Eu e Caio vivemos uma relação tumultuada durante muito tempo, hoje ela é apenas dolorosa. Tudo começou, como disse anteriormente, no último ano do colégio. Mas foi só no fim do primeiro ano da faculdade, quando Lucas e eu estávamos definitivamente separados, que Caio reapareceu.
Era final de novembro, meu aniversário de 19 anos. Eu tinha acabado de tirar carteira de motorista e ganhar um carro dos meus pais. Estava eufórica. Fazia oito meses que eu não ouvia a voz de Caio, desde aquele conversa estranha pelo telefone, durante a qual ele quis mostrar, mais do que nunca, que estar longe de mim era a melhor opção para sua vida. Eu tinha decidido comemorar meu aniversário com um churrascão em casa, reunindo os velhos amigos do colégio e os novos amigos da faculdade.
Durante o último ano do colégio, eu, Luiza e Ana estreitamos relações com um grupo de amigos novos, Ricardo, Luiz, Eduardo, Renata e Caio, que estavam vindo de outra escola, diferente de mim e Ana que havíamos estudado lá a vida inteira (Lu havia entrado só no 2o grau) e tínhamos uma boa turma de amigos veteranos. Mas o último ano é sempre o último ano, é o mais especial, e, portanto, aquele novo grupo se tornou muito querido para nós três. E com o passar do tempo nos tornamos muito unidos, e o somos até hoje, dez anos depois, exceto pelo casal “trincado” que existe neste grupo, eu e Caio.
Estar com esta turma é o mesmo que estar com Caio e essa sempre foi a parte mais árdua porque é impossível, para mim, separar a amizade do amor. Neste dia, por exemplo, quando enviei um email convidando toda a turma para este churrasco de aniversário, enviei também ao Caio, mas nunca imaginei que ele pudesse aparecer, ainda mais por estar morando em outra cidade.
De toda essa turma, Luiz e Dudu sempre foram os mais presentes em minha vida, os mais íntimos. Luiz, por incrível que pareça, é o melhor amigo de Caio. Confesso que nunca entendi como ele consegue manter este nível de intimidade comigo sendo tão conhecedor da vida de Caio. Mas, enfim, ele acabou se dando muito bem neste papel (amigo dos dois) nestes anos todos e, hoje, afirmo com sabedoria que Luiz é peça fundamental no quebra-cabeça da minha vida e um amigo muito especial.
Já Dudu é do meu time mesmo, ele sempre foi o meu confidente mais fiel. Ele sempre se colocou mais ao meu lado do que ao lado de Caio, efetivamente, e me entendeu quando eu simplesmente não quis escolher ninguém. E também me entendeu em cada recaída que tive com Caio. E eu, sempre soube ler em seus olhos o que ele queria me dizer.
Quando Dudu apareceu no churrasco naquele dia quente e chuvoso de novembro, trazia um sorriso um tanto quanto irônico no rosto e aquilo já me fez sentir estranha.
_Parabéns minha dentista preferida! – ele disse enquanto me abraçava.
_Obrigada, Dudu! Que bom você estar aqui! – agradeci.
_Jamais perderia este dia, em especial com o presente que Luiz está trazendo para você! – ele respondeu piscando e completou por entre os dentes – se prepara!
Quando ele acabou de me dizer isso, meu coração disparou ao avistar a figura de Caio entrando pelo portão da minha casa, logo atrás de Luiz. Laura, minha irmã, segurando uma cerveja, sussurrou me entregando a garrafa:
_Vira tudo e disfarça a cara de idiota, por favor.
Antes que eu pudesse pensar, fiz o que ela mandou enquanto aguardava ele e Luiz chegarem ao meu encontro.
_Clarinha, minha amiga-amada-amante-gata-garota, feliz aniversário! Pelo visto, os Froes nunca deixam a desejar, vejam só que superprodução este evento! – Luiz, bem em seu estilo engraçadinho, soltou essa para dissipar a tensão que já havia entre mim e Caio.
_Ei Luiz! Obrigada! Vai entrando e se arrumando, hein? Já conhece a casa, as pessoas e tudo mais.
Caio, com uma cara tímida, e linda, sorria sem graça do estilo de chegada “abre-alas” do amigo.
_Parabéns Clara! Te desejo tudo de bom, que você seja feliz sempre! – ele me abraçou forte e saudosamente para que eu pudesse flutuar novamente em seu perfume.
_Obrigada Caio, senti saudades – eu não me segurei – que bom ver você aqui, confesso que não esperava.
_Também senti saudades. – ele disse enquanto nos olhávamos como se estivéssemos nos vendo pela primeira vez na vida, nos reconhecendo.
E ficamos assim, por um tempo que nem sei precisar exatamente, mais ou menos até o momento em que as necessidades de anfitriã me chamaram de volta à realidade. Mas logo entendi que Caio tinha resolvido, sem mais nem menos, reaparecer na minha vida e assumir um posto definitivo no meu coração, que silenciosamente, alimentava essa esperança já há algum tempo.
A festa foi rolando com meu coração aos pulos, sem conseguir dar atenção a ninguém, apenas vigiando os passos e olhares de Caio. Rafaela comentou que eu estava muito adolescente eufórica. Ana, mais rasgada, soltou: “você está exalando atração pelo Caio. Até o Rei da Espanha pode sentir seus hormônios. Não dá para se controlar um pouco?” Não, Ana, não dá. Não consigo. Nunca consegui. Eu sou assim, transparente como cristal.
_Ana, entenda, Clara é muito clara. O trocadilho com o nome não é mera coincidência! – disse João, que estava começando a namorar Ana naquela época e já era um querido para mim.
Na hora do “Parabéns a você”, minha parte preferida de qualquer festa de aniversário (confesso, sempre fui uma criança em aniversários!), Luiz, cheio de graça, decidiu perguntar na frente de todo mundo ao redor da mesa do bolo:
_Para quem vamos cantar o “com quem será”, Clara?
_Palhaço... – eu respondi ríspida, vermelha como um pimentão, toda embaraçada.
_Ah não! Clara já é bastante infantil com esta baboseira de bolo, vela e parabéns! Tenha dó, sem “com quem será”, Luiz! Me poupe! – Laura respondeu para me salvar, mas também para me ironizar, afinal ela não perderia essa chance.
_Desculpa amiga, achei que seria uma “deixa” para vocês se darem uma chance – ele cochichou em meu ouvido, disfarçadamente.
_Ou piorar tudo, não é Luiz? – falei brava.
_Clarinha, hoje é o seu dia, sua festa, relaxa. E ele veio até aqui pra te ver! – Dudu também resolveu entrar na discussão e palpitar.
_Entendi, Du. Tudo bem. Mas deixa a coisa rolar, sem forçar nada.
_Sem forçar nada, Luiz! – Dudu brincou com ele, como se desse uma ordem, imitando minha voz.
_Tá bom, eu sei. – Luiz respondeu a Dudu, mas se virando para mim, completou – mas vá lá falar com ele depois. Acho que você deve isso a ele, né?
_Isso. Você também, Clara, vê se ajuda o coitado do cupido! – Dudu completou.
Depois do parabéns, com direito a muitas fotos e vária velas, resolvi seguir os conselhos de Luiz e Dudu e fui até onde Caio estava, pra falar com ele. Sentei-me ao seu lado e usando do meu sorriso mais atraente, disse:
_Quanto tempo, hein Dr. Caio?
_Bastante tempo mesmo. Como você está? – ele me perguntou com um sorriso enigmático
_Muito bem, e você? Amando a medicina ainda mais?
_Cada dia mais. Ela me consome, sabe? – ele foi enfático e eu já começava a sentir um cheirinho de ironia a seguir.
_Então é uma grande honra ter você aqui hoje, não é mesmo? – respondi no mesmo tom, mas com medo de onde isso poderia chegar.
_A grande honra mesmo é ser convidado a fazer parte da sua vida. – ele falou quase vomitando as palavras, bastante dúbio, como gostava de ser.
_Você faz parte da minha vida desde que nos conhecemos, apesar de estarmos há muito tempo sem nos ver. – eu quis dar a minha versão da história.
_Será?
_Claro que sim. Não entendo a dúvida.
_Ora, eu nem mesmo sabia que você e Lucas não são mais um casal.
_Ah... isso. – eu entendi onde ele podia ir com aquela conversa.
_Terminaram mesmo? – ele continuou incisivo no papo.
_Terminamos sim, Caio, sem dúvida. – eu confirmei com firmeza na voz e ele deu a facada mortal:
_Posso saber porque, então, durante esse tempo todo, você não me ligou? – o tom de cobrança era nítido na sua voz, mas eu preferia isso a ele ignorar este fato.
_Eu até tentei, mas você não quis muito me dar espaço, lembra? – eu disse me lembrando da ligação, mas meio sem convicção do que estava tentando fazer.
_Tentou? Não me lembro disso. Lembro apenas que, da última vez que nos vimos, no baile de formatura, vocês dois pareciam bem felizes.
_Parecíamos. Mas não éramos. Por isso acabou. – eu disse rapidamente.
_Será mesmo? Se vocês não eram felizes, porque você não quis tentar ser feliz de outra forma? Porque a gente não conversou sobre isso, porque você não se deu uma chance de fazer diferente? – ele foi soltando tudo, como se estivesse ensaiado esse discurso há meses.
_Caio... er... eu não quero discutir isso agora. Você veio aqui, na minha festa, isso me deixou muito feliz e quero que tudo fique bem. – eu tentei fugir, da melhor forma que pude, tamanho o meu susto com o discurso dele.
_Nossa, desculpa... acho que eu me exaltei – ele pareceu se acalmar e tomou um longo gole de cerveja – não é hora nem lugar para conversar sobre isso, né?
_É, acho que não. – eu disse olhando pro chão.
_E também não é muito normal discutir uma falta de relação, né? – ele disse rindo e cheio de ironia.
_Isso, aproveite então o resto da festa. Fique à vontade. Vou mandar servirem mais cerveja para você – disse enquanto já me levantava. Eu quis sair correndo, pois nem nos meus piores sonhos, imaginei aquele diálogo com Caio quando fui me sentar ao lado dele. Não pensei que ele fosse me metralhar assim.
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