segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Capítulo 4

Chegamos em Condados por volta das 21:00h. Fomos as primeiras. Juro que não achei que fosse demorar tanto, mas Ana estava coberta de razão: pegamos um congestionamento monstro! E a pior parte não foi demorar quase três horas num trecho que não gasta mais do que 45 minutos num dia normal, mas agüentar Ana na minha cabeça: “Eu avisei que a gente ia se estrepar com a sua lerdeza, Clara”.
A casa estava limpa e toda arrumada para a gente. Tia Cláudia, mãe de Ana, sempre deixava tudo prontinho, ela era um anjo mesmo, até as camas e a divisão dos quartos estava pronta. Ela deixou um bilhete: “divirtam-se, mas comportem-se, ok?” – e quem ousa dizer que as mães não são todas iguais?
Colocamos todas as nossas bebidas no freezer e nos restou atacar um vinho que estava esquecido na porta da geladeira enquanto esperávamos por David e a simpatia de Larissa e seus convidados.
_Ana, me conte desse novo namorado de Larissa. Além de santo, o que ele faz da vida? – eu quis saber.
Ela vinha da cozinha com três taças e a garrafa de vinho. Eu me encarregava da saca-rolhas. Luiza, sentada numa espreguiçadeira na varanda, contemplava a bela noite de início de carnaval, acompanhando nosso papo.
_Então, meninas, ele se chama Bruno. É empresário, tem uns restaurantes e bares espalhados pela cidade, trinta e poucos anos, muito simpático e tudo mais.
_É bonito? – Luiza quis saber.
_Rico, eu diria. – sugeriu Ana.
_Então ele é um feio bem tratado, você quer dizer. – eu achei a melhor definição, enquanto enfiava a rosca da saca-rolhas no vinho.
_Exatamente Clarinha, matou a charada. Sabem, ele tem uma cara familiar.
_Familiar? Como? – Luiza quis saber.
_Ah, sei lá, não sei explicar bem agora. Mas vocês poderão tirar suas próprias conclusões amanhã, pela manhã.
_Amanhã? Por que amanhã? Eles não vão chegar hoje? – Luiza estava realmente curiosa sobre o cara.
_Meninas, as taças estão servidas, mesmo que eles cheguem em uma hora, o que será impossível, porque sabemos do engarrafamento que acabamos de enfrentar, não teremos mais condições de definir beleza de homem algum hoje. Tenho certeza, estaremos muito bêbadas.
_Quê isso, você já está prevendo que ficaremos bêbadas com esta garrafinha mixuruca de vinho aí? - eu desdenhei – Ana, eu e Luiza não somos “finas” como você, amiga! Desculpa, mas a gente bebe pra cacete!
_Então tá, vamos ver o que vocês me dizem amanhã.
Ficamos por horas ali bebericando aquela e outras tantas garrafas de vinho que fomos descobrindo na adega do pai de Ana e falando mal da vida alheia. Da vida de Larissa, para ser mais exata. Já sabíamos exatamente tudo sobre o novo namorado dela e os pontos fracos que deveríamos saber para pentelhar o feriado deles. Eu me detive, por exemplo, na família de Bruno. Encasquetei com a idéia de que deveria puxar papo com ele para poder descobrir algum parente em comum com o cara. Nesta cidade “ovo” em que moramos não seria muito difícil. Se não desse certo, no mínimo, poderia encontrar algum amigo em comum e se, por fim, não houvesse nenhum amigo, iria inventar. Imaginar não era problema para mim! As meninas acharam o máximo meu plano “inferninho”. Embora eu tivesse certeza de que Luiza seria incapaz de me ajudar em algo desse tipo porque ela é tímida e sem idéias demais para isso, com Ana já era outra história. Ela seria capaz até de descrever encontros e viagens fictícias para tornar tudo mais real. Mas, na verdade, naquela hora, eu jamais poderia prever que esse plano daria mais do que certo.
Quando chegamos no final da segunda garrafa, estávamos todas descabeladas, com a barriga doendo de tanto rir, deitadas numa espreguiçadeira da varanda. Começamos até a concordar com Ana, de que quando o tal namorado de Larissa chegasse, a gente poderia ter certeza de ele era gêmeo do Brad Pitt! Mas quem chegou primeiro foi David. Sozinho, aliás.
David é o irmão mais velho de Ana. Alto, moreno e muito bonito, ele é uma mistura de George Clooney com Marcos Pasquim, ou seja: um cafajeste completo! David tem 29 anos e nunca o vi namorar mais do que seis meses com ninguém. Ele é tão escorregadio que demos a ele o apelido de homem antiaderente. Muito inteligente, ele é engenheiro eletrônico e tem um cargo importante numa grande empresa multinacional. Ganha rios de dinheiro. Anda sempre no carro do ano, viaja freqüentemente para lugares maravilhosos, freqüenta as melhores baladas da cidade e “passa o rodo” geral. Um biscate de carteirinha. Mas eu o adoro. Muito divertido, seu humor está sempre nas alturas. Foi ele quem apresentou o “mundo da balada” a mim e Ana quando começamos a sair, na adolescência. Ele nos carregou muito para festas, bares e boates. David e eu temos uma ótima relação, somos grandes amigos, mas ele tem uma certa resistência com Luiza. Nunca entendi o por quê. Já pensei que ele tinha uma quedinha por ela, mas nunca confirmei. Ele simplesmente não fica a vontade perto dela. Logo ele, que é tão extrovertido.
Assim que botou os olhos em nós três, ele abriu os braços, num gesto tipicamente seu, e gritou em minha direção:
_Clara, meu amor, você assim deitada nessa espreguiçadeira, de pernas pro ar, com este shortinho branco e me esperando com uma taça de vinho... uau, não dá para resistir!
_David, seu bobo! Que saudade! Vem aqui me dar um beijo. – respondi animada – Pensando bem, aproveita que eu estou carente e tontinha e você tem até uma chance comigo esta noite.
_Olá Luiza, como vai? – Era nítida a diferença de tratamento entre nós duas. Ele não tinha liberdade com ela. E olha que David era tão cafajeste que tinha liberdade até com a rainha da Inglaterra.
_Tudo bem, David, e você? – mas Luiza era meio lerda para perceber isso.
Ele foi chegando cada vez mais perto de mim, arrancou a taça da mão da Ana após um singelo “oi, sister” e se despencou ao meu lado. Tomando o resto do vinho que estava na taça numa golada só, perguntou cheio de dengo, sob olhares de reprovação da irmã:
_Mas, onde está Laura? A princesinha dos Froes? – ele já tinha ficado com minha irmã várias vezes. Por sorte, ela era tão desapegada quanto ele a estes “peguetes” eventuais.
_Ih, não tenho boas notícias dela! Viajou com o namorado pra Bahia...
_E seu pai deixou? Como assim? – ele perguntou com cara de indignado.
_Ah... lá em casa está uma modernidade, David, tem que ver!
_Mas Laura, minha Laurinha linda, namorando no carnaval? Ah nem... que coisa mais pré-histórica! – ele era muito comédia mesmo – e quem é o otário?
_Bem que eu queria estar pré-histórica neste carnaval, tá? E nada de otário, o nome dele é Gustavo, e ele é realmente um fofo. Fofo demais... ah, como eu queria um fofo daqueles... – eu disse com a articulação pedindo socorro e os olhos quase fechando, o vinho mandava lembranças!
_Então este coração está vazio ainda, meu bem? O que aquele canalha do Lucas fez com você agora? Ninguém apareceu no pedaço? Nenhum médico metido a besta quis dar o ar da graça? – ele sabia tudo da minha vida.
_Vazio demais gato, ninguém tá me querendo! Tô de volta ao mercado e com preço de lançamento! – tentei fazer piada da minha situação.
_Sei... e o fantástico Doutorzinho “pára-tudo”? – David costumava se referir ao Caio com esse apelido, fazendo referência a sua especialização em anestesiologia – Tem certeza que ele está sabendo dessa solterice repentina?
_Ai David, não quero falar de Lucas, nem de Caio, nem de nenhum homem que eu conheça, ok? Quero novidades!
_Eu também! – Luiza até então calada, se manisfestou.
_Sei... caras novos! Vocês duas estão no crime, né? – ele se levantou e foi pegar outra garrafa de vinho – Soube por fontes seguras que aquele show no Rick Room ontem pegou fogo, até de manhã!
_Como você sabe que fomos até lá? – Luiza era muito lenta!
_Eu sei de tudo cara colega, de tudo... – ele respondeu cheio de charme, enquanto tirava a rolha da nova garrafa.
_Crime nada... só uma baladinha de leve. Mas vamos ao que interessa, me fala aí desses seus amigos, quem está chegando? Quando eles virão? Quem são? Eu e Luiza vamos gostar?
_Nossa, quantas perguntas! Calma! Além do mais, se vocês duas se amarrarem neles, eu fico como? Eu é que tenho preferência, ora!
_David... – gritei, sem paciência.
_Ta bom, Clara, vou contar... Acho que você vai gostar deles, são caras bacanas, divertidos e...
_Canalhas! Exatamente como você! – Ana não o deixou terminar a frase. Eu estava achando até estranho ela estar tão quieta até agora – e anda logo com essa rolha e pega outra taça para mim, já que confiscou a minha.
_Ana, eles são solteiros e descomprometidos, só isso. Você acha que uma pessoa solteira e descomprometida tem que ser santa? Tem que procurar namorada o tempo todo? Que mania esta das mulheres! – ele fazia um discurso acalorado – Nós só queremos curtir a vida, enquanto estamos solteiros, jovens e sem responsabilidades! Isso não é canalhice!
_Vocês são canalhas e ponto David! Mas não se preocupe sobre sua reputação, pois nós três te conhecemos tempo suficiente para saber quem você realmente é, tá? – Ana não deixava por menos.
Ele riu pelos cantos da boca, se fez de resignado, e enchendo a taça de Luiza, perguntou, olhando-a nos olhos:
_Luiza, o que você acha, com uma irmã dessa eu preciso de inimigos?...
Começamos a rir da situação. A cara de David, muito linda e sacana, não deixava dúvidas sobre suas intenções.
Ficamos mais um tempo naquela deliciosa varanda, de frente para a lagoa, bebericando vinho e confabulando sobre estratégias de diversão para o feriado, que incluía passeios de lancha, churrascos, festas, jogatina e muita bebedeira – David era ótimo para estas programações.
Mas como nem tudo poderia estar tão bem orquestrado, um buzinaço anunciou a chegada da “doce” Larissa.
_Clarinha, esta é a hora que entra em ação sua metade falsa, ok? Olha o sorriso! – David saiu em direção à porta, para recebê-los, morrendo de rir da cara de nojo que eu não consegui (e nem tentei) deixar de fazer.

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