Cheguei ao Carrefour cerca de uma hora depois de falar com Ana ao telefone. De longe ouvi barulhos conhecidos. Nem precisei ligar para encontrar o que, ou quem, procurava. As meninas se estapeavam no setor de bebidas decidindo sobre vodcas, cervejas e afins alcoólicos.
_Clara, que demora! – esbravejou Ana assim que me viu – o que você trouxe pro nosso arsenal?
_Olá pra você também Ana! 2 vodkas e 2 whiskys. E vocês, como estão? Precisaremos de mais coisas? Lembraram dos energéticos? Não quero dormir, ok?
_Uau, quer morrer elétrica e embriagada, amiga?
_Olá Clarilda! Que bom que mudou de idéia! Como está você? Como passou de ontem? – perguntou Luiza, com toda aquela calma e elegância que lhe é peculiar, me dando beijinhos no rosto – vamos nos cumprimentar primeiro, Ana, que estresse!
_Que cumprimentar o quê, a gente já se viu e falou mil vezes essa semana, temos é que decidir logo o que levar e pegar a estrada antes de escurecer! Hellow, meninas, hoje é sexta-feira véspera de carnaval, vocês já perceberam? O mundo inteiro está pegando estrada!
_Tudo bem Ana, mas ainda dá tempo de fazer tudo, calma! Vamos comprar umas cervejas e ... – Luiza não conseguiu completar a frase, nada de anormal.
_Comida não precisa, mamãe esteve lá esta semana e já lotou a geladeira pra gente – Ana interrompeu – além disso, também tenho 2 garrafas de vodca e Luiza trouxe mais duas de rum e três vinhos. O resto do povo também deve levar alguma coisa, eu avisei ao David.
_Então acho que temos destilados o suficiente. – decretei.
_Por falar nisso, quem mais está indo, Ana? – Luiza quis saber.
_Bem, David com dois amigos, que devem chegar amanhã cedo e... er... (senti uma enrolada no ar) dois casais amigos de Larissa, que também vai com o novo namorado...
_Ah, então teremos boas companhias!? – lancei meu olhar “desprezo acompanhado de ironia absoluta” porque Ana tocara no nome de Larissa, uma prima dela que eu não suporto muito há alguns séculos.
_Não estressa Clarinha, você é minha convidada, vamos encher a cara, tomar um super bronze, jogar muito buraco e falar muito mal dela, deixa comigo... – Ana tentou por panos quentes, passando o braço pelo meu ombro.
_Clara, não sei porque você implica tanto com a Larissa, afinal ela só é detestável uns 250 dias por ano... e vocês se odeiam só porque você é a melhor amiga que roubou a “priminha que ela mais ama no mundo inteiro” e só porque ela é linda e roubou o seu namoradinho sarado na infância... fora isso, ela é até legal no resto do tempo – apesar de ligeiramente tímida, Luiza conseguia ser super sarcástica quando queria.
_Nooooossa, jamais ouvi uma sinopse tão perfeita desse caso de amor e roubos trocados Larissa-Clara! Arrasou Lulu! – Ana, empurrando o carrinho, quase engasgou de rir das palavras venenosas de Luiza.
_Puxa, mas que simpatia a sua, obrigada pela análise “psico-dramático-idiota” de minha história, tá Dona Luiza?
_De nada, amiga!
_Meninas, isso é pura ilusão da cabeça de vocês. Eu não odeio ninguém, simplesmente ignoro a Larissa e toda sua empáfia! – e me virando para Ana, completei – E apenas não teria aceito o convite se soubesse que ela iria – o que era pura mentira, eu falei piscando para Luiza e já rindo da destilação de veneno que estava prestes a estourar.
_Nem eu! – completou Luiza piscando pra mim. – Estou com a Clara.
_Dá um tempo gente, eu simplesmente não poderia dizer a ela que a casa estava lotada. Ela me ligou pedindo pra ir pra lá no início desta semana. – tentou se explicar Ana – Além disso, sra Clara Froes, que eu me lembre bem, você aceitou meu convite há pouco menos de 2 horas! E você Luiza, está muito antipática estes dias, hein? É a saudade dos ninfetos?
_A antipatia é convivência com vocês duas, querida Ana! – Luiza respondeu enquanto analisava o rótulo de um vinho metido a besta de mais de três dígitos que eu e Ana prontamente tomamos da mão dela e devolvemos à prateleira na seqüência.
_Mas e estes amigos do David, Ana, dão pro gasto? Eu e Luiza poderemos apreciar belas paisagens, ao menos? – tentei me mostrar animada depois da bomba da notícia de dividir o carnaval com a chata da Larissa.
_Pedro e Leo? Olha, até que dão sim, viu? Eu não os conheço muito, acho que vi umas duas ou três vezes. Mas vocês sabem, David é tão canalha, mas tão canalha que só deve andar com outros canalhas. E como já sabemos amigas, canalhas são sempre LINDOS...
Depois dessa deixa da Ana, caímos na gargalhada e nos encaminhamos ao caixa, que tinha uma fila de mais ou menos 2 mil pessoas, com nosso carrinho abarrotado de cervejas, energéticos, mais vodcas, alguns queijos, pães e pastas para tira-gostos.
Duas horas depois de conseguirmos finalmente pagar as compras, já bem irritada, chegando ao estacionamento, Ana despachou Luiza para meu carro.
_Leva a Lu, Clara. Vou ligar o viva-voz pra conversar com o João no caminho. Vamos ter um sexo telefônico durante o trajeto e não quero testemunhas. – Ana era mesmo terrível!
_Jura? Vocês fazem isso, Ana? – Luiza perguntou corando o rosto – Me espera Clara, Ana é muito pervertida!
_Pervertida? Eu? Por acaso você acha que transar com o namorado em pleno carnaval é perversão? – Ana berrou ao dizer isso – To até querendo privacidade. E você, sua tarada, falsa santa, não adianta ficar vermelha porque todo mundo sabe quem é que anda pegando pirralhos de 18 anos, tá? – ela continuou falando na lata, morrendo de rir porque deixava Luiza cada vez mais constrangida.
_Meninas, tenham dó, nem eu que sou a destrambelhada da turma fico gritando essas coisas no estacionamento do supermercado. Vem Luiza, vamos confabular como acabar com o namoro da Larissa durante o feriado, esquece a Ana.
_Ah não, sem planejamentos perversos que eu não posso compartilhar. Detesto ficar fora dos assuntos e babados! – Ana pestanejou.
Entramos no carro, já frouxas de tanto rir, e seguimos rumo a Santa Fé. Assim que pegamos a estrada só pensava que estava louca para chegar lá e sentir aquele cheirinho de bagunça que a casa de Condados e a insanidade alcoólica pode nos oferecer.
Como eu disse, aquelas duas eram capazes de animar qualquer coisa na minha vida, até mesmo encontrar diversão dividindo teto com Larissa, a chata de galochas. Eu já me sentia bem melhor do que quando havia deixado o consultório no início daquela tarde.
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