E o dia foi passando assim, naquele climinha intimista, churrascando, piscinando, bebendo e paquerando muito. Foi um dia bem mais calmo e mais leve que o anterior. Mas só o dia, porque eu mal podia esperar pela noite daquele domingo. E apesar de ter me sentido muito bem na maior parte do tempo, não deixei de me lembrar sobre a tal loira de David que deixou um provável arquiteto simpático meio estranho na véspera.
Pedro, de tempos em tempos, me dava uma “assistência” e eu me sentia empolgada, mas, ao mesmo tempo, ligeiramente constrangida com esta situação. Não sei bem o porquê, mas de repente teria sido melhor que apenas a noite fosse nosso cenário. Tá bom, não vou negar que ele querer estar comigo durante todo o dia me massageou o ego. Era Carnaval, ora bolas, ele poderia estar pegando quem e quantas quisesse num balneário como Condados, mas quis estar só comigo.
No início da noite, todas as mulheres se reuniram na hidro da piscina e estávamos num animado papo sobre diversas futilidades femininas, quando Silvia, que tinha trocado várias idéias comigo ao longo desses dois dias, me chamou num canto e me disse, assim do nada, sem quê nem pra quê.
_Clara, posso te fazer uma pergunta meio pessoal?
_Pode sim, Silvia, pergunte o que quiser. Apenas não garanto que vou responder. – eu disse rindo e meio com medo da pergunta.
_Você e o Caio Antunes tiveram um caso, não foi?
_Eu e Caio?! – respondi assustada – Somos amigos... er, na verdade fomos colegas de classe, só isso. Temos amigos em comum. Mas porque você está perguntando isso? – fui falando quase tropeçando nas palavras.
_Ah, é que senti um clima, na sexta feira, quando você e Ana perguntaram à Tati sobre ele. E percebi que você mudou de cor quando ela falou da Roberta.
_Não, deve ter sido impressão sua. – tentei disfarçar sem nenhum sucesso.
_Desculpa me intrometer, mas é que achei você uma garota tão bacana, fui com sua cara, sabe? E julguei que poderia comentar alguma coisa sobre isso.
_O que exatamente você quer comentar? – eu já estava ficando azul e sem voz.
_Caio foi meu calouro na residência de Anestesia, no Incor, você sabia?
_Eu ouvi você comentar. – respondi com o coração aos pulos. – Você também é anestesista?
_Não, eu sou cardiologista, mas é que os anestesistas fazem uma disciplina especial lá no Incor. E aí nos conhecemos.
_Entendo. Bom, mas continue.
_Bem, eu sempre gostei muito dele, somos bons amigos e a gente trocava várias idéias, sabe? Ele chegou algumas vezes a comentar sobre uma garota comigo e...
_Provavelmente sobre esta Roberta, amiga da Tati, atual namorada dele. – eu rapidamente tentei disfarçar e meio mudar o rumo da prosa.
_Não, tenho certeza que não. Ele falava sobre uma tal Clara, amiga de escola. Estou deduzindo que essa garota era você, né?
Fiz uma cara de plástica. Aquela totalmente sem reação. Não sabia o que falar pra ela. Seria difícil entregar o jogo, mas acho que não me restava mais outras opções.
_Clara, mais uma vez, me desculpe a intromissão, não se preocupe, eu não sou amiga da Roberta e a Tati não sabe dessa história que eu sei. Apenas juntei as coisas e tirei essas conclusões. E, como a gente teve uma interação legal, eu só queria te dizer uma coisa, se você me permitir.
_O quê? – eu não confirmei nem refutei a história, mas minha cara de passada não deixaria muitas dúvidas a ela.
_Se você for mesmo essa Clara do Caio, pense bem sobre essa relação. Eu jamais vi um homem tão determinado como Caio em toda a minha vida acadêmica. Ele é considerado, no Incor, o médico mais jovem e produtivo dos últimos anos. É muito respeitado por sua seriedade e profissionalismo.
_Sei. Eu o conheço bem. A medicina é a vida dele. Mas, exatamente onde eu entro nisso?
_A única coisa que o faz desconcertar e o tira do rumo é uma paixão mal resolvida com essa garota. Ele já me confessou isso, num dia de fossa. E, acredite, para ele conseguir me dizer isso, reservado como ele é, é porque a fossa era funda. E eu entendi na hora que essa mulher conseguia mexer com a cabeça dele de uma forma assustadora. Pra mim, isto é, no mínimo, louvável.
Sem forças para continuar negando qualquer coisa, depois de ouvir essas palavras fortes, percebi que o jogo estava perdido.
_Silvia, eu sou essa Clara, sim. Eu e Caio temos uma história louca e muito, muito mal resolvida há quase uma década. A gente não se entende sabe? Não se entende, não se perdoa, não se acerta. Só se magoa. É tudo bem complicado. – disse com lágrimas começando a pinicar os olhos. Pensar e falar a respeito de Caio sempre me deixava assim.
_Imagino. – ela me disse meio sem graça.
_Confesso que nunca imaginei que ele pudesse ter chegado a falar de mim para alguém. Ainda mais para uma colega de trabalho.
_Pois é. Imagino sua surpresa. Mas não quero te deixar triste com isso, ta?
_Mas agora, acredite, estou até feliz que ele esteja bem com essa tal Roberta. Ao menos, acho que eles se entendem. Quem sabe não conseguimos todos seguir nossas vidas, né?
_Bom, não sei até que ponto ele está bem com ela. Eu conheci a Roberta através do Caio, numa festa de Natal de uns amigos em comum. Não senti uma conexão assim tão intensa entre eles. Logo depois, nos encontramos de novo por causa da Tati, que foi da sala deles. Mas eu e Caio já não trabalhávamos mais juntos há um bom tempo. Essa história de que eles se dão bem é uma visão da Tati, que é muito amiga dela. Não necessariamente é real.
_Sei...
_Bom, não quero ficar discutindo sua vida nem a dele. Vi que você se deu bem com Pedro, que é um cara fantástico, e não quero estragar seu feriado. Além disso, é Carnaval e Caio não está aqui, certo? Mas senti que precisava confirmar esta história e te dizer isso.
_Não, tudo bem. Não estragou nada, de forma alguma. E, sim, gostei de você ter me dito tudo isso, foi bem bacana da sua parte.
_Ah, que bom você pensar assim.
Já íamos dar o assunto por encerrado quando decidi fazer mais uma pergunta:
_Silvia?
_Diga.
_Você acha que a Tati percebeu que eu fiquei meio desconcertada quando ela falou da Roberta na sexta à noite?
_Acho que ela sacou uma coisa diferente, sim, não vou mentir, você deu na cara. Mas nada de muito grave, não se preocupe. Ela sequer comentou algo sobre isso comigo. – ela pareceu ser sincera.
_Ah, que bom, então.
_Clara, mas já que perguntou, você sabe que Caio é primo do Bruno?
_Anh? Caio? Primo do Bruno? – eu tampei a boca com a mão num gesto de susto – do Bruno da Larissa? Esse aqui?– estava embasbacada.
_Sim, ele mesmo. São primos. As mães são irmãs. Você não sabia mesmo? Mas tenho certeza de que você percebeu a semelhança física entre eles.
_Claro, são muito parecidos. Levei um susto quando Bruno chegou. Mas jamais poderia imaginar que fossem primos! Eu conheço pouco a família do Caio. Nós nunca namoramos, assim oficialmente, sabe? Conheço só os irmãos e os pais dele.
_São primos sim, e muito chegados inclusive.
_Jura?
_Juro. Então, como você perguntou sobre a Tati, tenho que te alertar: Bruno sabe dessa história do Caio com uma certa Clara. Ele é muito observador e vi que ele prestou atenção quando vocês perguntaram do Caio na sexta. Ele provavelmente juntou as coisas, assim como eu.
_Será?
_Pode ter certeza. Eu o conheço bem. Mas não se aflija, ta? Bruno é discretíssimo e muito reservado, assim como Caio, e jamais comentaria nada. Por isso ele nem se pronunciou quando ouviu você perguntar sobre um primo dele.
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