_Boa noite, Bruno. Foi boa essa nossa conversa. Outra madrugada dessas a gente repete a dose. – eu não queria que ele fosse embora.
_Foi sim, muito boa. Podemos repetir numa outra madrugada, ou numa outra hora qualquer, aqui ou em Belo Horizonte. Talvez, se eu estiver precisando de uma consulta no dentista... – ele riu, com um sorriso que eu já reconhecia de outro rosto, embora muito parecido.
_Ah, será um prazer recebê-lo.
_E vocês também podem conhecer o meu novo bar, que foi aberto no final do ano. Está bombando, sabia?
_Ana me contou a respeito. Vamos sim, será uma honra.
_Você pode ir com o Pedro. Prometo conseguir um lugar especial para vocês.
_Posso ir com minhas amigas – não entendi porque a necessidade de corrigi-lo. Eu estava flertando com ele?
_Claro, pode ir com quem quiser. Pode ir até sozinha, não faltará companhia para uma destrambelhada desequilibrada sentimentalóide e rancorosa!
_Nossa, minha análise é sofrível!
_Desculpe, agora eu fui cruel. Deixe-me consertar: Não faltará companhia para uma dentista linda, simpática e divertida como você.
_Ai, agora fiquei tímida. – disse abaixando o rosto.
_Não seja boba, são elogios sinceros e inocentes.
_Obrigada, Bruno. – eu ainda estava vermelha.
_Por nada. Bom, vou indo. – ele se levantou. – Boa noite.
Antes que pudesse pensar, chamei por ele, que já entrava de volta na sala:
_Bruno?
_Sim? – ele parou e se virou para me olhar.
_Você precisa mesmo ir agora? – perguntei sentindo as bochechas queimarem.
_Não. Você quer minha companhia?
_Na verdade, é que preciso te perguntar uma coisa. É meio séria. Pode ser? – soltei sem pensar muito no que estava fazendo.
_Claro que pode. – ele já estava vindo novamente em minha direção – Mas deixa te dizer uma coisa antes. Já que vamos ser sérios.
_Pode dizer. – eu senti meu corpo gelar.
_Achei que você não ia me perguntar nunca. – ele me olhava dentro dos olhos.
_Não entendi. – eu disse quase engasgando.
_Estou facilitando as coisas para você Clara, não entendeu?
_Estou confusa. – me fiz de desentendida, tentando ganhar tempo para ensaiar um discurso ou sei lá o quê.
_Clara, está escrito na sua cara que você quer falar do Caio. – ele falou na lata e eu estremeci inteira.
_Do Caio? Como você sabe? – falei gaguejando como um réu incriminado até o último fio de cabelo.
_Bom, vamos enumerar. Primeiro porque sua cara fantasma quando eu cheguei já me deu uma dica...
_Ah, é claro! Mas é que fiquei surpresa de conhecer você e...
_E eu ser a cara do seu ex-namorado, né? – ele completou a frase para mim.
_Soube hoje que vocês são primos. Silvia me contou. Cara, nunca podia imaginar!
_Contou, foi?
_Contou. E contou também que provavelmente você tinha sacado todo o lance. E, confesso, fiquei muito impressionada por tanta gente que eu mal conheço saber tanto sobre a minha vida. – disse meio sem jeito.
_Eu não sei nada da sua vida. Eu sei um pouco sobre a do Caio. E sei que ele foi apaixonado por uma garota chamada Clara. Só isso.
_Foi? – jamais deixaria de perceber o tempo verbal – No passado, então. Game over, baby! Por que tanto estresse, né? Já passou! – eu estava enganando quem, meu Deus?
_Clara, não me complica, vai. Caio é meu primo, um amigão do peito, crescemos juntos, somos como irmãos. Ele está namorando agora e não acho justo dizer nada por ele, em especial para você. – ele disse me ignorando.
_Tá, eu sei, vocês homens são todos corporativistas.
_Corporativistas? Essa foi boa! – ele disse com cara cínica.
_Eu entendo sua postura, ta? Eu faria a mesma coisa no seu lugar. É só que eu estou sentindo um cheirinho esquisito, tipo de que será difícil olhar pra você amanhã, depois desta conversa.
_Clara, não seja boba! – ele disse meio sem paciência. – Eu matei logo a charada de que você era a tal Clara de quem eu já ouvi tanto falar, pelo Caio. E na verdade, pouco antes do Carnaval, nós dois saímos juntos e quando falei que viria pra cá, ele comentou sobre uma amiga de escola que tinha casa aqui em Condados, de nome Ana.
_Ah é?
_É, e ele disse também que essa Ana era a melhor amiga da Clara. Coincidência ou não, quando eu entrei e você fez a maior cara de choque eu nem precisei ser apresentado a você para saber de quem se tratava.
_E, ainda por cima, eu pergunto com a maior falta de sutileza sobre um médico chamado Caio. Ai meu Deus, só mesmo Clara, a transparente, pra fazer isso. Nem se eu quisesse poderia ser detetive um dia na vida.
_Você é mesmo engraçada para comentar as coisas.
_Engraçada não, patética. Foi difícil mesmo para você matar essa charada, hein?
_Pois é, nada difícil.
_Puxa, que situação... – disse com a cabeça baixa, sem nem tentar olhar para ele.
_Não fique assim, já estou me arrependendo de ter te falado isso. Já te disse, gosto da sua espontaneidade. E entendo, inclusive, porque Caio é tão louco por você.
Não pude deixar de me sentir lisonjeada com essa frase e reparar que agora o tempo verbal era o presente – é louco por você. Mesmo assim, quis mudar um pouco a direção do assunto, e tentar descobrir alguma coisa nova, já que o assunto estava completamente ferrado pro meu lado, o melhor a fazer era esculhambar geral.
_Mas você não disse a ele que estava vindo para a casa de uma Ana, prima da sua namorada?
_Pra falar verdade, não. Já imaginava essa possibilidade, de essa Ana amiga do Caio ser a mesma Ana prima da Lari. Não quis contar isso pra ele, sem ter certeza, afinal era só uma possibilidade. E, além disso, ultimamente, Caio anda querendo fugir desse assunto.
_Desse assunto? – fiz cara de incrédula.
_Assunto Clara.
_Agora eu sou um assunto?
_Não, a história de vocês é um assunto.
_Sei... – disse meio desapontada. Comecei a imaginar a figura que Caio pintou ao meu respeito para ele, por eu ser um assunto tão recorrente.
Depois de um breve silêncio, ele tornou a falar, tocando meu ombro:
_Clara, todo mundo tem um amor mal resolvido. Homens falam sobre isso também, embora vocês mulheres achem que não. – ele tentou se explicar.
_Bruno, o nosso amor não é só mal resolvido. Ele é mal vivido, mal amado, mal entendido, mal discutido. – eu tentei me explicar também, pela segunda vez, naquele domingo.
_Vai ver por isso é tão especial para vocês.
_É, vai ver que é...
Fez-se novamente um silêncio constrangedor naquela madrugada estranha. Ele olhava para o nada, como se estivesse longe dali. Após alguns segundos, que mais pareceram séculos, ele se virou para mim e disse, num tom de voz forte e seguro:
_Posso te dizer uma coisa, se você me der liberdade?
_Claro, diga sim. – não tinha nada mais a esconder naquela noite.
_Acho que todas as coisas precisam ser experimentadas e vivenciadas ao máximo. E precisam ser concluídas também. E não me refiro só as coisas materiais, mas aos sentimentos, aos sonhos e ideais. Do contrário, fica sempre uma coisa no ar, fazendo mal, criando expectativas erradas, alimentando mal entendidos desnecessários.
_Concordo com tudo que você disse. Mas neste caso, o buraco é mais embaixo, Bruno. Você provavelmente sabe a versão do Caio nesta história toda.
_É, provavelmente. – ele balançou a cabeça concordando e continuou – Mas eu conheço o Caio. Bem demais. E sei como ele é com as mulheres. E não preciso conhecer a sua versão para saber que não há mocinhos ou vilões nesta história. Mas são vocês dois que precisam ver isso de uma forma mais racional, para poderem chegar a uma conclusão definitiva.
_Conclusão? Que conclusão?
_Se vão se separar de vez ou ficar juntos, ora. – engoli em seco ao ouvir estas palavras dele. Nunca havia parado para pensar que pudesse haver uma chance de isso ter uma conclusão.
_Já existe uma definição, Bruno. Ele tem uma namorada. – eu me fiz e resignada.
_Pelo que eu sei o fato de você ter tido um outro namorado nunca foi suficiente para definir esta história toda.
_É diferente! – esbravejei – Caio entrou na minha vida quando já existia uma história, com este namorado. Foi ele que mudou tudo. Mas essa tal namorada dele, não. É um caso novo. Ele virou a minha página e encontrou uma nova pessoa.
_É, uma pessoa incrível. – ele confirmou e eu gelei ao ouvi-lo pronunciar as palavras com tanta firmeza. Nem conhecia a garota, mas detesta-la era parte óbvia na minha natureza de fêmea ferida. Fui incapaz de responder. Mas ele continuou, após o silêncio que dei como resposta.
– Uma pessoa incrível que ele não ama e não se deixa amar porque é incapaz de esquecer você. – desta vez entrei em choque. Nunca imaginei que ele me diria isto. Ele havia acabado de dizer que não falaria pelo Caio. Estava congelada e com o coração quase saindo pela boca. Não queria que ele parasse de falar nunca. Mas tive que dizer alguma coisa, para não dar mais bandeira ainda, se é que seria possível ter ainda alguma bandeira para dar, aquela altura do campeonato.
_Nem sei o que dizer, mas acho que não é bem assim, Bruno. – gaguejei.
_É sim, claro que é. – ele disse meio ríspido demais – É tão difícil perceber isso? Porque para mim é óbvio. Sabe, sempre achei Caio meio tapado nesta história toda e, agora, estou vendo que você também é.
_Bruno, sejamos práticos, a verdade é bem simples: Eu nunca consegui esquecê-lo e nem ele a mim. Ponto final. Mas as razões para isso é que são difíceis de entender. Não tem ninguém tapado nesta história.
_Tem sim, os dois, pelo que estou vendo. Vocês acham que um não conseguir esquecer o outro é mera obra do destino. E não é! Nenhum de vocês dois tentou esquecer o outro, pra começar.
_Anh? – disse meio surpresa, mas completei – Claro que tentamos.
_Claro que não tentaram! – ele disse como se estivesse dizendo a coisa mais óbvia do mundo – Não quiseram esquecer! Vocês alimentam esta história e tentam fingir o contrário. Se quisessem, já teriam racionalizado isso faz tempo.
_Nossa, mas parece tão fácil para você!
_Eu sei que não é fácil. Não disse isso. Não mesmo! Mas é possível, Clara. A questão é que tanto você como Caio precisam manter essa coisa mal resolvida no coração, para terem desculpa de infelicidade ou sei lá o quê.
_Você está dizendo que eu sou infeliz, que quero ser infeliz e gosto disso?
_Espera aí, calma... não seja tão dramática!– ele tentou me acalmar, mas eu continuei:
_Não, já sei, você está dizendo que eu não esqueço o Caio porque gosto de sofrer por ele, é isso?
_Mais ou menos – ele riu.
_Juro que não reconheço esse meu lado sadomasô. – falei de forma sincera. Nunca ouvi uma versão tão “tapa na cara” como essa. Nem Ana teria conseguido ser mais ácida comigo. E ele havia dito que não julgava as pessoas.
_Clara, você acha mesmo que vai conseguir levar um relacionamento adiante antes de encerrar esta história com Caio no seu coração?
_Não sei... nunca pensei sobre isso.
_Pois pense. Eu fiz esta mesma pergunta para ele há um tempo atrás e sabe o que ele me respondeu?
_O quê? – perguntei ansiosa.
_Palavras dele: “Acho que eu preciso ter a Clara na minha vida, nem que seja para odiá-la, por nunca termos vivido uma história de amor” – ele citou as palavras de Caio, fazendo sinais de aspas com os dedos.
As lágrimas pinicaram meus olhos e eu tentei, com toda a força do meu corpo, não chorar na frente de Bruno. E, depois disso tudo e dos pulos que meu coração dava, só consegui ser ainda mais sincera com ele:
_Olha, já faço terapia há muito tempo e jamais minha terapeuta conseguiu me dar uma descrição tão perfeita da minha história, como Caio fez pra você.
Ele sorriu, mas antes que pudesse me responder qualquer coisa, uma sombra surgiu atrás da espreguiçadeira em que estávamos sentados.
_Vocês estão aí até agora? – a sombra perguntou e imediatamente reconheci aquela voz.
_Pedro?! O que você está fazendo aqui? – perguntei sem conseguir disfarçar a cara de assustada.
_Vim pegar um pouco d´água e vi uma luz acesa. – ele respondeu com o rosto meio amassado e sonolento.
_Já estávamos subindo. Eu também desci para pegar água e vi a Clara sozinha aqui fora, tomando sorvete. Emendamos um longo papo na seqüência e, pelo visto, nem vimos a hora passar.
_Conversas da madrugada costumam render. – ele sorriu pelos cantos da boca, meio sem graça.
_Mas já acabou! Estou com sono. – eu quis logo cortar o assunto. – Eu fui uma das primeiras a subir para dormir e, por causa de uma mensagem, acabei descendo para fazer uma ligação e fui ficando, ficando...
_É melhor irmos todos dormir então. – Bruno decretou.
_Isso, vamos. – Pedro concordou
_Boa noite meninos. Durmam bem – Bruno disse simpático – Ah, foi ótimo conversar com você, Clara.
_Foi sim, ótimo. – eu respondi muito sem graça – Boa noite Bruno.
Olhei para Pedro e percebi que ele assistia a minha troca de olhares e sorrisos com Bruno com cara de desconfiado.
Assim que Bruno começou a subir as escadas, segurei a mão de Pedro e perguntei:
_Vamos subir também?
_Clara, desculpe ter sido ríspido com você, mais cedo... sobre a garota do David – percebi que ele estava fazendo um esforço enorme para dizer aquilo.
_Ah, esquece. Nem é da minha conta mesmo. – juro que estava sendo sincera, aquela altura do campeonato o que menos me interessava era saber sobre uma possível paquera de Pedro.
_Tudo bem, mas quero te dizer que você pode me perguntar o que quiser, tá?
_Tá bom. Mas, agora, vamos dormir? – eu insisti em puxá-lo pela mão.
_Antes me responde uma coisa?
_O quê?
_Quem é Caio? Seu ex, esse com quem você terminou há pouco? – ele perguntou meio tímido.
_Não. Meu último namorado se chama Lucas. – disse com paciência – Caio é um namoradinho de infância, sem importância – menti deslavadamente me perguntando se seria possível ele ter ouvido alguma coisa do que eu e Bruno conversávamos.
_Tá bom, desculpa insistir, é só curiosidade. – ele sorriu.
_Vocês homens também são curiosos, né?
_Nem sempre. Às vezes. Depende dos telefonemas que as gatas recebem perto da gente – ele riu e me beijou o rosto.
E então fomos, finalmente, dormir. Cada um em seu quarto.
Na Lagoa, o reflexo da lua já desaparecia para dar lugar aos primeiros raios do sol que começava a nascer.
má!!!
ResponderExcluiré bundinha mesmo...não tem jeito mais!!!kkkkk
conheço a rota do papel...amanha to lá!!!
brigadao!!!
que bom q vc gostou dos prendedores...da proxim vez q encontrarmos se der vc leva os guardanapos, please?
bj