vocês me entendem. Ana tinha razão, cafajestes, tava na cara!
Leo era lindo! Pedro era engraçado! Juntos, eles eram o sonho de consumo de qualquer mulher solteira num carnaval! Naquele momento, com várias taças de vinho na cabeça, eu só conseguia pensar que se eles não fossem gays (e não parecia nada perto disso), tudo estava perfeito!
De volta ao convívio, me sentei perto de Ana e me coloquei numa posição estratégica para olhar Bruno, meio de perfil. Ele não me via, mas eu enxergava cada linha de expressão de seu rosto. Se era paranóia minha, muito álcool no lance ou as duas coisa juntas, não sei, mas que ele parecia cada vez mais idêntico ao Caio, ah, isso parecia! E ficar olhando para ele, que agora tinha Larissa agarrada ao seu pescoço, me fez lembrar que tinha uma dúvida na minha cabeça que eu precisava descartar logo de uma vez.
Me enchendo de uma coragem sobre-humana (em especial por Larissa não estar mais por perto), afim de tomar uma decisão, algo pouco comum no meu comportamento usual, respirei fundo, me virei com o meu sorriso mais simpático para Tatiana e iniciei o assunto:
_Tati, Silvia comentou que você se formou em Ribeirão Preto. De que turma você era? – rezava em pensamento para que não fosse 2000, não podia ser 2000, não, claro que não seria 2000 e... meus pensamentos foram interrompidos.
_Entrei em 2000, Clara. Por quê? Você conhece alguém que estudou lá também?
_É, conheço, sim. – respondi quase sem ar, me questionando se deveria revelar a total verdade da história.
_Jura? Quem é? – ela, obviamente, logo quis saber.
_Ah, um amigo meu dos tempos de colégio – tentei disfarçar pensando no que deveria fazer, pensa rápido mulher! – mas estou em dúvida se ele é de 2000 ou 2001... não me lembro direito... – eu gaguejava e devia estar uma palhaça de tão vermelha.
Ana, percebendo o auge da minha aflição, resolveu cortar o mau pela raiz...
_Caio. Caio Souto Antunes. Você conhece? Acho que ele é de 2000 mesmo.
_Caio Antunes? O anestesista? Claro que sim! – ela respondeu abrindo um sorriso que quase inundou minhas expectativas – Caio é um querido. Foi da minha sala durante todo o curso. Você sabe quem é, né Silvia?
_O Caio seu amigo, da Roberta? Aquele sério e compenetrado? – perguntou Silvia, dando a entender que também o conhecia.
Pára tudo! Como assim: Caio da Roberta? Que Roberta?! Quase explodia de tanta ansiedade e raiva... acho que o álcool até evaporou do meu organismo. Luiza e Ana me olharam meio aflitas.
_Ele mesmo Silvinha... – ela confirmou.
_Claro que sei quem é! Muito bacana aquele rapaz, ele foi meu calouro na residência do Incor e trabalhamos juntos por dois anos. – disse Silvia. Cada informação, confirmando que elas conheciam Caio, e muito bem, diga-se de passagem, fazia um pedaço de mim entrar em colapso.
E eu, imóvel, sequer produzia uma palavra.
_Olha que coincidência! Caio estudou no nosso colégio. Eu, ele, Luiza e Clara fomos grandes amigos! Não é Clara? – Ana me cutucou, pra voltar a respirar.
_Fomos não, ainda somos, né Ana?! – Luiza a corrigiu pra ganhar tempo para mim, que permanecia muda.
_Somos, claro. É que estamos um pouco afastados, agora, na vida adulta. Mas acho que é normal, não é? – Ana tentava continuar o papo.
_Sim, isso acontece. Infelizmente. – Silvia concordou.
_Nossa, mas muita coincidência mesmo, vocês serem amigas dele. – respondeu Tatiana – Sabem, eu adoro o Caio, e ele namora minha amiga Roberta, também médica.
_Ah, ele está namorando esta tal médica ainda? E ela é sua amiga? – achei que estava pensando, mas quando vi, já tinha falado. E falado com uma voz brava, de quem estava magoada. Percebi que Ana e Luiza me olharam com uma cara de interrogação, do tipo: “vai entregar o jogo?”.
_Sim, você a conhece, Clara? A Beta é um amorzinho, não é? Nós moramos juntas em Ribeirão. Eles se conheceram lá, numa festa na nossa casa, acredita? Nossa, eles são um casal e tanto! – ela afirmou tão categoricamente que só consegui ser sincera:
_Não, não a conheço, eu e Caio não nos falamos há muito tempo. Mas imagino que eles devem se dar muito bem mesmo. – respondi sem conseguir disfarçar o cheirinho de desdém que vinha de dentro da minha alma.
E também não sei se consegui disfarçar o mal estar brutal que se abalou sobre mim. Fazia exatamente um ano que eu e Caio não nos encontrávamos. A última vez tinha sido na formatura do Luiz, um amigo nosso em comum. Eu sabia que ele estava namorando uma médica, por informações do próprio Luiz, mas ela não estava lá com ele. Lembro-me de saber que eles não tinham um relacionamento muito estável, e viviam brigando. Eu e Lucas também estávamos brigados nesta ocasião e fui ao evento sozinha. Quando nos vimos foi meio como acender o fósforo num monte de palha seca. Fogueira total. Faíscas saltavam aos nossos olhos. Mas como sempre, foi um momento duro e difícil para nós dois. Brigamos o tempo todo, discutimos muito, nos magoamos mais ainda e depois de várias doses de álcool na cabeça, como sempre, acabamos nos braços um do outro no motel. No dia seguinte, pra variar, a ressaca moral batia fundo e eu me odiava por ter feito aquilo, e mais ainda por saber que ele também não sentia a menor alegria por ter estado comigo.
De qualquer forma, me lembrei de dar graças a Deus por Larissa não ter presenciado aquele papo, pois ela conhecia um pouco desta história e, certamente, me entregaria para as duas novas “amigas” na primeira oportunidade.
Por sorte os meninos resolveram descer do quarto e novos ares se instalaram naquela casa. A alegria deles fez com que eu relaxasse e, de volta aos drinques, tentei esquecer que eu acabara de conhecer uma colega de Caio, cuja amiga era a garota perfeita na vida dele.
A noite se estendeu em meio a muitas piadas, brincadeiras e bebedeiras. Bruno, dono de bar, sabia fazer drinques especialíssimos e eu e Luiza nos colocamos a provar um por um, muito para desagradar Larissa e outro tanto para afogar nossas mágoas. Claro que o resultado não poderia ser diferente: fui dormir às 5h da manhã, completamente embriagada e me sentindo quase deprimida pela enxurrada de informações recebidas numa hora não muito apropriada!

sábado, 21 de agosto de 2010

Capítulo 5

Larissa – a chata, chegou como uma escola de samba, tamanho o barulho. Ela se achava muito importante mesmo, digna de queima de fogos por sua simples aparição! Ela foi entrando pela casa, como se fosse a dona, é importante ressaltar, e o escândalo aumentou quando colocou o olho em nós duas na varanda:
_Clara! Luiza! Como vocês estão lindas! Quanto tempo! Já conhecem o Bruno, meu amor? – sempre fiquei perplexa com a maneira desagradável, falsa e impositiva como Larissa fala com as pessoas.
_Olá Larissa! – respondemos em uníssono.
No momento em que a figura de Bruno apareceu na minha frente eu simplesmente levei um choque! Mal podia respirar, estaria eu tendo uma alucinação? Estava bêbada demais? Juro, se eu estivesse vendo uma foto, poderia afirmar com toda certeza de que era o Caio. Apostaria minha vida nisso. Pessoalmente poderia destacar pequenas diferenças, mas no primeiro olhar o cara era simplesmente idêntico a ele! A mesma cara séria, o jeito tímido e a postura quase militar para sorrir. A altura era a mesma, o corpo também e os olhos amendoados. Como Ana não tinha me atentado para este detalhe?
_Olá Bruno, que prazer vê-lo de novo, seja bem vindo. – Ana o recebeu com beijinhos no rosto e nós a imitamos.
_Boa noite meninas! Muito prazer, sou o Bruno. E estes são Silvia e Tomás e ali atrás, Fábio e Tatiana, meus amigos. – ele foi falando enquanto nos cumprimentava.
_Nossos amigos, não é amor? – Larissa ressaltou esse detalhe para mostrar a propriedade sobre Bruno.
_Er, claro... agora também são seus... Só quis dizer que eles fazem parte do meu grupo de amigos. – Gostei da forma como ele a respondeu e já lhe dei vários pontos de crédito por isso! Muito bom garoto, mostre a essa idiota o lugar dela!
Cumprimentamos os casais amigos de Bruno. Todos muito simpáticos, por sinal. Percebi que eles realmente não poderiam participar do mesmo grupo de amigos de Larissa. Aliás, com meia hora de conversa, percebi que eles estavam apenas começando a conhecê-la!
Silvia e Tatiana eram uns amores. Ultra-simpáticas e falantes. Não possuíam uma beleza extraordinária, mas não eram nada feias. Elegantes e educadas, no mínimo. Nada parecidas com Larissa – a chata.
Os rapazes também eram ótimos. Bastante sociáveis, faziam questão de elogiar a casa e a hospitalidade de Ana e David o tempo todo. Eram amigos de Bruno desde a faculdade e Tomás era sócio dele em vários de seus empreendimentos, que, aliás, consegui perceber, eram muitos.
Tão logo eles se instalaram, começamos um excelente papo com as garotas. Tatiana e Silvia eram médicas. Aquele assunto meio que me chamou a atenção.
_E vocês são amigas há muito tempo? – eu quis saber.
_Na verdade, não. Nos conhecemos através dos garotos. – Tatiana respondeu.
_Nossa, e que coincidência dois amigos namorarem duas médicas. –Ana comentou exatamente o que eu estava pensando.
_Todo mundo diz isso. – respondeu Silvia – mas Tati se formou em Ribeirão Preto e eu em Petrópolis, bem antes. Somos de gerações diferentes. Foi coincidência mesmo. E ela namora o Fábio há pouco tempo enquanto eu e Tomás estamos juntos há muitos anos.
O papo continuou e, claro, o fato de ter ouvido Silvia dizer que Tatiana havia se formado em Ribeirão me despertou ainda mais a atenção. Será que ela conhecia Caio? Ela parecia ter mais ou menos a mesma idade que eu e, portanto, a mesma idade dele. Eles podiam ter sido da mesma turma. Além disso, não conseguia parar de olhar para a fisionomia de Bruno, tão idêntica a Caio.
Quando Ana saiu em direção a cozinha para pegar alguns tira-gostos, me ofereci para ajuda-la, pois já não agüentava mais aquela agonia, precisava comentar aquilo com ela.
Assim que entramos na cozinha, fui logo gritando:
_Ana do céu, esse Bruno é idêntico ao Caio! Como você não me disse isso?
_Clara! – ela bateu com a mão na testa – É mesmo! Como eu não tinha reparado nisso antes! Me lembro que quando o conhecemos, no reveillon, o João comentou que ele parecia alguém, mas não conseguimos ligar a semelhança ao Caio! Claro, é igual mesmo! Por isso falei que tinha uma cara familiar!
_Familiar? Você tá brincando! Ele é muito igual... até o jeito de falar, a postura... e os olhos, Ana?!
_Nossa, é mesmo! Mas, e essa história dessa Tatiana ter se formado em Ribeirão, hein? Você pensou o que eu pensei? Vai ter coragem de perguntar?
_Claro que pensei, Ana! Mas não sei se tenho cara de perguntar! Aliás, não sei se quero saber notícias dele, sabe? Vai que eles são amigos! Vou estragar meu feriado com isso...
_”Não sei se quero saber!” Ai meu Deus, Clara! Como não sabe se quer saber! Só você mesmo para dizer uma coisa destas!
_Mas eu não sei mesmo!
_Mas eu sei que eu quero! E vou perguntar! Você acha que vou perder esta oportunidade? Ficou louca? Desde a última vez... – ela desistiu de completar a frase depois que viu minha cara murchar – Além do mais, a gente tem que se enturmar com esses amigos novos de Larissa, porque ela não vai gostar nada... – ela saiu pela tangente mudando o rumo da frase.
_Bem, esse é um lado interessante da história... mas então deixa que eu pergunto, na hora em que ela estiver perto.
Saímos da cozinha com alguns amendoins, queijos e batatas chips distribuídos em pequeninas vasilhas. Quando coloquei uma destas na mesa em que Larissa estava sentada com as meninas, percebi que era a deixa perfeita para acabar com meu tormento. Já iniciava o novo papo com um “Tati, você disse que se formou em...” Mas um novo buzinaço interrompeu minhas palavras. Eram os amigos de David. Já passava de 1h da manhã.
_Vejam, Pedro e Leo chegaram! Eles disseram que chegariam só amanhã! – David anunciou – esses dois insanos! Devem estar bebaços já!
Luiza e eu trocamos olhares aflitos! Estávamos super curiosas sobre os rapazes. Antes de manifestarmos qualquer palavra ou mudança de comportamento, David gritou:
_ Clarinha, prepara a maquiagem e bota pra quebrar! – todos riram e me senti envergonhada com a situação! Agora eu era a solteirona à procura do Carnaval. Virei chacota – eu pensei!
Mas em meio a todo meu embaraço e às gargalhadas que entorpeciam minha visão e minha audição e faziam minhas mãos molharem, uma voz grave e suave pronunciou:
_Mas com esses olhos e essa simpatia, ela bota pra quebrar de qualquer jeito! – era Bruno, me fazendo estremecer dos pés à cabeça, mas ao mesmo tempo me deixando eufórica pela ira que esse comentário fez surgir nos olhos de Larissa – a chata.
Gritinhos de “uhu” e “uau” deram lugar às gargalhadas e eu me senti quase petrificada pelo sorriso perfeito de Bruno com os olhos grudados em mim! Como ele podia ser tão igual ao Caio?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Capítulo 4

Chegamos em Condados por volta das 21:00h. Fomos as primeiras. Juro que não achei que fosse demorar tanto, mas Ana estava coberta de razão: pegamos um congestionamento monstro! E a pior parte não foi demorar quase três horas num trecho que não gasta mais do que 45 minutos num dia normal, mas agüentar Ana na minha cabeça: “Eu avisei que a gente ia se estrepar com a sua lerdeza, Clara”.
A casa estava limpa e toda arrumada para a gente. Tia Cláudia, mãe de Ana, sempre deixava tudo prontinho, ela era um anjo mesmo, até as camas e a divisão dos quartos estava pronta. Ela deixou um bilhete: “divirtam-se, mas comportem-se, ok?” – e quem ousa dizer que as mães não são todas iguais?
Colocamos todas as nossas bebidas no freezer e nos restou atacar um vinho que estava esquecido na porta da geladeira enquanto esperávamos por David e a simpatia de Larissa e seus convidados.
_Ana, me conte desse novo namorado de Larissa. Além de santo, o que ele faz da vida? – eu quis saber.
Ela vinha da cozinha com três taças e a garrafa de vinho. Eu me encarregava da saca-rolhas. Luiza, sentada numa espreguiçadeira na varanda, contemplava a bela noite de início de carnaval, acompanhando nosso papo.
_Então, meninas, ele se chama Bruno. É empresário, tem uns restaurantes e bares espalhados pela cidade, trinta e poucos anos, muito simpático e tudo mais.
_É bonito? – Luiza quis saber.
_Rico, eu diria. – sugeriu Ana.
_Então ele é um feio bem tratado, você quer dizer. – eu achei a melhor definição, enquanto enfiava a rosca da saca-rolhas no vinho.
_Exatamente Clarinha, matou a charada. Sabem, ele tem uma cara familiar.
_Familiar? Como? – Luiza quis saber.
_Ah, sei lá, não sei explicar bem agora. Mas vocês poderão tirar suas próprias conclusões amanhã, pela manhã.
_Amanhã? Por que amanhã? Eles não vão chegar hoje? – Luiza estava realmente curiosa sobre o cara.
_Meninas, as taças estão servidas, mesmo que eles cheguem em uma hora, o que será impossível, porque sabemos do engarrafamento que acabamos de enfrentar, não teremos mais condições de definir beleza de homem algum hoje. Tenho certeza, estaremos muito bêbadas.
_Quê isso, você já está prevendo que ficaremos bêbadas com esta garrafinha mixuruca de vinho aí? - eu desdenhei – Ana, eu e Luiza não somos “finas” como você, amiga! Desculpa, mas a gente bebe pra cacete!
_Então tá, vamos ver o que vocês me dizem amanhã.
Ficamos por horas ali bebericando aquela e outras tantas garrafas de vinho que fomos descobrindo na adega do pai de Ana e falando mal da vida alheia. Da vida de Larissa, para ser mais exata. Já sabíamos exatamente tudo sobre o novo namorado dela e os pontos fracos que deveríamos saber para pentelhar o feriado deles. Eu me detive, por exemplo, na família de Bruno. Encasquetei com a idéia de que deveria puxar papo com ele para poder descobrir algum parente em comum com o cara. Nesta cidade “ovo” em que moramos não seria muito difícil. Se não desse certo, no mínimo, poderia encontrar algum amigo em comum e se, por fim, não houvesse nenhum amigo, iria inventar. Imaginar não era problema para mim! As meninas acharam o máximo meu plano “inferninho”. Embora eu tivesse certeza de que Luiza seria incapaz de me ajudar em algo desse tipo porque ela é tímida e sem idéias demais para isso, com Ana já era outra história. Ela seria capaz até de descrever encontros e viagens fictícias para tornar tudo mais real. Mas, na verdade, naquela hora, eu jamais poderia prever que esse plano daria mais do que certo.
Quando chegamos no final da segunda garrafa, estávamos todas descabeladas, com a barriga doendo de tanto rir, deitadas numa espreguiçadeira da varanda. Começamos até a concordar com Ana, de que quando o tal namorado de Larissa chegasse, a gente poderia ter certeza de ele era gêmeo do Brad Pitt! Mas quem chegou primeiro foi David. Sozinho, aliás.
David é o irmão mais velho de Ana. Alto, moreno e muito bonito, ele é uma mistura de George Clooney com Marcos Pasquim, ou seja: um cafajeste completo! David tem 29 anos e nunca o vi namorar mais do que seis meses com ninguém. Ele é tão escorregadio que demos a ele o apelido de homem antiaderente. Muito inteligente, ele é engenheiro eletrônico e tem um cargo importante numa grande empresa multinacional. Ganha rios de dinheiro. Anda sempre no carro do ano, viaja freqüentemente para lugares maravilhosos, freqüenta as melhores baladas da cidade e “passa o rodo” geral. Um biscate de carteirinha. Mas eu o adoro. Muito divertido, seu humor está sempre nas alturas. Foi ele quem apresentou o “mundo da balada” a mim e Ana quando começamos a sair, na adolescência. Ele nos carregou muito para festas, bares e boates. David e eu temos uma ótima relação, somos grandes amigos, mas ele tem uma certa resistência com Luiza. Nunca entendi o por quê. Já pensei que ele tinha uma quedinha por ela, mas nunca confirmei. Ele simplesmente não fica a vontade perto dela. Logo ele, que é tão extrovertido.
Assim que botou os olhos em nós três, ele abriu os braços, num gesto tipicamente seu, e gritou em minha direção:
_Clara, meu amor, você assim deitada nessa espreguiçadeira, de pernas pro ar, com este shortinho branco e me esperando com uma taça de vinho... uau, não dá para resistir!
_David, seu bobo! Que saudade! Vem aqui me dar um beijo. – respondi animada – Pensando bem, aproveita que eu estou carente e tontinha e você tem até uma chance comigo esta noite.
_Olá Luiza, como vai? – Era nítida a diferença de tratamento entre nós duas. Ele não tinha liberdade com ela. E olha que David era tão cafajeste que tinha liberdade até com a rainha da Inglaterra.
_Tudo bem, David, e você? – mas Luiza era meio lerda para perceber isso.
Ele foi chegando cada vez mais perto de mim, arrancou a taça da mão da Ana após um singelo “oi, sister” e se despencou ao meu lado. Tomando o resto do vinho que estava na taça numa golada só, perguntou cheio de dengo, sob olhares de reprovação da irmã:
_Mas, onde está Laura? A princesinha dos Froes? – ele já tinha ficado com minha irmã várias vezes. Por sorte, ela era tão desapegada quanto ele a estes “peguetes” eventuais.
_Ih, não tenho boas notícias dela! Viajou com o namorado pra Bahia...
_E seu pai deixou? Como assim? – ele perguntou com cara de indignado.
_Ah... lá em casa está uma modernidade, David, tem que ver!
_Mas Laura, minha Laurinha linda, namorando no carnaval? Ah nem... que coisa mais pré-histórica! – ele era muito comédia mesmo – e quem é o otário?
_Bem que eu queria estar pré-histórica neste carnaval, tá? E nada de otário, o nome dele é Gustavo, e ele é realmente um fofo. Fofo demais... ah, como eu queria um fofo daqueles... – eu disse com a articulação pedindo socorro e os olhos quase fechando, o vinho mandava lembranças!
_Então este coração está vazio ainda, meu bem? O que aquele canalha do Lucas fez com você agora? Ninguém apareceu no pedaço? Nenhum médico metido a besta quis dar o ar da graça? – ele sabia tudo da minha vida.
_Vazio demais gato, ninguém tá me querendo! Tô de volta ao mercado e com preço de lançamento! – tentei fazer piada da minha situação.
_Sei... e o fantástico Doutorzinho “pára-tudo”? – David costumava se referir ao Caio com esse apelido, fazendo referência a sua especialização em anestesiologia – Tem certeza que ele está sabendo dessa solterice repentina?
_Ai David, não quero falar de Lucas, nem de Caio, nem de nenhum homem que eu conheça, ok? Quero novidades!
_Eu também! – Luiza até então calada, se manisfestou.
_Sei... caras novos! Vocês duas estão no crime, né? – ele se levantou e foi pegar outra garrafa de vinho – Soube por fontes seguras que aquele show no Rick Room ontem pegou fogo, até de manhã!
_Como você sabe que fomos até lá? – Luiza era muito lenta!
_Eu sei de tudo cara colega, de tudo... – ele respondeu cheio de charme, enquanto tirava a rolha da nova garrafa.
_Crime nada... só uma baladinha de leve. Mas vamos ao que interessa, me fala aí desses seus amigos, quem está chegando? Quando eles virão? Quem são? Eu e Luiza vamos gostar?
_Nossa, quantas perguntas! Calma! Além do mais, se vocês duas se amarrarem neles, eu fico como? Eu é que tenho preferência, ora!
_David... – gritei, sem paciência.
_Ta bom, Clara, vou contar... Acho que você vai gostar deles, são caras bacanas, divertidos e...
_Canalhas! Exatamente como você! – Ana não o deixou terminar a frase. Eu estava achando até estranho ela estar tão quieta até agora – e anda logo com essa rolha e pega outra taça para mim, já que confiscou a minha.
_Ana, eles são solteiros e descomprometidos, só isso. Você acha que uma pessoa solteira e descomprometida tem que ser santa? Tem que procurar namorada o tempo todo? Que mania esta das mulheres! – ele fazia um discurso acalorado – Nós só queremos curtir a vida, enquanto estamos solteiros, jovens e sem responsabilidades! Isso não é canalhice!
_Vocês são canalhas e ponto David! Mas não se preocupe sobre sua reputação, pois nós três te conhecemos tempo suficiente para saber quem você realmente é, tá? – Ana não deixava por menos.
Ele riu pelos cantos da boca, se fez de resignado, e enchendo a taça de Luiza, perguntou, olhando-a nos olhos:
_Luiza, o que você acha, com uma irmã dessa eu preciso de inimigos?...
Começamos a rir da situação. A cara de David, muito linda e sacana, não deixava dúvidas sobre suas intenções.
Ficamos mais um tempo naquela deliciosa varanda, de frente para a lagoa, bebericando vinho e confabulando sobre estratégias de diversão para o feriado, que incluía passeios de lancha, churrascos, festas, jogatina e muita bebedeira – David era ótimo para estas programações.
Mas como nem tudo poderia estar tão bem orquestrado, um buzinaço anunciou a chegada da “doce” Larissa.
_Clarinha, esta é a hora que entra em ação sua metade falsa, ok? Olha o sorriso! – David saiu em direção à porta, para recebê-los, morrendo de rir da cara de nojo que eu não consegui (e nem tentei) deixar de fazer.

domingo, 15 de agosto de 2010

Capítulo 3 - parte 2

Bom, acho que vou cansar de escrever como Larissa é insuportável e por quê eu e Luiza demos a ela o simpático pseudônimo de Larissa – a chata, logo após sermos apresentadas, quando tínhamos uns 12 anos. Larissa é uma prima da Ana, de São Paulo. Filha única, mimada, insuportavelmente magra, inteligente e linda. Sabe aquele tipo de mulher que arrasta quarteirão? Esta é Larissa. Claro que eu, como uma pessoa “meio termo” em demasia, iria odiá-la de cara. Eu sou normal. Larissa é over, de tão bonita. Mas ela também tem sua parcela de culpa pelo meu ódio. Ela é, de verdade e sem julgamentos pessoais, muito desagradável. Ela tem a síndrome que eu e Rafa, uma amiga dentista, inventamos na faculdade: MQSAPC – ou: mulher que se acha pra caralho. Sabe aquele tipo de gente que veio ao mundo a passeio? Pois é, Larissa é incapaz de ser gentil com qualquer pessoa, anda como se desfilasse, tem um nariz nas alturas e acha que é o centro das atenções em qualquer situação (se bem que, na maioria das vezes, ela acaba sendo). Então, desde que a conheci, quando ela veio morar em BH, nos odiamos de cara porque ela, por ser filha única, tinha Ana como uma irmã e cismou que eu roubara o seu lugar na vida de Ana. E fazia tudo pra me irritar, além de ser linda, o que por si só, já me irritava. Sem falar no sotaque, que beirava o pico da antipatia total. E eu, por minha vez, fazia tudo pra desagradá-la sempre. Usava e abusava da minha “química” com Ana para fazê-la se sentir preterida em relação a mim. Era em mim que Ana confiava. Eu era chamada para festas e viagens. Além disso, estudávamos juntas e tínhamos um universo paralelo em comum. Ana foi apaixonada por Rodrigo, um garoto da nossa escola, por décadas. Naquele namorico besta de criança, onde não havia encontros e nem concretização de nada, só restava o meu testemunho dessa relação. Só eu poderia conversar e confabular com Ana sobre Rodrigo, pois só eu o conhecia. Isso fazia com que Larissa me odiasse cada vez mais. E como eu percebia esta postura dela, alimentava ainda mais este ódio, multiplicando conversas e telefonemas sobre festas de turma, das quais Larissa não poderia participar.
Mas eu não fui tão imatura assim a vida inteira, claro que não. Acontece que eu e Ana, como já disse anteriormente, temos uma ligação muito forte, desde sempre. Nossa amizade sempre se sobressaiu. Ana nunca cogitou desenvolver com Larissa a relação que tinha comigo. Larissa era simplesmente sua prima. Parentes e ponto. Eu nunca tive ciúme dela com Ana, mas eu a detestava porque ela cismava de competir comigo e era muito mimada e mal educada. E eu odeio gente assim! Mas tentava disfarçar esse meu ódio, pra não ser intransigente e nem impor limites à minha amizade com Ana. Modéstia a parte, sempre fui muito educada e gentil com ela.
Mas a situação teve um limite na nossa festa de formatura da 8a série. Organizamos uma festinha numa boate famosa da cidade, nos sentindo “os adultos” com 15 anos. Nessa época eu era apaixonadíssima por um garoto da escola, Bernardo, que era super amigo do Rodrigo, paixonite da Ana. Ele nem imaginava meus sentimentos por ele. Mas quando o dia da festa foi se aproximando, eu comecei a dar umas dicas de que estava a fim dele. Bernardo era judeu, jogava futebol maravilhosamente bem e era muito, muito grosseirão, no sentido mais literal que possa existir, mas era lindo. Alto e forte, ele praticava lutas de defesa pessoal e se sobressaía entre os garotos da escola da mesma idade, com aquele corpo ainda em formação e penugens de barba aparecendo na cara. Seu apelido entre as meninas era Pônei, porque dava “coices” como um cavalo, mas era fofo demais.
Bom, arrumamos um jeito de chegar aos ouvidos de Rodrigo e Bernardo que eu e Ana queríamos ficar com eles na formatura. O dia chegou e, caraca, me lembro desse dia como se fosse ontem: eu chegando na festa toda arrumada, perfumada e maquiada e o Bernardo me dando aquela encarada de estremecer. Ficamos conversando por horas e ele me dando todas as dicas do mundo de que ficaríamos juntos naquela noite. Estava eufórica! Pouco tempo depois, chega a Ana, com David e a priminha idiota a tiracolo. Não acreditei quando vi aquela pessoa paralisada na minha frente. Cada aluno podia levar dois acompanhantes na festa. Eu tinha levado Laura, minha irmã e Arthur, meu primo tarado. E Ana levaria David e Henrique, seus dois irmãos. Como aquela coisa morena, linda e estonteante estava no lugar do Henrique? Não consegui me controlar e quase gritei, como se pudesse prever o que aconteceria em seguida.
_O que você está fazendo aqui, Larissa? – acreditem, eu berrava histericamente nesta hora.
_O Henrique sentiu-se mal e eu vim no lugar dele! Não está feliz em me ver, Clara? – ela adorava ser irônica e desagradável.
_Claro (que não, sua insuportável – eu pensei em responder, mas me contive), claro...
_Parabéns pela formatura e, aliás, não vai me apresentar este gato aí ao seu lado?
_Este é o meu... er... amigo, nosso amigo, né Ana? Bernardo. Bernardo, esta é a prima da Ana, Larissa.
Nesta hora eu juro que me segurei pra não olhar para a cara do Bernardo, pois tinha certeza de que ele estaria babando na figura de Larissa, que aos 15 anos, já era um escândalo. Mas como meu pescoço não obedeceu ao meu cérebro, eu, obviamente, assisti à cena mais deprimente da minha vida até aquele momento. O meu “encontro marcado” simplesmente me ignorou paralisado pela beleza daquela insuportável inimiga.
Enfim, não preciso nem descrever que eles se beijaram e se amassaram loucamente na minha festa e na minha frente. Desse dia em diante eu passei a odiar tanto a Larissa que nunca mais consegui enxergar nada de bom nas coisas que ela fazia. Nunca soube se ela sabia que Bernardo era o cara que eu queria namorar, mas desconfio que minha cara de apaixonada não deixava dúvida, e isso é suficiente para eu nunca tê-la perdoado. Não que ela alguma vez tenha cogitado a ínfima possibilidade de me pedir perdão (acho que essa palavra nem existe no vocabulário dela, pra ser sincera), mas eu não a perdoaria assim mesmo.
Ana se sentiu culpada por muito tempo, mas como eu a amava profundamente, nunca poderia culpá-la, efetivamente, pela grandíssíssima filha-da-mãe que Larissa era. E isso acabou servindo como prova inequívoca de que minhas reclamações e meu ódio pela prima dela tinham fundamento e ela nunca me cobrou nada a respeito dessa posição. Ana era realmente uma amiga ímpar.

capítulo 3 - parte 1

Cheguei ao Carrefour cerca de uma hora depois de falar com Ana ao telefone. De longe ouvi barulhos conhecidos. Nem precisei ligar para encontrar o que, ou quem, procurava. As meninas se estapeavam no setor de bebidas decidindo sobre vodcas, cervejas e afins alcoólicos.
_Clara, que demora! – esbravejou Ana assim que me viu – o que você trouxe pro nosso arsenal?
_Olá pra você também Ana! 2 vodkas e 2 whiskys. E vocês, como estão? Precisaremos de mais coisas? Lembraram dos energéticos? Não quero dormir, ok?
_Uau, quer morrer elétrica e embriagada, amiga?
_Olá Clarilda! Que bom que mudou de idéia! Como está você? Como passou de ontem? – perguntou Luiza, com toda aquela calma e elegância que lhe é peculiar, me dando beijinhos no rosto – vamos nos cumprimentar primeiro, Ana, que estresse!
_Que cumprimentar o quê, a gente já se viu e falou mil vezes essa semana, temos é que decidir logo o que levar e pegar a estrada antes de escurecer! Hellow, meninas, hoje é sexta-feira véspera de carnaval, vocês já perceberam? O mundo inteiro está pegando estrada!
_Tudo bem Ana, mas ainda dá tempo de fazer tudo, calma! Vamos comprar umas cervejas e ... – Luiza não conseguiu completar a frase, nada de anormal.
_Comida não precisa, mamãe esteve lá esta semana e já lotou a geladeira pra gente – Ana interrompeu – além disso, também tenho 2 garrafas de vodca e Luiza trouxe mais duas de rum e três vinhos. O resto do povo também deve levar alguma coisa, eu avisei ao David.
_Então acho que temos destilados o suficiente. – decretei.
_Por falar nisso, quem mais está indo, Ana? – Luiza quis saber.
_Bem, David com dois amigos, que devem chegar amanhã cedo e... er... (senti uma enrolada no ar) dois casais amigos de Larissa, que também vai com o novo namorado...
_Ah, então teremos boas companhias!? – lancei meu olhar “desprezo acompanhado de ironia absoluta” porque Ana tocara no nome de Larissa, uma prima dela que eu não suporto muito há alguns séculos.
_Não estressa Clarinha, você é minha convidada, vamos encher a cara, tomar um super bronze, jogar muito buraco e falar muito mal dela, deixa comigo... – Ana tentou por panos quentes, passando o braço pelo meu ombro.
_Clara, não sei porque você implica tanto com a Larissa, afinal ela só é detestável uns 250 dias por ano... e vocês se odeiam só porque você é a melhor amiga que roubou a “priminha que ela mais ama no mundo inteiro” e só porque ela é linda e roubou o seu namoradinho sarado na infância... fora isso, ela é até legal no resto do tempo – apesar de ligeiramente tímida, Luiza conseguia ser super sarcástica quando queria.
_Nooooossa, jamais ouvi uma sinopse tão perfeita desse caso de amor e roubos trocados Larissa-Clara! Arrasou Lulu! – Ana, empurrando o carrinho, quase engasgou de rir das palavras venenosas de Luiza.
_Puxa, mas que simpatia a sua, obrigada pela análise “psico-dramático-idiota” de minha história, tá Dona Luiza?
_De nada, amiga!
_Meninas, isso é pura ilusão da cabeça de vocês. Eu não odeio ninguém, simplesmente ignoro a Larissa e toda sua empáfia! – e me virando para Ana, completei – E apenas não teria aceito o convite se soubesse que ela iria – o que era pura mentira, eu falei piscando para Luiza e já rindo da destilação de veneno que estava prestes a estourar.
_Nem eu! – completou Luiza piscando pra mim. – Estou com a Clara.
_Dá um tempo gente, eu simplesmente não poderia dizer a ela que a casa estava lotada. Ela me ligou pedindo pra ir pra lá no início desta semana. – tentou se explicar Ana – Além disso, sra Clara Froes, que eu me lembre bem, você aceitou meu convite há pouco menos de 2 horas! E você Luiza, está muito antipática estes dias, hein? É a saudade dos ninfetos?
_A antipatia é convivência com vocês duas, querida Ana! – Luiza respondeu enquanto analisava o rótulo de um vinho metido a besta de mais de três dígitos que eu e Ana prontamente tomamos da mão dela e devolvemos à prateleira na seqüência.
_Mas e estes amigos do David, Ana, dão pro gasto? Eu e Luiza poderemos apreciar belas paisagens, ao menos? – tentei me mostrar animada depois da bomba da notícia de dividir o carnaval com a chata da Larissa.
_Pedro e Leo? Olha, até que dão sim, viu? Eu não os conheço muito, acho que vi umas duas ou três vezes. Mas vocês sabem, David é tão canalha, mas tão canalha que só deve andar com outros canalhas. E como já sabemos amigas, canalhas são sempre LINDOS...
Depois dessa deixa da Ana, caímos na gargalhada e nos encaminhamos ao caixa, que tinha uma fila de mais ou menos 2 mil pessoas, com nosso carrinho abarrotado de cervejas, energéticos, mais vodcas, alguns queijos, pães e pastas para tira-gostos.
Duas horas depois de conseguirmos finalmente pagar as compras, já bem irritada, chegando ao estacionamento, Ana despachou Luiza para meu carro.
_Leva a Lu, Clara. Vou ligar o viva-voz pra conversar com o João no caminho. Vamos ter um sexo telefônico durante o trajeto e não quero testemunhas. – Ana era mesmo terrível!
_Jura? Vocês fazem isso, Ana? – Luiza perguntou corando o rosto – Me espera Clara, Ana é muito pervertida!
_Pervertida? Eu? Por acaso você acha que transar com o namorado em pleno carnaval é perversão? – Ana berrou ao dizer isso – To até querendo privacidade. E você, sua tarada, falsa santa, não adianta ficar vermelha porque todo mundo sabe quem é que anda pegando pirralhos de 18 anos, tá? – ela continuou falando na lata, morrendo de rir porque deixava Luiza cada vez mais constrangida.
_Meninas, tenham dó, nem eu que sou a destrambelhada da turma fico gritando essas coisas no estacionamento do supermercado. Vem Luiza, vamos confabular como acabar com o namoro da Larissa durante o feriado, esquece a Ana.
_Ah não, sem planejamentos perversos que eu não posso compartilhar. Detesto ficar fora dos assuntos e babados! – Ana pestanejou.
Entramos no carro, já frouxas de tanto rir, e seguimos rumo a Santa Fé. Assim que pegamos a estrada só pensava que estava louca para chegar lá e sentir aquele cheirinho de bagunça que a casa de Condados e a insanidade alcoólica pode nos oferecer.
Como eu disse, aquelas duas eram capazes de animar qualquer coisa na minha vida, até mesmo encontrar diversão dividindo teto com Larissa, a chata de galochas. Eu já me sentia bem melhor do que quando havia deixado o consultório no início daquela tarde.

Capítulo 2

Cheguei em casa e não tinha mais ninguém. Andei tanto que já passavam das 16:00h. Meus pais já tinham ido para a fazenda com meus avós paternos e minha irmã mais nova, Laura, estava na praia com o novo namorado desde a quarta feira. Eu, bem, pra variar, não sabia o que fazer!
Na geladeira havia um bilhete, pregado com um ímã de propaganda de pizza, com letra da mamãe: “Assim que resolver sua vida, ligue pra gente”. Resolver minha vida, poxa, essa era minha sina! Sempre tinha alguém aguardando que eu resolvesse minha vida.
Um carnaval à vista para quem está solteira aos 26 anos deveria ser, no mínimo, um convite à gandaia, certo? Mas este não era meu clima... Queria apenas tomar um solzinho, beber umas e outras e, quem sabe, beijar na boca de um completo desconhecido, para não me lembrar de Lucas. Tá, tudo bem, isso também pode ser considerado um tipo de gandaia, mas é bem mais light, nada perto do que minhas amigas solteiras e guerreiras planejavam há meses: Salvador, o melhor carnaval do Brasil. Joana e Rafaela, minhas grandes amigas da faculdade, pertencem a este time. Solteiras convictas, gandaieiras de segunda a domingo, e muito, muito animadas. Estavam de malas, fígado e língua prontos desde a semana anterior! Não dava para acompanha-las, definitivamente.
Ana e Luiza, que são minhas amigas de infância, já são mais sossegadas e iam para a casa de campo da Ana num balneário perto daqui. Um programa que tinha mais a minha cara e o meu momento... Até porque a outra opção seria aturar mamãe e papai na fazenda, fazendo regime de engorda (nunca vi um lugar onde se come tanto!) e curtindo desfile na tv, e isso era demais pra mim. Mas eu não tinha dado nenhuma resposta para Ana quando ela havia me feito o convite há semanas atrás (meio que esperando alguma reviravolta repentina na minha vida amorosa até os 45 do segundo tempo, sei lá...) e agora não sabia se ainda estava de pé. Poderia haver lotação da casa.
Peguei o telefone e liguei para Ana, tentando conseguir uma vaga de última hora no quarto dos retardatários: “Amiga, ainda tem um lugar pra mim? Que horas vocês vão?” – perguntei com aquela voz de desconsolo e preguiça. “Claro né sua jacu, já sabia que você viria... você é a única pessoa no mundo todo que não consegue decidir nada com antecedência. Mas anda logo, já estou indo pegar a Luiza, encontra a gente no Carrefour da saída da cidade em 1 hora! E leva bebida!” – ela foi categórica, como sempre!
Fui arrumando minha mala, bem devagar, tamanho era o meu desânimo. Coloquei montes de biquínis e saídas de praia, meia dúzia de calcinhas, dois ou três shorts e umas três ou quatro blusinhas básicas e chinelos, claro! No banheiro, apanhei a nécessaire e fui despejando dentro dela, de qualquer jeito, frascos de shampoo, condicionador, perfume, protetor solar e o que mais ia vendo pela frente. Mas, também, não era necessário nada de especial nesta mala, afinal havaianas e biquínis eram nossos uniformes oficiais na casa da Ana. Nada de muitos saltos, roupas chiques ou maquiagem, lá o clima era meio praiano mesmo. Liguei para mamãe para avisar da minha decisão. Ela nem me deu muita atenção porque estava louca, controlando o papai, que já tinha entornado todas e estava teimando em comprar uma fazenda para ele, ao lado da do vovô.
_Já viu como seu pai fica rico quando bebe? – ela falou meio histérica e eu pensei que ele era uma piada mesmo.
_Sei sim, mãe. Mas segura a onda dele. Aposto que está no velho bordão: “Será um investimento e tanto para as meninas” – eu disse imitando a voz embriagada dele.
_Exatamente. Ah, meu Deus, como eu agüento esse homem há mais de trinta anos?
_É o amor, mãe. Bom, já vou indo. A gente se vê na quarta de cinzas.
_Vai com Deus, juízo, cuidado na estrada. Vê se não bebe muito e não liga pro Lucas, hein Clara? – discurso básico de mãe.
_Ta bom mãe! Não vou ligar. Quero conhecer alguém novo.
_Isso, dá uma virada nessa vida, filha. – ela disse tentando ser minha amiga – E dirige devagar. – mas o lado mãe falava mais alto, sempre.
Ainda bem que eu não ia pra lá, porque seriam mais cinco dias neste clima de mamãe tentando ser conselheira da minha vida amorosa e papai na crise de acordar pobre e ir dormir milionário! E, por falar em dinheiro, passei a mão na carteira e dei uma conferida. O último paciente do dia havia acertado a consulta em cash e achei que aquela quantia seria suficiente para os gastos modestos do programa que me sobrou. Conforme Ana me exigiu, assaltei o bar do papai e lancei mão de 2 garrafas de whisky e 2 de vodca que ele tinha comprado no free-shop na última viagem. Depois eu ia ouvir um sermãozinho básico, claro, mas enfim... depois era depois! Coloquei tudo no carro e saí não muito empolgada para o Carrefour a fim de encontrar minhas amigas companheiras de sol e golo do carnaval. Mas sabia que esse desânimo seria por pouco tempo, porque elas são realmente as melhores amigas do mundo e quando a gente se encontra tudo fica muito melhor!
Ana era minha amiga de tenra infância mesmo! Loira, alta, linda e falante como eu. Somos amigas de alma, como costumamos brincar. Estudamos juntas desde o pré-primário. Os pais dela têm essa casa, linda, em Condados, um luxuoso condomínio fechado, numa cidadezinha balneária chamada Santa Fé. Freqüentei esta casa da Ana durante todos os fins de semana da nossa adolescência. Foi lá que armamos nossas maiores festas, bagunças e nossos primeiros romances, claro! Também não faltaram bebedeiras homéricas e muitos momentos “lamas”. Puxa, várias lembranças maravilhosas... Sempre que vamos pra lá é inevitável relembrar estes dias deliciosos do nosso passado e sempre nos acabamos de rir de todos eles.
Atualmente Ana namora o João Luiz. Quer dizer, atualmente não, desde sempre. Eles são o meu casal preferido no mundo todo! João trata Ana como uma princesa e eu o amo por isso, pois é assim que acredito que ela deve ser tratada. Mas, há uns seis meses, João passou num concurso da Polícia Federal em Brasília, e teve que se mudar para lá. Como ele pediu folga para vir no Natal e Reveillon, teve que ficar de plantão no Carnaval. Eles até combinaram de Ana ir pra lá ficar com ele, mas acabaram desistindo porque ele teria que trabalhar quase o dia todo e seria tedioso pra ela ficar lá plantada em casa e sozinha.
Ana e João têm uma química incrível, parecem feitos um para o outro. Eles são leves, engraçados, ácidos na medida certa, irônicos e muito, muito inteligentes. E isso sempre foi uma coisa difícil para minha vida porque sempre comparei meus relacionamentos com o deles, como se procurasse a perfeição que eu acredito que eles têm.
_Mas você apenas acha que somos perfeitos né, Clarinha?– ela sempre me diz.
_Claro que são perfeitos, vocês são iguais e diferentes ao mesmo tempo e na medida certa, tem perfeição maior que esta? – eu respondo categórica.
Ambos são advogados e planejam se casar no próximo ano. E Ana, obviamente, vai se mudar para Brasília e me deixar aqui sem ela. Morro de medo desse dia que se aproxima cada vez mais rápido. Bem, mas não queria pensar nisso agora porque neste carnaval ela estava “solteira” como eu e Luiza.
Luiza é nossa outra amiga. Entrou na nossa vida bem mais tarde, na adolescência. Bem magrinha e baixinha, Luiza é o oposto de nós duas. Em tudo. Morena de cabelos muito negros, séria, calada e ligeiramente tímida, menos, é claro, quando está ligeiramente embriagada (o que não raro tem acontecido nos últimos anos, como ontem, por exemplo, quando fomos a uma festa de aquecimento pré-carnaval no Rick Room e chegamos em casa às 4 da manhã). Na época do colégio, ela sempre estava a parte nas confusões e nos programas, pois enquanto eu e Ana brigávamos para ver quem falava mais, Lu era quase uma autista, vivia em seu próprio mundo. As coisas efetivamente só melhoraram quando ela foi para a faculdade de engenharia. Naquela multidão de homens, ela era a rainha. E isso acabou fazendo com que ela se soltasse mais, pois era obrigada a ter uma postura mais “centro das atenções”. E hoje ela até arrisca a aumentar o tom de voz ou a velocidade da fala para discutir algo com a gente. Mas isso não dura mais do que duas tentativas, claro. Luiza também está solteira há pouco tempo. Efetivamente está solteira há décadas, mas acabou de terminar. Deixa eu explicar: ela manteve um romance meio “sem-noção” com o orientador de sua tese de mestrado durante o último ano. Mas a coisa acabou não indo para frente porque o cara era bem mais velho e casado e, apesar de muito gostoso, tenho que admitir, ele era um grandissíssimo filho da mãe. Cansamos de avisar que ela se daria mal nesta história, mas vocês sabem como se comporta uma mulher quando cisma com um cara. Felizmente ela acabou caindo na real. Depois do Natal ela decidiu dar um basta e deu o fora nele. E fechou o coração para balanço. Foi curtir o reveillon em Angra com uns primos mais novos. Resultado: agora anda desenvolvendo uma estranha compulsão por pirralhos incrivelmente tarados e despreocupados. Imagino que eles olhem pra ela tão mingnon, tão quietinha, tão menininha e pensem que ela não tem mais que 20 aninhos.
E eu, na minha solterice recém-adquirida, resolvi embarcar com essas duas malucas do meu coração, e outros convidados da Ana, que eu nem imagino quem sejam, para o meu carnaval-fuga-de-última-hora, sem Lucas e sem Caio.