Ainda bem que David acordou cedo na segunda-feira, com animação total para um programa bem carnavalesco. Este foi meu primeiro pensamento quando ouvi a voz dele descendo as escadas. Porque, se dependesse de mim, teria dormido até a terça, embora não tivesse pregado o olho no tempo em que estive na cama.
Não eram nem 9:30h quando eu já estava de pé, andando de um lado pro outro ao redor da piscina, tentando entender como foi que aquele simples domingo de Carnaval tinha se transformado numa super-sessão de terapia em grupo.
_Clara, vamos até a Marina comigo, pegar a lancha? – David me perguntou quando percebeu que éramos os únicos acordados na casa. – Daqui a pouco o pessoal acorda, se arruma e a gente passa aqui para pegá-los no deck.
_Vambora, quero dar uma caminhada mesmo!
_A gente aproveita e toma nosso café por lá. Que tal? Papai disse que tem um restaurante novo, no clube, que serve um café-da-manhã super bacana.
_Ótimo, grande idéia. E aí dá tempo certinho do povo se arrumar, né?
_Exatamente. Já acordei a Ana e ela vai se ajeitando com o resto.
_ Mas você já sabe qual será o rumo do nosso passeio, hoje?
_Vamos até os Cânions. Vai ter um show de Axé, ao meio-dia, no Mexerico. – Mexerico é o nome de um gigantesco bar flutuante que existe numa ponta da represa de Condados. Lá é o ponto de encontro da juventude nos feriados e fins-de-semana, sempre com boa música ao vivo e famosas caipirinhas. E ao redor deste bar, as lanchas costumam ficar ancoradas.
_Ótima pedida!
_Então vamos, senhorita madrugadeira.
Fomos andando bem devagar até a Marina. Foi bom fazer aquela caminhada, em especial acompanhada de David. Ele foi falando suas bobagens usuais e eu fui esquecendo que tinha acordado com aquela sensação estranha, de ressaca moral. Assim que chegamos lá, ele deu as coordenadas para abastecer a lancha e deixa-la em ponto de bala para o passeio e eu fiquei observando a movimentação que começava a agitar o lugar.
Na seqüência, fomos em direção ao clube e nos dirigimos ao tal restaurante novo, que servia café-da-manhã. O lugar estava lotado. Muita gente tinha tido a mesma idéia que David, de tomar café enquanto a lancha era preparada. Era um restaurante bastante sofisticado, com mesas redondas gigantescas, semi-postas, decoradas com flores e louças caras, bem ao estilo luxuoso de Condados. O buffet era completíssimo, com frutas, sucos, pães, ovos, frios, sanduíches e tudo mais. Nos deliciamos sem pressa. E nem me preocupei com a conta que David, gentilmente, deveria pagar, ou melhor, assinar e deixar para o pai dele pagar, se eu bem o conhecia. Estava adorando aquele programa, mas senti falta da Ana. Ela também adoraria estar ali. Pensei também que aquele seria um ótimo momento para perguntar a David se Pedro e a tal loira da noite de sábado tiveram um affair ou investigar alguma coisa, mas acabei não fazendo isso. Fiquei com medo de arrumar mais confusão no meu feriado e deixei de lado a curiosidade. Quando terminamos, voltamos para a Marina e pegamos a lancha. Assim que chegamos no deck da casa, Larissa já estava, para variar, histérica, à nossa espera.
_Posso saber onde vocês estavam? – ela gritou assim que David manobrou. E reparei que estava sentada sozinha numa cadeira do deck.
_Pode. Fomos buscar a lancha, Larissa. – David respondeu, meio sem paciência – Alguém tem que fazer isso se quisermos passear nela, não é?
_Eu sei. Mas parece que você saiu cedo. Já estamos te esperando há horas. Demorou demais, não?
_Demorei o tempo suficiente.
_Eu e David fomos tomar café no clube enquanto a lancha era abastecida e aí demorou um pouco mais que o costume. – eu quis explicar, mas ao mesmo tempo irritá-la, falando sobre um programa que ela não tinha participado.
_Ah, está explicado... – ela fez uma cara de desdém.
David entrou dentro da casa e foi gritando por todo mundo para embarcar na lancha. Alguns ainda tomavam café, como Leo e Luiza. Eu e Ana arrumamos, rapidamente, um cooler com cerveja, refrigerante e gelo enquanto Tati e Silvia se ocuparam dos comes que Dona Geisa havia gentilmente preparado. Pedro, Bruno e Tomás já tinham separado as frutas e a vodka para as caipis. Eu fiz questão de não olhar para ninguém durante todo esse tempo. Trocar palavras então, nem pensar. Precisava beber um pouco antes de conseguir contactar Pedro ou Bruno.
Assim que todos começaram a subir na lancha, Ana fez sinal para eu ir com ela ao quarto, antes de partirmos.
_Clara, me ajuda a pegar umas toalhas?
Subimos ao segundo andar e, enquanto eu segurava as toalhas que ela ia tirando do roupeiro, já foi logo cuspindo a curiosidade:
_Estou enganada ou perdi alguma coisa ontem? To achando todo mundo com uma cara estranha, tipo ninguém fala com ninguém.
_Como assim? Caras emburradas?
_É, exatamente. Larissa parece ter brigado com Bruno. Pedro está meio tímido e você acordou cedo e sumiu com David.
_Aconteceu. Muita coisa. Mas não dá pra te contar agora, porque demora muito. Vambora que eu vou te contando aos poucos.
Quando entramos a bordo, Luiza logo nos chamou para tomar sol e eu achei isso um alívio. Precisava ter algo concreto para fazer, do contrário, não saberia como agir nem o que falar. Ana decidiu sentar-se com Larissa inicialmente e fez sinal para que aguardássemos por ela na proa. De soslaio, vi que Pedro estava num papo animado com Leo e Tomás. E percebi que ele também não estava fazendo questão de estar em contato comigo naquela manhã. Mas nem me incomodei. Ao menos, não a princípio.
Assim que deitei ao lado de Luiza, ela me fez a mesma pergunta que Ana.
_Amiga, está tudo bem?
_Sei lá... ontem foi um dia esquisito. – eu fui contando a ela tudo o que eu tinha ouvido e feito, desde a revelação de Silvia, passando pelo telefonema e a discussão com Pedro até o papo-cabeça da madrugada com Bruno.
_Nusga, que tanto de informação para um simples domingo! To meio confusa.
_Se você está confusa, imagina sua amiga aqui?
_Ai Clarinha, se a gente contar, ninguém acredita. Sua vida dava um filme, hein?
_Ou uma novela mexicana, daquelas bem dramalhonas. – dito isso nós duas morremos de rir e, de longe, Ana, que nos observava enquanto dava atenção à priminha emburrada e aos outros convidados, já apresentava seus sinais de curiosidade mórbida.
Mas quem primeiro se aproximou de nós duas foi David...
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