domingo, 15 de agosto de 2010

Capítulo 3 - parte 2

Bom, acho que vou cansar de escrever como Larissa é insuportável e por quê eu e Luiza demos a ela o simpático pseudônimo de Larissa – a chata, logo após sermos apresentadas, quando tínhamos uns 12 anos. Larissa é uma prima da Ana, de São Paulo. Filha única, mimada, insuportavelmente magra, inteligente e linda. Sabe aquele tipo de mulher que arrasta quarteirão? Esta é Larissa. Claro que eu, como uma pessoa “meio termo” em demasia, iria odiá-la de cara. Eu sou normal. Larissa é over, de tão bonita. Mas ela também tem sua parcela de culpa pelo meu ódio. Ela é, de verdade e sem julgamentos pessoais, muito desagradável. Ela tem a síndrome que eu e Rafa, uma amiga dentista, inventamos na faculdade: MQSAPC – ou: mulher que se acha pra caralho. Sabe aquele tipo de gente que veio ao mundo a passeio? Pois é, Larissa é incapaz de ser gentil com qualquer pessoa, anda como se desfilasse, tem um nariz nas alturas e acha que é o centro das atenções em qualquer situação (se bem que, na maioria das vezes, ela acaba sendo). Então, desde que a conheci, quando ela veio morar em BH, nos odiamos de cara porque ela, por ser filha única, tinha Ana como uma irmã e cismou que eu roubara o seu lugar na vida de Ana. E fazia tudo pra me irritar, além de ser linda, o que por si só, já me irritava. Sem falar no sotaque, que beirava o pico da antipatia total. E eu, por minha vez, fazia tudo pra desagradá-la sempre. Usava e abusava da minha “química” com Ana para fazê-la se sentir preterida em relação a mim. Era em mim que Ana confiava. Eu era chamada para festas e viagens. Além disso, estudávamos juntas e tínhamos um universo paralelo em comum. Ana foi apaixonada por Rodrigo, um garoto da nossa escola, por décadas. Naquele namorico besta de criança, onde não havia encontros e nem concretização de nada, só restava o meu testemunho dessa relação. Só eu poderia conversar e confabular com Ana sobre Rodrigo, pois só eu o conhecia. Isso fazia com que Larissa me odiasse cada vez mais. E como eu percebia esta postura dela, alimentava ainda mais este ódio, multiplicando conversas e telefonemas sobre festas de turma, das quais Larissa não poderia participar.
Mas eu não fui tão imatura assim a vida inteira, claro que não. Acontece que eu e Ana, como já disse anteriormente, temos uma ligação muito forte, desde sempre. Nossa amizade sempre se sobressaiu. Ana nunca cogitou desenvolver com Larissa a relação que tinha comigo. Larissa era simplesmente sua prima. Parentes e ponto. Eu nunca tive ciúme dela com Ana, mas eu a detestava porque ela cismava de competir comigo e era muito mimada e mal educada. E eu odeio gente assim! Mas tentava disfarçar esse meu ódio, pra não ser intransigente e nem impor limites à minha amizade com Ana. Modéstia a parte, sempre fui muito educada e gentil com ela.
Mas a situação teve um limite na nossa festa de formatura da 8a série. Organizamos uma festinha numa boate famosa da cidade, nos sentindo “os adultos” com 15 anos. Nessa época eu era apaixonadíssima por um garoto da escola, Bernardo, que era super amigo do Rodrigo, paixonite da Ana. Ele nem imaginava meus sentimentos por ele. Mas quando o dia da festa foi se aproximando, eu comecei a dar umas dicas de que estava a fim dele. Bernardo era judeu, jogava futebol maravilhosamente bem e era muito, muito grosseirão, no sentido mais literal que possa existir, mas era lindo. Alto e forte, ele praticava lutas de defesa pessoal e se sobressaía entre os garotos da escola da mesma idade, com aquele corpo ainda em formação e penugens de barba aparecendo na cara. Seu apelido entre as meninas era Pônei, porque dava “coices” como um cavalo, mas era fofo demais.
Bom, arrumamos um jeito de chegar aos ouvidos de Rodrigo e Bernardo que eu e Ana queríamos ficar com eles na formatura. O dia chegou e, caraca, me lembro desse dia como se fosse ontem: eu chegando na festa toda arrumada, perfumada e maquiada e o Bernardo me dando aquela encarada de estremecer. Ficamos conversando por horas e ele me dando todas as dicas do mundo de que ficaríamos juntos naquela noite. Estava eufórica! Pouco tempo depois, chega a Ana, com David e a priminha idiota a tiracolo. Não acreditei quando vi aquela pessoa paralisada na minha frente. Cada aluno podia levar dois acompanhantes na festa. Eu tinha levado Laura, minha irmã e Arthur, meu primo tarado. E Ana levaria David e Henrique, seus dois irmãos. Como aquela coisa morena, linda e estonteante estava no lugar do Henrique? Não consegui me controlar e quase gritei, como se pudesse prever o que aconteceria em seguida.
_O que você está fazendo aqui, Larissa? – acreditem, eu berrava histericamente nesta hora.
_O Henrique sentiu-se mal e eu vim no lugar dele! Não está feliz em me ver, Clara? – ela adorava ser irônica e desagradável.
_Claro (que não, sua insuportável – eu pensei em responder, mas me contive), claro...
_Parabéns pela formatura e, aliás, não vai me apresentar este gato aí ao seu lado?
_Este é o meu... er... amigo, nosso amigo, né Ana? Bernardo. Bernardo, esta é a prima da Ana, Larissa.
Nesta hora eu juro que me segurei pra não olhar para a cara do Bernardo, pois tinha certeza de que ele estaria babando na figura de Larissa, que aos 15 anos, já era um escândalo. Mas como meu pescoço não obedeceu ao meu cérebro, eu, obviamente, assisti à cena mais deprimente da minha vida até aquele momento. O meu “encontro marcado” simplesmente me ignorou paralisado pela beleza daquela insuportável inimiga.
Enfim, não preciso nem descrever que eles se beijaram e se amassaram loucamente na minha festa e na minha frente. Desse dia em diante eu passei a odiar tanto a Larissa que nunca mais consegui enxergar nada de bom nas coisas que ela fazia. Nunca soube se ela sabia que Bernardo era o cara que eu queria namorar, mas desconfio que minha cara de apaixonada não deixava dúvida, e isso é suficiente para eu nunca tê-la perdoado. Não que ela alguma vez tenha cogitado a ínfima possibilidade de me pedir perdão (acho que essa palavra nem existe no vocabulário dela, pra ser sincera), mas eu não a perdoaria assim mesmo.
Ana se sentiu culpada por muito tempo, mas como eu a amava profundamente, nunca poderia culpá-la, efetivamente, pela grandíssíssima filha-da-mãe que Larissa era. E isso acabou servindo como prova inequívoca de que minhas reclamações e meu ódio pela prima dela tinham fundamento e ela nunca me cobrou nada a respeito dessa posição. Ana era realmente uma amiga ímpar.

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