Me deitei na espreguiçadeira da varanda, sozinha. Seria impossível subir para dormir naquela hora, a adrenalina estava a mil no meu corpo, que há pouco atrás estava tão cansado. Decidi ir até a cozinha e preparar uma sobremesa com sorvete, calda de caramelo, leite-condensado e castanha, bem gigante, para aplacar minha raiva. Carboidrato era sempre um bom conselheiro nessas horas. E talvez eu estivesse mesmo precisando pular a parte do alimento indigesto, Caio, no meu jantar e ir direto a sobremesa.
Quando eu menos esperava, ouvi alguém descendo as escadas.
_Assaltando a geladeira? Insônia ou larica?
_Bruno? – eu reconheci a voz dele e me virei.
_Vim pegar um copo de água, estou meio sem sono. Larissa já capotou há horas e eu já zapeei todos os canais uma centena de vezes.
_Larissa já dormiu? Isso quer dizer que você deu uma canseira nela, então. – eu falei sem pensar.
_Eu, é... Como? – ele ficou vermelho.
_Ah, desculpe Bruno. Quanta indelicadeza. Achei que estava brincando com uma das minhas amigas. Não devia ter dito isso.
_Não tem problema. Gostei da sua sinceridade. – ele riu.
_Sinceridade? Essa minha língua enorme hoje está ferina. Desculpe, de verdade.
_Não tem problema, mesmo – ele repetiu. – Gosto desse seu jeito moleca e espontânea.
_Espontânea, eu?
_Sim, você. E acho você muito autêntica por isso. Poucas mulheres são assim como você, eu acho isso fascinante. – ele disse bastante firme.
_Por quê? Uma língua metralhadora não é nada atraente ao meu ver! – eu quis me auto-flagelar.
_Ah, que nada. Vocês mulheres, de modo geral, são todas falantes, mas poucas dizem a verdade, como você diz. Isso faz a gente se sentir íntimo e tudo mais. Sabe, Clara, senti isso desde o primeiro momento em que te vi. Acho que já te conheço há séculos. – senti um arrepio depois que ele disse isso.
_É mesmo? – me fiz de boba
_É sim. Vai ver a gente já se esbarrou por aí, não é?
_Com certeza. E como você trabalha na noite, provavelmente isso pode ter acontecido mesmo.
_Pode sim. – ele respondeu se sentando ao meu lado.
Nós rimos, meio sem jeito, e ficou aquele momento difícil do silêncio, aquele clima esquisito que ninguém quer interromper. Ainda bem que eu podia continuar entretida no meu sorvete. Mas sentia que ele não tirava os olhos de mim.
_Bruno, vou te dizer uma coisa. Você me deixa nervosa. – eu não me contive e disse olhando nos olhos dele, que estavam bem próximos a mim.
_Nervosa? Como? Por quê?
_Ah, não sei, quando a gente se olha, sinto que você está me avaliando o tempo todo.
_Avaliando? Não, imagina. – ele riu de um jeito gostoso, como quem escuta uma piadinha boba, mas relaxante – Talvez admirando.
_Sério, é assim que eu me sinto.
_Deve ser porque fico tentando lembrar de onde eu poderia conhecer você – não sei se era ilusão, mas comecei a perceber onde ele queria chegar, ou talvez deixar espaço para eu comentar o que eu não queria, de jeito nenhum. Não de novo, não hoje, não com ele. Já tinha rolado uma enxurrada de Caio naquele domingo e o último desfecho, com Pedro, não tinha sido dos melhores.
_Você está gostando de Condados, Bruno? – tentei mudar de assunto.
_Estou sim. Na verdade, eu já conhecia o condomínio e a cidade de Santa Fé. Mas faz muito tempo desde a última vez que estive aqui.
_Seus amigos são bastante legais. Eles estão gostando também?
_Estão sim, as garotas principalmente, estão encantadas com a simpatia e a animação de vocês.
_Ah, que bom. Vocês são todos muito amigos, né?
_Somos sim, de infância. Aqueles dois são meus irmãos. Você e Ana também são muito amigas, né?
_Somos sim, irmãs também, desculpe o plágio. – eu disse rindo – Ana e eu costumamos brincar que somos amigas de alma. Sabemos tudo da vida uma da outra. Até lemos os pensamentos uma da outra. Ana é ímpar na minha vida.
_E Luiza? Ela também é amigona de vocês, né?
_Sim, claro, mas é que eu e Ana somos amiga há bem mais tempo, sabe? Mas Lu também é muito querida por nós duas. Temos nossa turminha, sabe? Amigos de colégio, os melhores do mundo, né?
_Ah, definitivamente. Insuperáveis.
_Insuperáveis, ótima definição. – eu concordei com ele, de novo.
_Larissa já havia me falado de vocês duas. Ela sempre comenta das amigas da prima Ana.
_Comenta... – eu disse num tom irônico.
_Sabe, acho que ela tem um pouco de ciúme da intimidade de vocês. – ele disse como se estivesse fazendo uma super fofoca.
_Ah, todo mundo saca isso! E até imagino o que ela deve ter falado de mim para você.
_Falou bem, muito bem, pode acreditar. Por quê ela não falaria?
_Ah tá, não precisa fingir que não sabe que eu e Larissa nos odiamos, Bruno. – eu gargalhei – ela nunca esconderia isso do namorado. Aliás, nós duas temos poucas coisas em comum, mas a franqueza é uma delas. Tenho certeza de que ela te deu um relatório completo sobre o amor que nutre por mim.
_Ah, Clara, você é mesmo uma figura. Tá bom, não é que vocês sejam amigas, mas...
_Nos toleramos. – eu o interrompi, antes que ele tentasse ser polido – Por causa da Ana. Só isso.
_Mas porque toda essa bobagem, hein?
_Nem sei como começou direito – eu menti – mas são histórias velhas e infantis.
_Então, se são velhas, porque tanto rancor? Larissa é bastante imatura mesmo, mas você não me parece... – ele não completou a frase.
_Ah, mas é que eu não sou o que pareço.
_Ah não? E o que você é? – ele pareceu curioso.
_Rancorosa. E sentimentalóide. E bem pouco prática. E um tiquinho infantil, também. – admiti, fingindo vergonha.
_E um bocado auto-crítica, pelo visto. Muito bom, mais um ponto pra você.
_Não disse que você estava me avaliando?
_Não é avaliação.
_Bom, de qualquer jeito, não quero nem saber a versão que Larissa te contou de toda essa história de ódio, rancor e ciúme – falei imitando a voz de um locutor de novela mexicana.
_Ela não disse nada de importante, pode acreditar.
_Mas isso, também, não tem importância, já que agora você me conhece bem, já me avaliou o suficiente e pode tirar suas próprias conclusões ao meu respeito.
_Pára, não diga isso, Clara! Foi forte, sabia? – ele disse sério – Eu não avaliei você coisa nenhuma! Aliás, eu não julgo ninguém, nunca. Não é da minha natureza.
_Taí uma mentira deslavada. Todo mundo julga tudo. Pessoas, ações, coisas, lugares, sentimentos. De uma forma ou de outra.
_Eu não julgo. Ao menos este tipo de julgamento que você está pensando.
_Tá, então me responda: O que você faz quando ouve uma história, assiste a uma discussão, sei lá. Não toma partido?
_Faço o normal. Assisto, ouço, observo. E deixo que as pessoas decidam suas próprias vidas da forma que acharem melhor. Elas não precisam da minha opinião.
_Nossa, que adulto isso. – eu fui irônica.
_Ah, é só uma forma de levar as coisas de um jeito mais leve. Cada um com seus problemas, concorda?
_Concordo. Mas... – suspirei – realmente não entendo.
_O que você não entende, Clara? – ele fez uma cara de compreensão.
_Não entendo você, Bruno. Pra começar, o que um cara legal como você viu numa menina mimada, desagradável e intolerante como Larissa? Além da beleza física, é obvio. – não resisti.
_Uau, agora você foi cruel.
_Desculpe, não quis ofender.
_A mim ou a ela? – ele soltou uma gargalhada.
_A você, é claro. – eu ri junto – Mas, sério, desculpa, de novo. Não quero me intrometer na sua vida, não tenho nada com isso. Claro que ela tem qualidades.
_Tem sim, muitas. Ela é muito mais do que essa mulher mimada, arrogante e intolerante que todo mundo vê. – confesso que gostei da parte do “todo mundo vê”, mas não ousei dizer isso a ele.
_Eu sei. Lamento pela overdose de franqueza. Estou meio desequilibrada hoje, sabe?
_Todos temos qualidades e defeitos. E equilíbrios e desequilíbrios, também.
_Até você? Também fica desequilibrado, às vezes? Tem defeitos? Não acredito! – eu brinquei com ele.
_Claro que tenho defeitos, né?
_Achei que você fosse legal assim sempre. – eu joguei um charme.
_Que nada, tenho várias fraquezas. – ele respondeu dirigindo o olhar ao chão.
_E quando entra em cena seu lado mau?
_Acredite, você não gostaria de conhecê-lo. – ele continuava olhando pro chão – Sorte que estou numa fase tranqüila.
_É mesmo?
_É, do contrário talvez não agüentasse a Larissa. – ele levantou os olhos e disse rindo, cedendo à minha gargalhada que veio na seqüência.
_Bom, mas por que você disse estar desequilibrada hoje? Me pareceu estar bem feliz o dia todo, com Pedro te cortejando e tudo mais. – ele tinha um sorriso enigmático nos lábios.
_Não, deixa pra lá... foi só uma força de expressão. É que eu disse muita besteira hoje, só isso.
_Entendi. Bom, acho que vou me deitar, então. Tentar dormir. A gente pode fazer outro passeio de lancha amanhã, o que você acha?
_Seria ótimo. Vamos pedir ao David! Existem uns Cânions legais, perto daqui. Ele sabe como ir até lá. Vocês todos vão adorar. É lindo.
_Ah, sim, isso. Parece que ouvi os meninos comentarem que vai ter um show num desses Cânions.
_Exatamente. Vamos falar com ele pela manhã. Será uma boa pedida.
_Então, boa noite, Clara. Até amanhã.
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