Sábado de manhã. Acordei bem disposta como se não tivesse bebido uma única gota de álcool na noite anterior. Assim que abri os olhos, vi Luiza esparramada na cama ao lado, dormindo com a mesma roupa e cara de ontem. Ao me levantar para ir ao banheiro, vi que ela se remexeu e abriu os olhos:
_Amiga, ainda é sexta? Ou já é domingo? Que horas são?
_Cinco para as dez, Lu! Sábado de carnaval, a farra está só começando! Vamos, levanta logo, já estou ouvindo barulho lá em baixo, com sorte conseguimos sair de lancha antes de Larissa acordar!
_Só você mesma, Clara Froes... conseguir me fazer rir com a ressaca que se abate sobre meu pobre corpo!
Depois de tomarmos o café da manhã, colocamos nossos biquínis e saímos para um aguardado passeio de lancha, de acordo com a programação feita por David na noite anterior. Todos se animaram, inclusive Larissa, a chata, que sempre reclama de tudo. Mas tinha certeza que ela jamais perderia a chance de mostrar (e se exibir) aos seus novos amigos a lancha bacanérrima que seu querido tio mantinha em Condados.
Bruno estava basicamente muito parecido com Caio naquela manhã... e me parecia bem mais bonito do que na noite anterior, se é que vocês me entendem. Com roupa de banho, de óculos escuro estilo esportivo e munido de um sorriso tímido aterrorizante ele era a prova perfeita de que a vida não era tão má assim, afinal aquela vista logo de manhã já melhorava tudo!
Assim que subimos a bordo, os casais se acomodaram na mesa do cockpit, de frente a um mini-bar, onde Bruno logo se instalou para começar os “trabalhos alcoólicos”. Eu, Ana e Luiza deitamos na proa para tomar sol. David, Pedro e Leo comandavam o rumo do passeio, do fly-bridge. O sol estava forte e o belo arsenal de vodka que dispúnhamos prometia um bom começo de carnaval.
Deitamos numa posição estratégica, de modo que enquanto torrávamos no sol, admirávamos toda a beleza dos rapazes e deixávamos nossos ouvidos totalmente longe da voz irritante de Larissa e seus casos chatos. Só dava pra ouvir a música lounge que David havia colocado no som e o barulho da água indo de encontro à lancha.
Todos os rapazes, inclusive David, Fábio e Tomás eram muito charmosos. Corpos sarados, belos sorrisos e bons papos. Reparar em Pedro e Leo naquele momento era obrigação para mim e Luiza. E essa caiu de paixonite instantânea por Leo. Acho que isso foi intensificado por ele ter uma carinha de “menino”. Ela começou desde a noite anterior a dar o maior mole do mundo para ele. E ele, claro, correspondia fitando seus belos olhos azuis turquesa em Luiza. Ele parecia saído daquelas revistas de surf do Havaí. Cabelos cor de mel, semi-raspados, pele queimada de sol e uma barriga esculpida a mão. O sorriso, branquíssimo, era capaz de desmanchar até massa de cola e cimento. Lindo! E sedutor! Em menos de vinte minutos de prosa ele já tinha a atenção de Luiza inteira só para ele. Não sem deixar de sentir uma pontinha de insatisfação (por que não eu?), pensei que eles formavam um belo casal.
Levemente empolgada com a caipi-maracujá que Bruno e Tomás estavam preparando aos litros, assim que paramos num bar flutuante e nos juntamos todos na mesa do cockpit, não pude deixar de jogar uma idéia para Pedro.
Pedro era o típico cara “centro das atenções”. Tinha um jeitão do Lucas. Não era bonito, mas passava longe de ser feio. Moreno, alto e muito forte, seu corpo era digno de todos os meus olhares admirados. Ele falava, ria, contava casos, piadas e ouvia a todos com tamanha simpatia que era notado dali até a China. Mas ao contrário do que eu imaginava a princípio, Pedro não foi direto como Leo. Ele não me deu tanta bola. Pra ser sincera, deu menos bola do que eu imaginei. Por mais que eu tentasse ser o centro das atenções dele, ele não me dispensava nenhuma atenção especial. E depois de um tempo, aquilo me incomodou. Incomodou tanto que Ana percebeu.
_Clara, segura a onda! – ela me disse entre os dentes – você está dando na cara já. – Me senti péssima quando ouvi isso. E quando me sinto péssima com alguma coisa, acabo me isolando. Sorrateiramente, tirei meu time de campo. Sem que ninguém percebesse, com a desculpa de ir ao banheiro, fui para o fly-bridge, a parte de cima da lancha, e fiquei observando aquele mundaréu de água da represa e as outras tantas lanchas e jet skis que se aglomeravam em volta dos bares flutuantes, enquanto deixava o sol fritar minha pele. Condados ferve nos feriados. Muito som alto, sol, gente bonita e muita “pegação”. E eu estava ali sozinha, vendo tudo aquilo. E pensei que talvez essa situação fosse uma escolha.
Pensava sobre tudo. Que Pedro não tinha despertado interesse por mim, que Bruno poderia estar me achando uma tola (e por quê eu insistia em me importar com o que ele achava?) e que Tatiana com certeza tinha fisgado a isca de que eu e Caio tivemos um affair.
Fechei meus olhos por dentro dos óculos escuros e me forcei a sentir o vento batendo com força no meu rosto. E isso me fez lembrar de Lucas. Se ele estivesse comigo, nada disso estaria acontecendo. Mas ele não estava ali e nem em algum lugar ao meu alcance. Senti uma fisgada no estômago. Já tinha feito aquele passeio com ele por tantas vezes. Eu e Lucas, Ana e João. Passamos tantos bons momentos, juntos, em Condados, andando de lancha. E tantas vezes cheguei a pensar que o fato de namorar Lucas acalmava meu coração porque ele me fazia sentir que estava mais perto da “perfeição” de Ana e João. Sempre que estávamos juntos, os dois casais, sentia que éramos o quarteto perfeito! Não que João e Lucas fossem parecidos. Mas ambos são mais velhos do que nós duas, são amigos de longa data e eram namoros longos. Esse quarteto era real na minha cabeça! Mas a diferença crucial é que João sabe como amar Ana e, bem, acho que Lucas nunca soube como me amar. Ele sempre me ofereceu um amor egoísta e hoje eu sei que foi aí que a nossa “pseudo-perfeição” se perdeu. E onde Caio sempre entrava, a cada recaída.
Eu viajava tanto nessas histórias e tentativas de entendimento entre Caio e Lucas que não percebi Ana chegar.
_Aposto uma caipi novinha em folha, bem geladinha, que você está pensando em Lucas – ela disse, me despertando do devaneio, enquanto me entregava o drinque.
_Ah! Como você sabe? – respondi levantando os óculos em direção à cabeça.
_Deve ser por que te conheço bem pouco, não é amiga? Tenho certeza de que estava pensando no nosso quarteto, acertei?
_É, acertou. Mas é que já fizemos esse passeio, juntos, tantas vezes, né? É impossível não lembrar!
_Clara, me escuta. Não fica confundindo as coisas. Sem nostalgia agora, você não precisa disso! Você está fazendo uma salada de sentimentos, amiga. Está misturando lembranças do Lucas, com informações de Caio e uma nova possibilidade... Você está confundindo essa alegria toda do Pedro com o Lucas. E não é bem por aí. Desencana, amiga...
_Que história é essa de nova possibilidade? Nenhuma nova possibilidade Ana! – eu a interrompi antes que ela concluísse suas observações psicanalíticas sobre meu comportamento – Ele não se interessou por mim.
_Ele quem? Pedro?! Agora vem você com mais essa! Clara, vocês acabaram de se conhecer. Dá um tempo! Ou melhor, dê um tempo para você, para o seu coração. Só porque Leo caiu matando na Luiza não quer dizer que Pedro tenha que fazer o mesmo com você!
_E ficada de carnaval também não é possibilidade de nada, mesmo que se concretize, certo?
_Concretizar o quê, criatura? Não é esse o objetivo!
_Eu sei bem qual é o objetivo, ok?
_Mas você está com cara de quem está se sentindo rejeitada, te conheço! E não sei porquê, afinal você é uma mulher encantadora, leve, inteligente, simpática... ah, não estressa! É apenas o início do Carnaval, sossega o cupido!
_Ih Ana, é o álcool... deixa pra lá. Vamos mudar de assunto. Conte-me dos preparativos do casório! Não falamos sobre isso há tempos. – Não gosto muito de discutir com Ana. Ela é sempre boa demais com as palavras.
_Isso, vamos mudar de assunto! Você precisa me ajudar a decidir sobre umas cores que quero usar na decoração da festa e sobre umas amigas de Brasília, meio folgadas, de quem João anda falando.
_Diga-me, diga-me! – brinquei me fazendo de afoita sobre a fofoca – amigas folgadas são minha especialidade.
Emendamos um papo animado sobre os planos de João e Ana. Lá do alto observávamos Luiza e Leo conversando tão animadamente que pareciam se conhecer há séculos. Eles se tocavam periodicamente e tinham aquele riso fácil típico da paquera. Começamos a rir quando Ana questionou se o beijo iria demorar muito ou poderíamos assistir de camarote. E também não deixamos de zombar dos inúmeros olhares sonsos que Luiza dirigia a ele.
Não sei exatamente quanto tempo passamos naquele papo, mas quando menos esperava, me deparei com Pedro subindo ao fly-bridge com duas novas caipis para mim e Ana, que, aliás, estávamos com os copos secos!
_Ladies, trouxe combustível!
_Ah, quanta generosidade! – Ana mostrou-se ironicamente agradecida.
_Servindo bem para servir sempre! – ele respondeu com seu humor característico dando uma piscadela para mim. De repente senti que toda a quietude que havia baixado em mim depois do papo com Ana tinha cedido lugar a uma nova explosão de possibilidades...
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