Pra quem não queria badalação no Carnaval, eu tinha entrado numa verdadeira panela de pressão. A tal boate itinerante de Condados estava bombando mesmo!
Assim que chegamos lá, Larissa começou a reclamar. De tudo. Da quantidade de pessoas, da fila para entrar, da dificuldade para conseguir bebidas, que estava quente, que as pessoas esbarravam nela, que a música era ruim.
David nem sequer se abalava com as chateações da prima, pois já a conhecia de trás para frente. Mas Pedro e Leo fizeram uma cara estranha para tantas reclamações. Tatiana até tentou emendar um papo, para distraí-la de tanta frustração, mas só eu podia entender que essa era a forma simples e objetiva de Larissa de chamar atenção toda para si, o tempo todo.
_Lari, meu bem, hoje é sábado de carnaval, tudo está cheio, pegando fogo. É assim mesmo, clima de festa – Bruno finalmente manifestou alguma reação diante da histeria da namorada.
E eu não consegui me segurar:
_Se você quer bebidas exclusivas e tranqüilidade, pegue o carro e volte para casa e fique lá com Ana. Mas deixe Bruno aqui, porque ele não está com cara de quem quer voltar.
Todos riram e ela quis realmente me fuzilar com os olhos, principalmente quando Bruno soltou uma gargalhada e Pedro piscou para mim. Mas não ousou dizer uma única palavra.
Apesar desse chilique de Larissa, a noite ia fluindo bem animada. Várias bandas, com diferentes estilos de música, apresentavam-se uma após a outra. Os casais conseguiram uma mesa num bar que ficava numa parte menos agitada da boate. De vez em quando, Tati e Silvia se juntavam à nós para dançar e voltavam de encontro aos namorados. Larissa nunca desgrudava de Bruno. Eu e Luiza bebíamos tequila aos baldes com Pedro e Leo, mas até as 2h da manhã, só Leo tinha tomado uma iniciativa com Luiza e eles se agarravam de tempos em tempos.
David tinha sumido há horas... aliás, nem me lembro de ter o visto muito tempo depois que entramos. Ele era muito popular em Condados, principalmente com as mulheres e sabia exatamente que suas chances de se dar bem dentro do nosso grupinho eram zero.
Quando uma banda de Rock começou a se apresentar eu falei no ouvido de Pedro que iria dar uma volta, porque não curtia muito aquele som. Na verdade, queria tomar um ar porque a tequila tinha subido e muito. Eu estava muito zonza e bem perto de começar a passar mal, mas, juro, mantendo a linha totalmente.
_Quer companhia? – ele me perguntou.
_Se você não quiser curtir o show, será um prazer.
Fiz sinal para Luiza que ia dar uma volta. Ela piscou para mim e neste exato momento, a mão de Pedro segurou a minha e me puxou no meio da multidão.
Nós fomos saindo em direção a uma parte aberta do lugar e assim que a brisa leve da madrugada nos foi apresentada, senti um alívio poderoso no mal estar que começara a se instalar. Fechei os olhos e respirei fundo para sentir o vento levando tudo embora quando fui trazida à realidade com as mãos de Pedro na minha cintura. Ele me puxou pra junto do corpo dele e me beijou o canto dos lábios. Sem desgrudar os olhos de mim e sem afastar um milímetro seu rosto do meu, quando eu conseguia sentir até seu hálito de menta misturado com tequila, ele falou bem baixinho,:
_Esse é um trailer, se quiser que o filme prossiga, aperte o “play” me dando um sorriso.
Como eu nunca havia ouvido uma cantada tão baranga como aquela e, obviamente, a forma como ele a fez era pra que eu exatamente sorrisse, caí como uma patinha. Além do mais, seria impossível não gargalhar para ele naquela situação, pois estava loucamente atraída por ele.
E assim que eu apertei o tal “play” ele foi entrando para dentro da minha boca com lábios, língua, dentes e tudo mais que podia existir. Era um beijo forte, quente e cheio de desejo como só um homem gostoso como Pedro poderia me dar.
_Eu passei o dia todo pensando qual seria a melhor hora para fazer isso, mas acho que foi bom esperar até a noite, aumentou minha vontade e a sua também – ele disse no meu ouvido enquanto segurava minha nuca com uma das mãos e agarrava minha cintura com a outra.
_Ah é, e quem disse que eu estava com tanta vontade assim, Sr Irresistível? – disse me desvencilhando dele.
_Seu corpo, seus olhos e tudo mais – ele respondeu enquanto avançava de novo pra dentro da minha boca e do meu corpo. Ele me beijava com tanta intensidade que parecia que ia se fundir em mim.
E, claro, não posso negar que eu também correspondia aos beijos fortes e intensos. Pedro era realmente um homem de alto nível qualitativo, se é que me entendem. Inteligente, divertido, bom papo, sexy, com boa “pegada” (como tinha constatado a pouco) e ficar com ele naquela noite fez minha alma e meu corpo se incharem de excitação. Mesmo sabendo que, por jogar no “time” de David, eu não deveria me envolver emocionalmente com ele, me deixei levar, porque naquele momento o meu desejo carnal estava falando mais alto que o afetivo, ou melhor, estava gritando, para ser mais exata.
Um tempo depois de estarmos aos amassos na tal varanda da boate (sei lá se era uma varanda, um deck, ou o que quer que fosse), eu disse a ele que precisava ir ao banheiro (e tomar um pouco de fôlego). Ele disse que iria ao bar buscar algo com que se refrescar e me encontrava na porta do banheiro. Saímos em direções opostas e eu, meio lerda, acabei tropeçando em uma garrafa de ice que fora esquecida ao chão. Quase caí de bunda, no meio do lugar, com aquele povaréu todo me olhando. Mas foi quase, porque antes de chegar ao chão, uma mão forte me segurou pelo braço esquerdo.
_Opa! Tudo bem aí? – era Bruno. Quem, além dele, poderia ser um anjo-da-guarda ali? Me fitando com aquele olhar penetrante, exatamente como Caio fazia comigo, ele não conseguia soltar meu braço e estávamos tão perto um do outro que eu podia até respirar a semelhança dele com Caio. Aquilo me entorpeceu.
_Bruno! – gritei, meio histérica, meio assustada – Nossa, quase levo um tombaço, se não fosse você...
_Ainda bem que eu estava aqui, não é? – ele disse ainda me segurando.
_É, que bom mesmo. Obrigada por me salvar – disse me desvencilhando dele antes que aquilo se transformasse em algo mais constrangedor.
_Achei que estivesse com Pedro, Clara. – ele afirmou meio que perguntando.
Não sei exatamente o que se passava na minha cabeça, mas não sabia o que responder. Por quê ele estava sozinho ali, mantendo um clima de “affair” comigo, me perguntando de Pedro e tal? Aquilo era ilusão minha, eu estava tentando acreditar que Bruno era Caio?
_Na verdade, é... – disse bastante sem graça, gaguejando, como se quisesse ocultar que estava há poucos segundos quase transando com Pedro – estou. Ele foi ao bar, pegar mais bebida e eu estava indo ao banheiro.
_Entendi. Ah, quer dizer então que eu estou te atrapalhando com essa conversa fiada, né?
_Imagina...
_Bom só vim dizer que eu e meus amigos estamos indo embora, ta? Não achei David e os outros. Avise ao pessoal, por favor.
Nessa hora não pude deixar de dar uma cutucada no orgulho macho dele:
_Mas já? Então não estão se divertindo? Ou vai só ceder aos apelos de Larissa? – eu o provoquei da forma mais convincente que pude.
_Ah, tenho que ceder, né? Ela sempre me vence. – ele respondeu levemente, com sorriso nos lábios, ironizando. Não sei se a mim ou à ela. – Mas, de qualquer forma, estamos todos cansados, Clara. Hoje foi um dia bastante cheio.
_Tudo bem, a gente se fala amanhã. Tchau. – eu disse já me virando, querendo cortar o assunto, pois me senti meio estranha.
Mas ele me puxou novamente pelo braço e fez com que olhasse para ele.
_Ah, e que bom que a sua noite rendeu. Espero que estejam se divertindo juntos. – ele disse isso, deu as costas e foi saindo em direção ao tal bar onde estavam seus amigos.
Fiquei parada meio minuto olhando o corpo dele se perder no meio da multidão e me questionando: “estou muito bêbada ou ele se importa comigo tanto quanto eu me importo com ele?”. E pra que toda essa importância? E por que ele me olhava tanto? Por que eu me sentia tão nervosa perto dele? Por que ele estar com Larissa me irritava? Tá, admito, qualquer cara bacana que se aproxime dela me chateia, ainda mais se o dito cujo tem o focinho mais idêntico do mundo ao do homem que mexe com meu corpo e minhas idéias de forma tão avassaladora como Caio faz.
Eu não conseguiria responder a nenhuma dessas dúvidas, mesmo que estivesse sóbria. Mas que Bruno era a materialização do Caio na minha viagem de Carnaval, me fazendo lembrar de toda nossa história doída e sentimentalóide que eu gostaria tanto de esquecer, ah... disso eu tinha certeza.
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