domingo, 22 de agosto de 2010

Capítulo 6

Leo e Pedro chegaram eufóricos... loucos por uma festa! Dava pra ver nos olhos afoitos deles que estavam realmente no clima de carnaval! E parecia também que já tinham “entornado” algumas pelo caminho.
_Nossa, que engarrafamento é esse? Ainda bem que não perdemos a noite toda! Estava enlouquecido para fazer xixi e tomar uma gelada! Sem contar que ouvi o mesmo CD umas duzentas vezes, porque o esperto do Leo só tinha um único CD no carro! Boa noite galera! Eu sou o Pedro! – ele já chegou fazendo um estardalhaço, falando sem parar, e isso me animou.
_E eu sou Leonardo, podem me chamar de Leo! – esse com um sorrisão maravilhoso, estilo surfista do Havaí, foi logo dando beijinhos no rosto de Ana.
_Olá Pedro e Leo! Sejam bem vindos! – Ana quis deixá-los a vontade, como se eles já não estivessem. Aliás, eles davam a impressão de que estariam à vontade em qualquer lugar do planeta.
David se encarregou de apresentar todos da casa aos dois:
_Esta é Ana, minha irmã. Ali na mesa estão Larissa, minha prima, Tatiana e Silvia, amigas dela. – todos trocaram sorrisos. Larissa, na verdade, quase se desmanchou em sorrisos. Ela se insinuava tanto para os homens que dava ânsia de vômito! Ele continuou:
_Estes são Bruno, Tomás e Fábio, namorados das respectivas garotas à mesa.
_E aqui deste lado – rindo e apontando para nós duas, David soltou – as solteiras e disponíveis, Clara e Luiza, nossas amigas de infância.
_Disponíveis?! Pôxa, que apresentação, David! Olá Pedro e Leo! Eu sou a Clara! – Morrendo de vergonha, cumprimentei os rapazes. E não pude deixar de pensar: “Uau! Bela visão para uma noite de sexta!”
_Olá Clara! – eles responderam.
_Elas estavam ansiosas pela chegada de vocês! – nesta hora eu confesso que quis matar o David. Não sei o por quê (talvez, saiba), mas acabei olhando para Bruno e vi que ele fez uma cara séria.
Luiza estava como um pimentão e quase não conseguiu pronunciar um simples “olá” e percebi claramente que David adorou deixá-la sem graça.
_David, pare de bobagem e leve os rapazes ao quarto em que eles ficarão. Mostre a casa! Eles devem estar querendo ir ao banheiro, Pedro já anunciou isso! Eu vou guardando as bebidas deles na geladeira – Ana foi logo dizendo para cortar o clima.
_Calma Ana! Você sabe que não sou bom nestas coisas. Clara, mostre a casa aos garotos, você já veio aqui tantas vezes que conhece mais do que eu!
_Ah, isso é verdade! Clara se sente realmente da família, não é Clarinha? – era Larissa, começando a mostrar sua simpatia, ela não passaria em branco.
_Tudo bem, venham meninos. – eu já me virei ignorando-a. Minha necessidade de sair daquela situação incontrolável com Bruno era tão urgente que nem dei importância ao fato de que Larissa fez esse comentário de propósito, para me deixar irritada.
Levei os meninos ao andar de cima da casa e mostrei o quarto onde dormiriam. Eles se mostraram muito educados e animados.
_Clara, o David fala sempre de você! – Pedro comentou – eu era louco para te conhecer.
_Jura? O que ele fala de mim? – fiquei curiosa.
_É verdade! Ele sempre diz que você é muito divertida! – Leo confirmou.
_Que bom que ele diz isso, porque vindo do David, não dá para esperar coisa boa, né? – eu disse tentando parecer o mais natural possível – Bom, vou deixar vocês à vontade. Desçam assim que se organizarem.
Deixei-os lá e desci de volta à varanda. Eles pareciam “bons” demais para ser verdade, se é que vocês me entendem. Ana tinha razão, cafajestes, tava na cara!
Leo era lindo! Pedro era engraçado! Juntos, eles eram o sonho de consumo de qualquer mulher solteira num carnaval! Naquele momento, com várias taças de vinho na cabeça, eu só conseguia pensar que se eles não fossem gays (e não parecia nada perto disso), tudo estava perfeito!
De volta ao convívio, me sentei perto de Ana e me coloquei numa posição estratégica para olhar Bruno, meio de perfil. Ele não me via, mas eu enxergava cada linha de expressão de seu rosto. Se era paranóia minha, muito álcool no lance ou as duas coisa juntas, não sei, mas que ele parecia cada vez mais idêntico ao Caio, ah, isso parecia! E ficar olhando para ele, que agora tinha Larissa agarrada ao seu pescoço, me fez lembrar que tinha uma dúvida na minha cabeça que eu precisava descartar logo de uma vez.
Me enchendo de uma coragem sobre-humana (em especial por Larissa não estar mais por perto), afim de tomar uma decisão, algo pouco comum no meu comportamento usual, respirei fundo, me virei com o meu sorriso mais simpático para Tatiana e iniciei o assunto:
_Tati, Silvia comentou que você se formou em Ribeirão Preto. De que turma você era? – rezava em pensamento para que não fosse 2000, não podia ser 2000, não, claro que não seria 2000 e... meus pensamentos foram interrompidos.
_Entrei em 2000, Clara. Por quê? Você conhece alguém que estudou lá também?
_É, conheço, sim. – respondi quase sem ar, me questionando se deveria revelar a total verdade da história.
_Jura? Quem é? – ela, obviamente, logo quis saber.
_Ah, um amigo meu dos tempos de colégio – tentei disfarçar pensando no que deveria fazer, pensa rápido mulher! – mas estou em dúvida se ele é de 2000 ou 2001... não me lembro direito... – eu gaguejava e devia estar uma palhaça de tão vermelha.
Ana, percebendo o auge da minha aflição, resolveu cortar o mau pela raiz...
_Caio. Caio Souto Antunes. Você conhece? Acho que ele é de 2000 mesmo.
_Caio Antunes? O anestesista? Claro que sim! – ela respondeu abrindo um sorriso que quase inundou minhas expectativas – Caio é um querido. Foi da minha sala durante todo o curso. Você sabe quem é, né Silvia?
_O Caio seu amigo, da Roberta? Aquele sério e compenetrado? – perguntou Silvia, dando a entender que também o conhecia.
Pára tudo! Como assim: Caio da Roberta? Que Roberta?! Quase explodia de tanta ansiedade e raiva... acho que o álcool até evaporou do meu organismo. Luiza e Ana me olharam meio aflitas.
_Ele mesmo Silvinha... – ela confirmou.
_Claro que sei quem é! Muito bacana aquele rapaz, ele foi meu calouro na residência do Incor e trabalhamos juntos por dois anos. – disse Silvia. Cada informação, confirmando que elas conheciam Caio, e muito bem, diga-se de passagem, fazia um pedaço de mim entrar em colapso.
E eu, imóvel, sequer produzia uma palavra.
_Olha que coincidência! Caio estudou no nosso colégio. Eu, ele, Luiza e Clara fomos grandes amigos! Não é Clara? – Ana me cutucou, pra voltar a respirar.
_Fomos não, ainda somos, né Ana?! – Luiza a corrigiu pra ganhar tempo para mim, que permanecia muda.
_Somos, claro. É que estamos um pouco afastados, agora, na vida adulta. Mas acho que é normal, não é? – Ana tentava continuar o papo.
_Sim, isso acontece. Infelizmente. – Silvia concordou.
_Nossa, mas muita coincidência mesmo, vocês serem amigas dele. – respondeu Tatiana – Sabem, eu adoro o Caio, e ele namora minha amiga Roberta, também médica.
_Ah, ele está namorando esta tal médica ainda? E ela é sua amiga? – achei que estava pensando, mas quando vi, já tinha falado. E falado com uma voz brava, de quem estava magoada. Percebi que Ana e Luiza me olharam com uma cara de interrogação, do tipo: “vai entregar o jogo?”.
_Sim, você a conhece, Clara? A Beta é um amorzinho, não é? Nós moramos juntas em Ribeirão. Eles se conheceram lá, numa festa na nossa casa, acredita? Nossa, eles são um casal e tanto! – ela afirmou tão categoricamente que só consegui ser sincera:
_Não, não a conheço, eu e Caio não nos falamos há muito tempo. Mas imagino que eles devem se dar muito bem mesmo. – respondi sem conseguir disfarçar o cheirinho de desdém que vinha de dentro da minha alma.
E também não sei se consegui disfarçar o mal estar brutal que se abalou sobre mim. Fazia exatamente um ano que eu e Caio não nos encontrávamos. A última vez tinha sido na formatura do Luiz, um amigo nosso em comum. Eu sabia que ele estava namorando uma médica, por informações do próprio Luiz, mas ela não estava lá com ele. Lembro-me de saber que eles não tinham um relacionamento muito estável, e viviam brigando. Eu e Lucas também estávamos brigados nesta ocasião e fui ao evento sozinha. Quando nos vimos foi meio como acender o fósforo num monte de palha seca. Fogueira total. Faíscas saltavam aos nossos olhos. Mas como sempre, foi um momento duro e difícil para nós dois. Brigamos o tempo todo, discutimos muito, nos magoamos mais ainda e depois de várias doses de álcool na cabeça, como sempre, acabamos nos braços um do outro no motel. No dia seguinte, pra variar, a ressaca moral batia fundo e eu me odiava por ter feito aquilo, e mais ainda por saber que ele também não sentia a menor alegria por ter estado comigo.
De qualquer forma, me lembrei de dar graças a Deus por Larissa não ter presenciado aquele papo, pois ela conhecia um pouco desta história e, certamente, me entregaria para as duas novas “amigas” na primeira oportunidade.
Por sorte os meninos resolveram descer do quarto e novos ares se instalaram naquela casa. A alegria deles fez com que eu relaxasse e, de volta aos drinques, tentei esquecer que eu acabara de conhecer uma colega de Caio, cuja amiga era a garota perfeita na vida dele.
A noite se estendeu em meio a muitas piadas, brincadeiras e bebedeiras. Bruno, dono de bar, sabia fazer drinques especialíssimos e eu e Luiza nos colocamos a provar um por um, muito para desagradar Larissa e outro tanto para afogar nossas mágoas. Claro que o resultado não poderia ser diferente: fui dormir às 5h da manhã, completamente embriagada e me sentindo quase deprimida pela enxurrada de informações recebidas numa hora não muito apropriada!

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