Apesar de ter ficado aos beijos com Pedro até bem tarde daquele domingo, não parei um só minuto de pensar em Caio e em toda aquela conversa reveladora que tivera mais cedo com Silvia. Resolvi não comentar nada daquilo com Ana ou Luiza, ao menos inicialmente, apesar de elas saberem mais sobre esta minha história com Caio do que eu mesma. Senti que eu precisava refletir, sozinha, sobre aquilo tudo.
Há pouco tempo atrás, Marina, minha terapeuta, havia me dito algo assim: “Clara, às vezes, antes de pedir opinião ou conselhos a quem quer que seja, sobre um problema ou uma dor, lembre-se de que isso é como um ingrediente indesejado no prato num jantar de gala. É necessário mastigar o ingrediente (o problema ou a dor), sentir o seu gosto verdadeiro, que pode até não ser tão ruim como se imagina, engolir devagar até chegar ao ponto de digeri-lo, com elegância, sem que ninguém perceba. Só então é válido ver o cardápio de sobremesa para tentar se livrar do gosto que deixou”.
Ao me lembrar desta conversa com Marina, percebi que aquela era uma situação perfeita para por esta idéia em prática. Pedro estava com um cardápio de sobremesas bem na minha frente, não era necessário eu discutir nada com minhas amigas para poder relaxar. Se eu fizesse isso sozinha, depois poderia tirar o gosto amargo das minhas dúvidas existenciais com ele, ou seja, seria pouco provável eu assumir a velha posição de “coitada” que costumo assumir quando estou na fossa. Eu podia ter outra visão desse jogo, ou melhor, desse jantar louco em que eu me meti neste carnaval.
Quando fui me deitar, vi que havia uma ligação perdida no meu celular que havia ficado carregando a bateria, esquecido, na pia do banheiro. Era de Rafaela. Já passava de 1h da madrugada e naquele domingo ninguém havia animado esticar a noite. Passamos o dia todo churrascando e aquilo se estendeu até o início da madrugada. Nem David, o solteiro aflito, quis sair. Mas vi que ele tinha dado uma escapulida no meio da tarde e voltado bem à noitinha. Luiza e Leo estavam dormindo na cama ao lado e, para não acordá-los, decidi que era melhor retornar a ligação no dia seguinte. Mas quando dei o END na ligação, uma imagem em forma de envelope piscou na tela e vi que uma mensagem de texto havia chegado também.
“AMIGA, PRECISAMOS FOFOCAR. VC NÃO ACREDITA QUEM ENCONTRAMOS EM SSA. LIGA PRA GENTE. BJ, JO E RAFA.”
Aí, a coisa toda mudou de figura, porque se eu tenho um defeito grave, este é curiosidade. A ligação simples poderia esperar, pois certamente seria só farra de amiga bêbada que adora ligar pros outros. Mas, aquela mensagem, despertou meu lado mais vicioso. Tive que descer e fazer a ligação.
Ao chegar na sala de TV, Ana e David, que eu havia deixado lá há 5 minutos vendo um filme, já estavam apagados. Pedro e Fabio terminavam uma prosa e uma garrafa de cerveja na mesa da varanda. Os outros todos já estavam dormindo.
_Resolveu voltar, Claríssima? Saudades ou veio ver se eu não fugi? – Pedro disse assim que colocou os olhos em mim.
_Bobo... na verdade, só vim fazer uma ligação.
_Aconteceu alguma coisa? – Fábio quis saber.
_Acho que não, foi só um recado que recebi de amigas que estão em Salvador. Elas ligaram antes, pediram pra eu retornar, mas só vi agora.
_Ah, fofocas então! – Pedro concluiu.
_Mais ou menos... – eu ri
_Não ia nem dormir se não soubesse dos babados, Pedro! Você não entende as mulheres? – Fábio brincou comigo.
_Me dêem licença, ta? – eu quis encerrar o assunto e ir matar a curiosidade.
Saí em direção à área da piscina, um pouco mais à frente de onde eles estavam. E, enquanto discava, ouvi que eles voltaram ao assunto que discutiam antes, algo sobre carros ou coisa assim.
No primeiro toque, uma voz familiar, meio ébria e muito alegre, gritou do outro lado da linha:
_Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara! Amiga, cadê você? Não pode imaginar a loucura que está isso aqui.
_Joana, sua bêbada lunática! Eu estou em Condados, na casa da Ana. Mas eu é que pergunto, qual o babado? Cadê a Rafaela? Por que está com o telefone dela?
_Ah, sumiu... deve estar beijando alguém por aí. E você? Pegou alguma coisa? Como está por aí?
_Está ótimo, depois te conto detalhes. – disse disfarçando, pois não dava pra saber se eles podiam ouvir o que eu falava.
_Entendi, não pode falar, né? Mas, então, só me responde se pegou ou não...
_Sim. – respondi rindo.
_Que bom, pois tenho uma notícia esquisita pra você.
_Esquisita? Por isso mandou a mensagem? Quem está aí?
_Você não vai acreditar!
_Fala logo! – eu insisti, detesto suspense.
_Sabe quem encontramos no camarote agora à noite durante o show da Ivete?
_Quem, Joana?! Fala, para de enrolar!
_Caio Souto Antunes. Dr Anestesiologista em carne, osso, dentes e muito álcool no lance. – ela foi categórica como Ana costuma ser.
_O quê? – dei um grito, instintivamente – Caio está em Salvador?
Quando percebi o que acabara de fazer, olhei pro lado, tremendo, rezando para que Fábio e Pedro não estivessem prestando atenção. Mas, claro, eles estavam quase com os olhos colados em mim, provavelmente devido ao meu grito histérico. Bem, pensei, mas eles nem sabem quem é Caio. Apesar de que nem seria preciso dizer nada, minha cara de choque deveria estar falando tudo o que eles queriam saber.
Abaixei meu tom de voz, fui voltando ao normal, para tentar assimilar tudo o que precisava. Também me afastei mais, em direção a sauna, para ficar o mais longe possível de olhares e ouvidos curiosos. E, como uma metralhadora, fui perguntando tudo o que era preciso para Joana, que tentava me responder, claro, no limite de seu nível alcoólico. Descobri bem pouca coisa útil. Que ele estava com a namoradinha médica idiota a tiracolo e, assim que pôde se livrar dela por alguns minutos, perguntou às meninas sobre mim e, ainda, afirmou que ficara sabendo que eu e Lucas havíamos terminando novamente. Assim que elas confirmaram, Joana disse que ele emendou ironicamente um “Vamos ver até quando ela consegue ficar sem aquele playboy”. Ah, mas que ódio dele ter dito isso! Pra quê saber de mim se estava feliz e contente com a “medicazinha perfeita” dele em Salvador? Metido e babaca, eu pensei.
Quando voltei à varanda, Pedro ainda estava lá. Mas Fábio, não mais. Estirado numa cadeira, de olhos fechados, ele parecia estar me esperando.
Fui me aproximando e ele, assim que ouviu meus passos, abriu os olhos e foi logo dizendo:
_Então, Clara, parece que as tais notícias soteropolitanas foram quentes, hein? – não consegui definir se existia uma certa ironia no tom dele.
_Foram sim, Pedro. Um pouco. – eu não ia mentir, seria estúpido demais fingir que faço aquele show todo por bobagens sem sentido.
_Caio... – ele disse sem me olhar nos olhos – então esse é o cara que faz você ficar assim tão ouriçada?
_Ouriçada? Que expressão é essa? Não estou tão ouriçada!
_Então o que foi aquele grito histérico? – o jeito que ele falou, meio irônico, meio dono da verdade, me deixou muito irritada, além do que eu já estava.
_Que grito histérico, Pedro? – respondi com desdém – Só fiquei surpresa com uma notícia, este é meu jeito. Por quê você está me intimando, todo irônico, assim? – minha voz estava um tom acima do que eu desejava.
_Epa, calma! Não estou te intimando nem nada parecido, gata. Não confunde as coisas – ele mantinha o mesmo tom, controlado, infinitamente superior ao meu, algo que os homens costumam fazer com maestria – Só fiquei curioso pra saber quem era o cara.
_Não é ninguém que mereça ser conhecido. – eu tentava parecer o mais natural possível, em vão, é claro.
_É o ex, né? – ele disse rindo, meio esquisito, dando um tapinha na minha perna.
_Não, não é. Só um paquera de adolescência, nada demais. A surpresa foi só porque eu não o vejo há tempos. Está satisfeito? – eu estava meio brava demais.
_Clara, pra que toda essa defensiva? Não tenho nada com a sua vida. – ele foi muito frio – Por mim, você pode falar e sentir o que quiser. Desculpa perguntar, fui indiscreto, né?
_Na verdade, foi sim. E agora você disse tudo, não temos nada um com a vida do outro, certo? – eu quis sair por cima.
_Nada. – ele disse virando o rosto pro outro lado, com um sorriso cínico de canto de boca.
Era a hora de encerrar o assunto, mas eu não me contive e continuei jogando lenha na fogueira já bastante inflamada do meu domingo.
_Deve ser por isso que eu não sei nada sobre você, não é Pedro?
_Como? – Ele dirigiu o olhar pra mim, com cara de interrogação.
_Eu. Não sei nada sobre você, já reparou? – disse com cara cínica – Deve ser porque não temos nada com a vida um do outro.
_Não estou entendendo, Clara...
_Pedro, qual a sua idade? Você trabalha com o que? Onde mora? Tem namorada, família?
_Ah isso... Que besteira! – ele fez uma cara como se estivesse falando com a pessoa mais idiota do mundo – Precisa saber mesmo isso tudo?
_Precisar, não precisa, mas é legal saber, só algumas coisas básicas, já que estamos trocando mais que palavras e drinques...
_Então pergunta o que você quer saber, ora. Eu não me escondo, nem para falar ao telefone. – ele quis me ironizar.
_Não quero perguntar nada, você conta se e quando quiser. Só quis te mostrar que sua vida não é um livro aberto, querido. Lembre-se disso antes de dizer que eu estou na defensiva. – meu lado atriz - advogada estava berrando.
_Ah, sem drama, Clara. Nada a ver!
_Não é drama. Só estamos conversando.
_Espera aí, é impressão minha ou você está irritada?
_É impressão sua. – mentira pura, eu estava irritadíssima.
_Bom, então, eu sou o Pedro Amarante Ferraz, arquiteto, solteiro, 29 anos. Amante de baladas e futebol, atleticano roxo, tenho um escritório de arquitetura com meu amigo Leo, que você já conhece, e adoro pizzas aos fins de semana. Está bom por hoje? – ele foi dizendo tudo como um candidato a emprego numa entrevista.
Eu nem me dei ao trabalho de responder.
_E acho que vou dormir porque a prosa não está indo pelo melhor caminho, certo? Amanhã será um novo dia.
_Será sim, Pedro, novo dia. Boa noite e durma bem. – eu tentei ser sincera.
_Mais alguma pergunta, Dra. Clara? Ou posso te dar um beijo de boa noite para você não ir dormir brava comigo e eu perder todas as chances do mundo de um dia poder fazer um projeto bem bacana para seu consultório de odontologia? – ele já estava voltando ao normal, cheio de piadinhas.
_Sabe que eu tenho sim?
_Então, faça. – ele estava solícito.
_Aquela moça loira, que o David pegou ontem, na boate. Foi impressão minha, ou vocês já se conheciam? – antes que eu terminasse a frase, a expressão dele já estava diferente.
_Posso me dar o direito de não responder?
_Pode. Mas foi você quem disse que eu podia perguntar.
_Eu sei, mas a questão é: Isso faz diferença?
_Saber quem é Caio fez pra você?
Ele apenas suspirou como resposta, sem tirar os olhos dos meus.
_Nenhuma, esquece. – eu dei um beijo no rosto dele – Não é um interrogatório. Desculpe. Boa noite.
_Boa noite, Claríssima. – ele me beijou na boca.
Fiquei me sentindo a pior das mortais. O que foi aquilo com Pedro? Uma discussão de relação? Com dois dias de pegação no Carnaval? Eu estava louca ou o quê? Que coisa patética! E mais patético ainda foi o motivo que fez tudo aquilo começar: Caio! Ah não, ele estava presente demais em Condados, que chatice.
como assim vc tem um blog??
ResponderExcluirta escrevendo um livro???
to confusa!!!
passe sempre no blog...tem coisisnhas boas por lá!
bju