segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Capítulo 10 - parte 1

O domingo começou com aquela ressaca básica pra todo mundo, inclusive para Ana, que pelo que soube, tomou 2 garrafas inteiras de vinho enquanto falava com João pelo skype.
Já passava de meio-dia quando abri meus olhos manchados de lápis e rímel da noite anterior. Minha cabeça martelava periodicamente e minha boca estava seca como o deserto do Saara. Pensei que precisava de uma Coca-cola com máxima urgência. Luiza já não estava mais na cama ao lado. Me levantei para ir ao banheiro e assim que vi a imagem que o espelho refletiu decidi que era melhor tomar um banho antes de aparecer para o resto das pessoas, pois minha aparência tinha o aspecto de antes de ontem.
Enquanto colocava meu biquíni e uma saída bem larguinha por cima, que pudesse me deixar o mais a vontade possível, não deixei de sentir aquele frio na barriga que qualquer mulher normal costuma sentir quando vai se encontrar cara a cara, bem no café da manhã, com o bofe em quem deu muitos amassos na noite passada. Bem, mas imaginava que Pedro era bastante descolado para isso, portanto seria menos difícil do que o costume.
Assim que coloquei os pés na sala de jantar, percebi que apenas Larissa e Bruno tomavam café. Algumas outras pessoas estavam na piscina, tomando sol, nadando e falando bastante alto. Não consegui definir exatamente quem eram. Nem mesmo se Pedro estava lá. Mas não quis ficar olhando muito.
_Bom dia flor do dia! – disse Larissa quando me viu.
_Bom dia meninos. – eu respondi tentando parecer o mais simpática possível, sem sequer dirigir o olhar a Bruno, pois pelo que me lembrava da noite anterior, nosso derradeiro encontro tinha sido meio esquisito.
_Olá Clara. Sente-se, tome café conosco. Acho que somos os últimos!
_Não, obrigada. Acho que quero só uma Coca geladinha, no máximo um suco. Meu estômago não está nada bem desde ontem e minha cabeça... sem comentários – disse deixando um sorriso entre os lábios.
_Sei como é isso – ele respondeu dando uma piscadinha.
_Ah, me conte, como foi o resto da noite? Soube que você quase levou um tombo? – nem preciso comentar que a única pessoa que me lembraria de um momento vergonhoso da minha noite bem na hora do auge da minha ressaca seria Larissa.
_Quase tombo não é tombo! – dessa vez, fui o mais grossa e antipática que deu.
Virei as costas e fui em direção à piscina pensando por quê, diabos, esse Bruno comentou com ela que eu quase levei um tombo. Mas, enfim, se a hora inevitável chegaria, decidi que era melhor encara-la logo de uma vez do que deixar Larissa me encher mais um pouco.
_Bom dia rainha da country music! – David disse quando me viu. – Finalmente acordou, Bela adormecida!
_Bom dia a todos! – respondi de forma geral, acenando e correndo os olhos por todos que estavam por ali. Fábio, Tati, Tomás e Leo na piscina. Lu, Ana e Silvia nas espreguiçadeiras e, finalmente, Pedro em alguma tarefa envolvente no freezer. Ele nem sequer se virou ao ouvir minha voz.
Senti um frio na barriga um pouco maior e fiquei me sentindo desapontada. Não esperava que ele viesse ao meu encontro com flores e um beijo cinematográfico, mas um pouquinho mais de cortesia seria interessante, né?
Fui em direção às meninas, e me despenquei na única espreguiçadeira disponível ao lado delas, mas notei que tinha uma toalha molhada sobre ela. Nem dei muita bola para este fato.
_Oi amiga! Já pensava em subir para te acordar! Mas Luiza disse que quando desceu você estava dormindo tão gostoso... aí fiquei com pena! – falou Ana.
_Obrigada por me dar essa folga, Ana... minha cabeça está um batuque só. Tomei duas neosaldinas assim que acordei! Isso que dá beber tanto.
Não vi que Pedro se aproximava enquanto tínhamos esse diálogo.
_Na verdade, lindona, isso que dá ter que beber tanto para ceder aos meus encantos. Das próximas vezes, seja mais fácil, ok? – Ele disse enquanto me lascava um beijo delicioso nos lábios e me entregava o mais esplendoroso e suculento copo de Coca-cola com montanhas de gelo que era o verdadeiro oásis para meus olhos e minha boca sedenta.
_Ah, sim, er... bom dia Pedro! – gaguejei enquanto Ana, Luiza e Silvia olhavam em minha direção, embasbacadas com a cara de pau dele – E obrigada pela Coca, eu juro que era o que eu mais queria agora.
_Bom dia Clarinha! Eu imaginei que você estivesse precisando, foi o que eu mais desejei quando acordei também, por isso preparei assim que vi você descer linda e ressaqueada.
_Nossa, mas quanta gentileza e melação logo de manhã, meu Deus! – Ana não conseguiu se segurar. – Imagino que a noite de vocês dois tenha sido ótima, então.
_Ana, ela começou bem devagar, mas depois que colocamos o vídeo num modo play mais acelerado, ficou bem melhor, sabe? – Pedro respondeu com uma cara irônica, ainda me segurando pela cintura.
_Imagino, imagino... aliás, imagino quase tudo, mas preciso de mais detalhes, se é que você me entende, sabe? – Ana disse a ele, dando uma deixa para ele me deixar respirar.
_Ana, não seja indiscreta assim. – Luiza comentou meio de lado.
Mas eu estava tão sem reação com a reação de Pedro, que só conseguia prestar atenção na coca-cola que eu quase derramei goela a baixo.
_Claríssima, agora só temos um problema...
_Qual? – eu quis saber, ainda meio sem graça.
_Eu peguei esta espreguiçadeira primeiro. Ana pode comprovar porque passamos boa parte da manhã aqui, conversando e fofocando, não foi Ana?
_Foi. Fofocamos muito sobre você! – ela confirmou e eu gelei.
_ Sei que está ressaqueada e louca para dar aquela espreguiçada, mas... – ele fez uma cara cínica.
_Ah, então essa espreguiçadeira é sua? – e eu fiz uma cara de dengo.
_Sim, é minha, olha aí, essa toalha também é minha.
_E você pretende tirá-la daqui? – Ana quis me ajudar.
_Claro que não! – ele respondeu de forma safada! E, virando-se para mim, disse – Você tem duas opções para resolvermos essa pendenga.
_Quais seriam, Pedro?
_Você pode dividi-la comigo ou me comprar esse lugar.
_Dividi-la com você não seria uma boa idéia... Sou espaçosa, calorenta e você é grandão... essa espreguiçadeira seria pequena demais pra nós dois.
_Então te resta a outra opção. – Ana acompanhava a tudo, de camarote.
_Comprar?
_Na verdade trocar seria a palavra mais certa.
_O que você quer em troca, Pedro?
_Um beijo e um mergulho na piscina, comigo, pra você melhorar essa cara de antes de ontem!
_Piscina, não... – respondi enquanto ele me pegava no colo, com tanta facilidade que me senti a garota mais magra do mundo, e Ana já tirava minha saída. E, juro, não deu nem tempo de me debater porque quando percebi já estávamos nós dois dentro d’água, espalhando respingos por toda parte.
_Pedro! – gritei.
_Pronto, agora você ficará boa em poucos minutos! Não há ressaca e desânimo que resista a um banho de piscina. – ele ria com aquele sorriso mais lindo do mundo para mim e me desarmava totalmente.
_Este é Pedro, Clara. Tenha muito prazer em conhecê-lo de verdade. – David gritou lá da churrasqueira enquanto eu me refazia daquele literal banho de água fria.
_Agora você pode voltar para a espreguiçadeira e fofocar com Ana, mas fale com carinho de mim, ta bom? Conte como nossa noite foi incrível e maravilhosa!
_Você se acha muito gostoso mesmo, né? Que presunção a sua achar que vou falar de você com Ana! – eu disse tão convicta que quase acreditei na minha própria mentira.
_Calma Claríssima, brincadeirinha... mas a parte do gostoso.é você quem está dizendo, né? – ele disse com sua melhor cara de cafajeste convicto e todos riram de nós dois.
_Sem comentários, Pedro.
Ele então me puxou para perto dele e me deu um beijinho nos lábios, suave doce e molhado.
_Vou lá ajudar David com o churrasco para alimentá-la, ta? – ele disse quando nos separamos.
Não vou mentir que essa idéia da piscina não foi de todo ruim, pois fazia um calor tremendo e a piscininha sempre ajuda mesmo a melhorar a ressaca. Mas nunca imaginava ser jogada, assim, de repente, pelo cara em quem eu tinha dado uns beijos na noite anterior e que há dez minutos atrás parecia me ignorar. Mas só parecia. Ele não só não estava me ignorando como estava prestando muita atenção em mim e falando de mim. Com minha melhor amiga, inclusive. Loucura isso.
Saí da piscina e voltei à espreguiçadeira pela qual paguei caro (não tão caro assim, admito) pensando no que David tinha acabado de falar. Eu não conhecia Pedro. Na real, não sabia nada dele. Ele falava demais, conversava com todo mundo, mas nunca falava dele. Nem a idade, o que fazia da vida, onde morava, nada. Por que eu não tinha pensado nisso? Jamais havia paquerado um cara e não perguntado nada a respeito da vida pessoal ou profissional dele. Não que para isso precise haver um pré-requisito, lógico que não, mas é que eu considerava isso um papo normal com um possível paquera.
_Arrumou um namorado fixo no Carnaval, foi Clara Froes? – Ana perguntou assim que me sentei ao lado dela com aquele sorrisinho cúmplice entre amigas.
_Amiga, me explica isso... Não estou entendendo nada! Jamais imaginei que ele fosse me tratar assim na manhã seguinte.
_Nem eu! Imaginei que você estava demorando para descer justamente por estar insegura quanto a isso.
_Pois é, estava meio com frio na barriga, sim. – disse enquanto passava protetor solar – E Lulu com Leo? Rendendo ainda?
_Ali a coisa está avançadíssima. Mas me conta da sua noite, tenho certeza que foi mais louca do que posso imaginar, pelo que já ouvi.
_Ouviu de quem? E que história é essa de que você e Pedro ficaram falando de mim?
_Clara, você sabe que eu acordo super cedo, né? Assim que levantei, fui na cozinha dar coordenadas do café e almoço para Dona Geisa (é a empregada da casa de campo de Ana) e quando saí aqui fora, Pedro já estava descendo também. Ele nos ajudou a colocar a mesa, tomamos café juntos e ficamos por aqui na piscina proseando por um longo tempo até os outros irem acordando. E ele me perguntou de você. E eu, solícita, respondi.
_Mas como perguntou de mim? Assim, na maior cara de pau, sem vergonha? O que ele falou? Quero detalhes, Ana!
_Bem, eu perguntei sobre a festa de ontem e ele começou a me contar sobre os shows, sobre vocês e disse algo do tipo: “Sua amiga Clara é divertidíssima e muito animada, além de linda, claro”.
_Ele disse isso? Jura? Que fofo!
_Disse. Aí me perguntou sobre sua vida amorosa.
_Anh? – quase engasguei
_Disse que David havia comentado com ele que você tinha acabado de terminar e ele me perguntou se você estava na fossa, essas coisas. Pelo que entendi, parece que David já tinha falado de você para ele há mais tempo, coisa assim.
_E o que você respondeu? – perguntei histérica
_Ora Clara, deixa de ser idiota, acha que eu iria falar que você vive uma louca história de indecisão chove-não-molha entre Lucas e Caio há quase uma década? Claaaaaaaaaaaaro que não!
_Ah, ainda bem. Mas o que você disse? – eu insisti.
_Que você tinha acabado de terminar, estava numa gandaia básica, essas coisas.
_Sabe o que eu estava pensando? David disse uma coisa que me chamou a atenção.
_O quê?
_Que eu não conheço o Pedro direito. Não sei nada dele. O que ele faz da vida, por exemplo? Qual a idade dele?
_Ah Clara, sei lá, porque você não perguntou? Ou melhor, por que não pergunta? Eu acho que ele é arquiteto e deve ter mais ou menos a idade de David.
Nessa hora, Luiza meio que se chegou pro nosso lado. Até então ela conversava com Silvia, que estava na espreguiçadeira ao lado dela.
_Quem tem a idade de David? – ela entrou boiando no papo.
_Pedro. Estávamos falando dele, que eu não sei muito a respeito dele. Ele não fala nada sobre si mesmo, reparou?
_Ah, normal, Clara. É a forma desses homens desapegados não deixaram margem a mulheres grudentas em potencial. Já pensou nisso?
_É uma boa teoria. – confirmou Ana – Luiza sabe o que diz, convive com homens 14 horas por dia!
_Realmente faz sentido. Um pouco. – tive que concordar.
_Mas qual o problema, Clara? O que você quer tanto saber sobre ele?
_Problema nenhum, Lulu, só queria entender porque não perguntei o que ele faz da vida, quantos anos tem, essas coisas básicas que uma pessoa normal pergunta para outra.
_Ora, porquê! Por que você se deteve somente nos beijos e na pegada! – Ana soltou, me fazendo corar.
_E que pegadas! Você não viu nada, Ana. – Luiza emendou
_Olha quem fala!
_Bom, eu conversei com Leo, ao contrário de você, então acho que posso te ajudar um pouco. Sei que ele tem 29 anos, é arquiteto e sócio do Leo. Eles tem um escritório de arquitetura com mais um cara. Os três são amigos de infância.
_Ah, não disse que achava que ele era arquiteto?! – Ana esbravejou – agora que Luiza falou, lembrei: David prestou uma consultoria de uma parada sobre aquecimento solar para um projeto deles alguns anos atrás e eles se tornaram amigos desde então. O outro sócio deles, se chama Daniel e acho que vai se casar no próximo mês, vi um convite lá em casa.
_Então vocês duas estão mais por dentro do que eu.
_Luiza beijou, mas também interrogou... Já você... – Ana me ironizou.
_Clara, mas porque você não pergunta a ele as coisas que quer saber, então!? – Luiza disse se mostrando surpresa – ele está demonstrando tanta intimidade com você!
Decidi que era isso que iria fazer, quando e se tivesse uma chance. Mas me lembrei que havia outra coisa a comentar com Ana, quando exatamente o assunto apareceu na nossa frente.
_Meninas, o que querem beber? – Bruno, de sunga cinza chumbo e barriga tanquinho, surgiu de repente.
_Er... eu não quero nada por enquanto, ainda estou me refazendo de ontem. – respondi meio sem sal, desnorteada – mas obrigada assim mesmo.
_Ah, se você for preparar um daqueles dinques maravilhosos, eu aceito o que você oferecer. – Ana respondeu entusiasmada
_Eu também! – emendou Luiza – Bruno, seus drinques e de Fábio são um verdadeiro arraso!
_Que bom que vocês estão gostando. Pensei em fazer umas caipis com um saquê que Fábio trouxe. São mais fraquinhas, pra gente controlar a onda melhor hoje, o que acham? Ontem chutamos o balde, né? Vejam como Clara está!
_Ótima idéia! – as meninas responderam.
Ele se virou e nós três nos entreolhamos embasbacadas. Que homem sedutor, educado e charmoso! E me lembrei de voltar ao meu assunto:
_Meninas, então, ontem quase levei o tombo do século na boate.
_Ah nem... sem momentos lama, amiga. – Ana riu.
_Sério, mas foi quase! Uma maldita garrafa de ice no chão, eu meio tonta, imaginem o que dá... Mas agora a parte principal: adivinhem quem me segurou bem na hora de cair de bunda no chão?
_Quem? – as duas perguntaram em uníssono.
_Bruno, o homem-drinque-barriga-sarada! – Eu as respondi e contei tudo o que tinha acontecido naquele encontro esquisito do meio da madrugada, desde a troca de ironias, olhares e sobre Pedro ter comentado que sacou esta troca de olhares entre mim e ele.
Ana disse que ainda não tinha observado que ele me olhava tanto assim, até porque Larissa não dava muito espaço para ele sequer olhar para alguém. Mas afirmou que se Pedro tinha dito isso, só podiam existir duas opções possíveis: ou era um jeito de ele jogar charme para mim, dizendo que tinha visto outro homem me olhar ou era a mais pura verdade, tão verdade a ponto de ele ter percebido.
E ficamos nessa e em outras prosas por um longo tempo, com Luiza contando detalhes sórdidos da sua noite com Leo, que rendeu até bem depois que chegamos em casa na madrugada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário