domingo, 15 de agosto de 2010

Capítulo 2

Cheguei em casa e não tinha mais ninguém. Andei tanto que já passavam das 16:00h. Meus pais já tinham ido para a fazenda com meus avós paternos e minha irmã mais nova, Laura, estava na praia com o novo namorado desde a quarta feira. Eu, bem, pra variar, não sabia o que fazer!
Na geladeira havia um bilhete, pregado com um ímã de propaganda de pizza, com letra da mamãe: “Assim que resolver sua vida, ligue pra gente”. Resolver minha vida, poxa, essa era minha sina! Sempre tinha alguém aguardando que eu resolvesse minha vida.
Um carnaval à vista para quem está solteira aos 26 anos deveria ser, no mínimo, um convite à gandaia, certo? Mas este não era meu clima... Queria apenas tomar um solzinho, beber umas e outras e, quem sabe, beijar na boca de um completo desconhecido, para não me lembrar de Lucas. Tá, tudo bem, isso também pode ser considerado um tipo de gandaia, mas é bem mais light, nada perto do que minhas amigas solteiras e guerreiras planejavam há meses: Salvador, o melhor carnaval do Brasil. Joana e Rafaela, minhas grandes amigas da faculdade, pertencem a este time. Solteiras convictas, gandaieiras de segunda a domingo, e muito, muito animadas. Estavam de malas, fígado e língua prontos desde a semana anterior! Não dava para acompanha-las, definitivamente.
Ana e Luiza, que são minhas amigas de infância, já são mais sossegadas e iam para a casa de campo da Ana num balneário perto daqui. Um programa que tinha mais a minha cara e o meu momento... Até porque a outra opção seria aturar mamãe e papai na fazenda, fazendo regime de engorda (nunca vi um lugar onde se come tanto!) e curtindo desfile na tv, e isso era demais pra mim. Mas eu não tinha dado nenhuma resposta para Ana quando ela havia me feito o convite há semanas atrás (meio que esperando alguma reviravolta repentina na minha vida amorosa até os 45 do segundo tempo, sei lá...) e agora não sabia se ainda estava de pé. Poderia haver lotação da casa.
Peguei o telefone e liguei para Ana, tentando conseguir uma vaga de última hora no quarto dos retardatários: “Amiga, ainda tem um lugar pra mim? Que horas vocês vão?” – perguntei com aquela voz de desconsolo e preguiça. “Claro né sua jacu, já sabia que você viria... você é a única pessoa no mundo todo que não consegue decidir nada com antecedência. Mas anda logo, já estou indo pegar a Luiza, encontra a gente no Carrefour da saída da cidade em 1 hora! E leva bebida!” – ela foi categórica, como sempre!
Fui arrumando minha mala, bem devagar, tamanho era o meu desânimo. Coloquei montes de biquínis e saídas de praia, meia dúzia de calcinhas, dois ou três shorts e umas três ou quatro blusinhas básicas e chinelos, claro! No banheiro, apanhei a nécessaire e fui despejando dentro dela, de qualquer jeito, frascos de shampoo, condicionador, perfume, protetor solar e o que mais ia vendo pela frente. Mas, também, não era necessário nada de especial nesta mala, afinal havaianas e biquínis eram nossos uniformes oficiais na casa da Ana. Nada de muitos saltos, roupas chiques ou maquiagem, lá o clima era meio praiano mesmo. Liguei para mamãe para avisar da minha decisão. Ela nem me deu muita atenção porque estava louca, controlando o papai, que já tinha entornado todas e estava teimando em comprar uma fazenda para ele, ao lado da do vovô.
_Já viu como seu pai fica rico quando bebe? – ela falou meio histérica e eu pensei que ele era uma piada mesmo.
_Sei sim, mãe. Mas segura a onda dele. Aposto que está no velho bordão: “Será um investimento e tanto para as meninas” – eu disse imitando a voz embriagada dele.
_Exatamente. Ah, meu Deus, como eu agüento esse homem há mais de trinta anos?
_É o amor, mãe. Bom, já vou indo. A gente se vê na quarta de cinzas.
_Vai com Deus, juízo, cuidado na estrada. Vê se não bebe muito e não liga pro Lucas, hein Clara? – discurso básico de mãe.
_Ta bom mãe! Não vou ligar. Quero conhecer alguém novo.
_Isso, dá uma virada nessa vida, filha. – ela disse tentando ser minha amiga – E dirige devagar. – mas o lado mãe falava mais alto, sempre.
Ainda bem que eu não ia pra lá, porque seriam mais cinco dias neste clima de mamãe tentando ser conselheira da minha vida amorosa e papai na crise de acordar pobre e ir dormir milionário! E, por falar em dinheiro, passei a mão na carteira e dei uma conferida. O último paciente do dia havia acertado a consulta em cash e achei que aquela quantia seria suficiente para os gastos modestos do programa que me sobrou. Conforme Ana me exigiu, assaltei o bar do papai e lancei mão de 2 garrafas de whisky e 2 de vodca que ele tinha comprado no free-shop na última viagem. Depois eu ia ouvir um sermãozinho básico, claro, mas enfim... depois era depois! Coloquei tudo no carro e saí não muito empolgada para o Carrefour a fim de encontrar minhas amigas companheiras de sol e golo do carnaval. Mas sabia que esse desânimo seria por pouco tempo, porque elas são realmente as melhores amigas do mundo e quando a gente se encontra tudo fica muito melhor!
Ana era minha amiga de tenra infância mesmo! Loira, alta, linda e falante como eu. Somos amigas de alma, como costumamos brincar. Estudamos juntas desde o pré-primário. Os pais dela têm essa casa, linda, em Condados, um luxuoso condomínio fechado, numa cidadezinha balneária chamada Santa Fé. Freqüentei esta casa da Ana durante todos os fins de semana da nossa adolescência. Foi lá que armamos nossas maiores festas, bagunças e nossos primeiros romances, claro! Também não faltaram bebedeiras homéricas e muitos momentos “lamas”. Puxa, várias lembranças maravilhosas... Sempre que vamos pra lá é inevitável relembrar estes dias deliciosos do nosso passado e sempre nos acabamos de rir de todos eles.
Atualmente Ana namora o João Luiz. Quer dizer, atualmente não, desde sempre. Eles são o meu casal preferido no mundo todo! João trata Ana como uma princesa e eu o amo por isso, pois é assim que acredito que ela deve ser tratada. Mas, há uns seis meses, João passou num concurso da Polícia Federal em Brasília, e teve que se mudar para lá. Como ele pediu folga para vir no Natal e Reveillon, teve que ficar de plantão no Carnaval. Eles até combinaram de Ana ir pra lá ficar com ele, mas acabaram desistindo porque ele teria que trabalhar quase o dia todo e seria tedioso pra ela ficar lá plantada em casa e sozinha.
Ana e João têm uma química incrível, parecem feitos um para o outro. Eles são leves, engraçados, ácidos na medida certa, irônicos e muito, muito inteligentes. E isso sempre foi uma coisa difícil para minha vida porque sempre comparei meus relacionamentos com o deles, como se procurasse a perfeição que eu acredito que eles têm.
_Mas você apenas acha que somos perfeitos né, Clarinha?– ela sempre me diz.
_Claro que são perfeitos, vocês são iguais e diferentes ao mesmo tempo e na medida certa, tem perfeição maior que esta? – eu respondo categórica.
Ambos são advogados e planejam se casar no próximo ano. E Ana, obviamente, vai se mudar para Brasília e me deixar aqui sem ela. Morro de medo desse dia que se aproxima cada vez mais rápido. Bem, mas não queria pensar nisso agora porque neste carnaval ela estava “solteira” como eu e Luiza.
Luiza é nossa outra amiga. Entrou na nossa vida bem mais tarde, na adolescência. Bem magrinha e baixinha, Luiza é o oposto de nós duas. Em tudo. Morena de cabelos muito negros, séria, calada e ligeiramente tímida, menos, é claro, quando está ligeiramente embriagada (o que não raro tem acontecido nos últimos anos, como ontem, por exemplo, quando fomos a uma festa de aquecimento pré-carnaval no Rick Room e chegamos em casa às 4 da manhã). Na época do colégio, ela sempre estava a parte nas confusões e nos programas, pois enquanto eu e Ana brigávamos para ver quem falava mais, Lu era quase uma autista, vivia em seu próprio mundo. As coisas efetivamente só melhoraram quando ela foi para a faculdade de engenharia. Naquela multidão de homens, ela era a rainha. E isso acabou fazendo com que ela se soltasse mais, pois era obrigada a ter uma postura mais “centro das atenções”. E hoje ela até arrisca a aumentar o tom de voz ou a velocidade da fala para discutir algo com a gente. Mas isso não dura mais do que duas tentativas, claro. Luiza também está solteira há pouco tempo. Efetivamente está solteira há décadas, mas acabou de terminar. Deixa eu explicar: ela manteve um romance meio “sem-noção” com o orientador de sua tese de mestrado durante o último ano. Mas a coisa acabou não indo para frente porque o cara era bem mais velho e casado e, apesar de muito gostoso, tenho que admitir, ele era um grandissíssimo filho da mãe. Cansamos de avisar que ela se daria mal nesta história, mas vocês sabem como se comporta uma mulher quando cisma com um cara. Felizmente ela acabou caindo na real. Depois do Natal ela decidiu dar um basta e deu o fora nele. E fechou o coração para balanço. Foi curtir o reveillon em Angra com uns primos mais novos. Resultado: agora anda desenvolvendo uma estranha compulsão por pirralhos incrivelmente tarados e despreocupados. Imagino que eles olhem pra ela tão mingnon, tão quietinha, tão menininha e pensem que ela não tem mais que 20 aninhos.
E eu, na minha solterice recém-adquirida, resolvi embarcar com essas duas malucas do meu coração, e outros convidados da Ana, que eu nem imagino quem sejam, para o meu carnaval-fuga-de-última-hora, sem Lucas e sem Caio.

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