quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Capítulo 11 - parte 2

Por intermédio divino, ou sei lá o quê, Joana, minha amiga, me chamou neste exato momento e foi um alívio gigantesco ter um motivo real para sair de perto dele.
_Com licença, Caio, preciso ir...
_Espera Clara! Não precisa sair correndo. Não vou te devorar. – ele disse se desculpando, segurando forte a minha mão. E aquela cena me lembrou nosso primeiro beijo, na festa à fantasia para arrecadar dinheiro para a formatura, mais ou menos um ano antes.
Como num filme, voltei quinze meses atrás. Nós dois estávamos conversando, só os dois, num canto da boate, falando um tanto sobre diversos assuntos comuns à vida de vestibulandos e outro tanto trocando cantadas, sorrisos e olhares também, é claro. Eu estava fantasiada de Anjo, com uma asa enorme nas costas (destas que crianças costumam usar em coroações de igreja), e ele de Zorro, com chapéu, máscara e capa. De repente, ele fala alguma coisa que eu não ouço direito devido ao som alto. Tento me aproximar dele, mas a asa enorme esbarra em tudo e todos e eu, completamente estabanada, não consigo me mover. Ele fala um pouco mais alto, algo do tipo “meu anjo da guarda”, mas eu continuo sem entender a frase toda e, num impulso forte com o corpo, para me mover com asa e tudo mais, quase caio em cima dele, toda desequilibrada. Ficamos cara a cara, quase respirando o mesmo ar. Tinha certeza de que íamos nos beijar na seqüência, embora eu não tivesse planejado nada daquilo. Mas ele, instintivamente, se esquivou. Fiquei super sem-jeito e mortalmente envergonhada e logo me recompus. Tentei encerrar o papo e sair de perto dele (na medida em que sair de perto dele , logo, com aquela asa fosse possível, é claro), mas ele, caindo na real (afinal, ele não queria mesmo me beijar?), rapidamente, me segurou forte pela mão me impedindo de deixá-lo, assim como fazia naquela hora e, me puxando para junto dele, me beijou.
_Clara! – Joana voltou a me chamar e, sem querer, me trazendo de volta à realidade.
_Joana, espera um pouco. – eu me virei e disse piscando para ela entender meu recado. E, me voltando para ele, que ainda segurava minha mão, falei de forma um pouco mais ríspida do que realmente pretendia:
_Mais alguma coisa que queira me dizer, Caio?
_Na verdade, tem sim.
_O que é? – perguntei com o coração a 300 Km/hora e as mãos molhando sem saber o que esperar.
_Eu ainda continuo esperando por você no final de cada plantão de história.
Meus olhos se congelaram quando ouvi esta frase e, posso garantir, por mais que eu soubesse que Caio ainda sentia alguma coisa por mim, não imaginava que fosse algo assim tão forte, tão profundo. Vou ter que explicar por quê.
Essa brincadeira do “plantão de história” surgiu logo depois dessa festa à fantasia, na época em que ficávamos juntos no colégio e eu ainda namorava o Lucas. Toda tarde, depois das aulas, tinha os plantões pré-vestibulares, aquelas aulas “tira-dúvida” para os vestibulandos. E essas aulas eram subdivididas pelas áreas dos cursos escolhidos pelos alunos: exatas, humanas, biomédicas e gerenciais. Nas tardes de quinta, havia os plantões de História e Geografia para Biomédicas, ou seja, esses eram os plantões destinados aos que iam prestar vestibular para cursos da área da saúde e biologia. Portanto, como podem imaginar, eram plantões bem pouco freqüentados, visto que esses alunos preferiam os plantões de química e biologia, suas matérias específicas. E na nossa turma, apenas eu e Caio estávamos nesse grupo (mesmo que a pulguinha da publicidade já estivesse rondando minha vida, minha escolha central era a odontologia). Era freqüente, então, nós dois combinarmos de ir ao plantão de história como desculpa para ficarmos juntos, no fundo da sala, e trocarmos uns beijinhos ao final desta aula, quando a sala ficava vazia e não havia testemunhas. Era o nosso ponto de encontro semanal. Ana sempre brincava comigo: “Vai bater ponto no plantão de história?”. Mas a moral desta “brincadeira” toda foi que, como já comentei anteriormente, naquela época, Caio havia me dado uma intimada sobre eu continuar com Lucas e eu nunca dei a ele uma resposta definitiva. Nunca fiz a minha escolha. Simplesmente fugi. Dele, dos plantões, enfim, daquilo que tínhamos juntos. Simplesmente parei de ir ao plantão de história. E ele nunca comentou nada comigo sobre isso. Até aquele dia. Imaginava que ele tivesse entendido o recado, de que eu tinha fugindo daquela história. E, de repente, mais de um ano depois disso tudo, ele reaparecia com essa frase a tiracolo.
_Como é que é? – eu quase engasguei e disse meio sem ar, sem chão e sem reação.
_Isso mesmo que você ouviu – ele continuava segurando a minha mão e agora alisava o polegar sobre o dorso, de forma carinhosa – continuo esperando você todas as tardes de quinta-feira. Você sumiu e nunca mais apareceu, não me avisou que tinha perdido o interesse – ele me olhava no fundo dos olhos.
_Caio... eu, é...– eu nem sabia o que dizer a ele.
_Pensei em te dizer que eu continuo interessado nos plantões, ou melhor, no que rolava nos plantões – ele falou sorrindo, agora de forma doce e sincera, como era a minha melhor lembrança dele.
_Mesmo? – eu também sorri, mole como uma gelatina.
_Mesmo. E espero que a odontologia e essa nova vida não tenha feito você perder o interesse pela história, pelo plantão, pela minha companhia.
_Na verdade – disse com o peito explodindo – eu senti muita falta desses plantões desde que parei de freqüentá-los. Falta história na minha vida, sabia?
Então ele se levantou, me puxou de encontro ao seu corpo, passou a mão por debaixo dos meus cabelos e, segurando minha nuca, me beijou. Calmamente, de forma tímida, suave e deliciosa. Esse era o Caio. O meu Caio. Sem máscaras, sem subterfúgios, sem amarras, de volta para mim. Só para mim.

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